Movies

Yesterday

O consumo musical de hoje em dia é questionado com história costurada por canções dos Beatles em um mundo onde a banda não existiu

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Universal Pictures

Talvez um mundo sem Rolling Stones seja possível. Sem Beatles, porém, jamais. Pelo menos essa é a visão de Yesterday (Reino Unido, 2019 – Universal Pictures), filme dirigido pelo aclamado Danny Boyle, do cult Trainspotting e do oscarizado Quem Quer Ser um Milionário?, que estreia no Brasil com dois meses de delay.

Em resumo, o longa é uma bela homenagem aos Fab Four, com críticas sutis ao showbiz frente ao mundo volátil de hoje e carregando uma mensagem totalmente John Lennon no final. Quem assina o roteiro é Richard Curtis, o neozelandês naturalizado britânico especialista em comédias românticas água com açúcar como Quatro Casamentos e um Funeral Um Lugar Chamado Nothing Hill. Da dobradinha inglesa, quem se sobressai é o roteirista que imprime sua digital ao filme, abafando a direção de Boyle.

O longa conta a história de Jack Malik (interpretado pelo britânico filho de pais indianos Himesh Patel) que vive em Lowestoft, condado de Suffolk, Inglaterra, com sua vidinha de repositor num supermercado. Em paralelo, ele se apresenta em pubs e festivais, tocando as composições que compõe, às quais ninguém dá muita atenção. Pela decoração do quarto de Malik, dá pra perceber sua paixão por indie rock: há pôsteres da banda escocesa Fratellis; do álbum In Rainbows, dos ingleses do Radiohead; e dos americanos Killers. Além de cantar, Malik é multi-instrumentista (toca piano, violão e guitarra) e guarda uma supercoleção de discos de vinil dentro do armário.

Quem dá suporte à sua carreira são os amigos. Em especial Ellie Appleton (Lily James), parceira desde a infância e que se tornou uma espécie de manager de Malik. Lily é uma garota meiga e romântica, que dá aulas de matemática numa escola e, claro, nutre uma paixão platônica por Malik.  Quando, frustrado, o rapaz pensava seriamente em desistir do sonho de se tornar um cantor famoso, o inesperado acontece. Ao voltar para casa pedalando após um show praticamente às moscas, ele é atropelado por um ônibus durante um apagão planetário, como o bug que todos esperavam na virada do milênio. Jack vai parar no hospital e lá já percebe que há algo mais estranho do que ele ter ficado banguela. O rapaz cantarola trecho de uma canção dos Beatles e Ellie sequer reconhece. Ao receber alta, ganha um violão novo de presente e interpreta a canção que batiza o longa, “Yesterday”, que Paul McCartney compôs logo após lembrar-se de uma melodia vinda durante um sonho.

E então o mote do filme começa. Malik reage ao impacto de saber que é o único que se lembra de Beatles, num misto de indignação e nervosismo. Os amigos do protagonista chegam a comparar “Yesterday” com “Fix You”, do Coldplay – um dos momentos hilários do longa. O mundo, então, torna-se estranho, vazio e sem sentido para o rapaz que, por várias vezes, recorre ao Google para descobrir se algo mais desapareceu no fog. Será que o Oasis sequer existiu também?

Malik se vê na obrigação de mostrar ao mundo o que só ele lembra e, de quebra, consegue impulsionar sua carreira ao se apropriar da obra de Paul, John, George e Ringo, despertando, claro, curiosidade e desconfiança por conta de toda essa explosão criativa que surge da cabeça de quem compunha canções banais.

Conforme ele mergulha na memória para buscar cada palavra e cada acorde do repertório beatle, revela-se a trilha sonora do filme, repleta de “lados A” como “I Wanna Hold Your Hand”, “In My Life”, “Help!”, “Eleanor Rigby”, “I Saw Her Standing There”, “All You Need Is Love”, “Let It Be”, “Hey Jude”, “Here Comes The Sun” e “Ob-La Di Ob-La-Da”. Para relembrar a dificílima letra de “Eleanor Rigby”, precisa ir a Liverpool e visitar alguns lugares, por exemplo. E assim várias canções do quarteto vão dando um contorno ao filme, cada qual situada com um propósito definido.

Os “novos hits” passam a chamar atenção e Malik conhece Ed Sheeran, a grande surpresa do longa. O astro pop interpreta ele mesmo, como uma autocaricatura, um clown, e é responsável por arrancar boa parte das risadas do público (algo me diz que Sheeran teve aulas com Hugh Grant!). As obras-primas despertam também os olhares da manager de Sheeran, Debra Hammer (a comediante Kate McKinnon, que dá um show ao personificar a produtora sem escrúpulos).  De rapaz desconhecido, Malik vira ídolo pop. Alcança e conhece de perto a fama, primeiro abrindo shows do astro ruivo inglês que compôs “Shape Of You”, cujo refrão surge repetidamente no filme. Numa das cenas, os dois chegam a disputar quem faz a melhor música na hora (adivinhe quem ganha!).

