Music

Johnny Hooker + Mulamba – ao vivo

Pernambucano encerra turnê em Curitiba fazendo deliciosa sessão de resistência cultural, desbunde e exorcismo de desilusões amorosas

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Johnny Hooker

Texto e fotos por Janaina Monteiro

Vingança, ódio, raiva são sentimentos comuns e completamente compreensíveis entre aqueles que já levaram o famoso pé na bunda. Afinal, quem nunca tomou um fora nessa vida? Comum também é extravasar toda essa revolta ouvindo aquela playlist “Especial Fossa” no último volume. Sair pela sala, como uma pessoa doida, berrando versos de dor de cotovelo que são campeãs do Spotify. Quem canta seus males espanta. Ou quem canta a depressão espanta.

A raiva faz parte do processo de esquecimento desses seres egoístas e covardes que vagam pelo mundo espalhando o desamor. Mas há quem sinta tanto, tanto ódio no coração partido que pensa em fazer macumba para se vingar, como Johnny Hooker. Se você já sofreu uma desilusão amorosa certamente já ouviu esse “hino do rejeitado” escrito pelo cantor pernambucano: “Eu Vou Fazer Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”. Assim mesmo, com ponto de exclamação, é a faixa que dá nome ao primeiro álbum de Hooker, o cantor da vida. O pernambucano, que já fez novelas e programas na Globo, também sofreu na pele a dor de ser abandonado subitamente. E essa foi uma das canções mais aguardadas durante o show de Hooker na Ópera de Arame, no último dia 7 de junho, para celebrar o aniversário da festa curitibana Brasilidades.

Hooker soube, como ninguém, dar uma reviravolta na situação, e lançou o segundo álbum, Coração, em 2017. O trabalho tem a faixa “Touro” que representa o fechamento do ciclo coração partido: “Viver, morrer, renascer/ Firme e forte como um touro”. Foi assim como um touro que Hooker aterrissou no palco da Ópera de Arame imponente – num figurino preto e dourado, com maquiagem impecáveis – e levando a plateia ao delírio ao tascar um beijo na boca do guitarrista de joelhos. Esse primeiro ato já foi o suficiente para o público se aquecer do frio de bater o queixo. De queixo caído fiquei eu, que até então pouco conhecia obra de Hooker, um artista híbrido, plural.

O pernambucano é um misto de Caetano Veloso, Ney Matogrosso e David Bowie. O performer-cantor-ator-compositor consegue transitar pelos mais diferentes estilos musicais sem muito esforço: axé, forró, samba, pop, rock, rumba, ska, bolero, jazz, blues, soul. E seu discurso é atual, potente, que representa as minorias. Com sua voz rasgada e debochada ao extremo, Hooker entoa hinos sobre amor marginal e a falta de amor. Assim como Liniker, como As Bahias e a Cozinha Mineira, como a banda curitibana Mulamba e como outros artistas que são resistência e contrariam o modus operandi brasileiro, Hooker é o desbunde em pessoa. Veio para escandalizar.

E bem ao estilo Bowie camaleônico de ser, o astro continuou o show de encerramento da turnê de Coração, com o público fiel e totalmente derretido pelos seus encantos. Os presentes, aliás, cantavam todas, mas TODAS as canções de cor. De coração. Algumas já foram temas de novela, como “Alma Sebosa”, incluída em Geração Brasil (na qual Johnny interpretou o músico Thales Saltado) e “Amor Marginal”, de Babilônia. O tecnobrega “Corpo Fechado” ( “Se depender do seu ódio, eu não morro mais/ Se depender da sua inveja, eu não morro mais/Se depender do seu veneno, eu não morro mais”), dobradinha com Gaby Amarantos, foi indicado na categoria de featuring do ano no MTV MIAW 2019 .

