Music

Gal Costa

Oito motivos que confirmam a suprema importância da cantora na história da música popular brasileira das últimas décadas

Texto por Abonico Smith

Fotos: Reprodução/Divulgação 

O país todo foi pego de surpresa com a notícia da morte de Maria da Graça Costa Penna Burgos na manhã desta quarta-feira, 9 de novembro. Gal Costa faleceu aos 77 anos, em sua casa, na cidade de São Paulo. A causa não foi revelada pela sua assessoria, mas sabe-se que a cantora estava se recuperando de uma recente cirurgia para a retirada de um nódulo na fossa nasal direita. Por conta disso, cancelara seus compromissos oficiais neste mês, como uma passagem pela Europa com a turnê As Várias Pontas de uma Estrela (na qual relembrava grandes sucessos da MPB dos anos 1980) e a participação no festival Primavera Sound São Paulo, realizado no último final de semana.

A voz tamanha de Gal Costa fazia muita gente creditar a ela a condição de maior cantora do Brasil. Nascida em 26 de setembro de 1945, ela estreou nos palcos aos 18 anos de idade, ainda em Salvador. O espetáculo, chamado Nós, Por Exemplo, era formado por jovens músicos locais que tinham a intenção de renovar a música popular brasileira, ainda fincada nos pilares bossanovísticos de alguns anos atrás. Além de assinarem a direção artística, Gilberto Gil e Caetano Veloso também participavam do elenco. A turma ainda contava com Maria Bethânia, Tom Zé e Carlos Lyra (que propunha estabelecer uma conexão entre canções de Milton Nascimento e a obra gravada por ela). Já transitando no eixo Rio-São Paulo, anos depois, fez parte da Tropicália, movimento que a levou a iniciar a carreira fonográfica. Deixou mais de 40 discos gravados, entre produções inéditas de estúdio e registros ao vivo.

Em homenagem a Gal, o Mondo Bacana destaca oito motivos de sua suma importância na história da música em verde e amarelo das últimas seis décadas.

Resistência tropicalista

Quando Gil e Caetano optaram por deixar o país para continuarem vivos e produzindo no exílio europeu naquele comecinho de 1969, coube a Gal liderar a resistência da Tropicália em solo brasileiro. Neste ano lançou seu primeiro álbum de estúdio de fato (antes, gravara um dividido com Caetano), considerado um dos mais importantes trabalhos da música popular brasileira. Gal seguiu a cartilha dos amigos e achou o ponto de fusão exato entre as sonoridades brasileiras (bossa nova, xaxado) e vertentes que rolavam solto no eixo anglo-americano (psicodelismo, soul). Com a direção assinada pelo maestro Rogério Duprat e nomes como Lanny Gordin e Jards Macalé na banda de apoio. Além de releituras personalíssimas de “Sebastiana” (Jackson do Pandeiro), “Namorinho de Portão” (Tom Zé), “Se Você Pensa” (Roberto e Erasmo Carlos) e “Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim)” (Jorge Ben). São deste disco outros três clássicos supremos da Tropicália, todos compostos por Caetano. “Baby”, “Não Identificado” e “Divino, Maravilhoso”. O último, também assinado por Gil, transformou-se em hino da resistência aos anos de chumbo pós-AI-5. Suas estrofes alertavam para a mão pesada do regime militar no Brasil, enquanto o refrão decretava “É Preciso estar atento e forte/Não temos tempo de temer a morte”. Por isso, a composição é celebrada até hoje, mais de meio século depois de estremecer as estruturas da quarta edição do Festival da Record, realizada em 1968.

