Movies

Judy: Muito Além do Arco-Íris

Renée Zellweger entrega uma fantástica performance em cinebiografia que retrata o conturbado último ano de vida da estrela de O Mágico de Oz

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Judy Garland continua brilhando no inconsciente coletivo mesmo após meio século de seu falecimento. É o que revela Judy: Muito Além do Arco-Íris (Judy, Reino Unido, 2019 – Paris Filmes), longa-metragem que aborda o último ano da vida da estrela enquanto ela fazia estadia em uma casa de shows em Londres tumultuada pela bebida e pelo vício em remédios. Além de um pedaço da história dela, o filme mostra uma estrela se apagando aos poucos.

A cinebiografia apresenta diversas faces de Judy. Tem a mãe, a artista, a ex-esposa, a garota-prodígio, a estrela decadente, a amante frágil, a mártir e, a mais marcante, a mulher que acredita que sua própria identidade era mais um de seus inúmeros personagens. Em um momento do filme, a atriz aparece dando uma entrevista na Inglaterra em que afirma que era Judy Garland por apenas uma noite, depois era uma pessoa comum com uma família e que queria ser feliz. A declaração permeia o filme como um norte. Judy Garland não queria ser estrela o tempo todo, só que precisava disso. E não apenas por dinheiro, mas porque a fama era quase como um comprimido.

Renée Zellweger encarna a protagonista em uma interpretação por vezes doce e simpática e outras conturbada e explosiva. A atriz emagreceu e dedicou-se a aprender maneirismos específicos de Garland. Por isso, entrega a melhor atuação de sua carreira e torna-se o ponto alto e absoluto do filme.

Judy não inova e segue um formato bastante quadrado. O roteiro não ajuda. Um texto mais ambicioso poderia ter tirado o filme da zona de conforto da biografias. As inserções do passado da atriz são um pouco confusas e por vezes quebram o ritmo do filme, mas a história sai da mesmice em sua linda cena final.

Uma grata surpresa é a delicada menção da importância do público LGBT na carreira de Judy Garland. Considerada o “Elvis” dos gays, a atriz se tornou um símbolo da comunidade, principalmente por conta de seu papel em O Mágico de Oz, no qual pregava o amor e aceitação às diferenças. Em épocas mais repressoras, era comum que os gays nos Estados Unidos se identificassem entre si usando os códigos “amigo da Judy” ou “amigo da Dorothy”.

Judy: Muito Além do Arco-Íris encontrou uma forma tocante e digna de contar a triste história de uma das maiores estrelas de Hollywood. O maior legado do filme, juntamente dos prêmios merecidamente vencidos de Renée Zellweger, é mostrar a luta de uma estrela infantil em sua vida adulta e como as consequências do estrelato precoce podem afetar profundamente uma pessoa. Judy Garland teve toda sua vida controlada por homens, executivos, estúdios, empresários, remédios, bebida. Muito famosa desde muito jovem, nunca conseguiu conquistar independência completa, fosse ela profissional ou emocional.

Music

Los Hermanos

Oito motivos para não perder a nova passagem de Camelo, Amarante, Medina e Barba pela capital paranaense

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Caroline Bittencourt/Divulgação

Dez anos foi o tempo de ativa do Los Hermanos, desde a primeira aparição em festivais até o último show, feito em 2007, para a divulgação álbum 4. Foram apenas quatro discos de músicas inéditas, mas o suficiente para transformar o cenário da música popular brasileira e influenciar dezenas de bandas e artistas nacionais, que seguiram com a indisfarçável influência dos barbudos.

Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Rodrigo Barba e Bruno Medina formaram o Los Hermanos em 1997, no Rio de Janeiro, partindo de influências diversas, como marchinhas carnavalescas, bandas do underground brasileiro e do rock alternativo em voga no mundo naquela década. De toda essa mistura surgiu um som que flertou com os mais diversos ritmos, do ska (como no primeiro álbum) à bossa nova, da chanson francesa ao hardcore. Sempre com letras de amor caprichadas num português impecável.

