Movies

Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal

Docudrama tem ótimas atuações e aposta de forma ousada no lado bom moço de um dos mais famosos assassinos em série dos EUA

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Paris Filmes/Divulgação

O assassino em série Ted Bundy voltou ao imaginário público recentemente, com o advento do documentário da Netflix sobre sua história. Em agosto, a Netflix lança também um longa-metragem sobre seus crimes, desta vez para sua plataforma on demand. Mas antes ele chega aos cinemas, mais precisamente neste fim de semana em todo o país. Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shocklingly Evil And Vile, EUA, 2019 – Netflix/Paris Filmes) tem uma tarefa difícil em suas costas: trazer ar fresco aos docudramas criminais.

Nas mãos de Joe Berlinger, que também assina a direção da série documental exibida desde o começo do ano na plataforma de assinatura, a trama gira em torno da relação de Bundy com suas companheiras Liz (Lily Collins) e Carole Ann (Kaya Scoledario). Cada uma, em momentos diferentes, assume o coprotagonismo com o psicopata, interpretado brilhantemente por Zac Efron – fato que será discutido posteriormente. Grande parte de seu desenvolvimento se passa ao redor dos processos judiciais pelos quais Ted foi condenado, nos anos 1970. O roteiro de Michael Werwie, baseado no livro da mesma Liz (Elizabeth Kendall é seu nome), acaba operando como um apanhado de pontos espalhados pela trajetória do protagonista até, enfim, focar no processo que o condenou à pena de morte, no qual Bundy foi seu próprio advogado.

A Irresistível Face do Mal se desenvolve pelo ponto de vista de Liz, a principal companheira do serial killer. No entanto, a direção opta por deixar o espectador no limbo de incerteza que a envolve, investindo nas alegações de inocência de Ted. Por vezes a tentativa de foco no romance dos personagens soa confusa: se sabemos que o protagonista foi um dos maiores assassinos em série dos Estados Unidos, então por que o diretor tenta tanto enxergá-lo positivamente? O filme respeita muito as vítimas de Bundy, mas sua linguagem incerta não é, em alguma instância, desrespeitosa com a história perversa, vil e má que retrata?

Contudo, os elementos técnicos do filme garantem uma experiência intrigante. A fotografia de Brendan Trost alterna entre momentos estilizados – optando pela profundidade de campo extremamente rasa muitas vezes, porém sempre com intenção dramática – e reproduções da linguagem fotográfica setentista. Em seus momentos de reinterpretações fieis de momentos factuais, como a entrevista de Ted Bundy e seu julgamento televisionado, A Irresistível Face do Mal também opera de maneira restitutória, imergindo seu público nas camadas de sua trama.

Grande parte da imersão se deve, no entanto, ao competente elenco. Lily Collins emana as emoções de sua personagem convincentemente, tornando-a muito mais dimensionada do que o proposto pelo roteiro, que a parece encarar apenas como a “namorada de Ted Bundy que não consegue o superar”. Carole Ann, a segunda companheira do protagonista, é ainda mais plana, por vezes soando delirante. No entanto, é uma ótima interpretação de Kaya Scodelario, talvez o melhor papel de sua carreira. John Malkovich, que faz o juiz que condena Bundy, e Haley Joel Osment, um colega de Liz, parecem desconexos do resto da trama, mas não performam mal. Malkovich parece icônico demais para o papel. Maldito Quero Ser John Malkovich!

A cereja do bolo – e também sua base – é Zac Efron, que não somente é muito parecido com seu personagem, mas também o interpreta incrivelmente. O balanço entre o aparente bom moço e o frio olhar psicopata de seu Bundy nos fazem entender por que a mídia e a sociedade americana caíram em seu feitiço. Com mais atuações deste porte, Efron pode até apagar a mancha de sua terrível filmografia.

Não obstante, o elo fraco do filme é sua confusa montagem, que parece não entender seus momentos de respiro e, por consequência, acaba por suprimi-los. Não é uma coletânea de edições terríveis, mas com certeza reduz a capacidade de imersão do produto final.

Assim, Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal é um docudrama envolvente, que não inova muito, mas presenteia seu espectador com um ponto de vista diferenciado às histórias de serial killer. Por mais semanticamente confuso, vale a experiência e é capaz de atingir tanto os aficionados pelas histórias de assassinos em série quanto aqueles que não têm estômago suficiente para o nicho.

