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Max & Iggor Cavalera – ao vivo

Espinha dorsal da formação clássica do Sepultura volta a Curitiba para tocar faixas dos dois álbuns que levaram a banda ao reconhecimento mundial

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Texto por Guilherme Motta

Foto: Renata Kalkmann/Divulgação

Quantos de vocês estavam naquele show debaixo de chuva torrencial e raios do Sepultura em 1994 na Pedreira Paulo Leminski?

Bom, eu não estava, infelizmente. Mas grande parte das pessoas presentes no último 13 de junho (quinta) na Usina Cinco, na capital paranaense, com certeza estavam lá 25 anos atrás. Desde aquele dia, os curitibanos nunca mais viram o Sepultura com a formação “clássica”, que contava com Max (vocais e guitarra) e Iggor Cavalera (bateria), ao lado de Paulo Jr (Baixo) e Andreas Kisser (guitarra) – pois Max deixaria o grupo cerca de pouco tempo depois.

Passado um quarto de século, os irmãos subiram juntos ao palco em Curitiba, para tocar especialmente os dois históricos albuns de thrash metal que levaram o Sepultura ao reconhecimento mundial: Beneath The Remains (1989) e Arise (1991). Particularmente falando, eu achei que nunca na minha vida ouviria essas músicas ao vivo, muito menos sendo executadas por esses dois juntos – vale ressaltar que em 2015 Max e Iggor vieram à cidade mas com o repertório do Cavalera Conspiracy.

O show começou relativamente cedo e sem muito atraso. Por volta das 22h15 o quarteto já estava despejando riffs nos que ali se encontravam. O set list foi aberto com “Beneath the Remains” e “Inner Self”. Assim que Marc Rizzo – também integrante do Soulfly e do Cavalera Conspiracy – tocou o primeiro acorde, formou-se imediatamente um enorme circle pit em meio aos espectadores. E ssim se seguiu até o último chiado do amplificador.

Foram aproximadamente duas horas de show comandadas pela espinha dorsal do velho Sepultura. Ainda em plena química e forma, mesmo sem ter tocado muitas destas músicas por muito tempo juntos. E quem estava esperando ouvir apenas os dois albuns que intitulam a turnê se enganou. As lendas tocaram ainda uns covers: “War Pigs” (Black Sabbath), “Ace Of Spades” e “Orgasmatron (Motörhead), “Hear Nothing See Nothing Say Nothing” (Discharge) e mais a sempre surpreendente “Polícia” (esta, dos Titãs, assim como “Orgasmatron”, regravada pelo Sepultura). Tocaram também algumas faixass de outros discos, como “Refuse/Resist”, do album Chaos A.D. (1993), e a clássica “Roots Bloody Roots”, de Roots (1996). Para os fãs bem mais antigos, também “Troops of Doom” do disco de estreia do Sepultura, Morbid Visions, lançado em 1986.

Com toda a certeza, esta foi a noite mais emocionante dos últimos anos para a comunidade headbanger curitibana, os quatro integrantes estavam visivelmente muito empolgados e satisfeitos com o que viram e sentiram naquela noite. Max, Iggor, Marc e o baixista Mike Leon (também membro do Soulfly) deram aula de como fazer uma performance de metal da melhor qualidade. Claro que nós, curitibanos, como sempre, demos outro show de como apreciar um espetáculo de música extrema.

Set list: “Beneath The Remains”, “Inner Self”, “Stronger Than Hate”, “Mass Hypnosis”, “Slaves Of Pain”, “Primitive Future”, “Arise”, “Dead Embryonic Cells”, “Desperate Cry”, “Altered State/War Pigs”, “Infected Voice”, “Orgasmatron” e “Ace Of Spades”. Bis 1: “Troops Of Doom”, “Refuse/Resist” e “Polícia”. Bis 2: “Roots Bloody Roots”, “Hear Nothing See Nothing Say Nothing” e “Beneath The Remains/Arise/Dead Embryonic Cells”).