A apresentação é uma sessão de exorcismo de sensações e gestos. Todos pulam, se confraternizam, gritam contra os opressores. No set list não podem faltar homenagens aos mestres, como a deliciosa “Caetano Veloso”, que reverencia o baiano tropicalista, e “Beija Flor”, aquele axé contagiante da Timbalada (“Eu fui embora/meu amor chorou”). Antes de cantar “Poeira nas Estrelas”, Hooker explica que fez a canção para seu ídolo maior no dia em que ele morreu. Trata-se de “um réquiem sobre a morte de David Bowie e sobre a perda de uma maneira geral. É meu pedido para que aquele homem das estrelas não nos deixe aqui sozinhos sem uma luz para nos guiar”, tuitou o artista um dia sobre a obra.

A tal canção da macumba – que transforma a Ópera num terreiro – chega na metade do show. E todos na plateia se descabelam com ele, soltando o grito que estava preso na garganta. Com direito a fazer stories e mandar para ex. “Te desejo uma vida de desilusão/ Não desejo afago nem o perdão/ E que seja feliz com quem encontrar/ Mas, nunca mais volte aqui/ Profane o meu lar”. É como um Cee-Lo Green cantando “Fuck You”.

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Mulamba

O discurso que levanta a bandeira do protesto contra a homofobia também se fez presente no show de abertura, com a banda curitibana Mulamba, formada por seis mulheres de atitude rock’n’roll numa clara homenagem a Cássia Eller. Assistir ao show das “mulambentas” dá um certo orgulho de ser curitibana (eu nasci na Bahia, mas vivo aqui há muito tempo!). A sonoridade é potente. Os vocais, vigorosos. E a mensagem, crítica, atual. Como em “P.U.T.A”, que fala sobre violência e feminicídio: “Por ser só mais uma guria/ Quando a noite virar dia/ Nem vai dar manchete/ Amanhã a covardia vai ser só mais uma que mede, mete e insulta/ Vai, filho da puta”.

O convidado principal da noite também usa o intervalo entre as canções para discursar. “Equidade de diferenças é o que importa”. “Ser artista no Brasil  é um ato de resistência”. “Podem matar uma rosa ou duas, mas não podem deter a chegada da primavera”. Foram algumas das frases proferidas pelo pernambucano. E para arrematar o show-protesto, Hooker canta “Flutua” que gravou com Liniker. Com as mãos para o alto, todos entoam o refrão: “Ninguém vai poder querer nos dizer como amar”. Assim ocorre a transformação de toda a ira, ódio, sentimento de vingança em um ato de liberdade.

Set list Johnny Hooker: “Touro”, “Alma Sebosa”, “Corpo Fechado”, “Chega de Lágrimas”, “Caetano Veloso”, “Volta”, “Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”, “Você Ainda Pensa?”, “Amor Marginal”, “Poeira de Estrelas”, “Coração de Manteiga de Garrafa”, “Boato”, “Beija-Flor”, “Escadalizar/Desbunde Geral” e “Flutua”.

Set list Mulamba: “Provável Canção de Amor Para Estimada Natália”, “Interestelar”, “Tereshkova”, “P.U.T.A”, “Mulamba” e “Espia, Escuta”.

Music

Aurora – ao vivo

Norueguesa leva fãs ao delírio e até celebra casamento durante segunda passagem pela capital paranaense

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Texto e foto por Abonico R. Smith

Aurora Aksnes é uma força da natureza. Já começa pelo prenome com palavra de origem latina, que, de acordo com a mitologia grega, remete à deusa que personificava o amanhecer, filha de dois titãs e irmã das divindades solar e lunar. Com 1,6 m de altura, pele alva nórdica e o cabelo naturalmente platinado com um corte long bobacompanhado de um tufo comprido de cada lado, deixado para fazer tranças casualmente, ela não para um segundo no palco. Movimenta-se de um lado para outro em coreografias que misturam o ritmo de sua música pop com passos de dança resgatados de rituais ancestrais. Tudo isso sem abalar por um segundo sequer o poderio intacto de seu gogó, agraciado com uma voz doce e suave para falar e timbre de soprano com larga extensão para alcançar várias oitavas.