Fa-Tal – Gal a Todo Vapor

Álbum duplo lançado em 1971, o segundo de toda a história da música brasileira. Com pouco mais de uma hora de duração, traz o registro, na íntegra e com direito a erros e improvisos, de uma noite de série de concertos realizada em dez semanas no Teatro Tereza Rachel no Rio de Janeiro. Sob a batuta criativa do poeta Waly Salomão, então com apenas 28 anos e um dos principais nomes daquele período da contracultura brasileira, Gal tinha a companhia de uma banda de bambas como Jorginho Gomes (irmão de Pepeu e também integrante dos Novos Baianos) na bateria, Novelli no baixo e Lanny Gordin na guitarra e assinando os arranjos. Lanny, então com apenas 20 anos de idade, já demonstrava ser um monstro nas seis cordas, o que se prova com toda a quebradeira jazzy deste disco. Na primeira parte do concerto, Gal apresenta-se sozinha ao violão, sentada de pernas abertas, mesclando sambas tradicionais de Ismael Silva e Geraldo Pereira com obras de Caetano (“Como Dois e Dois”, “Coração Vagabundo), Roberto e Erasmo (“Sua Estupidez”, então recém-lançada por ela em compacto duplo) e um trecho de Jorge Ben (“Charles Anjo 45”). Com a entrada do trio na segunda e última parte (com direito a mais um convidado na percussão), Gal solta o vozeirão ao fazer uma polaróide da poesia marginal carioca daquela época. Apresenta ao público uma canção de amor que o então desconhecido Luiz Melodia fez inspirado por um travesti (“Pérola Negra”); traça um paralelo metafórico entre drogas e ditadura militar em duas parcerias de Waly com Jards Macalé (“Vapor Barato”, também presente naquele mesmo compacto, e “Mal Secreto); homenageia a urbanidade fora-do-sítio dos Novos Baianos em “Dê um Rolê”) e faz um passeio pelo Nordeste com o frevo “Samba, Suor e Cerveja” (de Caetano), a toada sertaneja “Assum Preto” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira). Somando a tudo isso vem uma nova versão elétrica e mais pesada de “Como Dois e Dois”, mais Waly e Jards (agora separados, com “Luz do Sol” e “Hotel das Estrelas”) e uma vinheta com “Maria Bethânia” (homenagem à amiga, outra composta pelo irmão dela) e inserções de canções de domínio público (“Gigoia”, “Bota a Mão nas Cadeiras”). Com todo esse repertório incendiário e um figurino ousado (cabelos longos ondulados, batom vermelho e roupa hippie) à frente de um palco com cenografia avermelhada, Gal exorcizou como nunca havia feito sua persona política, desafiando a ditadura e reunindo a cada noite, naquela plateia de apenas 600 pessoas, um pequeno recorte de toda a resistência poético-comportamental do Rio de Janeiro, que logo depois se espalharia por outras capitais brasileiras com outras minitemporadas fervorosas do mesmo espetáculo. A efervescência ainda se estendeu a comentários bastante empolgados de uma imprensa musical estupefata com todo aquele furacão sonoro e visual. Resultado: o registro nu e cru do ápice do desbunde brasileiro contra a ditadura.

Ousadia e liberdade

Durante toda a sua carreira Gal serviu de inspiração para meninas e mulheres, foi sinônimo de liberdade e ousadia, tanto nos figurinos e performances quanto nas atitudes de vida. Gal irritou a ditadura militar com as fotos da capa do álbum Índia (1973), seu sexto álbum, produzido por Gil. Ela estava de tanga vermelha e com uma saia de palha indígena caindo pelas coxas. A fotografia, estendida para a contracapa, revelava ainda os seios desnudos, apenas cobertos por colares. A Censura Federal, sempre burra e estúpida, detestou a personificação de uma índia seminua (num tempo em que revistas com Status e Playboy ainda não existiam por aqui) e decretou que o disco só poderia ser vendido nas lojas envolto em um saco plástico. Era “imoral”, acima de tudo. Em 1985, aos 40 anos, posou nua para a Status. Em 1994, na turnê chamada O Sorriso do Gato de Alice, dirigida por Gerald Thomas, provocou frenesi no público carioca ao cantar a icônica “Brasil”, de Cazuza, com todos os botões da camisa abertos. Quando levantava o braço no brado final da música, com o nome do nosso país, seus seios apareciam para o público. Nunca defendeu bandeiras sobre a sexualidade ou o feminismo, tampouco gostava de abordar os assuntos em entrevistas. Teve relacionamentos com outras artistas, como a atriz Lucia Veríssimo e a cantora Marina Lima. Estava casada com a empresária Wilma Petrillo, sua produtora, desde 1998. Gal e Wilma eram mãe de Gabriel, adotado pela cantora aos 60 anos de idade – ela sempre desejara ser mãe mas problemas de saúde a impediram de realizar qualquer gestação.