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Aurora – ao vivo

Norueguesa leva fãs ao delírio e até celebra casamento durante segunda passagem pela capital paranaense

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Texto e foto por Abonico R. Smith

Aurora Aksnes é uma força da natureza. Já começa pelo prenome com palavra de origem latina, que, de acordo com a mitologia grega, remete à deusa que personificava o amanhecer, filha de dois titãs e irmã das divindades solar e lunar. Com 1,6 m de altura, pele alva nórdica e o cabelo naturalmente platinado com um corte long bobacompanhado de um tufo comprido de cada lado, deixado para fazer tranças casualmente, ela não para um segundo no palco. Movimenta-se de um lado para outro em coreografias que misturam o ritmo de sua música pop com passos de dança resgatados de rituais ancestrais. Tudo isso sem abalar por um segundo sequer o poderio intacto de seu gogó, agraciado com uma voz doce e suave para falar e timbre de soprano com larga extensão para alcançar várias oitavas.

O segredo para isso? Alimentação saudável, sempre com muitas frutas. E água, bastante água. Pelo menos foi o que ela entregou logo depois de começar o show do último dia 22 de maio, em Curitiba. “Só hoje já mijei nove vezes”, emendou de cara, sem qualquer constrangimento a norueguesa que não se depila e também não usa esmaltes nas unhas, ama cantar e dançar descalça e ainda faz de suas letras um belo conjunto de metáforas, sentimentos e sensações que de algum modo se referem à natureza. Composições estas que formam uma poderosa trilogia fonográfica lançada de 2016 para cá – e que montaram o repertório da atual turnê, que teve cinco datas no Brasil.

O concerto na capital paranaense foi a quarta desta cinco escalas. Enchendo a plateia da Ópera de Arame, muitos jovens entre a adolescência e os vinte e poucos anos, que preenchiam uma paleta de estilos comungando hipsters, queers, góticos suaves e uma ou outra pessoa meio perdida visualmente. No palco, pela segunda vez na cidade, Aurora agora trazia uma banda mais completa (guitarrista, dois tecladistas e baterista, mais as tradicionais bases pré-gravadas com percussões, orquestrações e mais camadas delineadas por sintetizadores) e até mesmo uns quinze minutos de uma atração de abertura – na verdade, a morena tecladista e backing vocal que a acompanha, Silja Sol, em versão mais cutee solta no palco para tocar guitarra como o único acompanhamento e conversar com a audiência sobre a origem de suas seis canções solo apresentadas de modo simples, básico e compacto.

Depois da impactante abertura com “Churchyard”, que começa a capella e embala para um arranjo bastante percussivo, o que se viu foi um festival de uníssono vindo da plateia. Fãs – maioria feminina – cantavam sem parar verso atrás de verso. Mesmo já tendo feito outros shows no país antes, Aurora parecia não acreditar no estava acontecendo. Comunicava-se firmemente com a plateia, sempre ressaltando ao microfone estar tomada por grande emoção – o que nem precisava, pois via-se de forma escancarada em seus olhos. Chegou até atender ao pedido de um cartaz mostrado por um jovem casal sentado na primeira fila, mais para a lateral do palco, e celebrou o casamento espiritual deles – claro que sob uma chuva de aplausos, urros e gritos que ecoavam por toda a arena.

