Movies

Brooklyn Sem Pai Nem Mãe

Trama escrita, dirigida e protagonizada por Edward Norton como um detetive cheio de tiques e TOCs rompe com a clássica estética noir

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

Brooklyn Sem Pai Nem Mãe (Motherless Brooklyn, EUA, 2019 – Warner), o novo filme de Edward Norton e segundo de sua carreira de diretor, é uma história detetivesca com enfoque em Lionel Essrog, portador de uma síndrome que provoca tiques nervosos, vocais e comportamentos obsessivo-compulsivos. Após a morte de seu chefe e mentor, Lionel desvenda uma trama política com diversos podres por baixo dos panos.

O texto, também de Norton, é adaptado de um livro homônimo de Jonathan Lethem e explora dois conflitos de Lionel: a busca pelo assassino de Minna, seu mentor interpretado por Bruce Willis, e a batalha diária contra uma doença incurável – e toda dor de cabeça que vem com isso. É justamente esse aspecto do personagem que prende o foco do filme e de seu espectador – a brilhante atuação de Norton é capaz de criar um protagonista multidimensional, capaz de comédia, mas também do drama. No entanto, Lionel é muito passivo. Isto é, os elementos da trama ocorrem a ele, não por causa dele, traço que se reflete no andamento de duas horas e meia – o que, infelizmente, é “tempo demais” para um longa-metragem hoje em dia.

Norton não é o único a realizar um ótimo trabalho em frente às câmeras. A maior companheira de tela de Lionel é Laura Rose, interpretada por Gugu Mbatha-Raw. Ela trabalha na intensidade certa, dosando bem as reações de outra personagem muito reativa. Alec Baldwin, o antagonista da trama, cria um personagem consciente de sua ameaça, sem precisar extrapolá-la para surtir efeito.

A fotografia traz à tona uma decisão estética interessantíssima de Brooklyn Sem Pai Nem Mãe, à qual até o roteiro contribui, em certa instância. Este é um longa com trama girando em torno de um detetive, nos anos de ouro dos Estados Unidos, em plena Nova York. Ainda assim, a obra rompe com diversas tradições do film noir, imortalizado como o “filme de detetive” por excelência. As cenas rodadas de dia, sem sombras duras projetadas ou até mesmo o chiaroscuro (o alto contraste entre sombras e realces), distanciam-se em muito dessa decisão estética que imperava lá pelos anos 1940 e 1950. No entanto, é possível ver as homenagens ao estilo fílmico em cenas noturnas, que são poucas, mas abusam dos conceitos do chiaroscuro para trazer dramaticidade. Ainda há de se levar em conta o esforço do desenho de produção em construir a ambientação da história, das grandes externas aos sets internos e intimistas, dentre os quais podem ser destacados  clube de jazz e o escritório de Minna. Convém, também, levar em conta o impacto que a música de Thom Yorke, tal como a versão de Wynton Marsalis, tem sobre a obra. Um dos momentos mais emocionantes, ainda no primeiro ato, é amparado inteiramente em Daily Battles, que toca até perto de seu final.

Enfim, Brooklyn Sem Pai Nem Mãe é um filme interessante, bem feito, bem atuado e bem dirigido. No entanto, ele não tem quaisquer características excepcionais: da mesma forma que é bom também mas não é memorável. Diferentemente de demais títulos esquecíveis, esse não é assim por ser mediano. Sua história é interessante, estética apurada e ótimas atuações fazem de Motherless Brooklyn um belo filme de telecine, daqueles ao qual assistimos tranquilamente no fim de semana, zapeando os canais da TV por assinatura.

Music

Brujeria

Letras altamente politizadas, humor negro e zoações com Trump: oito motivos para não perder o show da banda em Curitiba

Brujeria2019

Texto por Rodrigo Juste Duarte

Foto: Divulgação

A banda Brujeria está em turnê pelo Brasil e vai se apresentar em Curitiba nesta sexta-feira de feriado (15 de novembro) no Jokers Pub (mais informações sobre o concerto estão aqui). Conhecido até por quem não costuma apreciar música extrema, o Brujeria – que está celebrando trinta anos de existência – tornou-se uma das mais conhecidas formações do grindcore mundial.