Voz feminina de Caetano

Quer uma tarefa árdua? Pegue a discografia de Gal Costa e conte quantas canções ela gravou que foram compostas por Caetano Veloso, então. Desde Domingo (1967) até A Pele do Futuro Ao Vivo (2019) a lista é extensa – tem até um disco de estúdio, Recanto (2011), cujo repertório é TODO assinado por ele, além da direção musical. A química artística entre os dois era enorme e até se refletia na relação cotidiana: a jornalista Dedé Gadelha, primeira esposa de Caetano, era amiga de infância de Gal. Só para citar três dezenas de nomes de obras dele que receberam fino tratamento na voz dela: “Divino, Maravilhoso”, “Não Identificado”, “Baby”, “London, London”, “Samba, Suor e Cerveja”, “Como Dois e Dois”, “A Rã”, “Um Índio”, “São João, Xangô Menino”, “Os Mais Doces Bárbaros”, “Flor do Cerrado”, “Tigresa”, “Caras e Bocas”, “Força Estranha”, “Paula e Bebeto”, “Meu Bem, Meu Mal”, “Dom de Iludir”, “Luz do Sol”, “Vaca Profana”, “Tenda”, “Tropicália”, “Odara”, “O Quereres”, “Língua”, “Cajuína”, “Milagres do Povo”, “O Ciúme”, “Sertão”, “Desde que o Samba é Samba” e “Recanto Escuro”.

Doces Bárbaros

Quando estabeleceram as diretrizes para a Tropicália, em 1967, Caetano e Gil tinham como intenção primeira dar uma bela sacudida na música brasileira. Em 1976, para celebrar os dez anos de carreira artística individuais, chamaram Gal Costa e Maria Bethânia para ser criado o supergrupo Doces Bárbaros. A intenção, de novo, era dar uma nova sacudida da MPB, voltando a misturar o regionalismo com influências pontuais vindas do exterior: desta vez a tônica não era bem a sonoridade psicodélica, mas mais a estética hippie, reproduzida nos figurinos e cenografia do palco. Tudo isso para dar um choque na pauta de costumes do Brasil ainda mergulhado no regime militar ditatorial (era o ano em que o general Ernesto Geisel fingia estar começando a distender a mão de chumbo), responsável pela prisão dos dois baianos e o consequente exílio de pouco mais de um ano na Europa. Um repertório foi criado somente para o espetáculo, ensaiado em apenas quinze dias. No set list estavam canções como “O Seu Amor” (um recado nas entrelinhas subvertendo o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”, mas usando os verbos em nome do amor e da liberdade), “Um Índio”, “São João, Xangô Menino”, “Esotérico”, “Chuck Berry Fields Forever”. Ao lado de sete músicos de apoio, o quarteto rodaria em turnê que passaria por várias capitais brasileiras e ainda renderia um álbum duplo gravado durante os concertos. De quebra, o cineasta iniciante Jom Tob Azulay, recém-chegado de Los Angeles, onde trabalhara como diplomata e fizera um curso de cinema, comandaria um documentário com registros de viagens, shows, entrevistas para a imprensa e cenas de bastidores. Depois da estreia em São Paulo, porém, um imprevisto mudou os rumos da trupe: a polícia – que, assim como o governo, estava “acompanhando de perto” o projeto – deu uma batida no hotel onde estavam hospedados os músicos e prendeu Gil (de novo!) e o baterista Chiquinho sob a acusação de porte de maconha. Depois de algumas semanas de esfriamento da turnê e cancelamento de datas, o grupo voltou aos palcos no Rio (no extinto Canecão, tradicional casa de espetáculos da zona sul carioca) e o documentário acabou saindo. Nele se revela todo o furacão provocado pelos quatro juntos no palco, sobretudo na química do afiado jogral ou nos passos e improvisos das performances de dança. Gal e Bethânia, então, são soberbas em suas interpretações gestuais, corporais, visuais e vocais.

