Music

Johnny Hooker + Mulamba – ao vivo

Pernambucano encerra turnê em Curitiba fazendo deliciosa sessão de resistência cultural, desbunde e exorcismo de desilusões amorosas

johnnyhooker2019cwb01janaina

Johnny Hooker

Texto e fotos por Janaina Monteiro

Vingança, ódio, raiva são sentimentos comuns e completamente compreensíveis entre aqueles que já levaram o famoso pé na bunda. Afinal, quem nunca tomou um fora nessa vida? Comum também é extravasar toda essa revolta ouvindo aquela playlist “Especial Fossa” no último volume. Sair pela sala, como uma pessoa doida, berrando versos de dor de cotovelo que são campeãs do Spotify. Quem canta seus males espanta. Ou quem canta a depressão espanta.

A raiva faz parte do processo de esquecimento desses seres egoístas e covardes que vagam pelo mundo espalhando o desamor. Mas há quem sinta tanto, tanto ódio no coração partido que pensa em fazer macumba para se vingar, como Johnny Hooker. Se você já sofreu uma desilusão amorosa certamente já ouviu esse “hino do rejeitado” escrito pelo cantor pernambucano: “Eu Vou Fazer Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”. Assim mesmo, com ponto de exclamação, é a faixa que dá nome ao primeiro álbum de Hooker, o cantor da vida. O pernambucano, que já fez novelas e programas na Globo, também sofreu na pele a dor de ser abandonado subitamente. E essa foi uma das canções mais aguardadas durante o show de Hooker na Ópera de Arame, no último dia 7 de junho, para celebrar o aniversário da festa curitibana Brasilidades.

Hooker soube, como ninguém, dar uma reviravolta na situação, e lançou o segundo álbum, Coração, em 2017. O trabalho tem a faixa “Touro” que representa o fechamento do ciclo coração partido: “Viver, morrer, renascer/ Firme e forte como um touro”. Foi assim como um touro que Hooker aterrissou no palco da Ópera de Arame imponente – num figurino preto e dourado, com maquiagem impecáveis – e levando a plateia ao delírio ao tascar um beijo na boca do guitarrista de joelhos. Esse primeiro ato já foi o suficiente para o público se aquecer do frio de bater o queixo. De queixo caído fiquei eu, que até então pouco conhecia obra de Hooker, um artista híbrido, plural.

O pernambucano é um misto de Caetano Veloso, Ney Matogrosso e David Bowie. O performer-cantor-ator-compositor consegue transitar pelos mais diferentes estilos musicais sem muito esforço: axé, forró, samba, pop, rock, rumba, ska, bolero, jazz, blues, soul. E seu discurso é atual, potente, que representa as minorias. Com sua voz rasgada e debochada ao extremo, Hooker entoa hinos sobre amor marginal e a falta de amor. Assim como Liniker, como As Bahias e a Cozinha Mineira, como a banda curitibana Mulamba e como outros artistas que são resistência e contrariam o modus operandi brasileiro, Hooker é o desbunde em pessoa. Veio para escandalizar.

E bem ao estilo Bowie camaleônico de ser, o astro continuou o show de encerramento da turnê de Coração, com o público fiel e totalmente derretido pelos seus encantos. Os presentes, aliás, cantavam todas, mas TODAS as canções de cor. De coração. Algumas já foram temas de novela, como “Alma Sebosa”, incluída em Geração Brasil (na qual Johnny interpretou o músico Thales Saltado) e “Amor Marginal”, de Babilônia. O tecnobrega “Corpo Fechado” ( “Se depender do seu ódio, eu não morro mais/ Se depender da sua inveja, eu não morro mais/Se depender do seu veneno, eu não morro mais”), dobradinha com Gaby Amarantos, foi indicado na categoria de featuring do ano no MTV MIAW 2019 .

A apresentação é uma sessão de exorcismo de sensações e gestos. Todos pulam, se confraternizam, gritam contra os opressores. No set list não podem faltar homenagens aos mestres, como a deliciosa “Caetano Veloso”, que reverencia o baiano tropicalista, e “Beija Flor”, aquele axé contagiante da Timbalada (“Eu fui embora/meu amor chorou”). Antes de cantar “Poeira nas Estrelas”, Hooker explica que fez a canção para seu ídolo maior no dia em que ele morreu. Trata-se de “um réquiem sobre a morte de David Bowie e sobre a perda de uma maneira geral. É meu pedido para que aquele homem das estrelas não nos deixe aqui sozinhos sem uma luz para nos guiar”, tuitou o artista um dia sobre a obra.

A tal canção da macumba – que transforma a Ópera num terreiro – chega na metade do show. E todos na plateia se descabelam com ele, soltando o grito que estava preso na garganta. Com direito a fazer stories e mandar para ex. “Te desejo uma vida de desilusão/ Não desejo afago nem o perdão/ E que seja feliz com quem encontrar/ Mas, nunca mais volte aqui/ Profane o meu lar”. É como um Cee-Lo Green cantando “Fuck You”.

mulamba2019cwbjanaina

Mulamba

O discurso que levanta a bandeira do protesto contra a homofobia também se fez presente no show de abertura, com a banda curitibana Mulamba, formada por seis mulheres de atitude rock’n’roll numa clara homenagem a Cássia Eller. Assistir ao show das “mulambentas” dá um certo orgulho de ser curitibana (eu nasci na Bahia, mas vivo aqui há muito tempo!). A sonoridade é potente. Os vocais, vigorosos. E a mensagem, crítica, atual. Como em “P.U.T.A”, que fala sobre violência e feminicídio: “Por ser só mais uma guria/ Quando a noite virar dia/ Nem vai dar manchete/ Amanhã a covardia vai ser só mais uma que mede, mete e insulta/ Vai, filho da puta”.