A partir do momento que o protagonista começa a fazer sucesso com os hits dos Beatles – e obviamente desbanca Ed Sheeran – é possível perceber críticas implícitas sobre as mudanças sofridas na indústria do entretenimento nestas últimas décadas. Como a tecnologia transformou o processo de criação (quem é capaz de fazer uma letra como Eleanor Rigby hoje?) e facilitou o consumo de música pop requentada (porque a original Coca-Cola também desapareceu do mundo e só existe Pepsi?); e também como o marketing digital revolucionou a divulgação do trabalho dos artistas. A direção de Boyle, com seus efeitos visuais e ritmo dinâmico, nos faz mergulhar na era dos downloads, aplicativos e redes sociais e refletir sobre essas alterações tão impactantes na indústria cultural. Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band perde o colorido e “Help!” se transforma num hardcore meia boca.

O eixo principal do filme, porém, é o relacionamento entre Malik e Ellie, que fica conturbado depois que o rapaz atinge o estrelato. Mas a tensão entre o casal só vem à tona nos minutos finais. Aliás, Yesterday desanda da metade para o fim (se perde assim como a série Lost) e a expectativa de um desfecho criativo é atropelada por um ônibus biarticulado.

Mesmo assim vale assistir a Yesterday pelo tributo, pelos covers bem executados por Patel, para rir de Ed Sheeran e, sobretudo, refletir sobre o modo como consumimos cultura e amor hoje em dia. Como já diziam os Beatles, bem fresquinho na memória: “in the end the love you take is equal to the love you make”.

Music

Lollapalooza Brasil 2019 – ao vivo

Oito motivos para se lembrar do festival, que teve como headliners Arctic Monkeys, Kings Of Leon e Kendrick Lamar

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Arctic Monkeys

Texto por Abonico R. Smith

Fotos: Alessandra Tolc/T4F (Arctic Monkeys), Equipe MRossi (Kings Of Leon/Lenny Kravitz/Interpol)

Shows anteriores causando maior impacto na plateia do que os headliners. Chuva torrencial e alerta de raios interrompendo a programação de sábado à tarde por mais de duas horas, chegando a provocar expectativa de cancelamento de todo o resto do segundo dia e impedindo artistas nacionais de fazerem seus shows em três dos quatro palcos. Uma cobertura capenga da Globo, ignorando por completo em seu resumo o principal nome do primeiro dia (o Arctic Monkeys “a gente não viu por aqui”) e chegando a tropeçar em hit mundial (na hora do Snow Patrol, por exemplo, deu crédito e falou sobre a baladaça “Chasing Cars” mas na verdade mostrando outra canção, o popzinho de verniz eletrônico “Just Say Yes”). Plateia composta majoritariamente por millenials, seja em idade cronológica ou estado de espírito. Programação bem chocha, chegando a competir pelo infeliz posto de pior escalação de todos os anos de existência do festival em nosso país.

Assim foi a oitava edição do Lollapalooza Brasil, realizado pela sexta vez no Autódromo de Interlagos, entre os dias 5 e 7 de abril. Musicalmente falando, estes foram os oito motivos pelos quais você deve se lembrar para sempre do evento.

Arctic Monkeys

Quem disse que o MP3 matou o rockstar? Alex Turner é a prova cabal de que, se os discos mudaram do suporte físico para o digital, isso em nada afetou a possibilidade de crescimento da carreira de um artista a ponto de haver discografia consistente, repertório matador e a capacidade de arrastar e encantar grande multidões. A maioria das quase oitenta mil pessoas divulgadas oficialmente como o público que passou pelo autódromo na sexta-feira estava lá para se esbaldar ao som do quarteto (que, ao vivo, ganha o apoio de mais quatro músicos, entre eles integrantes de cultuadas bandas independentes como Mini Mansions e Dead Suns) que tornou-se o principal nome da Geração MySpace. Hoje o MySpace não existe mais, tampouco aquela sonoridade do início de carreira dos Monkeys, então uma banda pós-adolescente, de batidas dançantes, guitarras frenéticas e por ora quebradiças e letras verborrágicas que não davam muito tempo para o ouvinte respirar e tomar fôlego. O álbum mais recente, o sexto em treze anos, mostra uma banda adulta, ousada, arriscando-se em novos terrenos (como o soul e os arranjos mais refinados, cheios de falsetes, teclados e influências chiques de David Bowie e Roxy Music). As músicas deste disco funcionam muito bem ao vivo, como foi demonstrado em São Paulo. Só que, como era um público de festival, também abriu-se espaço para o desfile de greatest hits. No fim, entre entre autoralidade e popularidade, ganharam todos. Turner, banda, fãs, plateia que estava in loco ou assistindo pela TV e internet.