O segredo para isso? Alimentação saudável, sempre com muitas frutas. E água, bastante água. Pelo menos foi o que ela entregou logo depois de começar o show do último dia 22 de maio, em Curitiba. “Só hoje já mijei nove vezes”, emendou de cara, sem qualquer constrangimento a norueguesa que não se depila e também não usa esmaltes nas unhas, ama cantar e dançar descalça e ainda faz de suas letras um belo conjunto de metáforas, sentimentos e sensações que de algum modo se referem à natureza. Composições estas que formam uma poderosa trilogia fonográfica lançada de 2016 para cá – e que montaram o repertório da atual turnê, que teve cinco datas no Brasil.

O concerto na capital paranaense foi a quarta desta cinco escalas. Enchendo a plateia da Ópera de Arame, muitos jovens entre a adolescência e os vinte e poucos anos, que preenchiam uma paleta de estilos comungando hipsters, queers, góticos suaves e uma ou outra pessoa meio perdida visualmente. No palco, pela segunda vez na cidade, Aurora agora trazia uma banda mais completa (guitarrista, dois tecladistas e baterista, mais as tradicionais bases pré-gravadas com percussões, orquestrações e mais camadas delineadas por sintetizadores) e até mesmo uns quinze minutos de uma atração de abertura – na verdade, a morena tecladista e backing vocal que a acompanha, Silja Sol, em versão mais cutee solta no palco para tocar guitarra como o único acompanhamento e conversar com a audiência sobre a origem de suas seis canções solo apresentadas de modo simples, básico e compacto.

Depois da impactante abertura com “Churchyard”, que começa a capella e embala para um arranjo bastante percussivo, o que se viu foi um festival de uníssono vindo da plateia. Fãs – maioria feminina – cantavam sem parar verso atrás de verso. Mesmo já tendo feito outros shows no país antes, Aurora parecia não acreditar no estava acontecendo. Comunicava-se firmemente com a plateia, sempre ressaltando ao microfone estar tomada por grande emoção – o que nem precisava, pois via-se de forma escancarada em seus olhos. Chegou até atender ao pedido de um cartaz mostrado por um jovem casal sentado na primeira fila, mais para a lateral do palco, e celebrou o casamento espiritual deles – claro que sob uma chuva de aplausos, urros e gritos que ecoavam por toda a arena.

Natural que os grandes hits proporcionassem maior frenesi na plateia. Como “Warrior”, “I Went To Far” e “Runaway”, do primeiro álbum (All My Demons Greeting As A Friend, de 2016). Ou faixas do EP Infections Of a Different Kind – Step 1, de 2018 e lançado apenas digitalmente, como “All Is Soft Inside”, “Forgotten Love”). Entretanto, houve ainda surpresas. Como “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, cantada em dueto por Aurora e Silja somente ao acompanhamento da guitarra de Fredrik Vogsborg (mais conhecido pelo públicoindiepelo trabalho com a banda Casiokids, formada em 2005 e com três álbuns gravados entre 2007 e 2011), mais usada como um baixo ressaltando a nota tônica. Ou ainda os singles do novo disco, o novo EP A Different Kind Of Human – Step 2, que chegará em junho apenas às plataformas de streaming e download, mas já com os respectivos clipes disponibilizados na internet. “Animal”, “The River”, “In Bottles” e, especialmente, “The Seed” tiveram recepção tão efusiva quanto os outros sucessos um pouco mais antigos.

As duas faixas programadas para o bis, ambas do EP do ano passado, fecharam a noite em grande estilo. Primeiro veio a balada “Infections”, preparando o terreno das emoções para a explosão de “Queendom”, de cunho explicitamente empoderador, que faz questão de celebrar a força feminina e um mundo mais justo diante de uma sociedade machista e patriarcal em ruínas. Ao final dela, Aurora abriu uma bandeira LGBTQIA+ e deixou em delírio a plateia. Após a saída dela, muitos não continham o choro e a excitação por estar diante de sua deusa de quase 23 anos de idade e que ainda tem um excelente futuro musical pela frente. Tudo de forma bem natural e espontânea. Mesmo fazendo música pop.

