Music

Charme Chulo

Quarteto encerra hiato de sete anos sem lançar disco e propõe uma guinada sonora rumo ao pop com as dez faixas de O Negócio é o Seguinte

Texto escrito e organizado por Antonio Carlos Florenzano

Foto: Isabella Mariana/Divulgação

O negócio é o seguinte: acabou hoje a longa espera de sete anos por um novo disco do Charme Chulo. Nesta terça-feira, dia 14 de setembro (na verdade, o dia habitual de lançamentos fonográficos é sempre uma sexta-feira, mas reza a lenda que a banda não quis ficar vinculada ao 17 e à sua maldição recente na História do Brasil!) chegam às plataformas as dez faixas que compõem o quarto álbum da banda curitibana curiosamente batizado… O Negócio é o Seguinte. O novo trabalho indica uma grande guinada rumo ao pop, ao contrário do anterior, o duplo Crucificados Pelo Sistema Bruto (2014), no qual o apontamento para uma sonoridade bem difusa e multifacetada como uma espécie de grito primal para exorcizar todos os perrengues e dificuldades que quase puseram um ponto final na trajetória do quarteto nos anos anteriores.

Em O Negócio é o Seguinte (independente), a linha condutora suaviza tudo – sem descaracterizar, porém, a precisa fusão entre o pós-punk e o rock caipira que norteia a banda desde a sua fundação, em 2003 – e injeta um esmero maior na hora de burilar os arranjos vocais, as bases instrumentais e as linhas melódicas. Também pode ser vista como um resultado da maior maturidade autoral da dupla de compositores – os fundadores, primos e vocalistas Igor Filus e Leandro Delmonico (também responsável pelas guitarras, violões e violas) – durante todo este hiato. Neste longo período, vale ressaltar, Igor, Leandro, o baixista Hudson Antunes e o baterista Douglas Vicente passaram a se dedicar também a outras atividades extramusicais (mesmo porque sobreviver apenas de rock no mercado musical brasileiro é uma tarefa hercúlea e quase impossível), viu os filhos nascerem e crescerem, aproveitaram o tempo para restartar a banda.

Afinal, em quase vinte anos de trajetória muita coisa mudou. Não apenas os integrantes, as suas vidas, mas também o mercado musical. Daqueles garotos que, como muitos outros, amavam o Morrissey e o Trio Parada Dura (mas não necessariamente ao mesmo tempo) e no fim da adolescência resolveram montar uma banda, muita coisa se transformou e hoje, na casa dos quarenta anos (ou próximo dela), eles fazem uma revisão do passado sem deixar de continuar olhando e seguindo em frente. Os mesmos, porém diferentes. E a principal diferença é que desta vez quem assumiu a frente nas composições assinadas pela dupla foi Delmonico, que compôs a maior parte das letras, melodias e bases harmônicas. Igor, agora, ficou mais restrito à condição de “intérprete”, embora todas as decisões sobre a finalização de versos, tons e arranjos sejam tomadas em dupla. Leandro, mais próximo do pop e estudioso autodidata da estrutura de canções populares, é o comandante desta transição e chega, pela primeira vez, a assumir os vocais principais em uma faixa.

É exatamente destas mudanças que trata O Negócio é o Seguinte. Dez músicas novas que mantém o pezinho ali no pós-punk e a alma encharcada na caipirice mas arem o leque da diversidade sonora apontando para novos caminhos que, ao contrário da louca e desvairada profusão do disco anterior, aqui há uma espinha dorsal mais pop, formada por uma abençoada conjunção de melodias grudentas e maior aproximação com a música popular brasileira, indo do tecnobrega paraense à carioquíssima bossa nova. Já nas letras, a ironia rock’n’roll permanece bastante equilibrada naquele blend bem charme chulo com a veia sacana a la Dalton Trevisan. Os alvos da vez agora são a alta sociedade curitibana, o gabinete bolsominion do ódio, a depressão espalhada pelo mundo, a vaidade das redes sociais, o começo da banda que nunca mais voltará.

A pedido do Mondo Bacana, Leandro e Igor dissecam todas as novas músicas abaixo e ainda comentam detalhes e curiosidades sobre as gravações e os conceitos por trás do título e da capa do novo álbum, que pode ser escutado logo abaixo.