Natural que os grandes hits proporcionassem maior frenesi na plateia. Como “Warrior”, “I Went To Far” e “Runaway”, do primeiro álbum (All My Demons Greeting As A Friend, de 2016). Ou faixas do EP Infections Of a Different Kind – Step 1, de 2018 e lançado apenas digitalmente, como “All Is Soft Inside”, “Forgotten Love”). Entretanto, houve ainda surpresas. Como “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, cantada em dueto por Aurora e Silja somente ao acompanhamento da guitarra de Fredrik Vogsborg (mais conhecido pelo públicoindiepelo trabalho com a banda Casiokids, formada em 2005 e com três álbuns gravados entre 2007 e 2011), mais usada como um baixo ressaltando a nota tônica. Ou ainda os singles do novo disco, o novo EP A Different Kind Of Human – Step 2, que chegará em junho apenas às plataformas de streaming e download, mas já com os respectivos clipes disponibilizados na internet. “Animal”, “The River”, “In Bottles” e, especialmente, “The Seed” tiveram recepção tão efusiva quanto os outros sucessos um pouco mais antigos.

As duas faixas programadas para o bis, ambas do EP do ano passado, fecharam a noite em grande estilo. Primeiro veio a balada “Infections”, preparando o terreno das emoções para a explosão de “Queendom”, de cunho explicitamente empoderador, que faz questão de celebrar a força feminina e um mundo mais justo diante de uma sociedade machista e patriarcal em ruínas. Ao final dela, Aurora abriu uma bandeira LGBTQIA+ e deixou em delírio a plateia. Após a saída dela, muitos não continham o choro e a excitação por estar diante de sua deusa de quase 23 anos de idade e que ainda tem um excelente futuro musical pela frente. Tudo de forma bem natural e espontânea. Mesmo fazendo música pop.

Set List: “Churchyard”, “Warrior”, “Home”, “All Is Soft Inside”, “Soft Universe”, “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, “Runaway”, “In Bottles”, “The Seed”, “It Happened Quiet”, “Animal”, “I Went Too Far”, “The River”, “Forgotten Love” e “Running With The Wolves”. Bis: “Infections Of A Different Kind” e “Queendom”.

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Érika Martins

Cantora fala sobre os diversos projetos, sua entrada nos Autoramas, a carreira solo, o passado na Penélope e o que ainda está por vir

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Entrevista por Fábio Soares

Fotos: Léo de Azevedo/Divulgação (Érika) e Divulgação (Autoramas)

Ela é um dos mais famosos rostos femininos do rock brasileiro e vive o melhor momento de sua longeva carreira de pouco mais de duas décadas, iniciada com a banda Penélope e seguida de período solo. Há quatro anos, integra (ao lado do marido Gabriel Thomaz, o baixista Jairo Fajer e o baterista Fábio Lima) o “conglomerado” Autoramas, a mais bem sucedida banda independente brasileira, que no próximo mês de maio viajará à Europa para a sua décima sexta turnê internacional. Não sem antes finalmente tocar no festival Lollapalooza, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Ou depois subir ao palco Sunset, no próximo Rock In Rio, para ser uma das convidadas especiais dos Titãs.

Antes de uma apresentação na capital paulista, Érika Martins recebeu o MONDO BACANA em seu camarim para uma entrevista. Na pauta, a música como filosofia de vida, a objetificação da mulher no rock e projetos que estão por vir.

No início de sua carreira, nos anos 1990, você teve contato com dois grandes produtores que, infelizmente, não estão mais entre nós: Tom Capone e Carlos Eduardo Miranda. Atualmente, essa figura do superprodutor anda ausente no cenário por uma série de fatores. Na sua opinião, a presença de um grande nome assinando a direção artística de um trabalho ainda é preponderante ou a possibilidade de lançar um trabalho de forma independente não a torna tão necessária assim?

Acho que isso independe da época em que vivemos e que cada década teve o seu grande nome em produções musicais. Não que isso também seja algo primordial na gravação de um disco. No meu caso, tive a sorte e o privilégio de trabalhar com esses dois grandes nomes. Na época das gravações do primeiro disco da Penélope, Mi Casa, Su Casa, a Sony Music nos disponibilizou um grande orçamento para realizá-lo. Para se ter uma ideia, a verba nos possibilitou que o grande Eumir Deodato fizesse os arranjos de cordas do disco. Enfim, tínhamos infinitas possibilidades ao nosso alcance.