Ícone LGBT

Gal, apesar de não expor isso publicamente em atitudes e entrevistas, relacionava-se com mulheres. Mas não foi pela sua orientação sexual que acabou se transformando, ao longo dos anos 1970 e 1980, em um dos maiores ícones gay do país. Desde que a baiana se estabeleceu como um dos pilares da música brasileira, com sua voz encantadora (e que de vez em quando alcançava uns agudos de arrepiar), figurino ousado (quando não colorido e cheio de apetrechos), os negros cabelos volumosos e performances cênicas arrebatadoras, também passou a ser homenageada por trans, travestis e drags em shows de dublagens nas boates de norte a sul. Personificar Gal Costa sob as luzes de um ribalta – por menor e mais escondida no mapa que ela seja e esteja – não significa somente um ato de libertação. É também uma sensação extrema de empoderamento, apesar da efemeridade. Empoderamento sexual e artístico, diga-se de passagem.

Rainha das trilhas de novela

Não foi só a carreira de Gal e dos outros baianos tropicalistas (ou quase isso, no caso de Bethânia) que se consolidou na música brasileira dos anos 1970 para cá. Outra presença significativa no segmento foram as trilhas sonoras das novelas da Rede Globo. Até a transformação do consumo musical no mercado fonográfico virar praticamente digital, na década passada, eram justamente as coletâneas dos folhetins globais quem mandavam e desmandavam nas vendagens dos formatos físicos (LP ou CD). E mais: ter uma faixa incluída em um destes discos (sobretudo os das novelas do horário nobre – antigamente às oito e agora ali pelas nove da noite) era para um artista daqui praticamente o mesmo que ter um bilhete premiado na loteria. São muitas dezenas as vezes em que uma soundtrack televisiva contou com a voz de Gal Costa. Teve canção que já apareceu em duas ou até três vezes em novelas distintas. E ela também proporcionou o embalo musical de aberturas inesquecíveis de tramas não menos inesquecíveis. Só para citar duas delas. “Modinha Para Gabriela” foi composta Dorival Caymmi sob encomenda para Gabriela, novela da emissora veiculada na faixa das 22 horas entre abril e outubro de 1975. A história de Walter George Durst se baseava no romance literário Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado e, por isso, a letra descreve o eterno espírito livre da protagonista. A Globo chegou a sugerir que Gal interpretasse o papel principal, mas ela recusou a proposta exatamente por não se achar atriz, apenas cantora. Coube então a Sonia Braga personificar Gabriela e criar um dos mais icônicos personagens dos telefolhetins nacionais. A outra vez em que os créditos de abertura foram exibidos ao som de uma Gal Costa contundente e afiada foi em Vale Tudo, de maio de 1988 à primeira semana de 1989. Até hoje cultuada e exibida em reprises na Globo e no Canal Viva, a novela escrita por Gilberto Braga era centrada na relação de desprezo que uma filha má e alpinista social (Maria de Fátima, papel de Glória Pires) mantém pela mãe, uma modesta senhora de vida simples e vendedora de sanduíches na praia (Raquel, vivda por Regina Duarte). Entre as pessoas em órbita dela estava a multimilionária Odete Roitman (Beatriz Segall), assassinada por um tiro disparado por um misterioso nome revelado apenas no último capítulo (e que embalou o país todo na pergunta sobre quem a havia matado). Ao expor as mazelas da luta de classes no país e ainda escancarar barbaridades proporcionadas por atitudes do povo, Vale Tudo esfregou na cara do Brasil os podres do próprio Brasil, isso trinta anos antes da chegada de um certo nome à presidência da república (atenção para o quase spoiler: repare bem em dois nomes centrais do elenco e o quanto eles significam ontem e hoje para as nossas dramaturgia e política!). Para completar, a música-tema era mais um tapa na cara da bandeira nas cores verde e amarela: o hino “Brasil”, composto e gravado originalmente por Cazuza, que bradava contra o fedor da burguesia. Entretanto, o autor – que havia acabado de lançar um contundente álbum chamado Ideologia –  ainda estava restrito ao nicho da zona sul carioca e dos intelectuais nacionais. A convite da Globo, Gal regravou a canção para a novela, tornando-a, assim, popular de norte a sul do país e levando-a para gente de todas as classes sociais e econômicas.

