Music

Garotos Podres

Vocalista e fundador Mao fala, em entrevista, sobre a volta às atividades da banda que é um dos ícones do punk rock brasileiro

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Entrevista por Guilherme Motta

Foto: Laura Ciampone/Divulgação

Prestes a desembarcar em Curitiba para se apresentar em um dos mais conceituados e antigos festivais de rock independente do país, o Psycho Carnival (clique aqui para mais informações sobre o evento), os Garotos Podres celebram o bom momento da banda, que acaba de retomar as atividades depois de uma cisão que provocou disputa judicial a respeito do uso do nome e a criação de uma “identidade secreta” para durar o tempo deste imbróglio todo. Em entrevista por e-mail para o Mondo Bacana, o vocalista e fundador Mao fala sobre toda essa confusão, os novos lançamentos e ainda a confusão política que nos últimos anos rachou o país entre esquerda e direita.

Junto com os fãs tenho acompanhado toda essa treta envolvendo o nome e os integrantes do Garotos Podres. Como está sendo agora pra você saber que a banda está novamente dentro do contexto que você sempre acreditou e lutou?

Sou músico há muitos anos. Só nos Garotos Podres são 37 anos. Creio que atualmente estou vivendo a minha melhor fase enquanto músico. Estou tendo a oportunidade não só de tocar ao lado e músicos de grande qualidade técnica, mas também companheiros que compartilham uma visão de mundo que une a banda através de um ativismo político-social. Essencialmente, somos favoráveis aos princípios fundamentais da dignidade humana. Lutamos pelos direitos dos trabalhadores, das minorias e de todos os oprimidos. Somos radicalmente contra o racismo e defendemos a emancipação da classe operária através da construção de uma sociedade justa, igualitária e fraterna. Em outras palavras, somos, acima de tudo, antifascistas!

Ultimamente com essa onda conservadora que vêm crescendo no país, muitas das pessoas até mesmo as que eram próximas a nós estão saindo do armário do fascismo. Muitas vezes me deparo com comentários do tipo “Não pode misturar música (seja rock, punk, hardcore ou mesmo a arte em geral) com política”.  Temos o exemplo da banda Dead Fish, que desde o seu início em 1991 tem o posicionamento político muito bem definido e também contam com uma parcela dos fãs que se dizem de direita mas “curtem” o som da banda, mesmo as letras sendo extremamente politizadas. Como você enxerga essa questão?

Durante muitas décadas a grande mídia operou no sentido de despolitizar e alienar grande parte da população brasileira. Esta “onda conservadora” nada mais é do que uma ação planejada por parte dos setores mais reacionários da classe dominante de nosso país. Foi através deste controle de “corações e mentes” que conseguiram dar um golpe de Estado em 2016, que, em nome do “combate à corrupção”, colocou os mais corruptos políticos no poder. Em 2018, eles foram ainda mais longe. Impediram a candidatura do principal candidato dos trabalhadores e, através de uma intensa campanha de fake newse mentiras nas redes sociais, colocaram no poder um governo que se empenha em destruir todos os direitos trabalhistas, previdênciários e sociais dos trabalhadores. Estas pessoas que se dizem de “direita” são donos dos bancos? Das indústrias? São patrões ou latifundiários? Não! São apenas “trabalhadores pobres”, que acreditam ser ricos (ou potencialmente ricos, no futuro) e de “direita”! Ou seja, são vítimas idiotizadas pela grande mídia e pelas redes sociais, instrumentalizados pela classe dominante como rebanho eleitoral. São pessoas que foram capazes de votar em seus próprios carrascos.

Aproveitando o assunto sobre conservadorismo… Como você reage ao fato de que existem pessoas conservadoras, com posicionamento político voltado totalmente à direita dentro do cenário punk? Como, por exemplo, o que aconteceu ao Garotos Podres, quando integrantes com posicionamento inverso à postura do grupo durante décadas estavam levando o projeto adiante com o mesmo nome?