Como chegaram ao Tom Capone?

Por indicação do Marcio Melo, artista baiano que tinha, nos anos 1980, uma banda com a Lan Lanh, ex-percussionista de Cássia Eller, e com a Érika Nande, que foi nossa baixista na Penélope. Junto com ele, veio o Antoine Midani, filho do “messias” André Midani, que eu já admirava por seus trabalhos de arranjos de voz com a Marisa Monte.

Imaginei que você tivesse conhecido o Tom Capone através da Constança [Scofield, tecladista da Banda Penélope e viúva do produtor]…

Não! Aí é que vem a história que é sensacional: nosso primeiro encontro com o Tom foi no estúdio para a pré-produção do disco. Quando os dois trocaram olhares, eu já senti a faísca! Se apaixonaram! Assim, Mi Casa, Su Casa foi gravado em meio a uma bolha de amor maravilhosa!

Então você é testemunha de que amores à primeira vista realmente existem!

Sim! Presenciei! E a Constança sempre foi mais séria e cética… Quando a vi apaixonada daquele jeito perguntei a mim mesma: “o que tá acontecendo com minha amiga?” (risos)

E como você conheceu o Miranda?

Com o sucesso da repercussão do Mi Casa… fui convidada para gravar uma participação no disco Só No Forévis, dos Raimundos [Érika participou da faixa “A Mais Pedida”, grande sucesso do grupo e que foi amplamente executada nas rádios]. Recebi o convite em Salvador, sem ter a mínima ideia de como seria minha participação. Fui ao Rio, cheguei no estúdio para gravar e dou de cara com quem? O Miranda! Que já era ídolo de todos nós havia muito tempo. Pra você ter uma ideia, em 1995 saí de Salvador e vim a São Paulo distribuir algumas fitas-demo da Penélope e uma das pessoas que eu já tinha em mente para entregar era o Miranda. Ele foi muito receptivo e disse “pô, já estava esperando esse material faz tempo!”. Quase cinco anos depois estava eu ali, em estúdio com ele. Apesar de ter passado três meses com o Tom na gravação do Mi Casa…, eu era muito jovem e ainda muito verde em gravações. Mas aí veio o Miranda, com toda a paciência do mundo para me ensinar o caminho das pedras. Uma generosidade ímpar. Olhava para ele e pensava: “caramba, é o Miranda… que pressão e responsabilidade!”. Tudo correu bem e foi sensacional. Era um grande produtor.

Quais eram as diferenças mais evidentes entre os dois? Ou eles eram muito parecidos no modo de trabalhar?

O Tom era mais “mão cheia”. Tocava e timbrava os instrumentos como ninguém. Metia a mão na massa de verdade. Já o Miranda tinha o dom de saber extrair do artista o que ele tinha de melhor. Além de ser uma espécie de olheiro de primeira. Tinha uma capacidade surreal de descobrir novos artistas. Um curador de verdade.

Certa vez, vi o Miranda dizer numa entrevista que pesquisava novos artistas de uma maneira quase compulsiva.

Sabe o que era legal no Miranda? Ele ia aos shows! Cheguei a encontrá-lo uma vez num festival em Belém do Pará. Em outra, fiz um show solo em Porto Alegre e quem estava na plateia? O Miranda! Acho que isso está em falta atualmente. Hoje dificilmente você encontra produtores em shows algo que acrescentaria em muito no trabalho deles. Sacar o que está rolando sem beber exclusivamente da fonte da internet.

Já que tocamos no assunto, com pouco mais de vinte anos de carreira, você já pensou em produzir outros artistas? 

Agora faria sim. Antes não me sentia segura o suficiente mas neste momento adoraria pegar um trabalho do zero e colocar meu toque pessoal. Estou mais à vontade.