Voz suprema de todos os gêneros

Cantar sempre foi um dom natural para Gal Costa. Suas próprias colegas de profissão, gente respeitada da música, não escondem tanto a admiração quanto a estupefação ao ouvi-la soltar o gogó ao microfone. Não apenas por atingir os agudos inacreditáveis como mostrava em “Meu Nome é Gal”, mas sobretudo pela leveza com a qual levava toda e qualquer canção, sem qualquer dificuldade durante o exercício em cena. Toda essa fluidez ainda se estendia às escolhas de repertório de Gal. Como em um passe encantado de mágica, a voz tamanha dela se encaixava em todo e qualquer gênero que escolhesse. Do rock ao jazz, do frevo à balada romântica, da marchinha carnavalesca ao bolero, da bossa nova ao forró, do samba ao standard do pop norte-americano. Gal passeou por todos estes territórios em sua imensa discografia. Até para o público infantil ela fez algo. Isto foi em 1985, quando foi um dos nomes convidados (ao lado de Xuxa, Pelé, Menudo, Fevers, Lucinha Lins e Carequinha) para participar do primeiro álbum oficial Trem da Alegria. O grupo vocal era formado por três pré-adolescentes: Patricia Marx e Luciano Nassyn (que já haviam realizado juntos, no ano anterior e com a apresentadora Xuxa, o disco da trilha sonora do programa Clube da Criança, exibido pela TV Manchete) mais o recém-chegado Juninho Bill. A Gal coube entoar com os meninos os versos da versão em português da valsa “Lili (Hi Lili Hi Lo)”. Mas ela não foi o único nome externo do Trem da Alegria aqui. Ela carregou consigo seu afilhado Moreno Veloso, filho de Caetano e da amiga de infância Dedé Gadelha, então com 11 anos e em sua estreia no mundo musical.

>> Volte aqui nesta segunda, quando será incluído o oitavo motivo desta matéria.

Music

Nando Reis

Cantor e compositor fala sobre a série de concertos que faz pelo Brasil em janeiro ao lado da Orquestra Petrobrás Sinfônica

nandoreisopes2017_mauriciomeireles

Texto e entrevista por Abonico R. Smith

Foto: Mauricio Meireles/Divulgação

Artista dos mais populares na MPB, Nando Reis começa o ano de 2019 embarcando em um projeto diferente de tudo o que já fizera anteriormente na carreira de quase quatro décadas: roda o Brasil em janeiro para soltar a voz acompanhado por uma orquestra sinfônica. As apresentações estão sendo realizadas em seis capitais entre os dias 11 e 18: Curitiba, Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro (mais informações sobre datas, locais, horários e ingressos você tem aqui).

A “pré-estreia” ocorreu em outubro de 2017, também no Rio. O sucesso do evento único foi tamanho que motivou a extensão do mesmo para uma turnê. Sob a regência do experiente Isaac Karabtchevsky, os 45 músicos da Orquestra Petrobrás Sinfônica acompanham Nando Reis no palco. A abertura é feita com peças instrumentais de Modest Mussorgsky (“Quadros de Uma Exposição: A Grande Porta de Kiev”) e Heitor Villa-Lobos (“Bachiana Nº 4: Prelúdio”) executadas pela OPES. Depois, Nando canta treze canções que compõem uma espécie de best of de sua carreira de cantor e compositor. “All Star”, “Sou Dela”, “Relicário”, “Dois Rios” e “O Segundo Sol” são algumas das obras escolhidas para integrar o repertório.