FAIXA A FAIXA

NOME DO DISCO

Leandro: “O batismo segue algo muito recorrente na banda: criamos os títulos antes das músicas e dos álbuns. Foi assim com Nova Onda Caipira (2009) e Crucificados Pelo Sistema Bruto (2014). “O negócio é o seguinte” era uma expressão muito utilizada pelo meu pai. Eu a achava engraçada e pretensiosa. Como o disco é bem pop, fizemos um trocadilho com a coisa do business, o negócio. Algo do tipo “está aí o disco pra você ouvir”. Mas pode ser também uma falsa expectativa , já que o ‘negócio’ nem pode ser grande coisa (risos)… São expressões brasileiras que adoramos, né?”

A CAPA

Leandro: “A ideia partiu do Carlos Bauer, designer do disco e de uma das camisetas da campanha de crowdfundingfeita para ele. É uma miniatura de um bar. Tem poucos centímetros. Essas miniaturas são utilizadas em ferrorama, são coisa de colecionador.”

BASTIDORES DA GRAVAÇÃO 

Leandro: “A pré-produção e as gravações ocorreram entre dezembro de 2020 e março de 2021 no estúdio Arnica, em Curitiba. A escolha partiu do produtor, Rodrigo Lemos (que já tocou em bandas curitibanas como Poléxia, Lemoskine e A Banda Mais Bonita da Cidade), que já trabalha há um certo tempo com o estúdio. Ele já havia contribuído com parte da produção de Crucificados Pelo Sistema Bruto (2014), mas em O Negócio é o Seguinte ele assina sozinho a produção do álbum inteiro, tendo uma participação fundamental na evolução da sonoridade. A maioria das músicas teve pouco tempo de amadurecimento, pois foram compostas poucos meses antes de entrarmos em estúdio. Portanto, tivemos que ajustar várias coisas com o Lemos.”

NEM A SAUDADE

Leandro: “Esta sempre esteve entre as mais cotadas para o posto de single de disco. Foi a música que mais chamou a atenção do Lemos no início do processo. Ele cortou a introdução (que virou o solo de saxofone) e deu mais urgência para a canção. Nos incomodava o fato dela ser muito curta e objetiva, mas com o tempo nos conformamos com isso. O refrão é realmente o grande recado dela.”

Igor: “Como evolução musical, considero a melhor composição feita pela banda. Sertanejo clássico com indie rock, nada mais Charme Chulo. Muitas histórias, muita saudade, dos amigos e amigas que fizemos na longa estrada da banda, já com quase 20 anos.”

Leandro: “Uma das nossas buscas foi equilibrar o clima saudoso daquele sertanejo clássico presente em canções singelas como ‘A Majestade, o Sabiá’ ou ‘Tocando em Frente’ com uma base roqueira. É quase, parafraseando o D2, a nossa ‘à procura do rock sertanejo perfeito’ (risos). A letra, enxuta e objetiva, versa sobre voltar ao passado e não se identificar mais com aquilo.”

TUDO QUÍMICA

Leandro: “Única composição majoritária do Igor no disco. Não passou por muitas mudanças durante o processo de pré-produção, mas ganhou em sofisticação com os arranjos do Lemos. Uma das canções que mais cresceram em estúdio. O final ficou bem grandioso com a repetição do verso “não, não me leve a mal…”

Igor: “Leandro, mentor do álbum, deu a pinta com a melodia e letra da introdução e eu uni ao um velho riff, da melodia do refrão. Bingo! A letra foi a única coisa que praticamente teve minha iniciativa no disco (fui muito mais um interprete do que letrista desta vez!) e novamente inspirada em uma conversa com o amigo Leonardo Scholz (vocalista do grupo Leis do Avesso) sobre como as pessoas hoje em dia só são tristes se querem, dada a quantidade de remédios, tratamentos, terapias e diagnósticos que existem. Então todas as músicas são felizes, coloridas, agradáveis. Essa coisa de dark, de romantismo, do desajuste, é absolutamente ultrapassado e ingênuo.”

Leandro: “A grande composição do Igor no disco, o que explica a pegada pós-punk, tão presente no começo da banda. Certamente estará entre as músicas de trabalho, principalmente por agradar aos fãs mais antigos.  Destaco o trabalho do Rodrigo Lemos na produção, que soube potencializar todo esse sentimento. Um belo dia cheguei pro Igor e mostrei à introdução que eu tinha bolado… ‘Não, não me leve a mal, só vem sem pressão’… Ele pegou aquilo e transformou nesse pequeno monstro!”

