Music

Phil Anselmo & The Illegals

Vocalista resgata músicas do Pantera e fala com o Mondo Bacana sobre próximos projetos e sua luta contra as doenças mentais

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Texto por Abonico R. Smith e entrevista por Janaina Azevedo Lopes

Foto: Divulgação

Um Pantera está à solta no Brasil, vociferando como sempre. Phil Anselmo veio ao país para realizar três shows nestes últimos dias de janeiro. Neste último final de semana, ao lado dos Illegals, o vocalista apresentou-se em São Paulo e Brasília. Nesta terça, dia 30, ele encerra a miniturnê em Porto Alegre (clique aqui para ter mais informações sobre este show).

Marcada por um repertório especial, que consta com metade do set list reservado ao resgate de antigas músicas do Pantera, a tour também é uma homenagem aos irmãos Dimebag Darrell e Vinnie Paul, ambos já falecidos e os fundadores da clássica banda de heavy metal, que teve seu auge na primeira metade dos anos 1990.

Em entrevista para o Mondo Bacana, o músico, atualmente com 50 anos de idade, relembra um pouco do passado musical, adianta os novos projetos para um futuro próximo e ainda abre um pouco de sua intimidade com a saúde, falando sobre sua luta, tão particular quanto uma herança familiar desde os tempos de infância, contra as doenças mentais.

Os shows que vocês trouxeram para o Brasil são formados por parte do repertório do Illegals, parte do Pantera. Como se deu isso?

Desde o ano passado, quando Vince morreu, nós vínhamos tocando algumas das músicas do Pantera, em tributo. Então, depende do público. Eles querem ouvir, nós tocamos.

O público é quem pede as músicas?

Eles podem pedir, mas não sei se vamos saber tocar… (risos)

Como tem sido revisitar essas composições?

É interessante. Às vezes, meio estranho. Eu olho lá de cima e vejo jovens que nunca tiveram a chance de ver o Pantera curtindo tanto as músicas…

E como é relembrar tanto o Vinnie quanto o Dimebag enquanto a banda toca essas músicas?

Como eu disse, pode ser bem estranho. Eu nunca tinha considerado fazer isso, tocar de novo essas músicas, reaprender as coisas velhas. É estranho! Estamos apresentando isso [o show] como eu cantando as músicas do Pantera. E são minhas músicas. Acho meio estranho ficar pensando nos caras originais. Mas ao mesmo tempo, [as músicas] são do público, que cresceu com elas. É a música deles também. É meio estranho, mas quando eu vejo o público curtindo eu curto também.

Quais os planos para o Illegals esse ano?

Tem sempre algo acontecendo com o Illegals. São caras ótimos, muito humildes e fáceis de trabalhar. Tá todo mundo na mesma fase. Então… Temos esta tour na América do Sul, em março vamos para a Austrália e no verão vamos para a Europa fazer os festivais. Depois disso, quero escrever um pouco, fazer o que eu chamaria de um verdadeiro disco de heavy metal. Não me pergunte o que isso quer dizer. Eu ainda tô formulando na minha cabeça. Quero experimentar com a minha voz.

O mais recente álbum do Illegals se chama Choose Mental Illness As a Virtue [Escolha a Doença Mental Como uma Virtude, em português]. O que isso significa?

Bem, não tenho problemas em admitir que eu sofro de doenças mentais desde que era criança. E se não fosse pelo heavy metal não sei onde eu teria canalizado toda a negatividade. Por exemplo, uma letra que escrevi, que é “Mouth For War”. Ela concentra toda escuridão e todos os pensamentos ruins em algo produtivo. Portanto, se você tem alguma doença mental e a reconhece, precisa entender que ela não vai simplesmente embora. Você tem de manter isso sob controle. Administrar isso e fazer algo produtivo, útil, como música, é muito importante. Eu sei que nem todo mundo tem o talento musical, entre os que sofrem de doenças mentais. Mas eu peço que todos achem algo produtivo.

Fazer este disco te ajudou?

Claro! Todo disco ajuda. Mas esse em particular foi um mergulho bem fundo no meu passado familiar e a luta com doenças mentais, em ambos os lados, tanto do meu pai quanto da minha mãe. Então, sim, foi um vazio a ser descoberto, por assim dizer.

E o que você tem feito além de se dedicar à banda?

Eu tô sempre me recuperando de um ou outro machucado.

Qual é o teu último machucado?

Ah, um negócio no ombro.

Mas tá bem agora?

Tô ok. Melhor do que há duas semanas.

Pros shows no Brasil, vai estar bem?

Espero que sim. Se não, vou lutar para isso, como sempre faço. Além disso, tenho tantos projetos [musicais] que nunca foram lançados…

Tipo o quê?

Bem… Existem algumas bandas. Uma é death metal, que eu formei em 2014, com alguns amigos de várias partes do mundo. Nunca tive tempo de lançá-la. Mas acho que posso fazer isso em breve. Daí tem o En Minor, que não é metal. Tem um cello, um piano, teclado, três guitarras. É bem diferente, obscuro, moroso, pessimista. Um negócio bem real. Estamos finalizando [a gravação]. É só questão de tempo.

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Dado Villa-Lobos + Marcelo Bonfá + André Frateschi – ao vivo

Em Curitiba, trio relembra (quase) na íntegra as faixas dos álbuns Dois e Que País é Este 1978/1987, da Legião Urbana

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Texto por Abonico R. Smith

Fotos de Igor Filus/Charme Chulo (Dado e Bonfá) e Abonico R. Smith (André Frateschi)

Nove de abril de 1988. Aquela não era uma noite qualquer. O cheiro de tensão já estava no ar desde antes de começar o show. Depois de um bom tempo de atraso, eis que sobem ao palco montado no Ginásio do Tarumã, em Curitiba, os quatro integrantes da Legião Urbana. Naquela época, a banda ainda era um quarteto, com Renato Rocha tocando o baixo e sem a presença de músicos de apoio nos teclados, violões e segunda guitarra.

Por pressão da gravadora, o terceiro álbum da banda, Que País É Este 1978/1987 tinha acabado de sair no final do ano passado. Foi algo montado às pressas, ainda para aproveitar a carona do extremo sucesso do anterior Dois, lançado em 1986, em um ano de extrema euforia econômica por causa do Plano Cruzado e que impulsionava a vendagem de discos. O novo repertório havia ficado no meio do caminho. Para completar o disco, a banda pegou antigas canções escritas por Renato Russo nos tempos de Aborto Elétrico ou Trovador Solitário, durante o final da adolescência em Brasília.

A banda vivia um período de intensas turbulências internas. Rocha, logo depois, seria desligado da formação por problemas de comportamento. Russo tentava driblar os problemas emocionais trazidos pela fama meteórica com abusos químicos e etílicos. E de certa forma comportamentais. O que viria a se refletir nesta apresentação no Tarumã. Na plateia, um séquito de fãs ensandecidos à espera de seu líder. Sim, porque um show da Legião Urbana com Renato Russo à frente do palco não era uma mera performance artística naquela ocasião. Parecia quase todo mundo ali um exército com o poder de ser comandado (ou sair do controle a qualquer instante) pelo seu grande chefe.