St Vincent

Pela segunda vez no Brasil para se apresentar no festival, Annie Clark de novo justificou no palco o porquê de tanto que se fala sobre seu nome. Quem viu a sua apresentação pôde compreender o porquê dela ser considerada uma das mais inventivas e contundentes artistas da música pop de qualidade de hoje em dia. Só que desta vez, veio sem banda de apoio. Estava lá no palco, sozinha, domando e controlando uma multidão com suas mãos e olhares altamente expressivos. A base era toda pré-gravada: ela só acrescentava a voz e os riffs e licks executados em uma vasta coleção de coloridas guitarras Ernie Ball, de uma linha assinada e concebida por ela para uma melhor adaptação ao corpo feminino. Todo o desenho cênico (gestual, pose, uso do palco, figurino) compensa, inclusive por esta ser a atual proposta performática de ser alter-ego artístico. Inclusive com muita ironia por trás de tudo, já que a discussão a respeito de plasticidade e sedução das massas são temas predominantes do disco que serve como base para a atual turnê. St Vincent é perversa ao jogar isso na cara do público e ainda rir de tudo isso. St Vincent é eficaz ao dar à plateia melodias perfeitas a ponto delas não saírem mais da cabeça após a primeira audição. St Vincent é muita areia para o caminhãozinho de uma programação baseada em truques de estúdio e hype adolescentes de internet.

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Kings Of Leon

Tribalistas

A proposta deste show sempre foi muito clara desde o início: celebrar o fim de uma vitoriosa turnê nacional (com extensão para alguns outros países) que marcou o lançamento do segundo álbum deste supergrupo.  Então não se podia esperar nada além de uma grande festa promovida para milhares de pessoas por Marisa Monte, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes e competentíssimos músicos de apoio (Dadi, Pedro Baby, Pretinho da Serrinha e Marcelo Costa). OK que todas as mudanças no mercado fonográfico mundial impedem o trio de ser tão grande quanto ele fora em sua estreia lá em 2002, mas em um show o que acaba contando é a somatória destes dois repertórios. Então dá-lhe hit de apelo fácil como “Velha Infância”, “Passe em Casa” e “Já Sei Namorar”. Some a isto canções trazidas do repertório solo de Marisa como “Amor I Love You”, “Depois” e “Não Vá Embora”. O show dos Tribalistas, ocupando horário nobre da grade do primeiro dia do Lolla, foi um bom reflexo da estado letárgico que se encontra a música pop brasileira durante as duas primeiras décadas deste século de música digital: sem a atitude ou pegada do rock mas jogando para a galera com muitos recursos de empatia imediata e ilusionista (truques de composição, melhor dizendo). A maioria gosta. Tem quem torça o nariz. Os artistas saem satisfeitos. O público presente, exigente de mais nada, também.

Kings Of Leon

O último disco dos caras é de 2016. A banda não está fazendo turnê. Não existe qualquer menção a um possível disco novo. Uma faixa inédita sequer marcou presença no set listapresentado na noite de sábado em Interlagos. Então por que chamar o Kings Of Leon para ser um dos headliners da edição 2019 do festival? A resposta foi dada na noite de sábado, que contabilizou 92 mil pessoas passeando por gramados e pista de Interlagos.  A família Followill precisou juntar apenas uma penca de hits – em maior ou menor proporção – e subir ao palco para tocá-los. Se o telão é a grande atração do show, ainda melhor: isso significa que o vocalista Caleb pode não se importar em se apresentar usando uma estapafúrdia camiseta regata cor de goiaba (e ainda assim será chamado de lindo de maneira incessante por várias fãs do gargarejo). Teve até gente chamando o quarteto de “o novo U2” dada a equivalência da proporção entre o desfile de sucessos radiofônicos e a ausência do verdadeiro tesão rock’n’roll para tocar diante de milhares de pessoas. No fim, o KOL deu tudo o que o pessoal queria ali naquelas últimas horas do segundo dia do Lolla: o entretenimento grandiloquente para sustentar uma banda que já foi bem mais interessante lá atrás. Não por acaso apaenas uma faixa de cada um dos dois primeiros álbuns foi tocada.

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Interpol

Snow Patrol

Quarenta e cinco minutos depois do horário previsto para o início, o quinteto escocês não pensou duas vezes antes de subir ao palco para tocar um set bem mais curto (apenas seis canções). E mandou logo um megahit de cara, “Open Your Eyes”, para esquentar de vez o público, parado havia quase três horas por causa da interrupção das atividades provocada pela natureza. Ponto positivo para uma banda subestimada pela imprensa brasileira, que insiste em tachá-la de “coxinha” justamente pelo fato de sua carreira ter decolado quando a aposta passou a ser em melodias grudentas e arranjos mais limpos, quadradinhos e descolado do universo indie dos dois primeiros álbuns. Mesmo com pouco tempo em ação, dava para ver Gary Lightbody com um sorriso escancarando no rosto e o resto dos músicos se divertindo no palco encharcado. Escolhido a dedo para presentear quem esperava pacientemente, o set list ainda brindou os fãs com mais sucessos em sequência, como “Called Out In The Dark”, “Just Say Yes” e, para terminar, “Chasing Cars”. Durou pouco mas foi bom demais.