O que falta é tempo…

Nem me fale! Às vezes acordo e nem sei por onde começar. Tenho os Autoramas, minha carreira solo, Lafayette & Os Tremendões [projeto de Érika e Gabriel Thomaz para releituras de clássicos da Jovem Guarda com a participação de Lafayette Coelho, tecladista e grande nome do movimento], o Chuveiro In Concert [projeto de karaokê ao vivo com banda, realizado na maioria das vezes em eventos corporativos]… É muita coisa! Imagina ter que parar tudo isso pra assinar a produção de um disco! (risos) Depois ainda temos que ouvir que artista não trabalha.

Pegando o gancho dessas diversas atividades que você exerce, em seu pouquíssimo tempo livre ainda há disposição para descobrir novas bandas e artistas?

Sim! Sempre! Até porque recebo quase diariamente em minhas redes sociais muito material de novas bandas. Claro que não dá para ouvir tudo de uma vez mas sempre procuro fazer isso e dar o feedback depois. Nisso acabo descobrindo muita coisa boa e quer saber? Tenho preferência para ouvir o que ainda não está na mídia. É muito prazeroso ouvir artistas em início de carreira e dar força e atenção a eles é o mínimo que posso fazer. E, intimamente, agradecer ao universo por ter tido o privilégio de viver de música.

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Libido é o oitavo álbum dos Autoramas e foi muito bem recebido pela critica especializada, inclusive fora do país. A banda é praticamente uma unanimidade no cenário independente brasileiro. Uma prova disso, foi o recente lançamento da coletânea A 300 Km Por Hora, na qual 41 artistas estão reunidos para homenageá-los. No meio dessa louca rotina que levam, já caiu a ficha de que vocês são um expoente da cena e, por tabela, um exemplo a serem seguidos? Ou então relaxam com relação a isso para que tudo flua naturalmente?

Tenho uma visão mais destacada com relação a este assunto. Estou na banda há quatro anos e convivo com o Gabriel há mais de quinze. Quando a Penélope fez shows no Rio para lançar o Mi Casa…, a gravadora nos pediu uma indicação para banda de abertura e não pensei duas vezes: Autoramas, que eu já adorava desde aquela época. Quando eu casei com o Gabriel passei a “respirar” os Autoramas mais ainda. Mais até do que os próprios integrantes. Lembro de uma vez o Gabriel precisar de um cenário para um show e, como sempre gostei dessa parte de cenografia, eu mesma costurei o cenário. Fora isso, já compúnhamos juntos e eu participava dos discos e shows. Então, mesmo eu não fazendo parte da banda, tinha esta visão destacada do respeito que o público tinha pelos Autoramas e de que sua obra nunca teria um conteúdo raso. Via ao vivo e pensava: “é uma banda para a História, criativa, original, única e com tudo muito inspirado!”, Lembro-me de assistir a documentários de bandas que amo, como Ramones ou Cramps… Quando vejo os Autoramas hoje, logo penso que no futuro ela será lembrada como estes artistas. Exponencial. Por isso me sinto privilegiada. Por ter vivido os dois lados: de fã e integrante.

Sua carreira solo estava muito bem encaminhada e você ainda colhia os frutos do sucesso do álbum Modinhas quando foi integrada à banda. Houve algum momento de hesitação de sua parte em dar este hiato ou aceitou de imediato?

Não pensei duas vezes! Mas isso foi um processo mais que natural tendo em vista que eu já participava da banda de uma forma ou outra. E o convite veio num momento muito apropriado porque eu já havia divulgado muito bem o Modinhas na imprensa. Fiz shows nas principais capitais e no exterior, inclusive. Então, minha entrada nos Autoramas não gerou nenhum tipo de confronto de datas, por exemplo. Eu já estava numa fase de parar e pensar em um próximo projeto. Mas minha carreira solo não acabou não, hein? (risos) Há um novo projeto a caminho que só não está em andamento por conta da grande demanda de nossa agenda. Mas o que queria dizer é que estar nos Autoramas vai muito além da questão artística pura e simplesmente: tem a ver com vida. Tem a ver com o que escolhi para mim. Adoro viajar, conhecer gente, lugares novos, outras culturas e os Autoramas me propiciaram tudo isso. Além, é claro, o fato de poder viajar com o Gabriel, que é meu marido. Antes de meu ingresso na banda, viajávamos pouquíssimas vezes juntos. Era cada um para um lado. Mas, agora, não. Fazemos tudo juntos, viajamos o mundo juntos e tocamos numa banda sensacional. Realmente, me sinto privilegiada em viver tudo isso.