Music

Daryl Hall & John Oates – ao vivo

Dupla americana tira o atraso de décadas e traz ao Brasil a nostalgia do tempo que a música pop importava para as rádios

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Texto e foto por Fábio Soares

Quem foi criança/adolescente no início dos 1980 e não se influenciou pela programação das rádios FM é um belo de um mentiroso! No dial, um quase infinito leque de opções radiofônicas transformava locutores em celebridades sem rosto. Em São Paulo, nomes como Tony Lamers, Bob Floriano, Beto Rivera e o legendário Sérgio Bocca possuíam públicos fiéis, arregimentando fãs sedentos por música pop, dance, de elevador, romântica e caramba a quatro. Nessa efêmera locomotiva do tempo que urgentemente dependia de melodias “chiclete” para não parar de rodar, as figuras de Daryl Hall e John Oates foram fundamentais. Maquinistas de um trem que não parou de circular um minuto sequer, estes senhores (já septuagenários) abasteceram como ninguém as hit parades mundo afora.

Mas, curiosamente, a dupla Hall & Oates jamais havia pisado em terras brasileiras em mais de 40 anos de estrada. Segundo Hall, por conta do antigo empresário da dupla, que jamais enxergou na América Latina uma seara a ser explorada. Um frenesi tomou conta das imediações do Espaço das Américas na terça-feira 11 de junho. O público majoritariamente sub-50 (eu incluso) praticamente esgotou os ingressos para a única apresentação da dupla em solo brasileiro. Pontualmente às 21h30, um show de projeções no fundo do palco fez um breve apanhado dos hits através da exibição de discos de vinil com o título de cada um de seus inúmeros sucessos em seus respectivos selos. E foi com o, talvez, maior deles que os trabalhos foram iniciados: mesmo equivocadamente posicionada como abertura, “Maneater” deu o start a um baile da saudade que duraria 90 minutos.

Somente fábricas de hits como a dupla H&O pode dar-se ao luxo de emendar uma trinca com “Out of Touch”, “Method Of Modern Love” e “Say It Isn’t So”. Esta última porém, extremamente prejudicada com a má qualidade de som do espaço, que tornou inaudível a sobreposição de vocais de John Oates em seu refrão. Aliás, a debilidade sonora do Espaço das Américas é tema pra simpósio. Mal equalizada em alguns momentos e inexistente em outros, é inadmissível que uma casa deste porte carregue tamanho histórico com estes problemas. À parte disso a apresentação discorria. A dupla conta com um extraordinário sexteto capitaneado pelo eterno e fiel escudeiro Charles DeChant. O multi-instrumentista, amigo de longa data e parceiro da dupla desde os primórdios, era um showman à parte. No saxofone, teclados ou backing vocals, DeChant é o carregador de piano que toda big band sonha em ter.

O romantismo de “One On One” fez o mais gelado coração balançar. Destaque para a linda projeção no palco em tons verde-água. Já em “Sara Smile”, levou o timoneiro Hall ao piano. Às vésperas de completar 73 anos de idade, sua voz continua impecável embalando as memórias afetivas da audiência. Semblantes emotivos eram vistos aos montes embalados pelos versos “If you feel like leaving/ You know you can go/ But why don’t you stay until tomorrow?”. A emocionante “Rich Girl” (ainda com Hall ao piano) teve a responsabilidade encerrar a primeira parte da apresentação e foi emocionante ouvir a plateia cantar seu refrão em uníssono

Para o bis, três mastodontes do repertório da dupla. Condensadas em uma única faixa, “Kiss On My List” e “Private Eyes” transformaram o Espaço das Américas numa gigantesca pista de dança. Sabendo que, provavelmente, a dupla nunca mais volte ao Brasil, a plateia se jogou (eu incluso de novo) numa emocionante celebração à música pura e simples. “You Make My Dreams” fechou a noite setentista/oitentista com dignidade ímpar.

Ao final, um sentimento de gratidão me invadiu. Deu saudade de uma época em que o rádio era o veículo responsável por nossas fantasias mais bonitas. Deu saudade em que a música era colocada em primeiro plano. Uma santidade irretocável e acima de todas as coisas.