FEIO FAVORITO

Leandro: “Quem ouve essa faixa não imagina o trabalho que tivemos para arredondá-la. Quase utilizamos três tempos diferentes no registro, mas conseguimos encontrar um equilibro no final. Passou por mudança de tom na voz e ganhou alguns reforços percussivos também. Gostamos muito da letra e da proposta da música e sempre a consideramos um dos carros chefes do disco. No entanto, achei-a um tanto quanto ousada para ser música de trabalho.”

Igor: “Imagem forte, humor ácido, musicalidade perigosa, referências ousadas, brincando sem medo na linha tênue do gosto duvidoso. E tudo isso é apenas Charme Chulo. Estamos em casa: entre e sinta-se à vontade!”

Leandro: “A música mais complexa do disco, que deu mais trabalho, certamente. Buscamos misturar nossa caipirice ao pop e ao ragga. O riff de guitarra busca imitar um acordeon e foi o primeiro instrumental que compus para o disco. No entanto, sua origem era mais country rock. Com a temática da letra – um pequeno manifesto sobre os dilemas de quem sofre com o massacre vaidoso das redes sociais – buscamos um ar mais dançante e divertido.”

VOCÊ NUNCA IRÁ DANÇAR COMIGO

Leandro: “Do jeito que veio ficou. Precisamos ajustar o tom para adequar o jogo de vozes mas ela sempre foi bastante objetiva, lembrando coisas do Sistema Bruto. O grande charme foi a adição da sanfona, que deu um balanço todo especial pro som.”

Igor: “Mais uma letra esplêndida do parceiro Delmonico, também entre as melhores já feitas, de tirar o fôlego. Cavalo chucro em grande estilo! Entra fritando o pinhão! Explosão de refrão! Cozinha de Douglas e Hudson estonteante. Bem brasileira, bem atual para o nosso som, saboreando até um forrozão, mas sertanejo até a medula. E sabe o que é engraçado? O sanfoneiro do rolê, Diego Kovalski, vem gravar com a gente e ainda diz: ‘como vocês conseguem fazer esse sertanejo durão, dá pra ver que vocês são do rock. Obaaaaa!!! Deu tudo certo!”

Leandro: “Foi a primeira música deste álbum. Hoje percebemos que ela tem um pouco do clima ácido do nosso último disco Crucificados Pelo Sistema Bruto. Trata, com bastante ironia, do exibicionismo das redes sociais. Por se tratar de um modão dançante, achei que uma história de amor não correspondido poderia cair bem.”

RABO DE FOGUETE

Leandro: “Sempre botei muita fé nela como música de trabalho. Nesse ponto, Lemos foi fundamental. Ele conseguiu adicionar elementos do tecnobrega à faixa, fazendo com que ela ganhasse aquela pegada típica do Pará. O take do Igor de voz foi muito emocionante, daquelas músicas que a gente grava quase que de primeira. As guitarras funcionaram e chegue a cogitar um feat com algum cantor do Pará, mas achamos melhor esperar…”

Igor: “Na verdade eu sou o ‘amigo’ da letra, mas a emoção na hora de cantar é toda minha: “É cada bucha, rapaz!” A vida dá umas viradas, às vezes no meio do processo. A arte é o dia a dia e é pura profecia. Certeira desde o dia em que a ouvi pela primeira vez, no dia em que faleceu Moraes Moreira.”

Leandro: “Esta faixa acabou se tornando um símbolo da nossa evolução musical. Ela flerta bastante com o novo pop produzido no Brasil. O Charme Chulo sempre se apropriou da brasilidade pela música caipira, no entanto, resolvemos flertar um pouco com o clima dançante do norte e nordeste do país, fomos beber na pegada de artistas como Jaloo e Duda Beat. A letra, bastante influenciada pelo mestre Dalton Trevisan, acabou combinado bastante com o instrumental.”

QUANDO NÃO DEPENDE DA GENTE

Leandro: “Se depender da audição dos fãs apoiadores, que tiveram acesso antecipado ao disco, esta é a maior surpresa do álbum. Uma faixa lenta e existencial para dividir o disco ao meio, que acabou ganhando em sofisticação nos arranjos. Várias pessoas a destacaram na primeira audição. Ficou bem tocante mesmo.”