Por e-mail, Nando concedeu entrevista para o Mondo Bacana, falando sobre esta série de seis concertos.

O rock sempre foi marcado pelo descompromisso com a formalidade. Permite inclusive que um músico, durante um concerto, erre algo na música e queira começar tudo de novo, mesmo quando acompanhado de sua banda. Agora, porém, você estará acompanhado por uma orquestra inteira. Qual a sensação? Fica mais nervoso? Afinal são muitos músicos envolvidos em um arranjo que não pede improviso.

Fiz apenas um show com a OPES e foi justamente pela beleza do resultado que decidimos dar continuidade e fazer essa pequena turnê. A experiência foi magnífica e confirmou aquilo que já imaginava: trata-se de uma relação (no palco) completamente diferente. Sim, fiquei bastante nervoso, mas tive o apoio e contei com a regência segura e gentil do grande maestro Isaac Karabtchevsky. A fusão não permite improviso, mas tem grande espaço para a interpretação. É lá que me viro.

Sua banda de apoio está no palco também?

Não. Todos os músicos são da OPES.

Isaac Karabtchevsky é um conhecido nome da música erudita brasileira que sempre lutou pela popularização da mesma. Como é a química com ele?

Como disse, ele é um homem gentil. É impressionante assistir ali do lado como ele conduz e rege. Uma oportunidade de ouro para aprender e apreciar.

O espetáculo foi apresentado em outubro de 2017 no Rio e agora está em turnê pelo Brasil. Mudou algo neste intervalo ou o que é executado no palco de Curitiba e outras cidades será rigorosamente a mesma coisa da estreia?

Incluímos algumas musicas, tiramos uma que não funcionou na estreia. Mas o repertório será rigorosamente o mesmo nos seis shows. Como você mesmo disse na primeira pergunta, não há espaço para improvisação.

Qual o critério para a seleção do repertório? O que pesou para a escolha destas canções ou a exclusão de outras?

Fui eu quem sugeriu as musicas. Escolhi aquelas que me parecem mais adequadas. E algumas que, nas gravações originais, já tinham arranjos para cordas, todos escritos pelo genial Lincoln Olivetti.

Esta não será a primeira vez que músicas dos Titãs serão executadas com o acompanhamento de cordas. O que diferencia o arranjo de hoje e de duas décadas atrás (fora a ausência dos Titãs, claro!)?

Musicas dos Titãs? São todas minhas. A única, se não me falha a memória, que estava no repertório do Acústico MTV é “Os Cegos do Castelo”.

[Nota do jornalista: A memória do músico não deve estar boa ou então houve algum erro de comunicação anterior. No repertório do espetáculo, informado previamente pela assessoria de imprensa oficial do evento, aparecem três músicas dos Titãs: “Os Cegos do Castelo”, “Marvin” e “Não Vou Me Adaptar”. As duas primeiras ganharam novo arranjo desplugado no projeto audiovisual Acústico MTV, gravado e lançado em 1997. “Os Cegos do Castelo” é, de fato, uma composição somente dele. “Marvin”, uma versão em português para a canção “Patches”, assinada por Nando e Sérgio Britto e gravada antes no álbum homônimo de estreia, em 1984, e no primeiro disco ao vivo do grupo, Go Back, de 1988. Após o sucesso de vendagens da parceria com a extinta MTV Brasil, os Titãs fizeram, em 1998, Volume Dois, espécie de sequência do projeto porém com os novos arranjos desplugados inteiramente captados em estúdio e lançados apenas em CD, sem o formato DVD. Neste álbum está a terceira canção dos Titãs informada como parte integrante do repertório executado ao lado da OPES. “Não Vou Me Adaptar” foi composta por Arnaldo Antunes. Com a saída de Arnaldo, Nando assumiu os vocais e a cantou em Volume Dois e nas turnês posteriores dos Titãs, até também deixar a banda para partir à carreira solo.]

Há a intenção de transformar este concerto em um projeto audiovisual? Afinal, agora, você comanda o seu próprio selo…

Nada definido.