Creio que o movimento punk, assim como a maior parte do rock em geral, tem um espírito mais progressista e de esquerda. Acho um contrassenso a postura conservadora de algumas pessoas, principalmente aquelas que tem ligação com o punk rock. No caso dos Garotos Podres houve um racha na banda em 2012. Eu e o Cacá Saffiotti fomos para um lado enquanto o ex-baterista e ex-baixista foram para outro. Esta divisão se deu por inúmeros problemas que foram se acumulando ao longo dos anos. Mas o que foi determinante foi a aproximação de dois ex-integrantes à extrema-direita. Como exemplo disso tivemos a candidatura do ex-baixista, Michel Stamatopoulos, a vereador em São Caetano do Sul em 2016, pelo PEN. Nesta época este partido era ligado a Jair Bolsonaro. Posteriormente a agremiação assumiu o nome de Patriotas e lançou a candidatura presidencial do Cabo Daciolo em 2018. Em 2013,  apoiando-se em nosso antigo empresário, estes ex-baterista e ex-baixista criaram um grupo que passou a usar indevidamente o nome Garotos Podres. Felizmente o projeto deles não foi para frente, encerrando as atividades ainda em 2014. Entretanto, ainda hoje tentam se apoderar do nome Garotos Podres pela via judicial.

Devido ao rompimento do Garotos, você e o Cacá formaram O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos e em 2014 lançaram o álbum Contra os Coxinhas Renegados Inimigos do Povo. Pode-se dizer que esse é um lançamento do Garotos Podres disfarçado?

Quando houve o racha dos Garotos Podres em 2012, eu e o Cacá Saffiotti pretendíamos da continuidade aos Garotos Podres, com novos integrantes. Isto nos parecia perfeitamente legítimo, uma vez que eu sou o fundador da banda, além de autor de quase 90% das letras e compositor de quase 50% das músicas. Pretendíamos preparar novas músicas, lançar um novo álbum, e reiniciar as atividades. Entretanto os ex-baterista e ex-baixista, associados ao nosso antigo empresário, tentaram se apoderar do nome da banda e iniciaram as atividades no início de 2013. Eu e o Cacá ficamos diante de um dilema: corríamos o risco que ter duas bandas com o mesmo nome. A avaliação que fazíamos era que o projeto deles não iria durar muito, por ser, ao nosso ver, musicalmente muito ruim. Neste ponto estávamos corretos, uma vez que eles acabaram encerrando as suas atividades ainda em 2014. Assim, nós decidimos criar uma “identidade secreta” para darmos continuidade aos nossos trabalhos musicais: nasceu assim O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos. Sim, a “identidade secreta” dos Garotos Podres. Lançamos nosso álbum, Contra os Coxinhas Renegados Inimigos do Povo, em outubro de 2014. Começamos a fazer nossos primeiros shows utilizando este batismo e paulatinamente fomos fazendo a “transição” para começarmos a utilizar de volta o nome Garotos Podres. No final de 2017, Michel Stamatopoulos anunciou oficialmente o encerramento das atividades do projeto musical deles. A partir de então assumimos a nossa verdadeira identidade secreta. Todos os serviços de inteligência do decadente Ocidente capitalista ficaram estupefatos diante do fato de descobrirem que o “mui exelente e temível” Mao, dos Garotos Podres, e o “mui excelente e temível” Mao, de O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos, eram exatamente a mesma pessoa! Hahahahaha! Enganamos todos eles!

Vocês virão para Curitiba neste carnaval, para tocar em um festival voltado especificamente ao cenário psychobilly e rockabilly. É um público para o qual vocês já costumavam tocar anteriormente? Qual a expectativa para este show no Psycho Carnival 2019?

Conhecemos o pessoal das bandas de psychobilly e rockabilly de Curitiba e já tivemos o privilégio de tocarmos juntos algumas vezes. Estamos ansiosos de encontrar não apenas os pessoal destas bandas, mas principalmente a galera que sempre vai em nossos shows em Curitiba!

Em 2018, para comemorar o retorno dos verdadeiros Garotos Podres, vocês lançaram o compacto Canções de Resistência, que contém duas faixas: “Grândola (Vila Morena)” e “Aos Fuzilados da CSN”. Como estão os planos futuros da banda. Pretendem lançar logo um álbum inteiro inédito?