Lenny Kravitz e Greta Van Fleet

No domingo, a discussão do Lollapalooza girou em torno do Greta Van Fleet. O quarteto formado por três irmãos e um amigo ganhou altos detratores por emular bastante o Led Zeppelin. Os integrantes são moleques, millenials com seus vinte e poucos anos, que estão no palco se divertindo, tocando suas próprias composições calcadas nos seus grandes heróis do rock. Pela pouca idade (e consequentemente pouca experiência de vida e da música) é natural que ainda não tenham conseguido se descolar criativamente de quem mais admiram. Não há nenhum mal nisso, aliás. O ponto positivo é justamente o fato dos moleques se sentirem atraídos por um rock mais analógico e retrógrado, do tempo em que a música ainda importava para o período da adolescência e discos de vinil eram vendidos aos borbotões e a dobradinha formada por videoclipes e redes sociais não regia a divulgação planetária de um popstar. Um dia antes apresentou-se no Lolla outro igualmente retrógrado em sua sonoridades. Desta vez com a diferença de ter mais de 50 anos de idade e uma penca de hits trazidos nas costas por uma discografia de excelência entre 1989 e 1998. Não menos orgânico que o GVF, Lenny Kravitz aposta no tradicional do rock’n’roll: riffs, peso e solo. Seu diferencial é que ele mistura tudo com aquele groove que chama todo mundo para dançar. Ninguém consegue ficar parado e resistir a petardos como “Fly Away”, “American Woman”, “Always On The Run, “It AIn’t Over ‘Til It’s Over” e “Are You Gonna Go My Way”. E é nas baladas (“Again” e uma marrentamente estendida “Let Love Rule”) que o cara fica com o público na mão, hipnotizado e apaixonado. Não bastasse tudo isso, Lenny ainda carregou consigo para o Brasil Gail Ann Dorsey, a baixista de anos e anos de David Bowie que é tida como uma das grandes referêcias nas quatro cordas das últimas décadas.

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Lenny Kravitz

Kendrick Lamar

A produção de um dos nomes mais esperados deste Lollapalooza vetou a presença de fotógrafos da imprensa e a transmissão ao vivo pelo canal de TV por assinatura Multishow. Logo, a presença do cara que nos últimos anos torou-se um furacão no nicho hip hop do mercado fonográfico norte-americano tornou-se uma exclusividade para quem comprou o ingresso e se dispôs a ir a Interlagos e ficar até o final das atividades do terceiro e último dia. Quem estava lá assistiu a uma apresentação mais focada no recente álbum Damn (2017) e que por muito pouco não ignorou por completo seu antecessor, o cultuadíssimo To Pimp a Butterfly (2015). Dono de rimas velozes e movimentos cênicos ágeis, o californiano não precisou de muito tempo (fez um show de apenas de 75 minutos, tempo relativamente curto para um headliner) para mostrar o porquê de ter recebido um prêmio Pulitzer da música (o primeiro dado a um rapper) por Damn. É uma porrada atrás da outra, com letras afiadas, típicas de quem veio do bairro de Compton, o mesmo bairro negro e pobre da periferia de Los Angeles que viu nascer o histórico NWA. As bases vão do jazz ao soul e as letras, óbvio, discorrem sobre temáticas raciais e políticas, tendo a provocação como espírito principal.

Interpol

O Interpol é um zero à esquerda de presença de palco. Paul Banks é um zero à esquerda com comunicação direta com a plateia. O Interpol é uma banda que funciona bem melhor em locais menores e fechados do que tocando a céu aberto para milhares e milhares em um autódromo. Três verdades que só se confirmaram em mais uma vinda do trio nova-iorquino para um Lollapalooza. Como tudo na vida tem um porém, essas três afirmações acabam tendo um peso bem menor diante da magnitude da sonoridade pós-punk que a colocou entre os grandes nomes do indie rock do começo deste século. Não por acaso a maioria de faixas escolhidas para o set list foi ancorada nos dois primeiros álbuns, aqueles disparadamente favoritos para quem acompanha mais de perto a trajetória do grupo. Incrível como canções como “Slow Hands”, “PDA”, “Evil”, “Rest My Chemistry” e “Say Hello To Angels” não envelheceram e ainda soam tão pungentes quanto na época do lançamento. Resta agora aguardar um show “solo” de Banks e companhia em terras brasileiras. Com duração maior, em lugar menor e com mais fãs assistindo.

Music

História do Rock: Buddy Holly + Ritchie Valens + Big Bopper – Parte 2

Desastre aéreo que matou três astros promissores da música jovem deixou o 3 de fevereiro de 1959 marcado como “o dia em que a música morreu”

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Buddy Holly e os Crickets

Texto por Abonico R. Smith

Fotos: Reprodução

>> Continuação da Parte 1 – para ler clique aqui

Nascido em 1930 em uma pequena cidade do Texas na divisa com a Louisiana, JP Richardson sempre foi um menino brincalhão e extrovertido envolvido com a música por gosto familiar. O que acabou refletindo cedo em suas escolhas profissionais. Acompanhou a era de ouro das big bands durante a infância e na adolescência já dava seus primeiros passos profissionais como disc-jockey. Ao voltar de um período servindo o exército, entre 1955 e 1957, retomou as atividades radiofônicas, desta vez incorporando um personagem chamado Big Bopper. O rock’n’roll já estava absorvido pela indústria cultural norte-americana e além de tocar os discos e falar ao microfone, Richardson passou também a compor algumas músicas gravadas por outros artistas.