O Los Hermanos não tardou a sentir o gosto especial do sucesso estrondoso. Tudo por causa de uma história de amor não correspondido: a canção “Anna Júlia”,  terceira faixa do álbum de estreia, que leva o nome da banda. O disco foi lançado em 1999, época em que a internet ainda engatinhava no Brasil e que para se projetar no mainstream musical ainda era preciso recorrer às grandes gravadoras e selos. Em 2005, ao atingir o ápice do sucesso, levando à lotação máxima as casas de show pelo país, a banda resolveu parar. Mas sem deixar os fãs órfãos, já que promovem reencontros esporádicos em pequenas turnês nacionais.

Depois de um hiato de quatro anos, Camelo, Amarante, Barba e Medina estão novamente tocando pelo Brasil. Essa volta traz um nuance especial, uma canção nova após 14 anos sem uma composição inédita. “Corre, Corre” segue no estilo e com o frescor de uma banda que, no início do século, peitou os grandes e mostrou que quem manda na vida do artista é ele mesmo, é a sua arte, é a sua vontade. E antes que aconteça o próximo recesso, o Mondo Bacana dá oito motivos para não perder o show desses barbudos grisalhos que já têm mais de duas décadas de história e passam por Curitiba no próximo dia 10 de maio.

O primeiro fenômeno da internet no Brasil

Antes mesmo de existirem redes sociais populares no país e plataformas de divulgação musical, como MySpace (2003), Orkut (2004) e YouTube (2005), a banda (então formada por Camelo e Amarante nas guitarras, Bruno Medina nos teclados, Rodrigo Barba, na bateria e Patrick Laplan no baixo) acompanhou a popularização da webem terras tupiniquins e multiplicou seu público em progressão geométrica. “Ô Anna Júuuuuliaaaaa”… No finalzinho do século passado, não havia um único ser vivo neste país que não conhecesse esse refrão da balada de sonoridade sessentista. Logo depois, o álbum Bloco do Eu Sozinho (2001) tornou-se febre entre os jovens brasileiros sem tocar suas faixas na mesma rotação de “Anna Júlia” e deixou vários clássicos que, até hoje, são exaltados e cantados em uníssono por todos os fãs em todos os shows.

Aversão a “Anna Júlia”

“Anna Julia (incorporada pela atriz Mariana Ximenes no clipe “adolescente” que não saía das paradas da MTV Brasil) deixou uma marca profunda na carreira da banda. A canção passou “de mão em mão”. Todo mundo a cantou ou gravou nos mais diversos estilos populares: axé (foi a música mais tocada no carnaval de 2000), samba, forró… Até que encontrou alguém “à sua altura”. Nada mais, nada menos que um beatle. O guitarrista do quarteto fantástico de Liverpool, George Harrison, pouco antes de morrer de câncer, gravou o hit cuja versão em inglês aparece no disco do músico britânico Jim Capaldi (que era casado com uma brasileira). Além da participação do autor de “Something”, a versão contou com Paul Weller (Jam, Style Council) no backing vocal e Ian Paice (Deep Purple) na bateria. Mas a obsessão nacional por “Anna Júlia” era tamanha que chegou à exaustão. Nos shows, a plateia chegava a implorar para que os barbudos a cantassem, mas eles se mantinham relutantes em eliminar a obra do repertório. As mais pedidas sempre eram “Pierrot” e, claro, “Anna Júlia”. E todo mundo voltava para casa sonhando em ouvir a música de novo através do Los Hermanos.

Little Quail & The Mad Birds

No começo da carreira do Los Hermanos, Camelo nunca escondeu seu fascínio pela primeira banda famosa de Gabriel Thomaz (há duas décadas liderando os Autoramas). Tanto que a famosa Anna Júlia é inspirada no Little Quail & The Mad Birds: uma baladinha power pop com verniz Jovem Guarda e melodia tremendamente grudenta. Camelo era fã de carteirinha do Little Quail e acompanhava os ensaios, shows e camarim antes de chegar à fama. Já o trio brasiliense lançou três álbuns entre 1994 e 1998, tendo sido o primeiro pelo selo Banguela, aquele que descobriu os Raimundos.