Em 25 de abril colocamos a música e o clipe de “Grandola, Vila Morena” nas redes sociais. No Primeiro de Maio, lançamos uma nova versão de “Aos Fuzilados da CSN” e também o respectivo clipe. Estas duas simbólicas músicas marcaram o retorno dos Garotos Podres, através deste compacto digital intitulado Canções de Resistência. Creio que atualmente ocorreram significativas mudanças no que diz respeito ao lançamento de novos produtos musicais. É o fim do CD enquanto mídia de divulgação musical! Entretanto, acreditamos que as plataformas digitais devam substituir em parte o CD. Neste sentido, pensamos ser mais proveitoso e agil disponibilizar gratuitamente novas músicas, a partir de novas gravações. Pretendemos começar a lançar vários singles ao invés de álbuns.

Qual a mensagem que você deixaria para o pessoal que, como você, continua lutando contra essa onda de conservadorismo fazendo arte de um modo geral?

Acho que a emergência do fascismo cinde a humanidade em duas alas irreconciliáveis. De um lado está a barbárie fascista e de outro, oposto, todos aqueles defendem a humanidade. Não é necessário que você seja um radical líder revolucionário para se opor ao fascismo. Se você é contra o racismo, contra a opressão, contra os mais desfavorecidos; se coloca-se ao lado dos trabalhadores humildes; se é contra as injustiças desse mundo e se põe a favor da humanidade… Você é meu camarada!

Movies

Vice

Atuação de Christian Bale é o ponto alto desta cinebiografia do vice-presidente de George W. Bush com muito humor e crítica política

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Um dos filmes mais comentados nesta temporada de premiações, acumulando indicações e desenvolvendo um hype de Oscar, é Vice (EUA, 2018 – Imagem Filmes). O filme de Adam McKay (que em 2015 já mexera em outra grande ferida recente de seu país em A Grande Aposta) conta a trajetória de Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos durante o governo de Bush Filho (2001- 2009), desde sua origem em Wyoming até os dias atuais. E será que toda a repercussão da obra vale o ingresso?

A trama retrata as nuances do poder adquirido por Cheney, brilhantemente interpretado por Christian Bale, que repete a parceria com McKay. Aqui, Bale também passa por transformações físicas para seu protagonista, sendo que o ponto alto de sua atuação é o detalhe. Cada trejeito do político americano é cuidadosamente arquitetado por seu ator. O elenco de apoio também não deixa a desejar mas poderia ser melhor aproveitado. Como Amy Adams, que interpreta sua esposa, Lynne Cheney, demonstrando seu inegável talento com seus momentos de brilhantismo; e Steve Carell, que orbita entre o drama sádico e a inconveniência humorística como o secretário de defesa Donald Rumsfeld.

McKay constrói o filme de maneira equivalente a seu laureado antecessor, repetindo seu estilo de narração com traços de documentário investigativo com o acréscimo da maturidade no tom. A seriedade da trama privilegia o humor fortemente visual da obra, que se aproveita da estética cinematográfica para preencher suas duas horas com momentos genuinamente engraçados. Grande mérito de Viceé  a utilização de metalinguagem, que presenteia o espectador com as melhores piadas do filme.

Numa outra camada de metalinguagem, o filme alterna suas razões de aspecto e cria uma formidável confusão, na qual não entendemos se as imagens mostradas são mesmo reais ou gravadas para esta produção. Essa estranha sensação amplifica as consequências das decisões de Cheney e sua equipe, o que torna o filme particularmente denso, sem abandonar a leveza com que McKay trata suas cenas.

A fotografia é simples, ressaltando a narrativa visual do roteiro e criando a tênue margem entre realidade e ficção que dança ao longo do filme. Os planos abertos e posicionamentos simples da obra são bem montados, numa alternância de ritmo entre os momentos mais tensos e calmos, sem que deixemos de enxergar o poder nas mãos de Cheney. Ainda assim, quando a trama embarca em seus episódios sérios, não poupa esforços. Cenas fortes preenchem a tela, além de críticas (sutis e óbvias) à política da direita estadunidense. Trump e seus eleitores têm uma especial participação porque Vice mescla humor à crueza da vida política de uma das nações mais poderosas do mundo.

McKay consegue demonstrar seu lado “humano” presente em relações pessoais. Com uma iconografia que traça paralelos entre o personagem de Bale e o icônico Winston Churchill, a obra quase faz o espectador sentir empatia pelo vice-presidente de George W. Bush. Ainda assim, o roteiro e a camada de realidade que permeia o filme o vilanizam sem a necessidade de iluminação nefasta e revelação de planos malignos do político. Escancarando seus erros e as consequências deles, Vice nunca te deixa esquecer que seu protagonista é Dick Cheney.