Em maio de 1957, ele bateu o recorde de transmissão contínua no dial: ficou cinco dias, duas horas e oito minutos no ar. Tocou 1821 discos e aproveitava para tomar banho durante os intervalos de cinco minutos de blocos com notícias jornalísticas. Em 1958, gravou seu primeiro single, “Chantilly Lace”, que o projetou ao outro lado da fama: o de artista que é tocado pelos DJs das rádios. Para promover a música, apresentou-se no programa musical de TV apresentado por Dick Clark atuando como um personagem dentro de um roteiro e uma cenografia elaborada especialmente para as câmeras. Ele também propagava aos quatro cantos que filmes de curta duração seriam “o futuro da música” e que os discos passariam a ser filmados. Por conta própria, fez os vídeos de outras duas faixas, incluídas como lados B no compacto de “Chantilly Lace”. Tanto que chegou Portanto, não é exagero dizer que JP foi um precursor da estética que ficou conhecida posteriormente como videoclipe. Caso não tivesse morrido aos 28 anos de idade, poderia ter dado outras boas contribuições para a música, tanto na área da comunicação quanto como cantor e compositor. Entre os seus pertences achados no jatinho estavam uma caderneta com anotações de vinte composições, que ganharam o epíteto de “20 lost songs”.

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Big  Bopper

Nascido e criado em subúrbio latino de classe média-baixa de Los Angeles e de ascendência indígena mexicana, Richard Steven Valenzuela morreu com apenas 17. Ao completar esta idade, em maio de 1958, chamou a atenção do dono do selo Del-Fi, baseado em Hollywood, que procurava novos talentos do rock para, quem sabe, descobrir um outro Elvis Presley. Quando soube que havia um menino de um high school de Pacoima que era conhecido como “o Little Richard do vale de San Fernando”, não teve dúvidas e contratou Valenzuela. Mudou seu nome artístico para Ritchie Valens e lançou o primeiro single, com a canção autoral “Come On Let’s Go”. Na sequência, bancou um outro compacto, desta vez puxado pela balada romântica “Donna”, composta por Ritchie para sua namoradinha de colégio em um momento dor-de-cotovelo. Entretanto, a principal contribuição do astro precoce estava justamente “escondida” no lado B do disquinho em vinil.

Durante uma viagem a Tijuana, cidade mexicana mais perto da fronteira com a Costa Oeste, Valens apaixonou-se pela canção tradicional mexicana La Bamba e decidiu incorporá-la em seu repertório, com um arranjo rock’n’roll tendo o riff desenhado pelas guitarras. Bingo! Sucesso imediato e mais: a faixa tornou Valens um grande ídolo de toda a comunidade hispano-americana dos Estados Unidos, especialmente a espalhada pelo centro-sul da Califórnia. O baixista Don Tosti (do hit “Pachuco Boogie”) e o “humorista” Lalo Guerrero (“Pancho López”, uma adaptação do tema de Davy Crockett para a cultura de seu povo) já haviam popularizado anos antes o que se convencionou a chamar de gênero musical “chicano” (termo usado que denominar os descendentes de latinos na sociedade da época que, de um modo geral, servia como algo depreciativo e separatista). O garoto simpático e gorduchinho, que pulou dos assentos escolares para os palcos como um meteoro era, naquele momento, a grande aposta de um Estados Unidos que queria demonstrar a força da imigração latina, que, com o passar das décadas, viria a ser decisiva no mercado de música e entretenimento. Poderia ter tido uma carreira brilhante e, tal qual o companheiro de turnê Big Bopper, ter sido muito mais incisivo na questão do pioneirismo.

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Ritchie Valens

Curiosamente, este item também não faltava a Charles Hardin Holley, nascido em 1936 e outro texano (mas desta vez nascido para o norte do estado, na cidade de Lubbock, mais próxima do meio-oeste conservador (isto é, os estados de Oklahoma e Novo México) vindo de uma família que exercitava sua paixão pela música aprendendo e tocando instrumentos. Buddy Holly, com 16 anos de idade já fazia performances em emissoras locais de rádio e TV da região. Em 1956 começou a fazer suas primeiras gravações em estúdio, quase sempre assinado a autoria das mesmas músicas e coordenando em conjunto a produção artística. Pequeno gênio, encontrou no trio Crickets seu apoio musical e de quem nunca mais se separaria.

A união entre Holly e a formação de trio do Crickets acabaria por consolidar um formato até então nos arranjos de rock’n’roll: duas guitarras, um baixo e uma bateria. Antes era normal que houvesse piano, saxofone e violão. Depois de Buddy, as bandas de rock do mundo inteiro passariam a adotar este formato básico e nunca mais abandonado. Com influências de gospel, hillbilly rhythm’n’blues somadas às raízes caipironas texanas ainda deram a Holly um jeito original de cantar, compor e tocar denominado tex-mex.