Igor:  “Respiro do disco, sem ser menor. Ponto alto é a mixagem de vozes inusitada para o padrão do Charme Chulo, onde as duas vozes, estão no mesmo volume, cantadas em uníssono, vislumbrando novos caminhos. Ao melhor estilo do produtor do disco, parceiro de profunda sensibilidade, conhecimento e admiração pela banda e profissionalismo, Rodrigo Lemos.”

Leandro: “Compor pensando no conceito do disco é algo imprescindível pra gente. Precisávamos de uma balada para dividir o lado A e o lado B do álbum. Esta música surpreendeu bastante, pois conseguimos levar a viola caipira para um lado bem sofisticado. Nos influenciamos por Kings of Convenience. Acho que é a primeira vez que o Charme Chulo chega perto de um clima mais bossa nova.”

BALANÇO QUALQUER

Leandro: “Surgiu de um riff teimoso que fiz há um bom tempo e se tornou um dos singles do disco.  Colocamos toda a influência do lado pop nela. Foster The People, Blur e um toque caipira na letra. No estúdio, o grande trabalho foi ajustar o groove da faixa. Lemos abusou dos efeitos eletrônicos.

Igor: “A vitória dos sabores e efeitos eletrônicos precisos do disco, com formato de canção rock sessentista, deixando o pop mais puro falar alto. Possivelmente a quarta música de trabalho.”

Leandro: “Uma das minhas letras favoritas. A canção fala sobre os dilemas da vida adulta, sobre aceitar que não dá mais pra exagerar nas coisas. O verso ‘Nego dinheiro e advogado para ser feliz’ diz muito sobre o clima da classe média alta curitibana, onde tudo se resolve com um bom advogado (risos). O riff é bastante influenciado por bandas como Phoenix e Two Door Cinema Club.  Acho que uma das minhas maiores influencias no Charme Chulo é o lado dançante. Meus instrumentais acabam puxando bastante pra isso.”

EU NÃO SEI AMAR

Leandro: “Quase morri para gravar esta viola! Foi a primeira canção que gravei no estúdio. Gosto muito do instrumental (riff e solo). É uma música que acaba surpreendendo a galera também, por ser grudenta e caipira. Minha grande intenção é usá-la para dar um dinamismo ao vivo: o famoso momento em que o vocalista sai do palco.”

Igor: “A viola volta com tudo, na primeira vez em que Delmonico aparece em vocal principal franco e desafetado, abrindo o peito na malemolência gauderio-caipiro-paraguaio da música, de letra quase pueril. Agrega de maneira emocionante, trazendo um outro colorido de vozes para o repertório e ordem do álbum.”

Leandro: “Outra música que surgiu a partir de um conceito. Eu andava com vontade de compor uma música que privilegiasse o instrumental, podendo utilizar ela nos shows para dar um ‘descanso’ pro Igor. No entanto, a canção acabou ganhando uma letra singela e um refrão que não sai da camisa. Tenho muito orgulho do instrumental de viola e continuo achando que será uma ótima música para tocar nos shows. A solução foi assumir os vocais. Outro marco, pois é a primeira faixa que canto inteira no Charme Chulo.”

PERDIDOS NA BAGACEIRA

Leandro: “O grande sentido desta música é a letra. Quanto ao instrumental, destaco a utilização de um banjo no solo e o fato da gente dividir o vocal novamente, como em outras faixas. Eu alterei a ordem dela no disco. Ela entraria um pouco antes, mas achei que ajuda no desfecho, com um recado político e tal.”

Igor: “Outra letra primorosa de Leandro, escancarando com categoria a situação esbagaçada do Estado que não é nação, maturidade no falso lado B do curto álbum, com uma musicalidade mais clássica, a agradar os fãs mais antigos.”

Leandro: “Precisávamos falar sobre o momento político do Brasil, mesmo que isso não combinasse tanto com o clima do disco. Nesse ponto acabei sendo mais passional. Aliás, cheguei a brigar com a família. Como nossa base musical veio do punk rock também, impossível não meter a boca nesse clima de ódio.  Obviamente fazemos isso de um jeito Charme Chulo. O que sinto hoje é que realmente estamos perdidos numa bagaceira e que iremos demorar pra recuperar um clima maduro no Brasil.”

MAIS ALÉM

Leandro: “Acho que conseguimos bolar uma versão razoável de disco pra ela. É complicado competir com a gravação original e os vocais do Tuyo. Precisávamos de um arranjo novo, que combinasse com a banda. Eu e Lemos ficamos algumas horas no estúdio criando uma pegada de baixo e bateria, que remete a Arcade Fire e Beach Boys. Ela acabou conversando bastante com outras faixas mais dançantes e eletrônicas do disco. Fecha bem.”