Para quem ainda não conhece, aqui vão oito motivos para não perder uma apresentação da banda, em especial a desta noite na capital passagem, onde o Brujeria toca pela segunda vez.

Humor negro

Tudo começou como uma piada, reunindo músicos amigos de várias bandas conhecidas como Napalm Death, Faith No More e Fear Factory. A brincadeira unia vocais guturais em espanhol (por conta de Juan Brujo, um dos poucos membros que restaram da formação original), instrumental brutal e letras que faziam referência a cultura mexicana subversiva, narcotráfico e até satanismo – além do mistério em torno das identidades dos músicos, que usam pseudônimos. Imagine agora tudo isso potencializado em seu álbum de estreia Matando Gueros, de 1993, que teve capa censurada em vários países por ter uma foto tirada de um jornal sensacionalista com a imagem de uma cabeça decepada em um suposto ritual (até hoje há controvérsia sobre a tal notícia, mas a cabeça se tornou um personagem apelidado de Coco Loco, que é referenciado em várias artes da banda). A intenção era chocar e ela foi cumprida. A fama da banda ganhou o mundo.

Virada sócio-política

A partir de 1995, com o lançamento do segundo álbum Raza Odiada, a banda adquiriu um tom mais denunciativo, partindo para uma pegada sociopolítica, abordando a partir de então seguintes questões sobre preconceito sofrido pelos latinos. Nisso sobrou para políticos americanos dos mais estúpidos, que não tinham a menor vergonha de latir suas ideias retrógadas. Exemplos? Pete Wilson, ex-governador da Califórnia, e o hoje presidente estadunidense Donald Trump.

Trolando Gueros 

Quando aparece alguém fazendo ou falando baboseiras dignas de receber o selo “inimigo dos mexicanos”, pode esperar que, mais cedo ou mais tarde, o Brujeria vai compor algo a respeito para zoar o sujeito. E esta vai ser com um senso de humor negro peculiar da banda. O ex-governador da Califórnia Pete Wilson ganhou duas músicas (“Raza Odiada” e “California Uber Aztlan”). Donald Trump, ainda quando estava em campanha para eleição presidencial, foi homenageado em “Viva Presidente Trump”. Neste ano, já em campanha extraoficial para a reeleição, voltou a ser fonte de inspiração para a banda na letra e na capa do single “Amaricon Czar”. Em tempo: no último álbum, Pocho Aztlan (2016), uma das imagens presentes é do vergonhoso muro mexicano erguido na fronteira entre os Estados Unidos e México, onde está pichado o sobrenome do republicano que hoje ocupa a Casa Branca.

Set list de clássicos

O cartaz da turnê brasileira informa que o show contará com os clássicos dos quatro álbuns. Se repetirem o mesmo repertório que já tocaram nas primeiras cidades da turnê brasileira, o público será contemplado com diversas faixas dos álbuns Raza Odiada e Brujerismo (2000), somadas a algumas poucas do trabalho de estreia (“Matando Gueros” e “Desperado”) e do mais recente Pocho Aztlan (“Satongo” e “No Aceptan Immitaciones”), além de músicas de duas músicas novas (“Amaricon Czar” e “Lord Nazi Ruso”). Só é uma pena que não haja espaço para muitas do último disco, talvez por ele não ter sido muito marcante na carreira do grupo. Mas ainda assim lá estão suas pérolas. Se o público pedir a plenos pulmões, quem sabe eles não tocam o hino “Mexico Campeon” (feito para a última Copa do Mundo) ou a releitura “California Uber Aztlan”?