Em apenas três anos de carreira deixou um legado de 50 canções distribuídas em três álbuns e 18 singles, como os hits “That’ll Be The Day”, “Rave On” e “Peggy Sue”. Até hoje este material permanece fresco, vivo e empolgante, inclusive sendo uma grande influência para o que se convencionou a chamar de indie rock ou rock alternativo que saudam até hoje o som cristalino de uma das guitarras e o vocal poderoso, sempre entoando versos de romantismo puro e outros sentimentos pessoas através de cativantes melodias. O visual carismático, típico de estudante nerd com cara de inteligente e óculos pretos de aro grosso preto também foi repetido posteriormente por gente como Elvis Costello e Rivers Cuomo (vocalista do Weezer). Aliás, não à tôa que um dos maiores hits do primeiro álbum do Weezer ganhou o título de “Buddy Holly”.

Fica impossível conjecturar o que mais Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper poderiam ter feito para o mundo da música caso não estivessem naquele pequeno avião destroçado logo após a decolagem no dia 3 de fevereiro de 1959. Mas fosse o que fosse que tivessem feito com certeza o rock teria sido mais rico e criativo.

Music

Animal Collective – ao vivo

Representado por Panda Bear e Avey Tare grupo recria na íntegra, em Belo Horizonte, o instigante álbum Sung Tongs

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Texto por Danilo Kowalsky

Foto: Francisco Rocha/Queremos!/Divulgação

Quando ouvi o álbum Sung Tongs, do Animal Collective, pela primeira vez, em 2004, tive uma sensação mista de estranheza e familiaridade. Mas já volto a este assunto.

Não havia muita coisa no cenário de bandas novas que chamava minha atenção ali em 2003/2004. As bandas estavam desesperadamente buscando de reinventar em termos de som e de formato mas ao mesmo tempo queriam voltar a agradar os ouvidos de quem gostava de shows, de canções e de refrãos. Os resultados dessa busca não estavam lá muito empolgantes. Tudo andava meio insípido. E eu, consequentemente, estava bem mais interessado nas novidades instigantes e inovadoras que vinham do cenário da música eletrônica, de selos como Rephlex e Warp, por exemplo.

Volto agora ao assunto da estranheza e familiaridade simultâneas. Ora, não seria isso algo realmente bom para motivar os interesses? A excitação e os disparos sinápticos provocados pelo inesperado, mas que não chegam chutando a porta. Chegam macio, caramelizados pelo conforto do familiar, com algo de terreno já pisado.

A estranheza de Sung Tongs deixava claro que aquele som não caminhava na mesma direção da maioria das bandas alternativas ou da cena indie rock, americanas ou europeias, da época. Apesar do violão ser um instrumento central em Sung Tongs, aquilo ali não era bem uma releitura de folk. Não era também uma releitura jovem e escolarizada do country, que costumam chamar de alt-country. A estranheza talvez tenha vindo de um certo formato, pelo menos nos arranjos e nas modalidades das canções, que me lembrava de bandas como Sun City Girls. Estavam ali a modalidade musical/harmônica, as vocalizações, as onomatopeias bucais, a aliteração, a paranomásia e outras figuras vocais não usuais na canção ocidental que evocam as línguas de outros povos e também de outras culturas musicais. Talvez daí venha o nome deste disco — numa tradução livre, “línguas cantadas”.

Mas e o familiar? O que ali naquele som me trazia a familiaridade? A estranheza foi relativamente fácil de apontar, mas o lado acalentador e confortável estava mais difícil. E assim foi se construindo a vontade de continuar a ouvir o Sung Tongs. E depois mais uma vez. De novo. Até que…

A ficha caiu! Pet Sounds. Beach Boys. Brian Wilson. Estava ali se derramando em excelentes camadas de estéreo nos meus ouvidos e eu ainda não havia percebido. Harmonias vocais construídas belissimamente. Aquele fluxo harmônico flutuando em volta dos ouvidos que quase dá pra sentir com a mão. Aquele tipo de vocalização que se tornou praticamente uma vertente na música americana. E, claro, um tipo particular de psicodelia. Tipo particular de psicodelia que talvez tenha sido mesmo inventada ali, no Pet Sounds dos Beach Boys de Brian Wilson.

Foi isso, então, o que me fez gostar tanto do Sung Tongs. Em meio a toda a insipidez da cena alternativa na época, aparecia ali um disco luminoso. Um som instigante que continha o estranho e o inesperado calçados pela harmonia acalentadora. Mesmo quando Sung Tongs fica ríspido e soturno, há sempre algo costurado, na bela mixagem do disco, que aponta antenas e radares para o longe, mas que também lança raízes no solo da era de ouro da música pop ocidental.