[Nota do editor: Na noite de 7 de janeiro, ao receber o Globo de Ouro da categoria de melhor ator em comédia ou musical, Christian Bale agradeceu a satanás pela inspiração ao papel de uma pessoa sem qualquer carisma.]

Music, Videos

Clipe: Killers – Land Of The Free

Artista: Killers

Música: Land Of The Free

Álbum: Título a ser anunciado (2019)

Por que assistir: Um dos itens em que Donald Trump sempre bateu durante a sua caminhada eleitoral rumo à Casa Branca e também depois de passar a ocupar o cargo da presidência dos EUA foi a construção de um grande muro para impedir a entrada em seu país de mais imigrantes vindos do território mexicano. A proposta, preconceituosa e separatista, é a principal personagem dos novos clipe e música do Killers. As cenas que ilustram o vídeo foram captadas sob o comando do cineasta e ativista político-racial Spike Lee durante o ano passado, que ainda terminou com uma grande caravana de gente de países centro-americanos (a maioria de Honduras) disposta a fazer de tudo para cruzar a borda na expectativa de uma vida mais digna na “terra da liberdade”. Nas imagens flagradas, impera o massacre da opressão diante da pobreza e pela violência física. Toda esta crueza de imagens choca ainda mais quando casada à mais nova música da banda liderada por Brandon Flowers. Agora com a formação reduzida a um trio – após o desligamento voluntário e por tempo indeterminado do guitarrista Dave Keuning – o Killers anuncia para o decorrer deste ano, com a faixa “Land Of The Free”, seu mais novo álbum, o sexto da carreira. Ainda sem o título anunciado, o disco deverá promover o retorno do grupo à sonoridade clássica de seus dois primeiros trabalhos (Hot Fuss, de 2004, e Sam’s Town, de 2006), com arranjos épicos, letras cheias de citações e referências politizadas, religiosas ou filosóficas. “Land Of The Free” se parece muito com “All The Things That I’ve Done” por apostar no arranjo vocal gospel, especialmente na hora dos refrães. Entretanto, sua base é o piano e, muito provavelmente pela ausência de Keuning no estúdio, as guitarras ficam bem para segundo plano. Ao lançar “Land Of The Free”, Flowers postou na internet um longo depoimento dizendo que sempre acreditou nos EUA e nos valores transmitidos desde a fundação dele, mas que andava profundamente chateado com toda a situação sociopolítica dos últimos anos (leia-se governo Trump), que o verdadeiro encarceramento em massa estava dentro do próprio país e que a onda de crimes envolvendo tiroteios aqui, ali e acolá o afetava muito, principalmente na condição de pai e descendente de imigrantes (a família de sua avó veio da Lituânia). Por isso, continuou, o melhor jeito de externar essa insatisfação seria colocar os sentimentos para fora em forma de música. Uma bela paulada no atual presidente, aliás, e algo surpreendente também para quem, na época das entrevistas de divulgação de Sam’s Town, provocou polêmica ao declarar uma certa simpatia pelo Partido Republicano e sua política de direita.

Texto por Abonico R. Smith

Movies

O Doutrinador

Personagem de sucesso da HQ independente brasileira ganha os cinemas para combater a corrupção na política e fazer justiça com as próprias mãos

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Downtown/Divulgação

Doutrina é um conjunto de princípios que servem de base a um sistema filosófico, religioso, político, social ou econômico. Estas ideias devem ser difundidas e ensinadas disciplinarmente, de modo que elas se propaguem e se mantenham ao longo do tempo.

Para o policial de elite Miguel, só existe saída em uma única doutrina: atirar para matar, sem dó nem piedade, políticos corruptos brasileiros. Para vingar todo o sentimento de desgosto e impotência diante de dois fatores fundamentais: a morte da filha pequena por uma bala perdida no meio da rua e o fato de os esforços de sua força-tarefa para prender os criminosos de colarinho branco serem praticamente em vão diante da justiça comprada e das sabotagens de seu superior imediato. A partir desta sequência de infortúnios, ele se transforma em um obstinado justiceiro, que caça implacavelmente os envolvidos em um complexo sistema de corrupção para acabar com suas vidas a sangue frio. Na bala e também na quando, se possível. Transforma-se no Doutrinador, uma figura que leva o terror a seus alvos através de uma máscara antigás com olhos vermelhos de raiva, habilidades físicas com imenso potencial e uma aliança entre rapidez e estratégia para se infiltrar nos lugares mais impossíveis.