Juan Brujo

Todos os integrantes têm outras bandas. Menos o vocalista, que integra o Brujeria com exclusividade. Vários músicos são americanos de origem hispânica. Mas Juan Brujo é mexicano de fato. Ele sempre se apresenta com o rosto coberto por um lenço com a bandeira do México, mantendo sua identidade em sigilo por décadas. Boa parte do universo do Brujeria é escrito por Brujo nas letras da banda. É uma figura icônica.

Choke

A noite de 15 de novembro no Jokers não se resume apenas ao show do Brujeria em Curitiba. A produção caprichou na escalação de bandas de abertura, trazendo ao palco um verdadeiro trio de ferro da música extrema de Curitiba. Isso inclui o Choke, que conta com vocais e letras do também escritor e filósofo Ottavio Lourenço (se você já esteve na Biblioteca Pública do Paraná e foi atendido por um bibliotecário que vinha trabalhar todo dia com uma camiseta do Brujeria, pode ter certeza que era ele). A banda teve início em 1998 e de lá para cá já fez nada menos do que quinze turnês levando seu metal crossover para países da América do Sul. A discografia conta com seis álbuns lançados, além de um split.

Jailor

Há quem diga que esta é a reserva moral do thrash metal de Curitiba. Aliás, um thrash devastador, diga-se de passagem. Assim como o Choke, também iniciou atividades em 1998, chegando em 2005 ao primeiro álbum Evil Corrupts. Dez anos depois, o grupo lançou o segundo, intitulado Stats Of Tragedy. Ambos possuem produções dignas das bandas do primeiro escalão do gênero no Brasil, com um cuidado precioso tanto nas músicas quanto nas gravações. O Jailor já abriu shows de grandes nomes do metal mundial, como Destruction, Exciter, Exodus, além de tantas outras estrangeiras e nacionais.

Necrotério

Provavelmente o maior representante do metal extremo paranaense. Sua temática é splattergore. No ano passado completou 25 anos, acumulando no currículo três álbuns, um DVD e duas turnês europeias (tendo tocado na Alemanha, Bélgica, França, República Tcheca, Croácia, Eslovênia, Áustria, Dinamarca, Suécia, Finlândia e Itália). Ainda nos primórdios, seu nome repercutiu pelo Brasil quando o grupo gravou um videoclipe comandado pelo diretor de filmes trash Peter Baiestorf.

Music

How To Dress Well – ao vivo

Sozinho no palco, Tom Krell arrasta os espectadores do Balaclava Fest para sua dimensão íntima de abstrações e sentimentos

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Texto por Daniel González Xavier

Foto: Fabricio Vianna/Balaclava/Divulgação

O norte-americano Tom Krell, nome por trás do projeto solo How To Dress Well, iniciou sua apresentação para as poucas pessoas que acabavam de adentrar o espaço Club da Audio (SP), após o encerramento do show do Wild Nothing no Balaclava Fest do último 27 de abril. Logo de cara, estabeleceu um pacto de intimidade e cumplicidade com o público presente através de sua emocional mescla de electronica, R&B e pop experimental que irradiava, junto às cores e texturas, provenientes das projeções visuais generativas no fundo do palco.

Minutos depois o espaço estava lotado e o How To Dress Well arrastava os expectadores para sua dimensão íntima e pessoal, em um difícil equilíbrio entre sutileza e força através da combinação de cálidas harmonias, vozes em falsete e beats evocados por sintetizadores e sequenciadores de ritmo. O músico se alternava entre dois microfones carregados de efeitos para sobrepor e acoplar a própria voz, que se materializava de diversas formas rumo à construção de atmosferas, ora sombrias ora luminosas.

Impressionou a capacidade de Tom Krell em transpor para o palco seus pensamentos, tristezas e temores como se não houvesse filtro entre seus sentimentos e sua música. As letras fluíam de forma terna, mantendo o peso das palavras através de uma voz reconhecível, mesmo quando sobreposta por capas e efeitos.