Por isso tudo eu estava realmente ansioso pela chegada do Animal Collective com a celebração dos 15 anos do Sung Tongs em Belo Horizonte. E apreensivo também. A possibilidade do show apareceu pelo Queremos! e já fiquei imaginando como seria a recepção a um grupo tão pouco conhecido no Brasil. Certamente deveria ser um show pequeno num lugar pequeno, imaginei. Tudo se confirmou e eu fiquei surpreso ao saber que o show seria, na verdade, em uma casa de médio porte da cidade, o Music Hall, que comporta bem mais de mil pessoas. Ingresso comprado. Agora era esperar o último dia 26 de agosto. Ansiedade deixada de lado (por enquanto).

Chegou o dia do show. Nenhuma eletricidade no ar. Nenhum burburinho. Eu — meio elétrico. Ansiedade crescia. Como seria? E os efeitos eletrônicos? E os efeitos de estúdio que são tão importantes em toda a ambiência do disco? A atração de abertura não me interessava tanto e acabei chegando ao local e fiquei ali, perto da entrada, papeando, especulando mentalmente como seria o show que estava por começar. O lugar estava vazio; já se via. Isso trazia aquela sensação de que não teríamos uma experiência com pouco calor de som e de corpos.

Panda Bear e Avey Tare entraram no palco. Eu não vi nenhum sampler e nenhum outro tipo de auxílio eletrônico. Imediatamente ficou claro que toda aquela profusão de camadas de violão e de sons e de efeitos de Sung Tongs seria executada pelos dois apenas. Em tempo real, “no braço”, ali. Menos da metade da pista estava ocupada pelo público. As alas laterais e o mezanino estavam completamente vazios. Animal Collective, certamente, não faz um som de arena para milhares, mas esse vazio de público me causava um certo desconforto.

Começou o show. E veio logo uma música que eu não reconheci (“Tuvin”). O lugar parecia estranhar os primeiros sons. Violões e vocalizações. Nenhuma letra. Nenhuma palavra facilmente inteligível. Nenhuma progressão de acordes tradicional. Fico imaginando se não estavam apresentando o Sung Tongs com um outro arranjo totalmente diferente. Mas essa possibilidade foi embora quando começou “Leaf House”, a abertura do álbum, e, na sequência, a linda “Who Could Win a Rabbit”, segunda música. Duas faixas marcantes, com ritmo mais presente (eles usavam um tambor nas músicas de batida mais forte), com os violões a palhetadas pesadas e as vozes preenchendo tudo. Ambos usavam mais de um microfone; um limpo e outro carregado de efeitos para a voz como eco e delay. O público se empolgou um pouco mais e uma certa energia entre o palco e as pessoas começou a se formar, embora alguma já manifestassem, corporalmente, um certo desinteresse. Essa energia alegre e, ao mesmo tempo, curiosa se manteve na próxima faixa, “Winters Love”. Mas foi perceptível um arrefecimento quando chegou o meio do disco com faixas mais soturnas e menos melódicas, como “Kids On Holiday”, “Sweet Road” e “Visiting Friends”. O pequeno público se dispersou um pouco mais. Alguns indo ao bar comprar mais alguma bebida. Outros se virando para conversar isso ou aquilo. Os celulares iam descendo do ar de volta para os bolsos e bolsas até que não restasse mais nenhum aparelho hasteado. Os aplausos entre as músicas não cessaram, no entanto. Continuaram.

Apesar dos pesares — do pequeno público, da dispersão e dos espaços vazios — um sentimento já emergia: a maioria dos presentes percebeu que ali, naquele palco, o trabalho musical que se desenrolava era de fôlego. Talvez não estivesse suprindo tão bem a expectativa de entretenimento de algumas pessoas. Mas era claro que possuía um conceito forte e também forte determinação artística. Essa sensação foi reforçada com a canção “College, que é uma bela peça vocal de um minuto. Todos ficaram mais silenciosos e se deixaram arrebatar pelo momento “petsoundiano-brianwilsoniano”. Na sequência veio “We Tigers”, uma faixa mais percussiva que retomava um pouco daquela alegria frugal da abertura. E os aplausos entre as músicas continuavam.

As três faixas finais (“Mouth Wooed Her”, “Good Lovin Outside” e “Whaddit I Done Brat”) foram levando o pequeno público, fosse provido de uma ou três cervejas, a manifestações mistas de uma certa descontração dançante ligeiramente ébria tipo “já que estamos aqui” ou a uma dispersão ainda maior. O vazio do lugar e o tamanho do espaço vazio estavam surtindo seus efeitos agora mais que antes.

Logo depois tivemos uma breve comunicação de Avey Tare com o público (se não me engano, Panda Bear nada disse além de “thank you!”), dizendo que ali havia se encerrado a caminhada por todas as músicas de Sung Tongs. Veio, então, um bônus de mais quatro músicas que não reconheci de imediato. Posteriormente soube que se tratavam de duas músicas de um ótimo EP chamado Prospect Hummer (“I Remember Learning How To Dive” e a faixa-título), lançado em 2005; uma ainda não gravada (“Sea Of Light”); e uma outra que está em uma compilação lançada somente em vinil, em 2009 (“Don’t Believe The Pilot”).