Tocarei num assunto polêmico agora: objetificação da mulher na música. Agora, em 2019, completam-se vinte anos de sua participação no álbum Só No Forévis, dos Raimundos. Uma dúvida paira no ar quando surge a questão se os Raimundos fariam o sucesso hoje em dia devido ao conteúdo de algumas de suas letras, tendo em vista que a questão do feminismo final e merecidamente está em voga nos dias de hoje. Gostaria de saber como você se sentia na época com relação a este assunto. Isso já te incomodava há vinte anos?

Sempre procurei ser um exemplo de ir contra esse tipo pensamento. No início da Penélope, uma de minhas maiores preocupações era justamente peitar essa coisa machista de que “para se fazer rock era necessário ter uma postura masculinizada”. Sempre fui contra isso! Com relação ao convite dos Raimundos, deixei bem claro que não colocaria minha voz ou emprestaria minha imagem ao clipe de uma faixa que tivesse palavrão, putaria ou algo pejorativo do tipo porque meu perfil não é esse. Tanto é que a temática de “A Mais Pedida” é totalmente outra. Sobre o conteúdo de algumas letras dos Raimundos que, por ventura, seriam muito mal vistas hoje em dia, sempre achei meio papo de “turma de fundão”, sabe? Mesmo não concordando, estava lá. Existia. O que sempre pensei com relação a qualquer coisa era: temos que ocupar os espaços! Se o espaço é machista, temos que ocupá-lo sendo a referência do contrário. Muitas meninas me procuravam na época e diziam odiar essa coisa do machismo no rock e viam, na minha figura, alguém que dizia o discurso que elas queriam ouvir. Mas olha só: eu fui projetada pelos Raimundos! O disco da Penélope estava engavetado, na geladeira. Só foi lançado porque “A Mais Pedida” foi o sucesso que foi. Os Raimundos foram a ponte para que eu chegasse a algum lugar. E chegar a esse lugar sendo um exemplo do que é legal. Ser mulher e ter atitude! É preciso ocupar e preencher os espaços. Na divulgação do Mi Casa… fomos convidados para o Faustão e choveram críticas do tipo “que queimação de filme!”. Nem ligamos para isso. Tínhamos de aparecer e levar nosso discurso ao maior número possível de pessoas e levo esse pensamento até hoje. Não concorda com o conteúdo de programa X ou emissora Y? Vá lá e mostre o contrário. Mostre a esse público que só consome X ou Y que há um mundo de outras possibilidades. E se conseguir a fazer com que alguém absorva sua mensagem e se interesse pelo seu trabalho, já terá valido a pena.

Você já tocou em duas edições do Rock In Rio. Neste ano, o Lollapalooza, em sua oitava edição, finalmente convidou os Autoramas para o line up. No festival dos sonhos da Érika, quem tocaria no mesmo dia dos Autoramas?

Cara, tanta banda! Os B-52s, com certeza! Encontramos a Cindy Wilson no ano passado no Festival South by Southwest e foi um sonho! O Cramps também estaria. Dos nacionais, sem dúvida, a Gang 90 com a formação original, com as Absurdettes, seria lindo! Adoraria ter conhecido o Júlio Barroso. Acho que tá bom, né?