Bloco do Eu Sozinho

Como superar um primeiro disco com um poderoso hit que gerou 300 mil cópias vendidas? Invertendo a ordem das coisas. Quebrando tabus. Buscando a voz interior e sendo autêntico. Experimentando. A banda rompeu com “Anna Júlia”, uniu-se ao produtor Chico Neves (Lenine, O Rappa, Paralamas do Sucesso) e se mudou para um sítio na região serrana do Rio de Janeiro. O ar bucólico parece ter trazido o sopro de criatividade de que eles precisavam. Sem pretensão qualquer de criar outro hit, o Los Hermanos começou a compor. Nessa época, o baixista Patrick Laplan se desentendeu com a banda e deu adeus à formação oficial, que estabilizou-se como um quarteto. Com o lançamento de Bloco do Eu Sozinho, a banda mostrou novamente a que veio. O segundo álbum foi lançado em 2001 e trouxe elementos nada óbvios em sonoridade, ritmo, métrica, andamento, letras. Tanto que esse clima “libertário” trouxe certa resistência por parte dos executivos da Abril Music, que não receberam muito bem o disco, já que não havia um hit radiofônico em potencial para seguir a trilha de “Anna Julia”. “Hoje, com esses lances pré-apocalíptcos de qualidade total, há na lógica comercial essa história de atender a um público supostamente sentado em cadeiras, que vai preencher um formulário e definir o que vai ser o produto. Isso é burro, porque o público é formado a partir do que você propõe”, filosofava Amarante em entrevista à Folha de S. Paulo naquele ano. Depois que veio a esse público, Bloco… transformou-se em um marco da música brasileira mesmo não tendo sido um sucesso comercial (vendeu 35 mil cópias apenas). Só que era justamente isso que a banda vislumbrava. Afinal, este era um álbum totalmente diferente do que havia sido feito até então na música nacional, sem deixar de ser eclético e ter mistura de ritmos. O disco abre com “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, que ganhou videoclipe todo filmado em plano sequência, e segue numa sequência de canções com Camelo e Amarante, com sua rouquidão suave e rebelde, fazendo revezamento nos vocais. Entre os destaque do repertório estão “A Flor” e “Sentimental” (composta por Amarante), uma das mais belas canções de amor da MPB. Uma longa turnê conseguiu manter a banda na ativa, gerando um público novo cativo e conferindo um certo ar cult ao grupo que iria perdurar até hoje.

Ventura

Desde o lançamento de Bloco do Eu Sozinho, a idolatria continuou a crescer em progressão geométrica. Basta lembrar os shows em Curitiba. Para lançar o álbum de estreia, Los Hermanos se apresentou no então Coração Melão (mesmo local que depois viria a se chamar Forum, Master Hall e, atualmente, Live Curitiba) e nem “Anna Júlia” conseguiu lotar o salão.  Com Bloco…, faziam shows para menos de mil pessoas, como quando se apresentaram nos também extintos bares Era Só o Que Faltava e Cine. Mas foi com o lançamento de Ventura, em 2003, que a banda explodiu de vez. O terceiro álbum de estúdio, produzido por Kassin, é considerado por muitos o principal de toda a carreira. Impecável do início ao fim, o álbum foi eleito como o melhor de todos os tempos num concurso promovido na internet. Desta vez, a banda, o produtor e o “time” dos metais se reuniram num sítio em Petrópolis, onde passaram os dias trabalhando na pré-produção. O modus operandido grupo foi registrado no documentário Além do Que Se Vê (disponibilizado no YouTube). É curioso ver a delicadeza e a sutileza de Camelo e Amarante durante o processo criativo. Quando os dois conversam sobre a faixa “Deixa o Verão Pra Mais Tarde”: “Você, quem? Verão? Verão não é você”, diz Amarante. Quando Camelo fica em dúvida se usava ou não determinada palavra na letra: “‘Dissabor’, vocês acham muito radical?”, questiona Marcelo, que se revela um dos maiores letristas da sua geração, sendo comparado a Chico Buarque. Ventura começa com “Samba a Dois” e guarda para o miolo os hits “Cara Estranho” e “O Vencedor, tocados massivamente nas rádios mais identificadas com o pop e o rock. O disco tem ainda canções que parecem hinos. Como “Conversa de Botas Batidas” e seu final apoteótico em coro, que é uma verdadeira ode ao amor (“Diz quem é maior que o amor/ Me abraça forte agora/ Que é chegada a nossa hora”).  Esse disco foi só o começo do fim. O quarto álbum de estúdio da banda, lançado em 2005, deixa explícita a diferença entre as composições de Camelo e Amarante. As letras do primeiro são mais melancólicas, mais intimistas. Já Amarante segue na linha oposta, otimista, como em “Paquetá”, “O Vento” e “Condicional”. Depois do estrondoso sucesso de Ventura, tornou-se um disco difícil de absorver, até mesmo para os fãs, que lotaram o Teatro Guaíra em sua capacidade máxima no show da turnê em Curitiba. A última faixa, “É de Lágrima”, encerrava ali a carreira de dez anos.