O ilustrador carioca Luciano Cunha criou o personagem em 2008, como uma válvula de escape para suas frustrações diante do inicio da enxurrada de notícias a respeito do Mensalão e outros casos iniciais que alardeavam a corrupção alastrada nas entranhas do meio político nacional. Depois de vários contatos com editoras, que mostraram-se receosas de publicar os quadrinhos do Doutrinador, Cunha decidiu pelo do it yourself. Disponibilizou em março de 2013 na internet a obra, que rapidamente arrebatou milhares de fãs com os protestos nas ruas de todo o país naquele mês de junho. Três edições impressas bancadas pelo próprio autor esgotaram-se rapidamente. Críticas positivas também vieram de outros países. Até que o cinema e a televisão também se atraíram pela HQ.

O longa-metragem O Doutrinador (Brasil, 2018 – Downtown Filmes) chega ao circuito nacional de salas de cinema nesta semana, já como uma espécie de piloto para o seriado que ganhará a telinha no inicio do ano que vem, na programação do canal por assinatura Space. O próprio Cunha, ao lado do roteirista Gabriel Wainer, assina a transposição dos quadrinhos tanto para o filme e quanto para os episódios. O longa tem a direção de Gustavo Bonafé (que está nos cinemas com outro filme, Legalize Já) e uma trilha sonora de primeira assinada pelo coletivo paulistano Instituto – com músicas interpretadas por Karol Conká, Rincón Sapiência e Far From Alaska, por exemplo.

Nem dá para perceber que o protagonista foi ligeiramente suavizado em sua sede por vingança e justiça pelas próprias mãos. O que poderia ser um ponto negativo para os fãs trazidos do universo das HQs. Outro ponto positivo do filme é a maestria para driblar qualquer procura por tendência político-partidária ou relações entre os personagens corruptos e os figurões da vida real. Luciano e Gabriel foram bem felizes ao não deixar rastros que possam ligar à esquerda ou à direita ou as turmas do fora-isso ou do aquilo-não.

Em recente passagem por Curitiba, quando participaram do evento Geek City, Cunha e Wainer defenderam a isenção de vínculos com ideologias que andam inflamando nosso país. “Ainda não estamos acostumados, no entretenimento brasileiro, a ter inimigos que conversem com a gente, uma narrativa que está conectada com a nossa realidade. O lema que sempre carregamos é que para termos um universo de heróis nosso, eles têm que falar das nossas cidades e dos nossos problemas”, afirmou Luciano. Gabriel ainda salientou que o filme foi criado para que não surgisse um Doutrinador na vida real.  “Não é uma apologia à violência. É uma ficção que criei para externar meu descontentamento com a classe política. Sempre digo que temos que matar os políticos na urna, não os elegendo. Os corruptos, é claro”, completou Cunha.

Para interpretar o protagonista, Kiko Pissolato dispensou o uso de dublês e encarou ele mesmo a tarefa de rodar todas as cenas de ação como o Doutrinador. No elenco ainda estão Tainá Medina (a hacker nerd que dá suporte ao justiceiro em suas ações), Eduardo Moscovis (o governador corrupto que dá início às caças particulares de Miguel), Tuca Andrada (o chefe de Miguel na Divisão de Ações Especiais), Marília Gabriela (como a ministra do STF envolvida nos esquemas dos políticos e empresários), Helena Ranaldi (a opositora do debate que também concorre às eleições), Samuel de Assis (o policial amigo de Miguel) e Natália Lage (a ex-mulher de Miguel).

Apesar do roteiro se perder para algumas obviedades no final, O Doutrinador– que carrega claras inspiração e influência estética do Batman – ainda revela-se um bom filme de ação, gênero pouco explorado no cinema nacional. Justamente por seu maior trunfo ser o fato de dispensar o uso de efeitos especiais pirotécnicos e tecnológicos (algo que hoje em dia parece indispensável em obras deste filão) para apostar no fator humano.