Igor: “Perfeita como fechamento, a nova versão foi bolada dentro da esteira da produção do álbum, para tentar aproveitar essa importante canção da banda, a fim de que pudesse ser tocada ao vivo, na quase impossível tarefa de resguardar a versão single de 2018, com participação especial do Tuyo.”

Leandro: “A dúvida sobre regravar ou não esta música durou até o início das gravações. A versão com o Tuyo, gravada ao vivo em 2018, é muito marcante. Mas não tem como competir com o poderio vocal das meninas, ainda mais ao vivo. Nossa ideia foi trazer a música para um universo mais indie. Criei o arranjo novo com o Rodrigo Lemos no estúdio. As pessoas que já puderam ouvir gostaram bastante do resultado final. Acho que ela não poderia ficar de fora e fecha muito bem o disco.”

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Prince

Novo álbum póstumo traz a banda de apoio New Power Generation em primeiro plano e apresenta clima de ensaio a céu aberto

Texto por Fabio Soares

Foto: Divulgação

Durante muito tempo, o termo The Vault atiçou a imaginação de ferrenhos fãs de Prince Rogers Nelson. Trata-se do porão-cofre-mina de ouro-caixa preta-arquivo master contendo todo o acervo audiovisual do artista instalado em Hollywood. O obsessivo controle sobre sua obra transformou The Vault em um ambiente inacessível a qualquer um que tentasse se aproximar. Após a morte do artista, ocorrida em 21 de abril de 2016, o arquivista Michael Howe deu a dimensão da excentricidade do ambiente. “The Vault está instalado num espaço de alta segurança, climatizado, à prova de oscilações ambientais e acidentes naturais”, afirmou, em 2019, sem revelar a exata localização do ambiente nem debaixo de um decreto.

Fonte quase inesgotável de pesquisa, The Vault já havia dado ao mundo nove álbuns póstumos de Prince. No final de julho, o décimo desta esteira deu seu ar da graça. Gravado na primavera de 2010, Welcome 2 America (Legacy/Sony) traz um Prince que queria distância dos holofotes.

De forma discreta e emulando um rap, sua voz abre o disco com a faixa homônima com uma incisiva crítica ao american way of life (“Bem-vindo à America/ Onde você pode falhar no seu trabalho/ Seja demitido, recontratado/ E receba uma gorjeta de setecentos bilhões de dólares”). Depois, a trinca de ases formada por “Running Game (Son Of A Slave Master)”, “Born 2 Die” e “1000 Light Years From Here” apresenta a cozinha standard da New Power Generation – sua principal banda de apoio durante a carreira – em sua melhor forma, fincando os pés no r&b com matadoras linhas de baixo. Em “Hot Summer”, camadas de sintetizadores tentam dar à faixa um ar oitentista sem parecer piegas.

O clima do disco é de um ensaio livre, porém com regras a serem cumpridas. Longos solos de guitarra são proibidos. Larga duração das faixas, idem. A ordem é passar a mensagem da forma mais crua possível, como na belíssima “Stand Up And B Strong” com seu quase otimismo gospel (“Está quase amanhecendo/ Levante-se e seja forte/ Encontre uma nova canção/ Antes que eles se vão”). Exercita ainda seu lado crooner na romântica “When She Comes” (“Quando ela vem/ Nunca fecha os olhos/ Não, não, não/ Ela pode ver estrelas”) para, a seguir, novamente pôr seu swing à prova em “1010 (Rin Tin Tin)”. E vamos combinar que em matéria de swing a NPG manja dos paranauê tudo.

Se tivesse saído em turnê baseada em Welcome 2 America, Prince iria se apresentar em pequenos palcos e clubes porque a sonoridade do disco em nada solicita o apelo de grandes arenas. Estaria ele propositalmente procurando intimistas ambientes a fim de se desintoxicar? Apostaria um braço que sim. Com um combo sonoro aos seus pés, um dos maiores artistas do século 20 podia experimentar à vontade em 2010. Bem verdade que Welcome 2 America está longe de tentar ser um dos momentos mais brilhantes de Prince. É um ensaio. Momento este em que o músico pode (e deve) usar como um “esquenta”. Ideal para audições despretensiosas, sem cobranças, de forma leve. Leve, como nossas vidas deveriam ser.