A música inédita

Que o Los Hermanos se reúne a cada três anos em média para rodar algumas capitais do país e reativar a marca valiosa, isso todo mundo já sabe. Mas a diferença é que agora há de fato uma música inédita no repertório depois de 14 anos. “Corre, Corre” foi composta por Marcelo Camelo e gravada no final de março. Disponível desde o primeiro dia de abril no YouTube, o áudio da canção já ultrapassou os 600 mil acessos.

Carreiras solo bem-sucedidas

Quando a banda se separou, Amarante dedicou-se à Orquestra Imperial (da qual já fazia parte no tempo do Los Hermanos) e foi passar uma temporada em Los Angeles onde acabou fixando residência. Lá, formou o trio Little Joy com o baterista do Strokes (banda da qual era fã), o brasileiro Fabrizio Moretti, e a multi-instrumentista Binki Shapiro. “Ruivo” e Moretti se tornaram parceiros e depois membros da banda de apoio de Devendra Banhart. O Little Joy lançou apenas um álbum, em 2008, com sonoridade que lembra a surf music vintage. Em 2013, Amarante lançou-se carreira solo com o álbum Cavalo. Em 2018, gravou “Tuyo”, tema da série Narcos (2015), da Netflix. Neste ano, enquanto o Los Hermanos se apresenta em turnê nacional, Amarante aproveita para fazer alguns shows intimistas com canções de sua carreira solo. Já Marcelo Camelo lançou dois álbuns solo, Sou(2008) e Toque Dela (2011) com o cultuado sexteto Hurtmold como banda de apoio. Em 2014, ele se mudou para Portugal, onde formou a Banda do Mar ao lado da cantora, esposa e mãe de sua filha Mallu Magalhães mais o percussionista lusitano Fred Ferreira. O trio produziu baladas como “Dia Clarear” e a pérola dançante “Mais Ninguém”. No ano passado, Camelo decidiu se aventurar pelo erudito e lançou um disco de música clássica com os trinta minutos de sua “Primitiva”, uma sinfonia em quatro atos.

O show no Maracanã

A apresentação em Curitiba vem na sequência da memorável apresentação no Maracanã, onde a banda realizou um sonho e tocou para mais de 42 mil pessoas. Este show do Rio de Janeiro foi transmitido ao vivo para todo o Brasil pelo canal Multishow e vai entrar para a história a banda, que estava um pouco tensa por causa do desafio e enfrentou pequenos imprevistos no decorrer do concerto, como problemas técnicos com a guitarra de Marcelo Camelo. Enquanto isso acontecia, Amarante tentava improvisar ao microfone falando com o público. Mais para o final, ele foi “pra galera”, quando cantou junto aos fãs da fila do gargarejo. O set list irretocável se mantém durante a turnê. Agora, é só esperar pela nova catarse na capital paranaense. O quarteto encerra a turnê no dia 28 de maio, em São Paulo.