O que rolou dentro no Tarumã foi quase um barril de pólvora pronto para explodir. Russo, sempre imprevisível, improvisava e mandava seus pensamentos sobre vida e política e mais frases impactantes ao microfone entre cada música. A multidão se inflamava. Passou um bom tempo cantando se jogando e deitando no chão, como às vezes costumava fazer. A multidão se inflamava mais. Cantava os versos magnéticos e poderosos de suas músicas, muitas delas sobre revoluções pessoais e coletivas. A multidão se inflamava cada vez mais. Ao final do show, veio a sensação de alívio por nada de errado, estranho ou violento ter acontecido ali dentro. Entretanto, lá fora, quando as pessoas começaram a sair todas ao mesmo tempo por um mesmo portão, tudo explodiu. Policiais batiam em vários. Outros, a cavalo, tentavam conter a fúria ao mesmo tempo em que quase jogavam os animais em cima dos fãs. Algumas bombas de efeito moral explodiam aqui e ali. Eu, um garoto prestes a completar 16 anos de idade e acompanhado apenas por amigos da mesma faixa etária, tentava me proteger e sair são e salvo para um lugar mais distante e sem confusão.

Dois meses depois, em junho o que não havia saído do controle durante o show de Curitiba acabou saindo no fatídico retorno da banda a Brasília. Resultado foram cenas de tensão, horror e vandalismo que pôs em risco a integridade física dos próprios músicos, destruíram o estádio Mané Garrincha, e tomou as ruas da cidade que havia revelado a banda e não a mais queria nas redondezas. Fato que foi determinante para a suspensão das apresentações e viagens pelo país durante um bom tempo e marcou uma virada de página na carreira da banda. Depois disso ver assistir a um show da Legião Urbana tornou-se um fato ainda mais difícil de acontecer quando Russo, Dado e Bonfá decidiram por retomar as turnês.

>> Clique aqui para ouvir a gravação do show de 9 de abril de 1988 em Curitiba

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Exatos trinta anos depois o repertório baseado nos discos que sustentavam aquela tensa e polêmica fase voltou a Curitiba. À meia-noite e meia da madrugada do último sábado, dia 24 de novembro de 2018, Dado e Bonfá, novamente acompanhados pelo vocalista André Frateschi e a mesma banda de apoio da turnê anterior (Lucas Vasconcellos nas guitarras e violões, Mauro Berman no baixo e direção musical e Roberto Pollo nos teclados e programações eletrônicas), que comemorava as três décadas de lançamento do álbum de estreia, agora estavam na Live Curitiba para tocar (quase) integralmente Dois e Que País É Este 1979/1988. Das 21 faixas, apenas uma, a vinheta instrumental “Central do Brasil” ficou de fora do set list do live project.

Em primeiro lugar devem ser feitas considerações a respeito da plateia que parecia que iria comparecer em bom número e, mais próximo ao início da apresentação, acabou enchendo a casa. Poucos eram os que tinham abaixo dos 30 anos de idade – ainda assim os teens estavam devidamente acompanhados por pais ou familiares. A maioria claramente era de gente que cresceu/adolesceu quando as músicas cantadas por Renato Russo povoavam a playlist da maioria das rádios FM e discos físicos – em vinil ou a laser – eram vendidos aos borbotões, os brasileiros não votavam para presidente baseados em fatos irreais do WhatsApp e a juventude ainda carrega uma certa esperança ingênua em um país que mal havia se libertado de duas décadas de ditadura militar. Portanto, não houve renovação do público da Legião Urbana. Apesar de suas canções mais antigas exalarem espírito juvenil, a garotada de hoje não se conecta mais com Renato, Dado e Bonfá. Nisso também ajudou – e muito – a interminável rusga com o herdeiro do vocalista, seu filho, detentor dos direitos sob o nome da banda e, que, segundo a dupla remanescente, impede o lançamento oficial de projetos novos e antigas gravações ainda inéditas.

Contudo, quando Dado e Bonfá sobem ao palco a coisa muda de figura. “Ah, mas não tem Renato Russo!”, muita gente pode  tentar argumentar. Bom, não tem mesmo. Infelizmente Renato morreu em 1996, o que não pode ser revertido e ainda determinou o fim oficial da banda. Portanto este não é um show da Legião Urbana em si, mas uma celebração de dois artistas que compuseram e gravaram com o amigo as canções que construíram a carreira de todos eles. E também André Frateschi se transformou em um grande achado para compensar as saudades do vocalista. O ator e cantor – com respeitável carreira solo no underground brasileiro – não quer substituir, muito menos imitar o seu também ídolo. Não faz os mesmos trejeitos e coreografias, não tem o mesmo timbre vocal, mas está cada vez mais solto e acostumado à condição de estar à frente do guitarrista e baterista. Sua performance é própria, ele toca instrumentos (bateria e harmônica) e tudo é tão energético quanto as músicas que canta. Sem falar que, em determinados momentos, é um dos dois que assume a função de bandleader.

“Ah, mas não tem coisa inédita!”, outros tantos podem disparar. Não tem mesmo e ainda bem. Banda brasileira não sabe acabar após uma longa carreira e fica se arrastando ao tocar pelo país quase sempre o mesmo repertório, com os mesmos hits que já foram executas outras 35 mil vezes ao vivo. Quando aparecem faixas novas, elas são bem poucas e estão aquém de distância na qualidade se comparada aos velhos clássicos. Com Dado e Bonfá não tem isso. Velhos sucessos, sim, podem muito bem sumir do set list e a intenção destas duas últimas turnês é executar os discos no palco, de cabo a rabo. Por isso ouvir pérolas escondidas dos álbuns (como “Depois do Começo”, “Metrópole”, “Música Urbana 2”, “Química”, “Mais do Mesmo”, “Conexão Amazônica”, “Acrilic on Canvas”, “Plantas Embaixo do Aquário” e “Fábrica”) é muito mais importante, neste momento, do que ficar relembrando “Quando o Sol Bater na Janela do Seu Quarto”, “Monte Castelo”, “Meninos e Meninas”, “Geração Coca-Cola”, “Ainda é Cedo” ou “Por Enquanto”.

O set é temático e brinda as canções gravadas entre 1986 e 1987. Portanto, o tom das canções vai do folk (soberano em Dois, gravado com muitos instrumentos acústicos de corda) ao punk (herança deixada pelo Aborto Elétrico absorvida em Que País É Este 1978/1987), abandonando as nuances pós-punk da estreia (1985) e ainda sem soar tão pop ou progressivo quanto os vindouros quarto e quinto álbum As Quatro Estações (1989) e (1991). Ainda era uma época em que as palavras bem trabalhadas valiam em letras de música neste país. O discurso era virulento ao mesmo tempo em que tentava buscar a tomada de consciência para um amanhã melhor. Buscava sintonia com os jovens da mesma época, empolgados por uma suposta mudança dos rumos que estaria por vir. Os fãs respondiam à altura, com ardor e devoção jamais vistas até então no rock brasileiro, alçado à condição de megagênero naquele momento do mercado fonográfico nacional.

Hoje a graça está mais em cima do palco do que do lado de cá dele. É bom ver como muitos versos (“Fábrica”, “Que País é Este”, “Faroeste Caboclo”, “Angra dos Reis”, “’Índios’”, “Mais do mesmo”, “Conexão Amazônica”) até hoje dizem muito a respeito de nosso universo cotidiano ao redor. E que quem as interpreta ali, na frente de muitos (e isso inclui os três músicos de apoio) parece que está se divertindo tanto quanto em quase duas horas e meia de show. Tudo passa longe de ser um relógio-ponto burocrata que funciona com base em harmonias e melodias. O que, por sinal, a Legião Urbana sempre foi. Uma banda movida apenas pelo compromisso consigo mesma e a sua necessidade de expressão e não pelo o que os outros pensam ou querem dela. Dado e Bonfá já passaram dos 50 anos de idade mas parecem ter alma muito mais jovem do que a maioria do público que foi vê-los na Live Curitiba. Estes, sim, parecem eternamente satisfeitos em ter sempre mais do mesmo.