Set List: “Maneater”, “Family Man”, “Out Of Touch”, “Method Of Modern Love”, “Say It Isn’t So”, “One On One”, “You’ve Lost That Lovin’ Feelin’”, “She’s Gone”, “Sara Smile”, “Is It a Star” e “I Can’t Go For That (No Can Do)”. Bis: “Rich Girl”, “Kiss On My List/Private Eyes” e “You Make My Dreams”.

Music

Ride + Wild Nothing – ao vivo

Quarteto britânico mostrou a força do shoegaze em um Balaclava Fest que também teve o coletivo de influências eighties

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Mark Gardener (Ride)

Texto por Fábio Soares

Fotos de Fábio Soares (Ride) e Fabricio Vianna/Balaclava/Divulgação (Wild Nothing)

Há quem reclame da Balaclava mas, sinceramente, não entendo o porquê. A produtora já trouxe a São Paulo nomes como Swervedriver, Slowdive, Deerhunter e o Mercury Rev com a turnê comemorativa de 20 anos do seminal Deserter’s Songs. Ainda procura, à sua maneira, manter a periodicidade de um festival por semestre desde a primeira edição, realizada em 2015 e que trouxe Mac McCaughan, líder do Superchunk. E, aparentemente, atinge seu ápice na edição do primeiro semestre de 2019. Quando anunciou o line up, em fevereiro, um verdadeiro pandemônio virtual tomou conta das redes sociais com o anúncio do Ride como atração principal. Vinte e nove anos após o lançamento de uma das bíblias do shoegaze (o para sempre clássico Nowhere) uma vinda do quarteto de Oxford sempre pareceu um sonho distante de ser alcançado por toda uma geração indie que, se já não passou dos 40 há algum tempo (meu caso), beira essa marca.

Antes da apresentação do quarteto, o palco principal recebeu o Wild Nothing, projeto norte-americano criado e liderado por Jack Tatum, um declarado fã de música oitentsta que escancarou suas influências em seu debut, o álbum Gemini (2010), e as consolidou em Indigo (2018). Tatum, porém, nunca teve pudor em manter uma banda fixa e o rodízio de integrantes quase chega a ser uma regra neste projeto que completa dez anos em 2019. Ladeado por Nathan Goodman (guitarra), Jeff Haley (baixo), Matt Kallman (teclados) e Elroy Finn (bateria), comanda uma apresentação que tem tudo para decolar mas que aqui pecou pela irregularidade. Se por um lado momentos memoráveis foram registrados (como nas execuções de “Live In Dreams”, “Shalow Water”e “Summer Holiday”), em outros o que imperou foi a sonolência como em “Paradise” e na chatíssima “Whenever I”. Resumindo, foi pouco mais de uma hora “nota 5” mas confesso que ainda gostaria de ver Jack Tatum por aqui e com um set list melhor. O Wild Nothing, afinal, é um daqueles casos que não devemos desistir por completo.

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Jack Tatum (Wild Nothing)

Mas vamos ao que interessa porque a ansiedade dos indies quarentões já estava a mil naquela noite de 27 de abril a Audio. O clima na pista era de torcida organizada à espera de seu clube do coração. Finalmente, um pouco depois das 23h, as molas motrizes Andy Bell e Mark Gardener pisaram no gramado, acompanhados pelos costumazes Laurence Colbert (bateria) e Steve Queralt (baixo). O frisson regado a êxtase estava armado e a peleja começou com os primeiros acordes de “Future Love”, single lançado menos de uma semana antes do show na capital paulista e que fará parte do novo álbum do quarteto, This Is Not a Safe Place, a ser lançado em agosto. Como era de se esperar, uma má equalização do som fez com que os simultâneos vocais de Bell e Gardener se embolassem. Já na segunda faixa, “Lannoy Point”, o quase inaudível vocal de Gardener me causou irritação. Também confesso que esta não é das minhas faixas preferidas da banda mas faltava algo. Faltava o punch. E ele veio na terceira canção.

“Seagull”, primeira faixa de Nowhere a ser executada, é daqueles arrasa-quarteirões dignos de levantar estádio. As distorções de ambas as guitarras estremeceram o teto. Um momento sublime que serviu de pano de fundo para o primero momento “olhos marejados” da noite: a marcial introdução de “Dreams Burn Down” fez o trem do túnel do tempo começar a rodar. Estava tudo ali: o clima dream pop, o solo de Bell, os sussurrados vocais de Gardener, a sobreposição de camadas. O gigante shoegaze, finalmente materializado na minha frente! ERA O RIDE, ENFIM! E a partir daí, nenhum problema técnico estragaria aquela noite.