Set List: “Churchyard”, “Warrior”, “Home”, “All Is Soft Inside”, “Soft Universe”, “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, “Runaway”, “In Bottles”, “The Seed”, “It Happened Quiet”, “Animal”, “I Went Too Far”, “The River”, “Forgotten Love” e “Running With The Wolves”. Bis: “Infections Of A Different Kind” e “Queendom”.

Movies, Music

Homecoming: A Film By Beyoncé

Concerto grandiloquente apresentado no ano passado no Coachella vira filme recheado por comentários e cenas de bastidores

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Netflix/Divulgação

Vinte e oito anos atrás Madonna abriu as portas do cinema para as divas da música pop. Seu documentário Na Cama Com Madonna arrastou uma legião de fãs às salas de projeção para assistir aos bastidores de sua então bem sucedida megaturnê mundial Blond Ambition. Isso consolidou em definitivo o nome dela no panteão das maiores artistas femininas do Século 20. Tanto que nas décadas seguintes o mercado fonográfico viu se enfileirarem uma série de discípulas que trilharam, cada qual com seu carisma, talento, competência e peculiaridade, o mesmo nicho de mercado. Vieram então Britney Spears, Christina Aguilera, Pink, Lady Gaga, Katy Perry, Amy Winehouse, Rihanna, Adele, Ariana Grande, Beyoncé. Sem falar na própria Madonna, que continuou na ativa, sempre gravando, lançando discos e fazendo shows.

Com o passar do tempo a lista tornou-se grande e a concorrência também. Com as evoluções e consequentes mudanças no mercado musical. Com a velocidade da comunicação e do cotidiano, está cada vez mais difícil fazer um trabalho não só que se sobressaia perante o resto mas também que fique gravado para sempre na memória dos fãs, tal qual o documentário lançado em 1991 por Madonna permanece até hoje. E é exatamente isso o que Beyoncé quis fazer com o projeto Homecoming, elaborado para ser o show de encerramento de um dos três dias do festival Coachella na edição do ano passado. Além de ter sido exibida ao vivo pelo YouTube foi apresentação foi registrada na íntegra, em áudio e vídeo, para virar um filme e um disco ao vivo. Na verdade, um misto de musical com documentário, já que todo o processo de elaboração do show, que levou quatro meses de intensos ensaios, também foi filmado.

Homecoming: A Film By Beyoncé (EUA, 2019 – Netflix) não foi parar nos cinemas, mas está disponível para o mundo inteiro através de streaming desde poucos dias atrás. O que significa que será visto por milhões de pessoas, tal qual Na Cama Com Madonna foi – mesmo que a Netflix tenha como conduta o fato de nunca divulgar o número de acessos a seu conteúdo, isso é óbvio que vai acontecer já nas primeiras semanas. Entretanto, o que separa a Blond Ambition Tour de Homecoming é exatamente a grandiloquência da concepção do espetáculo apresentado ao vivo para o público in loco. A plateia do Coachella era de 125 mil pessoas. Estavam no palco durante o show de Beyoncé mais de duzentas pessoas. Sim, mais de duzentas pessoas. Talvez o mais alto número de artistas já reunidos durante um concerto de música pop. Com certeza, a jogada mais arriscada de toda a carreira da cantora. Por isso, o tempo extenso de preparação do espetáculo para poder coordenar músicos, dançarinos, cantores e convidados especiais (o marido Jay-Z, a irmã Solange, as ex-companheiras de Destiny’s Child, Kelly Rowland e Michelle Williams).