PS: Para o bis, foi escolhido um minirrepertório pinçando, de brinde aos fãs, uma faixa representativa de cada um dos outros quatro álbuns executados ao vivo em turnês pelo trio. No caso do sexto, O Descobrimento do Brasil (1993), ainda houve uma “música-bônus”: “Giz” (anunciada como a preferida entre todas as da banda pelo vocalista) e “Perfeição” (o sempre indispensável “Hino Nacional Brasileiro” alternativo).

Set list: “Daniel na Cova dos Leões”, “Quase Sem Querer”, “Eu Sei”, “‘Índios’”, Acrilic on Canvas”, “Tédio (Com um T Bem Grande Pra Você)”,  “Mais do Mesmo”, “Metrópole”, “Química”, “Plantas Embaixo do Aquário”, “Depois do Começo”, “Conexão Amazônica”, “Música Urbana 2”, “Eduardo e Mônica”, “Faroeste Caboclo”, “Que País é Este”, “Angra dos Reis”, “Andrea Doria”, “Fábrica” e “Tempo Perdido”. Bis: “Vento no Litoral”, “Giz”, “Há Tempos”, “Será” e “Perfeição”.

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Diário de bordo: Killing Joke

Um grande fã da banda conta tudo o que viu e viveu ao lado de seus ídolos durante três dias no Brasil e na Argentina

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Texto por Guto Diaz (Secret Society)

Fotos por Edi Fortini (Edi Fortini Photography show no Brasil) e Guto Diaz (selfies no Brasil e bastidores na Argentina)

Cada data da banda não é apenas um show. Para aqueles que já tiveram a oportunidade de assistir aos ingleses ao vivo, o Killing Joke é quase uma instituição religiosa, uma congregação, uma comunhão ritualística. Ou, como eles mesmo preferem se referir as suas apresentações, “a gathering” (e a seus fãs como “the gatherers”).

A primeira vez que ouvi o termo “gathering” foi em 1994, quando tive acesso ao meu primeiro computador com internet discada. Nesta época me deparei com o mais antigo e fiel fã clube da banda, que continua em atividade. The Gathering é um mailing listdedicado exclusivamente para trocas de informações entre fãs do Killing Joke. A partir daquele momento, conheci um novo universo. Tive contato com Gatherers do mundo inteiro, Inglaterra, Estados Unidos, México, praticamente toda a Europa e também do Brasil. Neste mailing list fiz amizades que duram até hoje. A grande maioria somente virtuais, uma irmandade, que não se conhecem pessoalmente mas que compartilham a mesma admiração e respeito pelo Killing Joke.

O fã clube The Gathering sempre foi muito ativo e com integrantes muito participativos dentro do universo Killing Joke. Foram lançados através do The Gathering álbuns exclusivos para os fãs, como a coletânea dupla Unspeakable, de 1999, somente com material raro da banda nunca antes lançados; Unsignable, em 2002, somente com bandas formadas por Gatherers (minha ex-banda, Primal…, participou com a faixa “The Walk Of Ants”) e uma coletânea para arrecadar fundos para um gatherer que estava com câncer, Attack For The Benefit Of A Friend With Cancer, em 2005. Neste disco, o Primal…, participou com a faixa “Timeless Wintertime”).

Em 2007, aconteceu um fato muito triste mas também de muita união na história da banda: faleceu o baixista Paul Raven (que substituira Youth a partir de 1983). Todos os integrantes originais acabaram se encontrando no funeral pela primeira vez depois de muitos anos. Naquele encontro teve início a “nova” fase do Killing Joke. Ninguém poderia imaginar que mais de 20 anos depois eles iriam se reunir com a formação original e produzir álbuns tão significativos quanto os três últimos lançados por esse time: Absolute Dissent (2010), MMXII (2012) e Pylon (2016).

Em 2008, após a decisão de voltarem com a formação original, a banda fez uma grande turnê europeia para celebrar a reunião, tocando sempre duas datas em cada cidade. Na primeira noite eram executados na integra os dois primeiros álbuns Killing Joke (1980) e What’s THIS For…! (1981). Na segunda, Pandemonium (1994) e diversos singles e lados B.

Decidi encarar duas datas em Bruxelas nos dias 29 e 30 de setembro daquele ano, onde aconteceria uma “small gathering”. Nesta viagem, conheci pessoalmente vários gatherers, vindos de diversos pontos da Europa, como Espanha, Inglaterra, Escócia, Alemanha, França, Holanda e, claro, da Bélgica. Nessa ocasião, houve meu primeiro contato com os integrantes do Killing Joke numa festa que rolou em um pub logo após a primeira noite. Tive a honra de conhecê-los pessoalmente, tirar fotos, sentar na mesma mesa e beber junto com a banda, contar que eu tinha vindo do Brasil única e exclusivamente para vê-los pela primeira vez ao vivo. Foi memorável.

No final de 2017, eles anunciaram uma nova turnê mundial chamada Laugh At Your Peril, comemorando os 40 anos da banda e ainda divulgando o álbum Pylon. Pela primeira vez na História foram incluídas datas no México e na América do Sul. Eu nunca imaginaria que algum dia eles viriam para o Brasil. Assim que os ingressos foram colocados à venda,  fiz todo meu planejamento para assisti-los em São Paulo no Carioca Club.

Algumas semanas antes do início da turnê sul-americana recebi uma mensagem do amigo francês Stephane Frenchy Frenzy (que havia conhecido na gatheringem Bruxelas) perguntando se eu iria assistir algum outro show da turnê, além de São Paulo. Ele estaria vindo acompanhar a banda (junto com David Molyneaux, gatherer da Inglaterra) para filmar os quatro shows, agendados para final de setembro em São Paulo, Buenos Aires, Santiago e Lima. Na mesma hora decidi acompanhá-los para mais uma data e consegui agendar o mesmo voo e o mesmo hotel em que eles ficariam em Buenos Aires.

Marcamos nosso encontro para o sábado 22 de setembro em São Paulo, um dia antes do show. Fui ao encontro do Stephane no hotel em que ele estava hospedado, no bairro de Pinheiros, e saímos para almoçar. Levei-o em uma clássica churrascaria paulistana para conhecer o rodizio de carnes e também a famosa caipirinha de cachaça. Stephane adorou e enquanto estivemos lá pudemos conversar muito sobre o Killing Joke, o The Gathering, nossos vidas pessoais, trabalho, política, cultura gauchesca (sim, tentei explicar-lhe um pouco dos pampas!). Um pouco mais tarde chegaram na churrascaria, o gatherer paulista Celso Junior “N0153” (que eu conhecia há mais de vinte anos pela internet, mas nunca havia encontrado pessoalmente) e dois amigos, Marcelo e Rodrigo, também superfãs do KJ e que vieram de Brasília para assistir ao show.

Após o almoço fomos dar uma volta pela Avenida Paulista e acabamos em um bar na Augusta, onde eu havia marcado de encontrar com outro grande fã do Killing Joke,meu amigo de longa data Felipe Mattos. Conheci o Felipe há mais de quinze anos na época do Soulseek e da troca de música pela internet; ele virou um fã inveterado da minha banda na época, o Primal…, e a gente compartilhava o mesmo gosto musical por diversos grupos como Killing Joke e o Voivod. Tomamos mais uma dezena de cervejas e caipirinhas e assim terminou nossa primeira noite em São Paulo. Stephane foi embora para o hotel e eu para casa do meu primo. Marcamos de nos ver no dia seguinte logo após o almoço, David Molyneaux iria chegar pela manhã do México e iríamos todos nos encontrar em frente ao Carioca Club. Stephane e David vieram com a missão de filmar com quatro câmeras os quatro show deles na América do Sul (imagens que provavelmente serão utilizadas futuramente) e teriam de chegar mais cedo para montar o equipamento.