Tudo acabou e a pequena plateia rapidamente se pôs para fora do lugar. Em mim ficou a sensação de que uma ótima apresentação perdeu seu potencial. Ou, ainda, teve seus efeitos desvirtuados devido a uma escolha infeliz para o lugar do show.

Sunga Tongs é um álbum com muitas nuances. Cheio de microssons, cheio de camadas de efeitos, vozes, violões, samples. Cheio de onirismo e sutilezas. O lugar grande, com os ecos e ressonâncias indesejadas ocasionadas pelo vazio, só contribuiu para erodir a força de uma apresentação tão bela. Esse tipo de sonoridade pede um lugar mais compacto — em que a imersão seja mais intensa, em que a atenção ao som possa ser maior, em que o som possa ser mais preciso, com mais qualidade e menos volume, a fim de revelar tudo o que pode ser revelado e a fim de cumprir todos os efeitos (sejam eles intencionais ou não). Dessa maneira, som e ambiente adequados contribuiriam muito mais, e melhor, para o afeto do público. Para se ter uma “experiência Animal Collective”.

Voltando um pouco à segunda comunicação de Avey Tare e Panda Bear (se não me engano, houve um “good evening!” lá no início), entre a última faixa de Sung Tongs e as faixas extras (não foi um bis, pois os dois não chegaram a sair do palco): houve um momento de aplausos sinceros e calorosos, como deveria ser. Mas uma alegria não muito cintilante estava no rosto e nos lábios dos dois no palco. Essa alegria moderada talvez fosse o tom correspondente a uma apresentação que, na concepção deles, tenha sido “ok”. Como escrevo esta resenha mais de três meses depois, realmente não me lembro exatamente o que os dois disseram naquele momento final. Mas a reafirmação do motivo do show e do motivo da turnê certamente foi pronunciada: os 15 anos do lançamento de Sung Tongs. Um trabalho importante para eles, sem dúvida. E importante para mim também. Ainda não sei bem quando, nem quantas vezes. Mas sei que irei ouvir Sung Tongs novamente.

Set list: “Tuvin”, “Leaf House”, “Who Could Win a Rabbit”, “The Softest Voice”, “Covered In Frogs”, “Winter’s Love”, “Kids On Holiday”, “Sweet Road”, “Visiting Friends”, “College”, “We Tigers”. “Mouth Wooed Her”,  “Good Lovin Outside”, “Whaddit I Done”, “Prospect Hunter”, “Sea Of Light”, “Don’t Believe The Pilot” e “I Remember Learning How To Dive”.

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Clipe: Anna Calvi – Don’t Beat The Girl Out Of My Boy

Artista: Anna Calvi

Música: Don’t Beat The Girl Out Of My Boy

Álbum: Hunter (2018)

Por que assistir: No começo da década, essa inglesa de descendência italiana e descoberta por Brian Eno provocou furor na crítica com o lançamento de seus dois primeiros álbuns. Sempre vestida de vermelho, preto e branco, trafegando entre elementos visuais e sonoros do gótico e do flamenco, Anna Calvi fez meio mundo musical se arrepiar ao soltar seu vozeirão e cantar versos de sentidos abertos sobre mulheres enigmáticas. Logo caiu no gosto do circuito da moda europeia mais ligada ao rock alternativo e passou a fazer trilhas sonoras ao vivo de desfiles da Burberry, além de circular no net set mais descolado do universo, sempre ao lado de belas modelos e atrizes do cinema. Agora ela se prepara para lançar o terceiro álbum da carreira. Produzido pelo experiente e cultuado Nick Launay (Nick Cave & The Bad Seeds, Grinderman, David Byrne, Yeah Yeah Yeahs, Arcade Fire, PiL, Killing Joke, Black Rebel Motorcycle Club, Supergrass, Lou Reed, Kate Bush, Eric Clapton) Hunter sai no dia 31 de agosto pelo selo Domino – uma das potências do indie rock britânico – com o propósito de marcar a fluidez como a bandeira principal de Calvi na atualidade. Ao lançar o primeiro clipe do disco – da poderosa faixa “Don’t Beat The Girl Out Of My Boy”, desde já um dos singles do ano – a cantora e compositora vem jogando claro a respeito de sua insatisfação em se limitar a gêneros sexuais (seja na identidade ou na orientação) ou mesmo ficar presa a rótulos e questões ligadas a um lado só da vida. “Esta é uma canção sobre o desafio de ser feliz. É sobre ser livre para se identificar da maneira que você quiser, independentemente de amarras e restrições da sociedade”, declarou ela no início deste mês de junho. A coreografia, marcada por uma dramaticidade sombria e assinada pelo inglês Aaron Sillis (que já criou para Justin Bieber, Rihanna, Katy Perry, Kylie Minogue e FKA twigs, além de fazer trabalhos para marcas como Hermes, Calvin Klein, Lacoste, Nike e Issey Miyake), Anna canta a música enquanto se esfrega em corpos masculinos e femininos, alguns deles altamente marcados pela androginia.

Texto por Abonico R. Smith