Você tem saudades do tempo de produtor artístico/executivo do Banguela e de ficar ouvindo artistas mais novos ou iniciantes? Ainda costuma fazer isso agora pelas plataformas diversas da internet?

Nenhuma saudade. Nem interesse.

Music

Judas Priest + Alice In Chains + Black Star Riders – ao vivo

Festival mostra em Curitiba que o hard rock e o heavy metal são duas vertentes do rock que sobrevivem do passado de glórias

judaspriest2018cwb

Judas Priest

Texto por Abonico R. Smith

Fotos de Priscila Oliveira (CWB Live)

Volta e meia alguém diz por aí que o rock virou coisa de velho. De certa forma isto não deixa de estar correto. Pelo menos em cima do palco. Pelo menos no que depender da dobradinha hard rock/heavy metal. Calcados na mistura de guitarras pesadas construídas com base em riffs cíclicos e refrãos potentes, daqueles que têm o poder de comandar o uníssono de uma multidão em estádios e arenas, esses gêneros andam mostrando que ainda não souberam se renovar muito neste início de século. Poucas bandas de popularidade e representatividade sonora surgiram e os grandes baluartes que solidificaram a fama das vertentes durantes os anos 1970 e 1990 continuam por aí, firmes e fortes, carregando hordas de fãs para vê-los por onde passam. Aliás, com o império do formato MP3, anteriormente em troca de arquivos P2P e já há algum tempo como sucesso de plataformas de streaming, parece que ficaram ainda mais fortes, já que toda música mais antiga está sendo descoberta e consumida como novidade para uma geração que não conhece direito que função tem (ou tinha) um disco de vinil ou a laser. Isso explica o que se viu na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, na noite de 8 de novembro de 2018.

Na nova edição do festival Solid Rock – que reúne bandas de som pesado com a carreira já solidificada – quem era o headliner era o Judas Priest. Quinteto inglês que pode ser considerado o marco de transição entre o hard rock e o heavy metal, com “somente” quase meio século de carreira. Nos vocais, uma figura lendária do gênero, Rob Halford, já com 67 anos – mesma idade do baixista Ian Hill, o único remanescente da formação original. Antes dos britânicos, os americanos do Alice In Chains, banda formada há 31 anos na cidade de Seattle e um dos nomes responsáveis pelo hype e torno da cidade e do rótulo grunge no início dos anos 1990. Somando os dois já são oito décadas de trajetória.

Quem abriu os trabalhos da noite foi o Black Star Riders, banda relativamente nova – foi formada em 2012, mas que surgiu das quase cinzas do Thin Lizzy, histórica formação de hard rockque deu seus primeiros passos na capital irlandesa Dublin em 1969 e que teoricamente continua em atividade. Um de seus guitarristas, Scott Gorham, entrou para o grupo em 1974 e gravou do quarto ao décimo segundo (e último) álbum do grupo, lançado em 1983, um pouco antes do encerramento das atividades. Em 1996, o Thin Lizzy decidiu voltar de forma não regular, reunindo-se apenas para shows. Dois dos integrantes recrutados nesta nova “fase da banda” (o vocalista Ricky Warwick e o também guitarrista Damon Johnson) montaram o BSR com Gorham quando decidiram não usar mais o nome da antiga banda. Resumindo: quase todo mundo ali nas três bandas já atingiu a quinta dezena na idade e quem ainda não o fez está quase lá. Exceções apenas para os “bebês” Chad Szeliga (baterista do BSR, que soprará 42 velinhas em dezembro) e Richie Faulkner (que completará 39 quando os fogos de artificio anunciarem a chegada do próximo ano).