Junto à sua equipe de criadores, Beyoncé concebeu um espetáculo conceitual para se apresentar no Coachella, sobretudo porque tivera de desmarcar a apresentação do ano anterior em virtude de uma gravidez inesperada. Então quis fazer uma homenagem à sua origem negra e à cultura da celebração de música e dança instituída nas universidades norte-americanas através das bandas de fanfarra e suas coreografia através das balizas e dos instrumentistas. Para caber tudo em um palco, verticalizou tudo e fez, a laPaulo barros no Sambódromo do Rio de Janeiro, os próprios músicos e bailarinos transformarem-se em um cenário vivo, vibrante e contagiante. Através de uma pirâmide com vários degraus, todos interagem milimetricamente ensaiados, provocando um efeito visual que dispensa cenografia artística e principalmente o já confortável telão de ledali no fundão de tudo.

O filme vai intercalando pedaços do set list de 33 músicas (todas mostradas na íntegra) com imagens granuladas captadas no imenso galpão onde toda a equipe se reunia diariamente para ensaiar e compor o espetáculo. Enquanto os bastidores são mostrados, uma voz em off, um tanto abafada intencionalmente (talvez para combinar com a sujeira visual), mostra Beyoncé fazendo observações aleatórias sobre sentimentos, sensações e intenções diante de toda esta pirotecnia visual e musical. Ela fala sobre suas certezas, suas inseguranças, sua família (sobretudo os filhos gêmeos recém-nascidos e a filha mais velha), sua posição feminista e opiniões a respeito do valor às tradições da cultura universitária que formam o conceito da empreitada. Já no microfone em cima do palco, ela provoca a audiência falando sobre empoderamento feminino e o sentimento de pertencimento e identificação com o que está sendo mostrado ali no palco. De vez em quando, frases filosóficas ou motivacionais também são mostradas, dividindo a narrativa entre ensaios e concerto.

A única coisa sobre a qual Beyoncé não fala durante os 137 minutos de duração de Homecoming é sobre o que estaria, de fato, por trás de toda a grandiloquência do projeto, do qual também assina a direção, o roteiro e a produção executiva do filme. E também já se sabe que este é apenas o primeiro de três lançamentos que ela irá fazer pela Netflix nos próximos anos. De fato, para ser diva da música pop neste final de segunda década do Século 21 não é preciso só cantar e ficar divando nos palcos e bastidores. É necessário ser mega, giga, tera. Passar feito um rolo compressor por cima das emoções descontroladas da horda mundial de fãs e seguidores na internet. E, sobretudo, deixar a concorrência comendo poeira lá atrás.

Movies

Parque dos Sonhos

Animação sem a assinatura de um diretor se vale de narrativa surreal para conquistar crianças e adultos

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount Pictures/Divulgação

Animações têm a possibilidade de argumentar a respeito dos mais variados temas se valendo de narrativas surreais. É desta forma que O Parque dos Sonhos (Wonder Park, EUA/Espanha, 2019 – Paramount Pictures) constrói sua trama em volta de June, uma inventiva criança cujo sonho é construir o parque imaginário que inventara com sua mãe. Quando esta deve viajar para cuidar da saúde, a protagonista se entristece, apresentando sintomas típicos de um episódio depressivo, e deixa o projeto do Parque de lado. Porém, ela descobre que o parque é real e corre sério risco.

O filme não tem um “diretor”, mas um conjunto de head(s) of, que assumem a fotografia, a iluminação e a história. Ainda assim, os três são capazes de trabalhar com tamanha sinergia que a animação é uma das mais fluidas dos últimos anos do cinema comercial. A movimentação de câmera é tal que produz transições ao estilo de Damien Chazelle. A fotografia sabe evocar, com seu trabalho de contrastes e colorização, diferentes sensações para os mais variados ambientes da trama. A referência junguiana do roteiro se faz presente nos quadros por meio da cor.

Outro ponto que funciona bem é a utilização do 3D, criando camadas de profundidade em diversos momentos e sempre em favor da narrativa. Há tempos que não encontro um filme cuja experiência tridimensional valha tanto a pena quanto este.

Infelizmente, não foi possível, para escrever este texto, analisar a dublagem original do filme, que conta com nomes como Jennifer Garner e John Oliver no elenco. Todavia, o elenco e a direção de dublagem da versão brasileira não deixam a desejar. Pequenos desvios técnicos e uma escolha duvidosa para a personagem principal são os únicos defeitos da dublagem, que entrega personagens divertidos e bons diálogos adaptados.