Music

Lollapalooza Brasil 2019 – ao vivo

Oito motivos para se lembrar do festival, que teve como headliners Arctic Monkeys, Kings Of Leon e Kendrick Lamar

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Arctic Monkeys

Texto por Abonico R. Smith

Fotos: Alessandra Tolc/T4F (Arctic Monkeys), Equipe MRossi (Kings Of Leon/Lenny Kravitz/Interpol)

Shows anteriores causando maior impacto na plateia do que os headliners. Chuva torrencial e alerta de raios interrompendo a programação de sábado à tarde por mais de duas horas, chegando a provocar expectativa de cancelamento de todo o resto do segundo dia e impedindo artistas nacionais de fazerem seus shows em três dos quatro palcos. Uma cobertura capenga da Globo, ignorando por completo em seu resumo o principal nome do primeiro dia (o Arctic Monkeys “a gente não viu por aqui”) e chegando a tropeçar em hit mundial (na hora do Snow Patrol, por exemplo, deu crédito e falou sobre a baladaça “Chasing Cars” mas na verdade mostrando outra canção, o popzinho de verniz eletrônico “Just Say Yes”). Plateia composta majoritariamente por millenials, seja em idade cronológica ou estado de espírito. Programação bem chocha, chegando a competir pelo infeliz posto de pior escalação de todos os anos de existência do festival em nosso país.

Assim foi a oitava edição do Lollapalooza Brasil, realizado pela sexta vez no Autódromo de Interlagos, entre os dias 5 e 7 de abril. Musicalmente falando, estes foram os oito motivos pelos quais você deve se lembrar para sempre do evento.

Arctic Monkeys

Quem disse que o MP3 matou o rockstar? Alex Turner é a prova cabal de que, se os discos mudaram do suporte físico para o digital, isso em nada afetou a possibilidade de crescimento da carreira de um artista a ponto de haver discografia consistente, repertório matador e a capacidade de arrastar e encantar grande multidões. A maioria das quase oitenta mil pessoas divulgadas oficialmente como o público que passou pelo autódromo na sexta-feira estava lá para se esbaldar ao som do quarteto (que, ao vivo, ganha o apoio de mais quatro músicos, entre eles integrantes de cultuadas bandas independentes como Mini Mansions e Dead Suns) que tornou-se o principal nome da Geração MySpace. Hoje o MySpace não existe mais, tampouco aquela sonoridade do início de carreira dos Monkeys, então uma banda pós-adolescente, de batidas dançantes, guitarras frenéticas e por ora quebradiças e letras verborrágicas que não davam muito tempo para o ouvinte respirar e tomar fôlego. O álbum mais recente, o sexto em treze anos, mostra uma banda adulta, ousada, arriscando-se em novos terrenos (como o soul e os arranjos mais refinados, cheios de falsetes, teclados e influências chiques de David Bowie e Roxy Music). As músicas deste disco funcionam muito bem ao vivo, como foi demonstrado em São Paulo. Só que, como era um público de festival, também abriu-se espaço para o desfile de greatest hits. No fim, entre entre autoralidade e popularidade, ganharam todos. Turner, banda, fãs, plateia que estava in loco ou assistindo pela TV e internet.

St Vincent

Pela segunda vez no Brasil para se apresentar no festival, Annie Clark de novo justificou no palco o porquê de tanto que se fala sobre seu nome. Quem viu a sua apresentação pôde compreender o porquê dela ser considerada uma das mais inventivas e contundentes artistas da música pop de qualidade de hoje em dia. Só que desta vez, veio sem banda de apoio. Estava lá no palco, sozinha, domando e controlando uma multidão com suas mãos e olhares altamente expressivos. A base era toda pré-gravada: ela só acrescentava a voz e os riffs e licks executados em uma vasta coleção de coloridas guitarras Ernie Ball, de uma linha assinada e concebida por ela para uma melhor adaptação ao corpo feminino. Todo o desenho cênico (gestual, pose, uso do palco, figurino) compensa, inclusive por esta ser a atual proposta performática de ser alter-ego artístico. Inclusive com muita ironia por trás de tudo, já que a discussão a respeito de plasticidade e sedução das massas são temas predominantes do disco que serve como base para a atual turnê. St Vincent é perversa ao jogar isso na cara do público e ainda rir de tudo isso. St Vincent é eficaz ao dar à plateia melodias perfeitas a ponto delas não saírem mais da cabeça após a primeira audição. St Vincent é muita areia para o caminhãozinho de uma programação baseada em truques de estúdio e hype adolescentes de internet.