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São Paulo, 23 de setembro

Cheguei no Carioca Club por volta das 14h e me encontrei com Stephane e David. Ficamos em frente à casa conversando e aguardando os preparativos. Logo depois chegaram os “brazilian gatherers” (Celso Junior “N0153” e seus amigos de Brasília, mais Rodrigo e Marcelo e meu amigo Felipe Mattos). Aos poucos começaram a aparecer em frente ao Carioca, outros alguns fãs ansiosos pela chegada da banda e a tensão foi aumentando.

Enquanto isso, lá dentro, a equipe do Killing Joke já deixava tudo preparado para a passagem de som. A banda veio para essa perna da turnê com uma turma bem enxuta: Christopher (tour manager), Waynne Smart (técnico de PA), Damon Head (técnico de bateria e palco) e Diamond Dave (técnico de palco, guitarra e baixo, uma figura emblemática que já acompanha a banda em viagens há mais de 15 anos), Roi Cabaret (o tecladista de apoio) e os quatro integrantes originais (Jaz Coleman, Kevin “Geordie” Walker, “Big” Paul Ferguson e Martin “Youth” Glover).

Eram mais ou menos umas 17h quando a van estacionou em frente do Carioca Club. Jaz Coleman foi o primeiro a descer já levantando os braços e fazendo a maior festa para algumas dúzias de fãs que aguardavam ansiosos. Eles todos foram muito receptivos e atenderam com fotos e autógrafos todos que ali estavam. Neste momento já pude trocar rápidas conversas com todos. Com exceção de Jaz e Geordie, que não possuem Facebook, eu já vinha falando antecipadamente com Big Paul e Youth sobre a turnê. Jaz e Big Paul foram uma simpatia, lembraram-se de mim de dez anos atrás em Bruxelas, me chamaram pelo nome (sou conhecido no The Gathering como Diaz From Brazil).

Após atenderem os fãs, pediram licença e foram para o soundcheck. Em seguida, Stephane veio até nós e, muito gentilmente, veio nos comunicar que a banda havia nos autorizado assistir à passagem de som. Fomos eu, Felipe, Celso “N0153” e os dois amigos de Brasília. Foi a meia hora mais emocionante de nossas vidas. Apenas nós cinco assistindo à passagem de som do Killing Joke. Inacreditável! Durante o soundcheck eles tocaram “Love Like Blood”, “Bloodsport” e “In Cythera” (que acabaria não sendo tocada no show). Após o soundcheck, que foi bem rápido e eficiente, aproveitamos para comprar merchandisingda banda. Eu peguei uma camiseta oficial da turnê e um quadro pintado à mão pelo baixista Youth com um retrato estilizado do Jaz Coleman, que estava sendo vendido durante a turnê.

Então os “brazilian gatherers” se posicionaram em frente ao palco colados na grade para aguardar o início do show. Abriram as portas e aos poucos o público foi enchendo a casa – pelo que soubemos mais tarde, o público foi de cerca de 900 pessoas. Um pouco antes das 20h soltaram a intro do show. As últimas turnês tem sempre sido iniciadas com a música “Masked Ball”, de Jocelyn Pook e tema do filme Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick. A banda entrou no palco e o público foi ao delírio. O show começou com o grande clássico “Love Like Blood”, do álbum NightTime, de 1985. Em seguida, veio a superdançante “European Super State” (do disco MMXII) e “Autonomous Zone” (do recente Pylon).

Uma pequena pausa para respirar e eles mandaram “Eighties”, clássico absoluto, também do álbum NightTime, que ficou anos mais tarde ainda mais famosa devido a um suposto plágio do Nirvana no riff da música “Come As You Are”. O show seguiu com “New Cold War”, também de Pylon, e “Requiem”, faixa que abre o primeiro disco do Killing Joke. Esst é uma que não pode ficar de fora de nenhum show deles. Um verdadeiro marco do pós-punk, que já foi regravada por bandas como Foo Fighters e Helmet.

A banda estava afiadíssima ao vivo. Todos demonstravam extrema alegria de estarem tocando para o público sul-americano pela primeira vez. Jaz tem carisma e presença de palco impressionantes e sabe como conduzir a plateia, sempre falando algumas frases polêmicas para anunciar a música seguinte. A próxima, “Follow The Leaders”, ele anunciou citando as eleições americanas e o new world order do presidente Trump. O show continuou com a instrumental “Bloodsport”, antes da qual Jaz comentou sobre a urgência do ser humano em caçar mais sua sede de sangue e seu instinto animal.

O ponto alto do show, na minha opinião, foi a escolha de algumas músicas não comuns no repertório. Caso de “Butcher,” de Whats THIS For…!, um de meus discos prediletos do Killing Joke (lembro até hoje quando ouvi pela primeira vez esse disco, em meados dos anos 1980, na casa da Moema, antiga empresária da minha primeira banda Epidemic; a sonoridade deste disco foi responsável pelo meu amor por essa banda e mudou completamente minha percepção musical na época). Na sequência vieram mais duas totalmente inesperadas: “Loose Cannon”, do disco sem título de 2003 (em que Dave Grohl gravou as baterias), e “Labyrinth”, de Pandemonium.

É impressionante sentir o poder da banda ao vivo. O som e o timbre da guitarra de Geordie é um show à parte, pesadíssimo, melódico e com os característicos acordes dissonantes, tirados das suas duas harpas douradas, as Gibson ES295, uma de 1952 e a outra 1953, (uma semiacústica icônica que ficou famosa por ter sido utilizada por Scotty Moore nas primeiras gravações de Elvis Presley e considerada a primeira guitarra do rock’n’roll). No baixo, o seminal produtor Youth, famoso por produzir disco álbuns e singlesde artistas como Kate Bush, U2, Siouxsie & The Banshees, James, Cult, Marilyn Manson, Art Of Noise, Erasure, Orb, PM Dawn, Dido, Verve e Charlatans, bem como ter gravado três álbuns com o projeto Fireman junto com ninguém menos que Paul McCartney. Na bateria, o mais velho dos integrantes, Big Paul, entrega batidas tribais nem um pouco convencionais, com ritmos perfeitos e com uma pegada e peso espetaculares. Jaz Coleman é o maestro bastardo, que conduz a plateia ao frenesi com suas danças e movimentos que mais parecem uma marcha para o apocalipse e seus olhos arregalados e vidrados como os de um louco.

O show seguia com “Corporate Ellect” do álbum MMXII; “Asteroid”, de 2003, na qual o público cantava em uníssono o refrão; e “The Wait”, uma das mais pesadas do show (gravada pelo Metallica em 1987, para o EP Garage Days). Fechando a primeira parte, um dos primeiros singles do Killing Joke: “Pssyche”, lado B do single Wardance, de 1979. O quarteto saiu do palco muito aplaudido e o público presente no Carioca Club começou a pedir mais, com muitos gritos de Killing Joke. Logo a banda retornou ao palco para o encorecom duas músicas do primeiro álbum (“Primitive” e “Wardance”) e mais a maravilhosa “Pandemonium”, faixa-título do disco homônimo. Eles largaram seus instrumentos e vieram todos para a frente do palco para se despedir da plateia, com seus sorrisos estampados no rosto mostrando como estavam felizes pela receptividade do público brasileiro em sua estreia por aqui.

Após o show ficamos todos em completo êxtase e alegria. A apresentação superou nossas expectativas. A banda estava em ótima forma, mas cansada, como contaram mais tarde (chegou pela pela manhã, vinda direto do México). Conversamos com outros fãs que estavam ao nosso lado e ficamos discutindo o set list, os pontos altos, a performance e o peso da banda ao vivo, etc.