É claro que, como (quase) toda obra, esta tem seus defeitos estruturais. A história de June, escrita por Josh Appelbaum (que assina a produção do filme), André Nemec e Robert Gordon, é obviamente inspirada em sucessos anteriores do nicho das animações Pixar-Disney-Dreamworks. Há, inclusive, uma cena cuja referência é tão incontestável que poderia ser batizado de “momento Up!”. Mesmo assim, é inegável que a trama funcione. Só poderia funcionar um pouquinho mais.

O Parque dos Sonhos é daqueles filmes planejados para tornar-se um sucesso de vendas. É muito provável que isso não ocorra – ainda que o carisma dos personagens (em especial os animais) pudesse fazer com que conseguisse o objetivo – mas também pode passar perto sem se tornar uma animação esquecível. É divertido o suficiente tanto para seu público infantil quanto para os pais. Por sinal, para estes é uma ótima opção para passar o tempo.

Music

New Order – ao vivo

Quinteto formado a partir das cinzas do Joy Division mostra, em Curitiba, como a música pop pode ser transformada em obra de arte

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Texto por Abonico R. Smith

Fotos de André Mantra (CenaLowFi)

Você já foi a algum museu para realmente apreciar alguma obra de arte exposta ali? Se a resposta for positiva, deve saber bem disso. Você se perde por um bom tempo parado diante do quadro e se esquece dos ponteiros do relógio. Olha aqui, ali, acolá. Analisa sinais deixados pelo artista: luz e sombra, cores, simbologia, perspectiva, composição de elementos, construção das linhas, forma das pinceladas. Reconhece traços, faz analogias, arma sinapses cerebrais. Volta a olhar com mais atenção para algum detalhe específico. Faz dos pequeninos prazeres diante da obra de arte algo que nunca mais será esquecido para o resto da vida.

Presenciar um show do New Order é como estar diante de uma obra de arte. Pode durar o tempo que for que você nem se dá conta de quanto ficou ali e ainda acha que tudo isso poderia ter durado ainda mais. É uma experiência sensorial que mexe tanto com seus olhos quanto os ouvidos. E vai além: ainda faz chacoalhar todo o seu corpo, quando os graves e batidas bate e reverberam nele. Fica impossível resistir parado ali na frente de Bernard Sumner (guitarra, teclados e voz), Gillian Gilbert (teclados), Stephen Morris (bateria, pads e programações) mais os novos asseclas Tom Chapman (baixo) e Phil Cunnigham (guitarra, teclados e pads). Afinal, o grupo criado em Manchester no comecinho dos anos 1980, a partir das cinzas do Joy Division, consegue a mágica perfeita para reproduzir, ao vivo, o ponto exato de fusão entre o rock com guitarras e a dance music eletrônica.

O que se viu em Curitiba na noite do último domingo 2 de dezembro – fechando uma miniturnê brasileira que já havia passado por São Paulo e Uberlândia (MG) – foi justamente isso. Por pouco mais de duas horas, o hoje quinteto promoveu no palco da Live uma demonstração de como elevar a sempre banalizável música pop ao status de obra de arte. Com um extenso repertório que passava a limpo seus dez álbuns lançados entre 1981 e 2005, o New Order mostrou o quanto uma banda pode não apenas envelhecer com dignidade como também ainda ser capaz de provocar o corpo alheio, causando-lhe movimentos involuntários e arrepios. Sem falar nos versos, quase sempre curtos e de temática cotidiana, que fazem as vezes dos elementos pictóricos impressionistas no conjunto do trabalho da banda.