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Charlie Watts

Conhecido por suas batidas precisas e a paixão paralela pelo jazz, integrante original dos Rolling Stones morreu hoje aos 80 anos

Textos por Marden Machado (Cinemarden) e Fábio Soares

Foto: Reprodução

Começo a escrever ao som de “Emotional Rescue”, minha canção favorita dos Rolling Stones, para falar sobre Charlie Watts, meu rolling stone favorito e baterista da banda de rock mais antiga do mundo ainda em atividade. A abertura dessa música, a oitava do álbum de mesmo nome, com o baixo de Bill Wyman e a batida precisa de Watts, sempre produziram em mim um efeito hipnótico.

Sei que a maioria das pessoas tem no vocalista ou no guitarrista a figura favorita de um grupo musical. Nada errado nisso. Talvez eu esteja errado. Afinal, meu beatle favorito é George Harrison. No Who é John Entwistle. No Yes, o Chris Squire. No Led Zeppelin, o John Paul Jones. A exceção que não foge à regra talvez seja Robert Fripp, guitarrista do King Crimson.

Charlie começou sua carreira tocando na Blues Incorporated, que sempre tocava no Ealing Club de Londres, que era frequentado por Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones. O trio que viria a formar os Stones convidou o baterista para integrar a banda e o resto é história.

De 1963, sua entrada oficial no grupo, até o dia de sua morte foram 58 anos de excepcionais serviços prestados ao rock’n roll. Paralelo a esse trabalho, que ele considerava o melhor do mundo, tinha uma outra banda, Charlie Watts Quintet, de jazz. O álbum Long Ago and Far Away, lançado em 1996, traz ele na capa, de terno e sobretudo, do jeito que gostaria de tocar nos Stones.

Watts foi diagnosticado com um câncer na garganta em 2004. Chegou a fazer um tratamento rádio e quimioterápico e, segundo anunciado na época, ficou curado. Recentemente, prestes a iniciar os ensaios para uma megaturnê mundial pós pandemia dos Rolling Stones, sua família anunciou que o baterista não participaria por razões médicas. O anúncio de sua morte – provavelmente ligado a esta questão de saúde – ocorreu nesta terça-feira, 24 de agosto, aos 80 anos de idade.

Vá em paz, Charlie Watts. E obrigado pelas inesquecíveis batidas, sempre rítmicas e precisas, de sua bateria. John Entwistle, George Harrison e Johnny Cash te aguardam para fazer parte de uma nova banda. (MM)

***

Rolling Stones ao vivo é sempre a mesma coisa? Sim, claro! Mas visitar a Mona Lisa no Louvre, o Guernica no Reina Sofia e o Cristo Redentor também são e ninguém questiona. Minha primeira aventura stoneana foi também o début de muitos brasileiros. A banda mais icônica da história, na praia mais icônica do planeta e de graça? Tô dentro! E lá rumei de São Paulo para o Rio em 18 de fevereiro de 2006 para aquele que seria o maior público da história desta instituição do rock. Um milhão de pessoas esperadas, um milhão de pessoas comparecidas, praia abarrotada, tudo para uma noite incrível, exceto por um detalhe.

Após o show de abertura dos Titãs, uma série de arrastões aconteceu na areia com vários espectadores lesados (eu, incluso). Mas não havia tempo para lamentações. Os Stones subiriam ao palco pontualmente às 21h30 e teríamos que assistir. Assistir? Bem, isso é um modo de dizer porque uma famigerada área VIP lotada de famosos que sequer sabiam dizer o título de três canções da banda separaram a realeza dos plebeus. Restava aos reles mortais contemplar a apresentação através de diversos telões instalados ao longo da orla. Fiquei tão longe do palco que devo ter visto o show lá no bairro de Madureira. Mas, tudo bem, eram os Stones, enfim!

Poderia discorrer agora sobre a performance de Jagger, Richards e Wood mas é sobre Charlie Watts que devemos falar tendo em vista que o lendário baterista faleceu na último dia 24 de agosto em Londres, aos 80 anos de idade. Vestindo calça clara e camiseta verde-limão, a lenda viva iniciou os trabalhos conduzindo a cozinha em “Jumpin’ Jack Flash”, “It’s Only Rock’n’Roll (But I Like It)” e “You Got Me Rocking”. Nas parcas vezes em que as câmeras o focalizaram, sua frieza era de assustar. Nem parecia que exercia seu ofício diante de dois milhões de olhos. Sua postura deveria ser a mesma num esfumaçado clube em Londres.