Logo depois que Stephane e David desmontaram os equipamentos de filmagem, eu e Felipe fomos convidados para ir ao camarim e participar da Cheese Party. Stephane é amigo de longa data da banda e a acompanha em turnê desde 1991. Sempre que o Killing Joke toca na França, ele promove no camarim a famosa Cheese Party, regada a vinhos e queijos franceses. Eu já havia visto diversas vezes fotos deste acontecimento, mas nunca imaginei que um dia iria participar dele. Entramos no backstage supereufóricos e pudemos cumprimentar e agradecer a banda pelo excelente show. Jaz serviu uma taça de vinho para a gente e ficamos ali conversando sobre a gig. Perguntaram quais músicas foram nossas preferidas na noite e comentei que havia sido “Butcher” e “Labyrinth”, mas que faltaram algumas outras (“Change” era uma que tanto eu quanto o Felipe queríamos muito ter ouvido). Aproveitei o momento de descontração e saquei da minha mochila um pôster da banda que eu havia levado, já com a intenção de conseguir autógrafos. Este pôster oficial acompanha o livro Twilight Of The Mortals, registro fotográfico sobre o Killing Joke, lançado no final de 2017 pelo fotógrafo dinamarquês e amigo pessoal da banda Mont Sherar. Consegui pegar o autógrafo de todos os quatro. O mais curioso é que nenhum deles ainda tinha visto pessoalmente esse pôster, por isso foi muito emocionante a reação deles. Geordie, sempre o mais reservado de todos, foi muito simpático e cordial. Fez comentários sobre o pôster e sobre o livro – e eu pude elogiar sua técnica única de tocar guitarra. Mostrei para Youth o seu quadro que eu havia comprado no merchandising e ele agradeceu muito. Tive uma enorme surpresa quando Big Paul veio até mim e me presenteou com uma cópia autografada de seu recém-lançado disco solo Remote Viewing, gravado em parceria com Mark Gemini Thwaite (Gary Numan, Mission, Peter Murphy). Jaz, como sempre uma figura ímpar, mostrou-se simpático e falante e soltou sua característica gargalhada.

Como tudo que é bom acaba, a banda começou a arrumar seus pertences e o tour manager veio avisar que logo mais iriam embora, pois o voo para Buenos Aires seria às três horas da madrugada e eles não teriam muito tempo para descansar. Saímos do Carioca Club e lá ainda estavam uns 50 fãs aguardando. Como era de se esperar, eles atenderam todos com muita cordialidade. Tiraram fotos, deram autógrafos e muitas risadas; uma atitude muito bacana. Ainda acompanhei Stephane e David até o hotel para ajudar a carregar os equipamentos de filmagem e depois fui embora para casa do meu primo. O próximo encontro estava marcado para as 8h30 da manhã do dia seguinte em Guarulhos. Nosso avião para Buenos Aires sairia às 10h30.

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Buenos Aires, 24 de setembro

Encontrei Stephane e David no aeroporto, fizemos o check in e embarcamos para a segunda parte de nossa aventura com o Killing Joke. Os próximos dois dias seriam emocionantes: teríamos o show na segunda e um dia inteiro livre com a banda na terça.

Chegamos em Buenos Aires às 14h30, pegamos um uber e fomos para o hotel. Deixamos nossas malas e em seguida fomos para o local do show, o pequeno e aconchegante espaço Roxy La Viola, no bairro Palermo e apenas a duas quadras de distância do nosso hotel. Ao chegarmos, encontramos com toda a equipe: Diamond Dave, Damon Head, Waynne Smart e o tour manager Christopher. Stephane e David começaram a montar os equipamentos de filmagem enquanto a equipe preparava o palco para o soundcheck.

Durante a montagem tive a oportunidade de chegar bem próximo das duas Gibson ES295 de Geordie. Como é incrível ver de perto os detalhes dessa verdadeira obra de arte. As guitarras têm mais de 65 anos cada e Geordie usa as mesmas desde 1981. Portanto, só com ele elas já estão há pelo menos 37 anos. Ambas foram utilizadas em todos os álbuns do Killing Joke desde então. Deu pra ver todos os pequenos detalhes e os desgastes das mesmas: a ferrugem que já se espalhou pelos captadores e pelas ferragens, a pintura já totalmente craquelada… Foi emocionante chegar perto destas armas de guerra, responsáveis pelo som único e característico do Killing Joke.

Tudo preparado para a passagem de som e filmagem, ficamos em frente ao Roxy aguardando a banda e aos poucos foram chegando os ansiosos fãs argentinos. Assim como em São Paulo, quando a van chegou trazendo os músicos foi a mesma festa. Eles já desceram atendendo todos que estavam em frente ao local com fotos, autógrafos, muitas risadas, altas conversas. Prestei bastante atenção na atitude da banda nesse momento e também no semblante dos fãs ao encontrarem com seus ídolos. Eles receberam todos com muito entusiasmo e cordialidade. Após atenderem os argentinos, entramos todos para o soundcheck e os testes de filmagem. Ficamos eu Stephane e David num camarote um pouco mais elevado do lado direito, bem próximo ao palco. Ali tínhamos uma posição privilegiada para assistir ao show e também para o registro das filmagens. A passagem de som foi bem rápida e tranquila: tocaram “Love Like Blood”, “SO36” (que não entrou no set de São Paulo), e novamente “In Cythera” (que só foi executada uma única vez ao vivo durante a turnê no México, mas a qual tivemos a oportunidade de ouvir ao vivo nos dois soundchecks). Passagem de som finalizada, ficamos sentados no camarote aguardando a abertura da casa. Neste momento vieram Jaz, Geordie e Big Paul e sentaram-se ali conosco. Paguei uma rodada de cerveja para todos e ficamos conversando. Como era de se esperar, eu estava com um sorriso de orelha a orelha. Jaz veio até mim e perguntou porque eu não parava de rir (por que será?). Estava praticamente vivendo um sonho acordado, acompanhando minha banda preferida e tendo esse contato mais próximo com todo o processo que envolve uma turnê, viagem, montagem, passagem de som, a espera antes de começar o show. Emocionante!

Abriram as portas do Roxy e o público começou a entrar. Eles continuaram sentados ali no camarote (apenas Youth ficara no camarim). Atenderam rapidamente mais alguns fãs para fotos e logo entraram para o backstage. Aos poucos a casa enchia e dava para sentir a emoção do público. Assim como no Brasil, era a primeira vez que o Killing Joke se apresentava na Argentina e muita gente aguardava havia anos por esse momento. Um pouco diferente de São Paulo, cuja média de público era de quarentões, em Buenos Aires a a idade aparentava ser menor. Vi vários jovens na plateia ostentando camisetas não só do Killing Joke mas também de Alien Sex Fiend, Nick Cave, Ministry, Joy Division. O local ficou abarrotado de gente. Segunda consta, o show foi sold out, atingindo a capacidade da casa, de 500 lugares.

Ansiedade aumentando, começou a intro “Masked Ball” e o público ficou eufórico. A banda entrou no palco completamente ovacionada pela plateia. O show começou com “Love Like Blood” e e o público argentino logo comprovou o porquê serem considerados um dos mais calientes das américas: todo mundo pulando e cantando junto foi de arrepiar. O set seguia praticamente igual do dia anterior em São Paulo: “European Super State”, “Autonomous Zone”, “Eighties” (nessa ninguém ficou parado; o público realmente estava de parabéns por tamanha empolgação). Consequentemente, a banda recebia essa energia do público e retribuía com uma performance eletrizante e com mais garra ainda. Teve ainda “New Cold War”, “Requiem”, “Follow The Leaders” e “Bloodsport. Novamente o ponto alto do show na minha opinião, foi “Butcher”, do álbum Whats’ THIS For…!. Esta música ao vivo é sublime. Pós-punk minimalista e pesado. O clima e a letra são de revirar o estomago. “Butcher the womb and expect her to bear”.