Está ótimo! Vocês sempre tiveram uma relação de muito afeto com a Jovem Guarda. Além do Lafayette, vocês recentemente tiveram contato com o Silvio Brito. Elocubração do entrevistador aqui: uma parceria entre Autoramas e Erasmo Carlos. Já pensaram em algo a respeito?

Ele é maravilhoso! Superaberto! Recentemente assistimos à sua biografia no cinema. Ficamos muito emocionados. Mandamos uma mensagem e ele respondeu “muito obrigado, meu casal lindo!”. Sempre foi muito carinhoso conosco e sempre fomos apaixonados por ele. Fazer algo juntos seria mágico! Sempre tivemos muito respeito com o pessoal da Jovem Guarda. A Wanderléa participou do segundo álbum da Penélope (Buganvília, na faixa “Não Vou Ser Má”). Com relação ao Silvio Brito, já temos um projeto em andamento e com o qual estamos ensaiando. Muito respeito por essa turma mais antiga e que nos ensinou e continua nos ensinando demais. Amo escutar as histórias. Certa vez, o Lafayette e o Jerry Adriani ficaram horas contando histórias e ficamos ali, assistindo a isso de boca aberta.

Em maio, os Autoramas embarcarão para mais uma turnê europeia. Quando retornarem, a divulgação de Libido prosseguirá ou vocês darão mais atenção a estes novos projetos?

Libido seguirá a todo vapor, até porque foi lançado há pouquíssimo tempo. Estou louca para que saia logo o clipe de “No Futuro”, minha faixa favorita do álbum.

Creio que seja a favorita de todo mundo!

Pois é! (risos) Estou sonhando com esse clipe mas, como não paramos nunca, um milhão de coisas acontecerão paralelamente. Lançarei o áudio do especial que fiz para o Canal Brasil. Já o Gabriel lançará o disco de seu projeto instrumental, o Gabriel Thomaz Trio. Enfim, não pararemos.

E qual é o limite dos Autoramas?

Não há limite! Trezentos quilômetros por hora são pouco… (risos) Bota trezentos quilômetros por hora nisso!

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Nando Reis

Cantor e compositor fala sobre a série de concertos que faz pelo Brasil em janeiro ao lado da Orquestra Petrobrás Sinfônica

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Texto e entrevista por Abonico R. Smith

Foto: Mauricio Meireles/Divulgação

Artista dos mais populares na MPB, Nando Reis começa o ano de 2019 embarcando em um projeto diferente de tudo o que já fizera anteriormente na carreira de quase quatro décadas: roda o Brasil em janeiro para soltar a voz acompanhado por uma orquestra sinfônica. As apresentações estão sendo realizadas em seis capitais entre os dias 11 e 18: Curitiba, Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro (mais informações sobre datas, locais, horários e ingressos você tem aqui).

A “pré-estreia” ocorreu em outubro de 2017, também no Rio. O sucesso do evento único foi tamanho que motivou a extensão do mesmo para uma turnê. Sob a regência do experiente Isaac Karabtchevsky, os 45 músicos da Orquestra Petrobrás Sinfônica acompanham Nando Reis no palco. A abertura é feita com peças instrumentais de Modest Mussorgsky (“Quadros de Uma Exposição: A Grande Porta de Kiev”) e Heitor Villa-Lobos (“Bachiana Nº 4: Prelúdio”) executadas pela OPES. Depois, Nando canta treze canções que compõem uma espécie de best of de sua carreira de cantor e compositor. “All Star”, “Sou Dela”, “Relicário”, “Dois Rios” e “O Segundo Sol” são algumas das obras escolhidas para integrar o repertório.

Por e-mail, Nando concedeu entrevista para o Mondo Bacana, falando sobre esta série de seis concertos.

O rock sempre foi marcado pelo descompromisso com a formalidade. Permite inclusive que um músico, durante um concerto, erre algo na música e queira começar tudo de novo, mesmo quando acompanhado de sua banda. Agora, porém, você estará acompanhado por uma orquestra inteira. Qual a sensação? Fica mais nervoso? Afinal são muitos músicos envolvidos em um arranjo que não pede improviso.