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Kings Of Leon

Tribalistas

A proposta deste show sempre foi muito clara desde o início: celebrar o fim de uma vitoriosa turnê nacional (com extensão para alguns outros países) que marcou o lançamento do segundo álbum deste supergrupo.  Então não se podia esperar nada além de uma grande festa promovida para milhares de pessoas por Marisa Monte, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes e competentíssimos músicos de apoio (Dadi, Pedro Baby, Pretinho da Serrinha e Marcelo Costa). OK que todas as mudanças no mercado fonográfico mundial impedem o trio de ser tão grande quanto ele fora em sua estreia lá em 2002, mas em um show o que acaba contando é a somatória destes dois repertórios. Então dá-lhe hit de apelo fácil como “Velha Infância”, “Passe em Casa” e “Já Sei Namorar”. Some a isto canções trazidas do repertório solo de Marisa como “Amor I Love You”, “Depois” e “Não Vá Embora”. O show dos Tribalistas, ocupando horário nobre da grade do primeiro dia do Lolla, foi um bom reflexo da estado letárgico que se encontra a música pop brasileira durante as duas primeiras décadas deste século de música digital: sem a atitude ou pegada do rock mas jogando para a galera com muitos recursos de empatia imediata e ilusionista (truques de composição, melhor dizendo). A maioria gosta. Tem quem torça o nariz. Os artistas saem satisfeitos. O público presente, exigente de mais nada, também.

Kings Of Leon

O último disco dos caras é de 2016. A banda não está fazendo turnê. Não existe qualquer menção a um possível disco novo. Uma faixa inédita sequer marcou presença no set listapresentado na noite de sábado em Interlagos. Então por que chamar o Kings Of Leon para ser um dos headliners da edição 2019 do festival? A resposta foi dada na noite de sábado, que contabilizou 92 mil pessoas passeando por gramados e pista de Interlagos.  A família Followill precisou juntar apenas uma penca de hits – em maior ou menor proporção – e subir ao palco para tocá-los. Se o telão é a grande atração do show, ainda melhor: isso significa que o vocalista Caleb pode não se importar em se apresentar usando uma estapafúrdia camiseta regata cor de goiaba (e ainda assim será chamado de lindo de maneira incessante por várias fãs do gargarejo). Teve até gente chamando o quarteto de “o novo U2” dada a equivalência da proporção entre o desfile de sucessos radiofônicos e a ausência do verdadeiro tesão rock’n’roll para tocar diante de milhares de pessoas. No fim, o KOL deu tudo o que o pessoal queria ali naquelas últimas horas do segundo dia do Lolla: o entretenimento grandiloquente para sustentar uma banda que já foi bem mais interessante lá atrás. Não por acaso apaenas uma faixa de cada um dos dois primeiros álbuns foi tocada.

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Interpol

Snow Patrol

Quarenta e cinco minutos depois do horário previsto para o início, o quinteto escocês não pensou duas vezes antes de subir ao palco para tocar um set bem mais curto (apenas seis canções). E mandou logo um megahit de cara, “Open Your Eyes”, para esquentar de vez o público, parado havia quase três horas por causa da interrupção das atividades provocada pela natureza. Ponto positivo para uma banda subestimada pela imprensa brasileira, que insiste em tachá-la de “coxinha” justamente pelo fato de sua carreira ter decolado quando a aposta passou a ser em melodias grudentas e arranjos mais limpos, quadradinhos e descolado do universo indie dos dois primeiros álbuns. Mesmo com pouco tempo em ação, dava para ver Gary Lightbody com um sorriso escancarando no rosto e o resto dos músicos se divertindo no palco encharcado. Escolhido a dedo para presentear quem esperava pacientemente, o set list ainda brindou os fãs com mais sucessos em sequência, como “Called Out In The Dark”, “Just Say Yes” e, para terminar, “Chasing Cars”. Durou pouco mas foi bom demais.