Porém o melhor de seu live esteve guardado nas entrelinhas. Eram estalidos, rupturas sonoras, glitches e abstrações que emergiam abruptamente, criando fraturas e dissonâncias para logo se harmonizarem com a sua particular mistura de pop e rhythm and blues.

Set List: “Human Disguised As Animals ŸNonkilling 1”, “Body Fat”, “Nonkilling 3 ŸThe Anteroom ŸFalse Kull 1”, “Nonkilling 13 ŸCeiling For The Sky”, “Love Means Taking Action”, “Vacant Boat”, “Suicide Dream 1 (Orchestral Version)”, “Nothing”, “Words I Don’t Remember” e “Nonkilling 6 ŸHunger”.

Movies

Green Book: O Guia

Comédia dramática baseada em história verídica expõe o preconceito racial no sul dos Estados Unidos no começo dos anos 1960

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Texto por Leandro Saueia

Foto: Diamond Films/Divulgação

Uma comédia dramática sobre tensão racial passada no início dos anos 1960 não é bem o tipo de filme que seria de se esperar de Peter Farrelly em sua primeira incursão cinematográfica longe de seu irmão Bobby – com quem realizou longas mais afeitos ao besteirol como Quem Quer Ficar Com Mary ou Debi e Lóide. Mas foi nesse terreno que o diretor resolveu apostar agora, e, de maneira no geral, a experiência se mostrou bem sucedida.

Green Book: O Guia (Green Book, EUA, 2018 – Diamond Films) é um road movie baseado em fatos reais – ênfase no baseado, já que as reclamações sobre as liberdades tomadas pelo roteiro não foram poucas. O filme conta a história de Tony Vallelonga, um italiano bronco e racista, mas, claro, de bom coração, vivido por Viggo Mortensen. Ao se ver temporariamente sem o seu emprego de segurança na boate Copacabana, em Nova York, ele acaba aceitando o trabalho de ser o motorista de um músico negro, o excêntrico pianista Don Shirley (Mahershala Ali), em uma excursão pelo sul dos EUA em uma época de segregacionismo institucionalizado. O roteiro é baseado nas memórias de Vallelonga, que nos anos seguintes faria pequenos papéis em filmes como O Poderoso Chefão, Um Dia de Cão, Os Bons Companheiros e também na série The Sopranos.

O longa não escapa dos clichês típicos desse tipo de história em que dois opostos são forçados a conviver juntos e assim descobrindo que têm mais em comum do que imaginavam. Ainda assim, garante duas horas divertidas que também podem gerar alguma reflexão, mesmo que em escala bem menor do que a observada em Infiltrado na Klan, de longe o melhor filme dessa safra do Oscar.

Green Book (assim chamado em alusão a um guia com endereços para motoristas negros em viagem pelo sul não se meterem em enrascada com os brancos racistas)  é daqueles trabalhos que crescem quando visto como parte de uma plateia. O mérito maior do sucesso cabe ao par central de atores, ambos excelentes. Viggo se revela um inspirado comediante – esta é a grande razão para recomendar que ele seja assistido na tela grande.

A alma da história, entretanto, pertence a Ali, que lida com um personagem bem mais complexo. O Don Shirley que ele precisa encarnar é um homem em perpétuo estado de inadequação: um negro educado na mais alta cultura e que, por isso não tem nada em comum com a visão típica que os brancos têm dos afro-americanos (ele sequer sabe quem é Little Richard!). Ao mesmo tempo, Don jamais será aceito nas altas rodas, que só querem fazer algum uso de seu talento mas sequer estão dispostos a deixá-lo usar o mesmo banheiro ou comer em seus restaurantes. O fato dele também revelar tendências homossexuais, obviamente não facilitam em nada a sua vida.

Green Book resvala um pouco na pieguice, tem algumas saídas fáceis e não deixa de manipular as emoções do espectador, mas tudo de forma aceitável. Sabe aquela sensação de se pegar gostando de uma canção que você sabe que é brega? É um pouco por aí. Não tem mal nenhum nisso.