Fiz apenas um show com a OPES e foi justamente pela beleza do resultado que decidimos dar continuidade e fazer essa pequena turnê. A experiência foi magnífica e confirmou aquilo que já imaginava: trata-se de uma relação (no palco) completamente diferente. Sim, fiquei bastante nervoso, mas tive o apoio e contei com a regência segura e gentil do grande maestro Isaac Karabtchevsky. A fusão não permite improviso, mas tem grande espaço para a interpretação. É lá que me viro.

Sua banda de apoio está no palco também?

Não. Todos os músicos são da OPES.

Isaac Karabtchevsky é um conhecido nome da música erudita brasileira que sempre lutou pela popularização da mesma. Como é a química com ele?

Como disse, ele é um homem gentil. É impressionante assistir ali do lado como ele conduz e rege. Uma oportunidade de ouro para aprender e apreciar.

O espetáculo foi apresentado em outubro de 2017 no Rio e agora está em turnê pelo Brasil. Mudou algo neste intervalo ou o que é executado no palco de Curitiba e outras cidades será rigorosamente a mesma coisa da estreia?

Incluímos algumas musicas, tiramos uma que não funcionou na estreia. Mas o repertório será rigorosamente o mesmo nos seis shows. Como você mesmo disse na primeira pergunta, não há espaço para improvisação.

Qual o critério para a seleção do repertório? O que pesou para a escolha destas canções ou a exclusão de outras?

Fui eu quem sugeriu as musicas. Escolhi aquelas que me parecem mais adequadas. E algumas que, nas gravações originais, já tinham arranjos para cordas, todos escritos pelo genial Lincoln Olivetti.

Esta não será a primeira vez que músicas dos Titãs serão executadas com o acompanhamento de cordas. O que diferencia o arranjo de hoje e de duas décadas atrás (fora a ausência dos Titãs, claro!)?

Musicas dos Titãs? São todas minhas. A única, se não me falha a memória, que estava no repertório do Acústico MTV é “Os Cegos do Castelo”.

[Nota do jornalista: A memória do músico não deve estar boa ou então houve algum erro de comunicação anterior. No repertório do espetáculo, informado previamente pela assessoria de imprensa oficial do evento, aparecem três músicas dos Titãs: “Os Cegos do Castelo”, “Marvin” e “Não Vou Me Adaptar”. As duas primeiras ganharam novo arranjo desplugado no projeto audiovisual Acústico MTV, gravado e lançado em 1997. “Os Cegos do Castelo” é, de fato, uma composição somente dele. “Marvin”, uma versão em português para a canção “Patches”, assinada por Nando e Sérgio Britto e gravada antes no álbum homônimo de estreia, em 1984, e no primeiro disco ao vivo do grupo, Go Back, de 1988. Após o sucesso de vendagens da parceria com a extinta MTV Brasil, os Titãs fizeram, em 1998, Volume Dois, espécie de sequência do projeto porém com os novos arranjos desplugados inteiramente captados em estúdio e lançados apenas em CD, sem o formato DVD. Neste álbum está a terceira canção dos Titãs informada como parte integrante do repertório executado ao lado da OPES. “Não Vou Me Adaptar” foi composta por Arnaldo Antunes. Com a saída de Arnaldo, Nando assumiu os vocais e a cantou em Volume Dois e nas turnês posteriores dos Titãs, até também deixar a banda para partir à carreira solo.]

Há a intenção de transformar este concerto em um projeto audiovisual? Afinal, agora, você comanda o seu próprio selo…

Nada definido.

Você tem saudades do tempo de produtor artístico/executivo do Banguela e de ficar ouvindo artistas mais novos ou iniciantes? Ainda costuma fazer isso agora pelas plataformas diversas da internet?

Nenhuma saudade. Nem interesse.