Aceleração? Iniciou-se na então recém-lançada “Oh, No, Not You Again” com Watts mais preciso que um relógio. Sua discrição era assombrosa e ditava o ritmo de jogo. Mais parecia um piloto de automóveis sabendo exatamente o momento de acelerar e praticar o contrário.

Em “The Place Is Empty”, sob os vocais de Keith Richards, sua minimalista “cama” foi fundamental para o momento “isqueiros acesos”, fato que repetiu-se em “Happy”, ainda sob a voz do guitarrista. Mas foi em “Rough Justice” que a monstruosidade entrou em campo. Suas batidas marciais adquiriram ares de rolo compressor, que se seguiria em “Get Off Of My Cloud”, antes da catarse catapultada pela trinca “Start Me Up”, “Brown Sugar” e “(I Can’t Get No) Satisfaction”.

No fim, sabe-se lá como Me. Watts conseguiu vestir uma JAQUETA debaixo de calor senegalês do verão carioca para cumprimentar o público. Esses ingleses! Cada louco com sua mania…

Corta pra 2016. A quarta-feira de 24 de fevereiro amanheceu e permaneceu carrancuda pela maior parte do tempo. A turnê Olé, que percorreria estádios de futebol pelo mundo todo, desembarcava no Morumbi como uma itinerante atração turística. E chuva torrencial que caiu na zona sul paulistana permaneceu a encharcar o estádio até os indefectíveis acordes de “Jumpin’ Jack Flash”. O arrasa-quarteirão stoneano de abertura de shows jamais perdera seu punch ao longo dos anos servindo como contraponto à elegância de Charlie Watts. Como baterista de jazz, sabiamente conduzia seu carro alegórico de forma discreta, deixando a efusividade do palco a cargo de rebolado dos quadris de Mick Jagger e do desleixado modo da dupla Keith Richards e Ron Wood.

É inexato tentar chegar a um consenso sobre o que se passaria na cabeça de um discreto baterista como Watts em meio ao pandemônio do dia a dia de uma banda de rock. Talvez porque toda casa de baixo meretrício necessita de um porteiro sóbrio. Talvez porque toda “gaiola das loucas” necessita de seu porto seguro.

Ao final daquela apresentação encharcada, voltei para casa feliz. Havia visto os Stones pela segunda vez. Só não sabia que não haveria outra vez de contemplar Charlie Watts em ação. Ficam minha admiração e sua eterna timidez, protegida sob o alicerce de suas baquetas.

Sua elegância foi suprema para mim, num intervalo de uma década (2006-2016). Foram dez anos resumidos em um, aliás. Gracias, Mr. Watts! (FS)

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Amy Winehouse

Seis meses antes de sua morte, que completa exatos dez anos, cantora procurou a paz no Brasil mas encontrou o inferno em seu lugar

Texto por Fábio Soares

Foto: Divulgação

O ano de 2011 não começou nada fácil para este que vos escreve: simultâneos golpes financeiros em minha conta bancária e cartão de crédito. Um par de bólidos de amigos enviados a UTIs automotivas após barbeiragem causada por minha pessoa, problemas com o álcool e infindáveis crises existencias. Enfim, o fundo do poço materializado.

Dois meses antes destes infortúnios acontecerem, um negativo fato marcou-me naquele fatídico ano de “zero onze”. O festival caça-níquel Summer Soul, realizado no Anhembi em 15 de Janeiro, tinha um confuso line up mas um nome de respeito para encerrá-lo. Com 27 anos completados quatro meses antes, Amy Winehouse atravessava irregular momento em sua carreira. Com o psicológico abalado, vilipendiado e torturado por seu atual-ex-atual-ex-namorado-marido-namorado-namorido, queria apenas encontrar a paz em sudacas terras tropicais. Encontrou o inferno em seu lugar.

Formado em sua grande maioria por um público arrogante, acéfalo e inebriado com os recém-chegados smartphones ao Brasil, o público da pista premium do festival (setor para o qual adquiri ingresso) estava pouco se lixando para o que acontecia no palco. A coletiva imbecilidade era tanta que grande parte dos presentes não se ateve ao fato de que uma estrela do r&b estava ali, materializando-se diante dos olhos de todos. Antes da apresentação de Amy, Janelle Monáe fez uma apresentação impecável, apresentando ali o rumo que a nova safra da soul music tomaria dali para a frente. Mas ninguém percebeu. Noventa por cento do público estava preocupado em registrar selfies, tomar cerveja quente e gargalhar em rodinhas de bate-papo. Muitos, inclusive, de costas para o palco. Tão irritado fiquei que quase fui embora. Mas ainda havia um motivo para que eu aguentasse aquela tortura à minha volta. Ainda havia Amy.