O trem desgovernado não parou por aí e o indefectível riff de baixo nos dois iniciais segundos de “Twisterella” (o eterno clássico do álbum Going Blank Again) foi a brecha que o sistema indie da terceira idade queria. Vi uma pista inteira dançar com as mãos pro alto com semblantes emocionados. Emoção essa que prosseguiu com “Chrome Waves” (do mesmo disco) e finalmente os vocais sobrepostos da dupla Bell-Gardener fizeram-se audíveis. Os três insanos minutos de “Taste” também ficarão registrados na memória. Uma das mais assobiáveis melodias dos anos 1990 fez com que a plateia não se fizesse de rogada e cantasse em uníssimo os versos “But what’s right or wrong?/ I don’t know/ I don’t know/ The taste just slips away”. Sublime demais! Lindo demais! Corações disparados continuaram assim com a canção seguinte. A introdução de “Vapour Trail” tornou-se o bilhete de embarque para um automático teletransporte. Das madrugadas em frente à tevê assitindo ao Lado B da MTV Brasil. Dos cassetes gravados com muito esforço e gastos sem dó em walkmen surrados. Sem levantar bandeira de saudosismo mas, nesse caso, valeu.

No palco, o Ride sabe que carrega consigo a bandeira shoegaze de toda uma geração. Porém, parece relaxar diante disso. Gardener e Bell sabem que já estão beirando cinco décadas de vida e que certas rusgas devem ser postas de lado em nome de um bem comum. E foi com a fúria de “Kill Switch” que a banda encerrou a primeira parte da apresentação, que passou voando. No bis, a banda novamente revisitou Going Blank Again com os oito hipnotizantes minutos de “Leave Them All Behind”. Desta vez, olhos fixos no palco para apreciar a dinâmica do quarteto: movimentos econômicos, riffs poderosos, microfonia nas alturas. Ninguém reclamaria se contraísse alguma microlesão auditiva, até porque “Polar Bear” veio a seguir com excelente performance de Laurence Colbert à bateria, capitaneando a viagem sonora que já anunciava seu fim. “Chelsea Girl” fez todo mundo pular. Foi como se a a banda dissesse “Bem-vindos aos anos 1990 e até a próxima”. Ritmo acelerado para encerrar a noite.

Por fim, lágrimas na pista. Amigos se abraçavam e se dirigiam à saída. Permaneci no local por mais alguns minutos, na esperança de encontrar alguém quando o inacreditável se fez presente: Gardener voltou ao palco empunhando sua guitarra, seguido por Bell, Colbalt e Steve Queralt. É isso mesmo: um segundo bis seria executado e como eu estava na pista quase esvaziada, corri para a grade. “Catch You Dreaming” fez as honras para um desfecho memorável que viria com a maravilhosa “Like a Daydream”, com todas as suas pinceladas noventistas. Agora sim, estava na hora de ir para casa, ainda atordoado com o que acabara de assistir. Esta foi daquelas noites que guardaremos para sempre e com muito carinho e com um sentimento de pena para aqueles que rotulam o shoegaze como “subgênero”. Azar o deles. Seguiremos por aqui, às portas da velhice mas com ânimo ainda para melodias assobiáveis, guitarras distorcidas e microfonias à enésima potência. The taste just slips away.

Set List Wild Nothing: “Nocturne”, “Wheel Of Misfortune”, “Golden Haze”, “Flawed Translation”, “Live In Dreams”, “Partners In Motion”, “Bend”, “Summer Holiday”, “Whenever I”, “Shallow Water”, “Canyon On Fire”, “Paradise”, “Letting Go”, “Chinatown”, “A Dancing Shell” e “Shadow”.

Set List Ride: “Future Love”, “Lannoy Point”, “Seagull”, “Dreams Burn Down”, “Twisterella”, “Charm Assault”, “In A Different Place”, “Chroma Waves”, “Taste”, “Vapour Trail”, “Drive Blind” e “Kill Switch”. Bis 1: “Leave Them All Behind”, “Polar Bear” e “Chelsea Girl”. Bis 2: “Catch You Dreaming” e “Like a Daydream”.