O show prosseguia com “Loose Cannon” (dedicada por Jaz Coleman ao “true hero” Simon Bolivar), “Labyrinth”, “Corporate Ellect”, “Asteroid”, “The Wait”. Até os quatro encerrarem a primeira parte com a melhor versão de “Pssyche” que eu ouvi na vida. Como tenho todos os discos ao vivo do Killing Joke e diversos bootlegs, posso afirmar que nunca tinha ouvido uma versão tão pesada e coesa como essa. O curioso dessa canção é que é a única na discografia da banda que tem partes distintas cantadas primeiro pelo baixista Youth (depois Jaz Coleman canta a segunda parte e ela finaliza com o baterista Big Paul). Simplesmente sensacional!

Mal a banda deixou o palco era o ouvido uníssono o público argentino gritando Killing Joke e pedindo mais. No retorno dos músicos, mais duas surpresas: a hipnotizante “SO36” (do primeiro álbum, de 1980) e “The Death And Ressurection Show”, de 2003. Ambas não haviam sido executadas em São Paulo. Em seguida, “Wardance” e “Pandemonium”, na qual Jaz já profetizava, nos anos 1990, os tempos sombrios que viriam assolar o planeta (“I can see tomorrow, I can see the world to come, I can see tomorrow, hear the pandemonium”). Novamente tenho que atestar que o público argentino foi espetacular. Não parou um minuto sequer de pular e cantar junto. Em São Paulo foi tudo bacana, mas a plateia não estava tão empolgada (dias depois fui saber através dos amigos Stephane e David, que em Santiago a recepção fora ainda mais insana do que em Buenos Aires e que a própria banda considerara o melhor show da turnê até então).

Desmontamos os equipamentos de filmagem enquanto a equipe desmontava o palco. Aproveitei para conversar com alguns argentinos sobre a crise e a falta de emprego no pais, e perguntar sobre o paro geral que aconteceria no dia seguinte (tudo iria fechar, inclusive o aeroporto, todos protestando contra o péssimo governo Macri). Pude sentir pelos comentários que lá a situação está ainda pior do que no Brasil.

Fomos até o camarim para preparar mais uma edição da Cheese Party, mas como o local era muito pequeno, ficou decidido que a festa seria no hotel onde a banda estava hospedada, o Scala, na avenida Bernardo de Irigoyen, bem no centro de Buenos Aires.

Assim como em São Paulo, após o show, a banda saiu do Roxy e atendeu todos que aguardavam lá fora, sem frescuras e extremamente sorridentes e simpáticos. Ficamos curtindo a empolgação dos fãs. A banda se despediu do público, entrou na van e foi embora. Seguimos até o nosso hotel para descarregar os equipamentos e em seguida nos dirigimos para o Scala. Chegando lá, já encontramos com o Geordie (e algumas groupies) em frente ao hotel, entornando no bico, uma garrafa de tequila. Segundo relatos da própria banda, ninguém consegue acompanhar o Geordie quando o assunto é bebida. Por isso, nem ouse tentar.

Subimos para o quarto de Jaz Coleman e lá começaram os preparativos para mais uma edição da Cheese Party. Stephane preparou uma mesa com pães, torradas e seu kitde aparatos para servir os queijos. Abrimos algumas garrafas de vinho, taças foram enchidas para todos e a festa começou. Eu não estava acreditando no que estava acontecendo: festinha priva no quarto do Jaz, com a banda e equipe. Incrível! Youth entrou no quarto e colocou um som no seu celular ligado naquelas pequenas caixinhas JBL. Todo mundo numa sintonia muito bacana. Conversei bastante com todos da banda e equipe. O tour manager perguntou de onde eu era no Brasil. Quando falei que era de Curitiba, ele comentou que já havia vindo para cá diversas vezes trazendo shows de bandas como Exodus, Destruction, Grave Digger, Testament, Incubus, entre outras. Enquanto isso, Stephane ia cortando os queijos e servindo a todos um a um, sempre comentando um pouco sobre cada queijo, um melhor que o outro. Mostrei a Jaz minha tatuagem da aranha que fiz no Peru, quando estive em Nazca em 2011. É a mesma que o vocalista tem nas costas do macacão que usa no show. Contei que, assim como ele, eu havia visitado os mais importantes sítios arqueológicos da Bolívia e Peru, como Tiwanaco, lago Titicaca, linhas de Nazca, cemitério de Chauchila, e as ruínas de Olantaytambo e Macchu Pichu. Conversamos um pouco sobre as civilizações pré-Incas e todas as maravilhas e mistérios dos Andes.

Como não era permitido fumar no quarto, descemos para a área externa do hotel e fomos acompanhados por Jaz Coleman, que queria um charuto. Ficamos ali por uma meia hora conversando sobre o show, a escolha do set list e assuntos aleatórios, Ele comentou que a banda vai fazer mais uma turnê em 2019 e pretendem voltar para a América do Sul porque estavam adorando a receptividade dos fãs.

Subimos novamente ao quarto para mais uma rodada de queijos e vinhos e mais conversa e diversão. Aos poucos o vinho e os queijos foram acabando e o pessoal dispersando, cada um para seu quarto. Já eram quase 3 horas da manhã e decidimos também ir embora para nosso hotel para descansar. O dia tinha sido intenso e teríamos uma terça-feira inteira pra curtir com a banda. Nos despedimos e marcamos de encontrá-los no hotel na manhã do dia seguinte para tomarmos café juntos. Chamamos um uber e fomos embora para o nosso hotel. Demorei pelo menos uma hora para conseguir relaxar e pegar no sono. As imagens dos acontecimentos daquele dia ficavam constantemente passando pela minha cabeça como um filme. Eu estava eufórico e muito feliz, mas precisava descansar. E o dia seguinte seria ainda mais emocionante.

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Buenos Aires, 25 de setembro

Acordamos, nos encontramos no lobby do hotel, e fomos direto para o Scala. Era terça-feira em Buenos Aires, dia do paro geral. Estava tudo fechado, parecia feriado. Chegamos no Scala e fomos para a área do café. Estavam lá Big Paul e Diamond Dave e um pouco depois chegaram Jaz, Geordie e Roi. Youth não apareceu. Ficamos mais de uma hora tomando café juntos e conversando os assuntos mais variados possíveis: política, trabalhos, projetos futuros, viagens, filhos, casamentos, divórcios.

Na hora do almoço cada um foi para um lado e ficamos somente eu, Stephane, David e Jaz. Ele pediu que a gente o levasse para comer churrasco argentino. Pegamos um táxi em frente ao hotel (me sentei no banco de trás, entre Jaz e David) e pedimos que o motorista nos levasse para Puerto Madero para procurar algum lugar que estivesse aberto. Praticamente todos os restaurantes estavam fechados. Avistamos um que estava aberto e pedimos para ele nos deixar em frente. O nome do local era Rodizio. Era especializado em carnes argentinas, buffet de saladas, aperitivos e carnes servidas no rodízio. Sentei ao lado do Jaz Coleman e solicitamos a carta de vinhos, Jaz pediu que escolhêssemos o melhor Malbec que tivesse na carta, o garçom nos indicou alguns e então escolhemos o Rutini Malbec. Jaz nos contou que quando se trata de vinho ele toma somente três taças porque a quarta traz azar.