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A turnê Performance 2018 é um show de sons e imagens. Cada música é acompanhada por um videoclipe específico, que provoca interação gráfica com a canção executada. O gosto pelo complemento visual, por sinal, sempre acompanhou a trajetória da banda. As capas de seus álbuns e singles no período do selo indie Factory eram obras-primas criadas pelo designer Peter Saville, que era um dos sócios da empreitada ao lado do lendário jornalista, entrepeneur e maluco de carteirinha Tony Wilson. Os novos vídeos se alternam entre filmagens históricas (como os registros de uma Berlim Ocidental pobre, rebelde e ainda dividida pelo Muro, que aparecem como pano de fundo para a belíssima “Singularity”), hipnóticas brincadeiras com grafismos (“Plastic”; “Vaishing Point”; “Blue Monday) ou experimentações plásticas (o salto de trampolim que abre o show enquanto os músicos entram no palco; a fictícia banda Killers montada para o clipe oficial de “Crystal” e acabou por batizar o grupo formado em Las Vegas por Brandon Flowers e seus amigos). Já na área das programações eletrônicas, grandes sucessos como “Bizarre Love Triangle”, “The Perfect Kiss” e “Blue Monday” aparecem ligeiramente modificados, mas ainda assim perfeitamente reconhecíveis para a plateia se esbaldar de cantar junto e dançar enquanto se sente parte integrante do Haçienda, clube noturno que levava o rock às pistas de dança em Manchester nos anos 1980 e 1990.

Bernard Summer, já sexagenário, chutou em definitivo para longe toda aquela timidez de outrora. Comanda hoje o quinteto como um verdadeiro bandleader. Interage discretamente com a plateia mas marca presença como o centro das atenções até mesmo quando não canta ao microfone. Sua performance de tiozinho descolado dançando desajeitadamente na festa de casamento como se não houvesse amanhã até ganha um charme a mais. O fato de ter trazido os amigos Cunningham e Chapman (com quem tocara no Bad Lieutenant, formado entre 2008 e 2011, no período de hiato das atividades do New Order, lhe deu mais segurança e confiança para se jogar na função de vocalista. Os dois integrantes mais recentes, por sua vez, são irrepreensíveis ao formar o complemento ideal dos instrumentos de corda. Tom até faz a galera não sentir qualquer falta do histórico Peter Hook, criador de linhas de contrabaixo fantásticas para a banda.

Não bastasse ter uma fantástica carreira para montar o set list, o New Order retorna para o bis para brindar seus fãs já inebriados por tanta beleza. Para finalizar a noite, a banda ainda manda um conjunto de três canções clássicas do Joy Division. “Love Will Tear Us Apart” fecha a festa com clima mais “felizinho” que a gravação original (com direito a declarações de amor à banda de Ian Curtis no telão). “Decades”, a última faixa do álbum Closer, a antecipa com algumas fotos impactantes do falecido vocalista e seu olhar penetrante.

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Mas o que castiga mesmo o coração é o comeback com “Atomsphere”. Tudo bem que o fiapo de voz de Sumner fica bem distante de toda a densidade do vozeirão barítono de Curtis, mas isso não é empecilho para que a canção – enriquecida pela exibição do emocionante e póstumo clipe original dirigido pelo fotógrafo “oficial” da banda, o holandês Anton Corbijn – seja arrebatadora e ainda continue provocando aquele frio que anda por toda a espinha. Definitivamente naquele 18 de maio de 1980 o frontman do Joy Division não foi embora e muito menos se afastou da vida em silêncio. Não só ele está aí até hoje, mexendo e provocando sentimentos e sensações às pessoas, como também deixou como legado – um deles de modo indireto – duas bandas de rock que são obras de arte a serem apreciadas pela humanidade para todo o sempre.

Set list: “Singularity”, “Regret”, “Age Of Consent”, “Restless”, “Crystal”, “Academic”, “Your Silent Face”, “Tutti Frutti”, “Subculture”, “Bizarre Love Triangle”, “Vanishing Point”, “Waiting For The Sirens’ Call”, “Plastic”, “The Perfect Kiss”, “True Faith”, “Blue Monday” e “Temptation”. Bis: “Atmosphere”, “Decades” e “Love Will Tear Us Apart”.