Com três álbuns lançados entre 2013 e 2017, o BSR pode não usar oficialmente o nome do Thin Lizzy mas se dedica a manter viva a chama da banda irlandesa. Não por acaso tocam alguns covers. Na capital paranaense apareceram no set list megahit “The Boys Are Back In Town” e “Jailbreak”, ambas faixas do álbum Jailbreak, de 1976, que ganhou disco de ouro pelas vendagens nos mercados do Reino Unido, Estados Unidos e Canadá. De resto, tocam músicas bem recentes que poderiam estar muito bem no repertório de outrora, com melodias fortes, pitadas de blues e arranjos que desfilam aquele hard rock clássico setentista.

aliceinchains2018cwb

Alice In Chains

O Alice In Chains subiu ao palco determinado a privilegiar a primeira fase da banda, quando o cantor ainda era o doidão Layne Staley, morto por overdose em 2002. Das quinze músicas do set list, dez foram gravadas pela banda entre 1990 e 1995. Somente cinco representam o período da retomada da carreira, quando o guitarrista, compositor e covocalista Jerry Cantrell encontrou um vocalista à altura (William DuVall, vindo do circuito do hardcore norte-americano) e pôs um fim ao hiato de seis anos da banda, que durou entre 1996 e 2002. Apenas duas vieram representando o disco mais recente, Rainier Frog, lançado em agosto último. Grande parte do público nem estava aí se DuVall é mais técnico no gogó e também um bom instrumentista. Esses se esbaldaram nos velhos hits como “Man In The Box”, “Them Bones, “Down In A Hole” e “Would?”.  O grunge parecia uma revolução feita aqui e agora na Pedreira.

Já o Judas Priest foi ainda mais além no mergulho rumo ao passado. Quatro faixas do repertório vieram do novo álbum Firepower (lançado em março último) e as outras quinze do período entre 1976 e 1990, quando a banda abriu os caminhos do heavy metal para toda uma grande e nova geração britânica (Iron Maiden, Venom, Motörhead, Saxon, Def Leppard), americana (Metallica, Slayer, Exodus, Anthrax, Pantera, Testament) e de outros países como Brasil e Alemanha. A nova dupla de guitarristas mostrou não temer o peso de substituir lendas como KK Downing (que optou por deixar a formação em 2011) e Glenn Tipton (afastado por sofrer do Mal de Parkinson). O “protagonista” dos solos William Faulkner, apesar da “pouca” idade, apredneu direitinho com seus deuses e ídolos do instrumento. Já Andy Snead, produtor de Firepower, revela-se totalmente integrado à turma na atual turnê. Rob Halford, por sua vez, compensa com os fatos de ter carisma e cantar muito a falta de uma performance mais incisiva. Também volta e meia troca de figurinos a la Katy Perry (abusa de muitas capas e casacos, indo do prateado de excessivo brilho ao couro preto sadomasô, passando pelo inevitável jeans) e guarda para o final a triunfante entrada no palco ao som do ronco de uma moto Harley Davidson.

Os clássicos matadores “Breaking The Law” e “Living After Midnight” foram estrategicamente guardados para encarrar o set em uma noite que provou que gêneros como hard rocke heavy metal parecem estar ficando que nem vinho: quanto mais antigos, melhor. O que também pode significar uma grande maldição para os próximos anos, quando toda essa turma de pioneiros e grandes heróis não estiverem mais em disponíveis.

Set list Black Star Riders: “All Hell Breaks Loose”, “Jailbreak”, “Finest Hour”, “Heavy Fire”, “The Killer Instinct”, “Before The War”, “When The Night Comes In”, “The Boys Are Back In Town”, “Kingdom Of The Lost” e “Bound For Glory”.

Set list Alice In Chains: “Check My Brain”, “Again”, “Never Fade”, “Them Bones”, “Dam That River”, “Hollow”, “Down In a Hole”, “No Excuses”, “We Die Young”, “Stone”, “Angry Chair”, “Man In The Box”, “The One You Know”, “Would?” e “Rooster”.

Set list Judas Priest: “Firepower”, “Running Wild”, “Grinder”, “Sinner”, “The Ripper”, “Lightning Strike”, “Desert Plains”, “No Surrender”, “Turbo Lover”, “The Green Manalishi (With The Two Prong Crown)”, “Night Comes Down”, “Rising From Ruins”, “Freewheel Burning”, “You’ve Got Another Thing Comin’”, “Hell Bent For Leather”, “Painkiller”, “Electric Eye”, “Breaking The Law” e “Living After Midnight”.