Antes de nos servirmos, ficamos ouvindo as teorias e as histórias mais absurdas que ele tem para contar. Falou muito sobre os illuminati, os Rothschild, os Rockfeller, o 11 de Setembro, UFOs e estações alienígenas no espaço, família, problemas com as antigas gravadoras e promotores da banda e o recente cancelamento do box em vinil – ele estava muito puto com os responsáveis da atual gravadora. Perguntei se estava ciente sobre a crise no Brasil e ele respondeu com muito conhecimento de causa, comentou sobre o golpe e o impeachment da presidente Dilma Rousseff, apontou as grandes corporações internacionais e principalmente os Estados Unidos de serem responsáveis por instalar essa crise no país bem como em toda América Latina. Jaz viaja um pouco nas suas teorias de conspiração, mas é uma pessoa inteligentíssima e cativa a atenção quando está falando.

Decidimos nos servir no buffet e começou o rodizio, o que eu prontamente ia traduzindo do espanhol para o inglês para eles saberem o que estavam servindo. Sinceramente, esse rodizio deixou a desejar. Nós, brasileiros, que estamos acostumados com churrascarias, conhecemos e sabemos quando uma carne está bem feita. Poucas opções de carnes estavam boas, como a picanha e a costela, mas na grande maioria, as carnes que foram servidas, estavam, como eles mesmo disseram, “chewy”, duro de mastigar. Jaz não gostou!

Finalizamos nosso almoço e fomos dar uma volta a pé por Puerto Madero. Em seguida tomamos um táxi de volta para o hotel. Lá chegando fomos para a área externa para mais uma seção de charutos com o mestre Coleman. Ele trouxe um kit portátil muito bacana, com várias opções de charutos e cortadores. Nesta hora fomos acompanhados por Diamond Dave e por Maria Ekaterina, uma garota argentina que estava no show no dia anterior e também era megafã da banda. Estava uma tarde agradabilíssima em Buenos Aires e o tempo parecia que estava suspenso. O tempo todo eu refletia sobre tudo que estava acontecendo. Estava muito emocionado de ter esse contato mais próximo e mais humano com meus maiores ídolos e compreender que, ao final do dia somos todos iguais, todos temos nossas alegrias, problemas, dilemas.

Quem acompanha o Killing Joke sabe que Jaz Coleman, além do seu trabalho com a banda, é uma conceituado maestro e arranjador. Ele toca violino, piano e instrumentos de sopro. Já gravou diversos projetos solo e paralelos à banda, como Songs From The Victorious City, (álbum de world music, gravado no Cairo com a musicista Anne Dudley, do Art Of Noise) e Oceania (disco de música tradicional maori, gravado na Nova Zelândia, onde ele vive há mais de vinte anos, em parceria com a cantora Hinewehi Mohi. Uma curiosidade deste álbum: a música “Kotahitanga” foi tema da novela Uga-Uga, exibida pela Rede Globo em 2000. Com a mesma Mohi, Jaz foi o responsável em alterar o hino nacional da Nova Zelândia do inglês para a língua maori nativa. Em 2003, ele escreveu e arranjou todas as orquestrações do álbum Harem da cantora Sarah Brightman. Escreveu e arranjou os álbuns sinfónicos Riders On The Storm: The Doors Concerto, com Nigel Kennedy; Us & Them: Symphonic Pink Floyd e Kashmir: Symphonic Led Zeppelin, ambos com a produção de Youth; e Symphonic Music Of The Rolling Stones. Produziu ainda singlese álbuns de bandas como Mission, Shirad, Cechomor, Zilch, Nitzer Ebb e Front Line Assembly, além de ter lançado, em 2003, um livro superbacana chamado Letters From Cythera, que vinha acompanhado do sua mais recente obra solo orquestrada, The Island – Symphony No.2, gravada pela orquestra filarmônica de Auckland.

O próximo projeto do vocalista, previsto para o final deste ano, é o disco The Great Invocation – A Killing Joke Symphony, integralmente escrito e arranjado por Jaz Coleman e gravado pela Filarmônica de São Petersburgo na Rússia. Enquanto estávamos conversando, ele entrou nesse assunto e falou um pouco sobre o novo álbum. Contou que já havia finalizado as mixagens e masterizações e faltavam somente alguns últimos detalhes para o lançamento. De repente, ele se levantou e convidou todos que estavam ali na mesa para subirem no seu quarto para ouvir as gravações. Então lá fomos nós para mais uma aventura: eu, Stephane, David, Diamond Dave e Maria. Sentamos todos na antessala do quarto de Jaz e ele ligou o celular nas caixinhas JBL para dar início à audição, em primeira mão, do “Symphonic Killing Joke. Ficamos os seis em completo silêncio ouvindo o novo álbum, ninguém sequer respirava direito. Jaz ficou praticamente o tempo todo com os olhos fechados movimentando as mãos no ar, regendo a orquestra imaginária enquanto rolavam as músicas. Em alguns momentos ele abria os olhos e chamava nossa atenção para que atentássemos a algum detalhe da música ou alguma mudança mais drástica. A experiência foi muito emocionante. Ficamos uma hora e meia (que é a duração do álbum) juntos com o criador, ouvindo sua obra mais recente. Em tempos de era digital, na qual os discos costumam vazar na internet, é mais do que normal ouvir algo antes do seu lançamento. Mas ouvir pela primeira vez uma obra ao lado de quem criou e escreveu foi uma das coisas mais fantásticas que já me aconteceu.

Após a audição ficamos todos muito emocionados e com lágrimas nos olhos, tamanha a beleza e sutileza da obra. Elogiamos muito o trabalho, fizemos nossos comentários. Jaz perguntou a cada um de nós qual música tínhamos gostado mais e o porquê. Eu fiquei muito impressionado com as versões de “Raven King”, “Intravenous” e “Adorations”, que foram as que mais me marcaram nesta primeira audição. Disse a ele que fora o momento mais incrível que já tinha acontecido na minha vida e que nunca mais iria esquecer aquele dia e toda vez que eu ouvisse o álbum dali em diante sempre iria lembrar desta tarde memorável ao lado de pessoas maravilhosas.

Descemos novamente para a área externa do hotel para mais alguns cafés, cigarros e charutos e continuamos a conversar sobre o álbum sinfónico. Jaz comentou que pretende lançar outros no futuro e que até já começou a escrever alguns arranjos. Nos contou também sobre como foi difícil a escolha das músicas num repertório tão extenso, o processo de escrever as partituras, as escolhas de instrumentos para cada parte e sobre sua estadia na Rússia durante as gravações com a Filarmônica de São Petersburgo

Já estava começando a anoitecer quando fomos todos para o restaurante do hotel, pedimos algumas cervejas e continuamos a conversar com Jaz. Ele contou que pretende em 2019 realizar um evento especial para os gatherers. A ideia são acampamentos em locais sagrados nos Andes, onde acontecerão visitas guiadas, leituras, música, cerimonias ritualísticas. Uma verdadeira celebração entre os gatherers!

Aos poucos foram aparecendo o restante dos integrantes da banda e equipe e todos decidiram jantar ali mesmo no hotel. Dei várias dicas de lugares para se visitar em Santiago. Falei que tinham que visitar o Cerro Bella Vista para ter uma visão privilegiada da cidade de Santiago. Também sugeri que almoçassem no mercado central de Santiago, especializado em frutos do mar, para provar o delicioso King Crab e o Ceviche. O local vale a visita pois tem uma arquitetura muito bonita,  e o projeto foi desenhado por Gustave Eiffel. Espero que eles tenham tido a oportunidade de ir, já que na manhã seguinte se dirigiriam para Santiago e, assim como em Buenos Aires, teriam um dia livre na cidade.