Lenny Kravitz e Greta Van Fleet

No domingo, a discussão do Lollapalooza girou em torno do Greta Van Fleet. O quarteto formado por três irmãos e um amigo ganhou altos detratores por emular bastante o Led Zeppelin. Os integrantes são moleques, millenials com seus vinte e poucos anos, que estão no palco se divertindo, tocando suas próprias composições calcadas nos seus grandes heróis do rock. Pela pouca idade (e consequentemente pouca experiência de vida e da música) é natural que ainda não tenham conseguido se descolar criativamente de quem mais admiram. Não há nenhum mal nisso, aliás. O ponto positivo é justamente o fato dos moleques se sentirem atraídos por um rock mais analógico e retrógrado, do tempo em que a música ainda importava para o período da adolescência e discos de vinil eram vendidos aos borbotões e a dobradinha formada por videoclipes e redes sociais não regia a divulgação planetária de um popstar. Um dia antes apresentou-se no Lolla outro igualmente retrógrado em sua sonoridades. Desta vez com a diferença de ter mais de 50 anos de idade e uma penca de hits trazidos nas costas por uma discografia de excelência entre 1989 e 1998. Não menos orgânico que o GVF, Lenny Kravitz aposta no tradicional do rock’n’roll: riffs, peso e solo. Seu diferencial é que ele mistura tudo com aquele groove que chama todo mundo para dançar. Ninguém consegue ficar parado e resistir a petardos como “Fly Away”, “American Woman”, “Always On The Run, “It AIn’t Over ‘Til It’s Over” e “Are You Gonna Go My Way”. E é nas baladas (“Again” e uma marrentamente estendida “Let Love Rule”) que o cara fica com o público na mão, hipnotizado e apaixonado. Não bastasse tudo isso, Lenny ainda carregou consigo para o Brasil Gail Ann Dorsey, a baixista de anos e anos de David Bowie que é tida como uma das grandes referêcias nas quatro cordas das últimas décadas.

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Lenny Kravitz

Kendrick Lamar

A produção de um dos nomes mais esperados deste Lollapalooza vetou a presença de fotógrafos da imprensa e a transmissão ao vivo pelo canal de TV por assinatura Multishow. Logo, a presença do cara que nos últimos anos torou-se um furacão no nicho hip hop do mercado fonográfico norte-americano tornou-se uma exclusividade para quem comprou o ingresso e se dispôs a ir a Interlagos e ficar até o final das atividades do terceiro e último dia. Quem estava lá assistiu a uma apresentação mais focada no recente álbum Damn (2017) e que por muito pouco não ignorou por completo seu antecessor, o cultuadíssimo To Pimp a Butterfly (2015). Dono de rimas velozes e movimentos cênicos ágeis, o californiano não precisou de muito tempo (fez um show de apenas de 75 minutos, tempo relativamente curto para um headliner) para mostrar o porquê de ter recebido um prêmio Pulitzer da música (o primeiro dado a um rapper) por Damn. É uma porrada atrás da outra, com letras afiadas, típicas de quem veio do bairro de Compton, o mesmo bairro negro e pobre da periferia de Los Angeles que viu nascer o histórico NWA. As bases vão do jazz ao soul e as letras, óbvio, discorrem sobre temáticas raciais e políticas, tendo a provocação como espírito principal.

Interpol

O Interpol é um zero à esquerda de presença de palco. Paul Banks é um zero à esquerda com comunicação direta com a plateia. O Interpol é uma banda que funciona bem melhor em locais menores e fechados do que tocando a céu aberto para milhares e milhares em um autódromo. Três verdades que só se confirmaram em mais uma vinda do trio nova-iorquino para um Lollapalooza. Como tudo na vida tem um porém, essas três afirmações acabam tendo um peso bem menor diante da magnitude da sonoridade pós-punk que a colocou entre os grandes nomes do indie rock do começo deste século. Não por acaso a maioria de faixas escolhidas para o set list foi ancorada nos dois primeiros álbuns, aqueles disparadamente favoritos para quem acompanha mais de perto a trajetória do grupo. Incrível como canções como “Slow Hands”, “PDA”, “Evil”, “Rest My Chemistry” e “Say Hello To Angels” não envelheceram e ainda soam tão pungentes quanto na época do lançamento. Resta agora aguardar um show “solo” de Banks e companhia em terras brasileiras. Com duração maior, em lugar menor e com mais fãs assistindo.