O convidado principal da noite também usa o intervalo entre as canções para discursar. “Equidade de diferenças é o que importa”. “Ser artista no Brasil  é um ato de resistência”. “Podem matar uma rosa ou duas, mas não podem deter a chegada da primavera”. Foram algumas das frases proferidas pelo pernambucano. E para arrematar o show-protesto, Hooker canta “Flutua” que gravou com Liniker. Com as mãos para o alto, todos entoam o refrão: “Ninguém vai poder querer nos dizer como amar”. Assim ocorre a transformação de toda a ira, ódio, sentimento de vingança em um ato de liberdade.

Set list Johnny Hooker: “Touro”, “Alma Sebosa”, “Corpo Fechado”, “Chega de Lágrimas”, “Caetano Veloso”, “Volta”, “Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”, “Você Ainda Pensa?”, “Amor Marginal”, “Poeira de Estrelas”, “Coração de Manteiga de Garrafa”, “Boato”, “Beija-Flor”, “Escadalizar/Desbunde Geral” e “Flutua”.

Set list Mulamba: “Provável Canção de Amor Para Estimada Natália”, “Interestelar”, “Tereshkova”, “P.U.T.A”, “Mulamba” e “Espia, Escuta”.

Movies

Infiltrado na Klan

Novo longa de Spike Lee é tão atual que parece ter sido feito sob encomenda para estes tempos de retrocesso ideológico

infiltradonaklan2018

Texto por Fábio Soares

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Sabe o atirador que mira um objeto mas, sem querer, atinge o alvo com maestria mesmo com “trocentos” graus de dissonância? Pois bem: assim é Spike Lee com seu novo longa. Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, EUA, 2018 – Universal Pictures) não é um instrumento de indiretas do diretor, atualmente com 61 anos, contra Donald Trump. É um grito de revolta contrário à eleição do republicano em 2016. Em suas entrevistas, Lee refere-se ao mandatário como “agente laranja” ou, pura e simplesmente, “filho da p***”, baseado em declarações racistas, homofóbicas e misóginas proferidas pelo então candidato ao pleito de dois anos atrás, aliado à sua intransigente posição contra imigrantes.

Neste momento, seu cérebro deve estar traçando um paralelo com ao recém-eleito presidente do Brasil mas esta etapa mais uma coincidência que cai por terra pelo fato de o diretor nominalmente citar Jair Bolsonaro como personificação de uma ameaça ideológica na América Latina. “É necessário abrirmos o olho contra o retorno do fascismo. Veja o que recentemente ocorreu no Brasil e, paralelamente, na Europa com a eleição de partidos conservadores”, afirmou o cineasta, em recente entrevista no México. Spike Lee sabe o quanto é importante sua verve ativista neste momento e, sabiamente, usa de sua arte a seu favor.

Mas vamos à película. Não seria inexato afirmar que Infiltrado na Klan caminha entre a linha tênue entre a comédia e o drama. Conta a história verídica de Ron Stallworth (interpretado por John David Washington) um jovem negro, morador do Colorado no final dos anos 1970, que consegue entrar nos quadros da polícia local. Ao iniciar seus trabalhos, sente o preconceito desde o início: é escalado para trabalhar no inexpressivo arquivo de dados de infratores do estado. E Ron queria mais. Com personalidade, peita seus superiores e consegue o improvável: uma investigação para chamar de “sua”.

O que era para ser um simples monitoramento sobre a classe negra oprimida da região, transforma-se numa inimaginável imersão ao núcleo de Ku Klux Klan com um ingrediente quase inverossímil se não tivesse sido registrado na História: Ron comunicava-se com os líderes da organização através de telefonemas mas, a certa altura, a presença de sua figura era mais que necessária às reuniões da organização. Foi então que imaginou uma “sacada” improvável mas certeira. Com a ajuda de Flip Zimmermann (um colega policial branco interpretado por Adam Driver) Ron é a “voz” de um novo integrante da Klan, enquanto Flip é seu “dublê de corpo”, comparecendo pessoalmente às reuniões e encontros da seita racista. Assim, os dois “Rons” (original e “dublê”) conseguem exercer papel de liderança dentro da organização e assim, literalmente frustrar diversos ataques contra negros previamente arquitetados. Até David Duke (eterno líder da KKK, aqui vivido por Tolher Grace) é personificado e ludibriado pela dupla.

Em se tratando de Spike Lee, deve-se deixar de lado a busca pelo primor cinematográfico. O diretor aposta todas as suas fichas do ativismo na estética de seus personagens, assim como numa pesadíssima trilha sonora. Em Infiltrado na Klan ouve-se de Temptations (“Ball Of Confusion”) a James Brown (“Say It Loud, I’m Black And I’m Proud”). De Dan Whitener (com a belíssima “We Are Gonna Be Okay”) até “Lucky Man”, o clássico de Emerson, Lake & Palmer. Somado à fotografia do longa, com seus tons pastéis, isso leva o espectador à imersão do Colorado do final dos 1970.

Se os diálogos, em diversos momentos, apresentam irregularidade, Infiltrado na Klancumpre bem o papel a que se propõe: um manifesto contra o racismo e a intolerância que já deveriam estar (há muito tempo) erradicados. Um retrato do retrocesso ideológico iniciado nos EUA dois anos atrás e que, desde então, expandiu seus reflexos sobretudo na América Latina.