Após o jantar, Jaz Coleman se despediu e foi para o seu quarto. Fomos então até o lobby do hotel e ficamos tomando rum e conversando bem descontraidamente com Big Paul e Diamond Dave, um pouco depois se juntaram a nós Damon Head e Waynne Smart. Todos foram muito amáveis conosco. Chegou nossa hora de nos despedir e irmos embora. Foi muito emocionante receber um abraço carinhoso de todos, banda e equipe, me desejando boa viagem, dizendo que eu era um cara muito legal e que esperavam me encontrar na próxima turnê. Big Paul me perguntou qual seria a primeira coisa que eu faria ao chegar no Brasil e eu lhe disse que seria ver minha filhinha Kali, pois eu estava com muitas saudades dela. Fomos então embora para nosso hotel. Na manhã seguinte nós também nos despediríamos: Stephane e David seguiriam a banda em Santiago e Lima, eu retornaria ao Brasil.

De todas as pessoas as que mais tenho que agradecer por esses três dias foram esses figuras, Stephane e David, dois seres extremamente cordiais, inteligentes, engraçados e muito companheiros. Apesar de nunca termos nos conhecido pessoalmente e da barreira da língua, parecia que já nos conhecíamos havia muitos anos. Os dois eram uma comédia. O tempo todo faziam piadinhas entre eles (a richa antiga entre Inglaterra e França!), tirando selfies fazendo caretas, rindo que nem palhaços – tanto é que eu os apelidei de Inspetor Clouseau e Mr Bean, de tão engraçados que eram. Ao nos despedirmos no aeroporto de Buenos Aires na quarta-feira pela manhã, ambos me convidaram para visita-los no exterior, quando eu quiser as portas estarão abertas. São esse tipo de amizade que só o Killing Joke consegue proporcionar entre os “gatherers”. Eu nunca esquecerei os momentos que passamos juntos. Foi graças a eles também que tive o acesso e contato tão próximo com a minha banda preferida.

E assim acabou minha aventura com o Killing Joke. Retornei para o Brasil e já no avião comecei a planejar escrever esse relato da viagem. Foram três dias muito intensos ao lado de pessoas bacanas e da melhor banda do mundo. All hail the almighty Joke!

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Movies

O Doutrinador

Personagem de sucesso da HQ independente brasileira ganha os cinemas para combater a corrupção na política e fazer justiça com as próprias mãos

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Downtown/Divulgação

Doutrina é um conjunto de princípios que servem de base a um sistema filosófico, religioso, político, social ou econômico. Estas ideias devem ser difundidas e ensinadas disciplinarmente, de modo que elas se propaguem e se mantenham ao longo do tempo.

Para o policial de elite Miguel, só existe saída em uma única doutrina: atirar para matar, sem dó nem piedade, políticos corruptos brasileiros. Para vingar todo o sentimento de desgosto e impotência diante de dois fatores fundamentais: a morte da filha pequena por uma bala perdida no meio da rua e o fato de os esforços de sua força-tarefa para prender os criminosos de colarinho branco serem praticamente em vão diante da justiça comprada e das sabotagens de seu superior imediato. A partir desta sequência de infortúnios, ele se transforma em um obstinado justiceiro, que caça implacavelmente os envolvidos em um complexo sistema de corrupção para acabar com suas vidas a sangue frio. Na bala e também na quando, se possível. Transforma-se no Doutrinador, uma figura que leva o terror a seus alvos através de uma máscara antigás com olhos vermelhos de raiva, habilidades físicas com imenso potencial e uma aliança entre rapidez e estratégia para se infiltrar nos lugares mais impossíveis.

O ilustrador carioca Luciano Cunha criou o personagem em 2008, como uma válvula de escape para suas frustrações diante do inicio da enxurrada de notícias a respeito do Mensalão e outros casos iniciais que alardeavam a corrupção alastrada nas entranhas do meio político nacional. Depois de vários contatos com editoras, que mostraram-se receosas de publicar os quadrinhos do Doutrinador, Cunha decidiu pelo do it yourself. Disponibilizou em março de 2013 na internet a obra, que rapidamente arrebatou milhares de fãs com os protestos nas ruas de todo o país naquele mês de junho. Três edições impressas bancadas pelo próprio autor esgotaram-se rapidamente. Críticas positivas também vieram de outros países. Até que o cinema e a televisão também se atraíram pela HQ.

O longa-metragem O Doutrinador (Brasil, 2018 – Downtown Filmes) chega ao circuito nacional de salas de cinema nesta semana, já como uma espécie de piloto para o seriado que ganhará a telinha no inicio do ano que vem, na programação do canal por assinatura Space. O próprio Cunha, ao lado do roteirista Gabriel Wainer, assina a transposição dos quadrinhos tanto para o filme e quanto para os episódios. O longa tem a direção de Gustavo Bonafé (que está nos cinemas com outro filme, Legalize Já) e uma trilha sonora de primeira assinada pelo coletivo paulistano Instituto – com músicas interpretadas por Karol Conká, Rincón Sapiência e Far From Alaska, por exemplo.

Nem dá para perceber que o protagonista foi ligeiramente suavizado em sua sede por vingança e justiça pelas próprias mãos. O que poderia ser um ponto negativo para os fãs trazidos do universo das HQs. Outro ponto positivo do filme é a maestria para driblar qualquer procura por tendência político-partidária ou relações entre os personagens corruptos e os figurões da vida real. Luciano e Gabriel foram bem felizes ao não deixar rastros que possam ligar à esquerda ou à direita ou as turmas do fora-isso ou do aquilo-não.

Em recente passagem por Curitiba, quando participaram do evento Geek City, Cunha e Wainer defenderam a isenção de vínculos com ideologias que andam inflamando nosso país. “Ainda não estamos acostumados, no entretenimento brasileiro, a ter inimigos que conversem com a gente, uma narrativa que está conectada com a nossa realidade. O lema que sempre carregamos é que para termos um universo de heróis nosso, eles têm que falar das nossas cidades e dos nossos problemas”, afirmou Luciano. Gabriel ainda salientou que o filme foi criado para que não surgisse um Doutrinador na vida real.  “Não é uma apologia à violência. É uma ficção que criei para externar meu descontentamento com a classe política. Sempre digo que temos que matar os políticos na urna, não os elegendo. Os corruptos, é claro”, completou Cunha.

Para interpretar o protagonista, Kiko Pissolato dispensou o uso de dublês e encarou ele mesmo a tarefa de rodar todas as cenas de ação como o Doutrinador. No elenco ainda estão Tainá Medina (a hacker nerd que dá suporte ao justiceiro em suas ações), Eduardo Moscovis (o governador corrupto que dá início às caças particulares de Miguel), Tuca Andrada (o chefe de Miguel na Divisão de Ações Especiais), Marília Gabriela (como a ministra do STF envolvida nos esquemas dos políticos e empresários), Helena Ranaldi (a opositora do debate que também concorre às eleições), Samuel de Assis (o policial amigo de Miguel) e Natália Lage (a ex-mulher de Miguel).

Apesar do roteiro se perder para algumas obviedades no final, O Doutrinador– que carrega claras inspiração e influência estética do Batman – ainda revela-se um bom filme de ação, gênero pouco explorado no cinema nacional. Justamente por seu maior trunfo ser o fato de dispensar o uso de efeitos especiais pirotécnicos e tecnológicos (algo que hoje em dia parece indispensável em obras deste filão) para apostar no fator humano.