Perto da meia-noite, Amy surgiu ao palco lindíssima, num vestido preto com detalhes brancos. Sua cabeça, no entanto, estava longe dali. Executando as canções numa obrigação digna de uma funcionária de cartório às quatro da tarde de uma sexta-feira, visivelmente encontrava-se fora de sintonia com sua excelente banda de apoio. O público da pista premium, por sua vez, teve um comportamento NOJENTO ao vibrar (como se fosse um gol!) a cada vez que a cantora levava uma das mãos ao nariz ou bebericava algo em sua caneca. Resumindo: o nojento público da pista premium daquele maldito festival não estava ali para presenciar o talento de Amy. Estava ali apenas para vibrar com sua auto e pública destruição. A poucos metros de mim, observei a cantora Pitty visivelmente indignada como eu com o imbecil comportamento daquele bando ali instalado. Amy não merecia, Pitty não merecia, eu não merecia. Era uma noite para esquecer.

Corta pra 23 de julho de 2011. O time do qual eu era fundador, manager e técnico tinha apenas sete anos de vida mas uma gloriosa história de títulos e memoráveis apresentações nos campeonatos de futsal de nossa empresa. Estávamos num período de jejum e aquele dia poderia representar nossa volta aos tempos áureos. Semifinal do campeonato interno contra um tradicional rival interno. O conglomerado Cachaçamba era a pedra em nosso sapato há algumas temporadas mas naquele 23/07 seria tudo diferente e carimbaríamos nosso passaporte à final do torneio. Certo?

Não! O dia já havido começado mal. Acordei deprimido e sem vontade de levantar da cama. Tinha, porém, uma missão a cumprir. Trinta minutos de trajeto separavam minha residência do Nacional Atlético Clube, na Barra Funda. Naquele momento, eu não precisava de uma trilha sonora que me botasse “para cima” mas, sim, uma trilha sonora que me entendesse sem julgamentos. E na busca de meu velho iPod, nada poderia ser mais adequado ao momento: o álbum era Back To Black e sua intérprete sabemos muito bem quem era.

A ida ao ginásio, local da partida, foi triste, modorrenta e de certa forma premonitória. Jogo iniciado e eu, como comandante, fui um completo FRACASSO. Decisões erradas tomadas por mim levaram nossa equipe a um completo naufrágio. Tomamos um vareio de bola e a tão sonhada vaga à final estava reduzida a uma humilhante goleada sofrida. Após o jogo, não quis falar com ninguém, limitando-me a ficar sozinho nas arquibancadas do ginásio.

Com a cabeça pesando uma tonelada, iniciei meu retorno para casa, não sem antes acessar os portais de notícias pelo celular. Quase em uníssono todos eles reproduziam a mesma manchete: “Amy Winehouse é encontrada morta em Londres”.

Naquele momento, fui invadido por um misto de tristeza e revolta. Revolta por saber que Amy deu seu último suspiro Camden Town. Eu havia pisado por aquelas bandas da capital inglesa dez meses antes e sabia muito bem que ali era o PIOR LUGAR DO MUNDO para um adicto em álcool residir. Em Camden há um pub em cada esquina prontos para abrigarem celebrações marciais de autodestruição. É um convite à loucura, à perda da sobriedade. A literal tradução de “sentença de morte” para um alcoólatra. A morte de Amy quis me arrastar para o fundo do poço… mas eu já estava lá.

Esta sexta-feira 23 de julho de 2021 marca exatos dez amos que Amy Winehouse nos deixou, aos 27 anos de idade. Gata garota que cometeu o hediondo crime de querer ser feliz. Um talento gigantesco a flutuar por um hermético espaço. Mais uma indefesa vítima de poderosos interesses que enriquecem em cima de corpos e talentos alheios.

E quanto a mim? Como estou eu, dez anos depois daquele nublado sábado de 2011? Triste da mesma forma. Mas ainda mais triste por saber que a incólume lacuna aberta por Amy Winehouse permanece aberta dez anos depois. E quer saber? Ainda permanecerá assim por um bom tempo…