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Chadwick Boseman

Oito filmes da breve porém marcante carreira do ator que interpretou no cinema o cantor James Brown e o super-herói Pantera Negra

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Getty Images/Jeff Kravitz/Reprodução (Oscar 2019), Disney/Divulgação (Pantera Negra) e Universal Pictures/Divulgação (Get On Up: A História de James Brown)

Se existe um ator que conseguiu transcender suas personagens, o nome dele é Chadwick Boseman. Um super-herói real, de carne e osso, que não esmoreceu diante de uma notícia devastadora que lhe custaria a vida e lutou até o fim contra seu arqui-inimigo mais poderoso: o câncer no cólon diagnosticado em 2016. Nem mesmo o Pantera Negra dos filmes da Marvel poderia derrotar um tumor potencialmente maligno, de estágio 3. Se pouco dava para ser feito no combate à doença, Boseman não se deixou abater pelo sofrimento e evocou o poder sobrenatural de todos os guerreiros interpretados por ele ao longo da carreira para seguir sua jornada, intercalando o tratamento invasivo com as filmagens. Tanto é que o ator deixou um trabalho póstumo: o longa Ma Rainey’s Black Bottom, produzido por Denzel Washington, em que Boseman faz um trompetista e contracena com Viola Davis, na pele de uma cantora de blues.

Triste mesmo ficou o mundo dos pobres mortais nesta noite de 28 de agosto, uma sexta-feira, quando a família do ator (que também era roteirista) emitiu um comunicado no Twitter, revelando o fim da batalha. Assim estava escrito: “Um verdadeiro lutador, Chadwick perseverou até o fim, e trouxe muitos dos filmes que vocês tanto vieram a amar. De Marshall: Igualdade e Justiça a Destacamento BloodMa Rainey’s Black Bottom e tantos outros, todos foram filmados durante e entre incontáveis cirurgias e quimioterapia. A honra de sua carreira foi dar vida a King T’Challa em Pantera Negra”. 

Nas redes sociais, parceiros dos filmes dos Vingadores reverenciaram-no como rei, entre eles Mark “Hulk” Ruffallo, a quem a perda do amigo se acumulou de modo profundo com as tragédias deste ano. “Que homem, que imenso talento. Irmão, você foi um dos melhores de todos os tempos e sua grandeza estava apenas no começo”, lamentou.

Em homenagem a Boseman, o Mondo Bacana lembra oito destaques da breve porém marcante carreira do ator, falecido aos 43 anos de idade.

Pantera Negra (2018)

O papel do primeiro super-herói negro criado pela Marvel tornou Boseman conhecido mundialmente. Após a morte do pai, T’Challa retorna a Wakanda para ser coroado como príncipe herdeiro. Pantera Negra foi muito elogiado pela crítica e pode ser considerado um marco na história do cinema, por trazer um longa com elenco afro-americano. O personagem apareceu também em Capitão América: Guerra CivilVingadores: Ultimato e Vingadores: Guerra Infinita, cuja batalha final se passa em Wakanda.

Disponível: Google Play, Apple TV, Microsoft Store

Destacamento Blood (2020) 

O filme lançado diretamente em streaming foi um dos últimos trabalhos de Boseman e estreou em meio aos protestos do Black Lives Matter, decorrentes do brutal assassinato de George Floyd, na cidade norte-americana de Minneapolis. Dirigido e escrito por Spike Lee, o longa conta a história de quatro veteranos de guerra que retornam ao Vietnam à procura dos restos mortais de seu comandante Stormin’ Norman (interpretado por Boseman) e de um tesouro enterrado. Segundo Lee, ninguém no set sabia do diagnóstico do ator, que aqui, ironicamente, interpreta um falecido. 

Disponível: Netflix

>> Leia aqui a resenha de Destacamento Blood publicada pelo Mondo Bacana

42: A História de uma Lenda (2013)

No longa escrito e dirigido por Brian Helgeland, Boseman interpreta o ídolo do beisebol que disputa a liga nacional dos negros até ser recrutado por Branch Rickey (Harrison Ford), executivo de um time que disputa a Major League. A história trata do racismo no esporte, dentro e fora de campo.

Disponível: Google Play, Apple TV, Microsoft Store, Looke

No Limite: A História de Ernie Davis (2008)

Mais um papel de esportista na filmografia de Boseman. Este filme conta a história de superação do jogador de futebol americano Ernie Davis (Rob Brown), o primeiro afro-americano a ganhar o troféu Heisman. Boseman participa do elenco como um dos jogadores. 

Disponível: Google Play e Apple TV.

King: Uma História de Vingança (2016)

Neste longa dirigido pelo belga Fabrice Du Welz, Boseman é Jacob King, um misterioso homem que deixa seu país natal, a África do Sul, e SUl parte para Los Angeles com o objetivo de vingar a morte da irmã. 

Disponível: Netflix

Deuses do Egito (2016)

Boseman contracena aqui com Gerard Butler, que interpreta Set, deus egípcio da violência. Para impedir que Set assuma o trono e ordene o caos, o soldado Bek (Brenton Thwaites) se une ao deus Horus (Nikolaj Coster-Waldau) num combate épico. 

Disponível: Amazon Prime, Telecine Play, Google Play, Apple TV, Microsoft Store, Looke.

Marshall: Igualdade e Justiça (2017)

O drama conta a história real do advogado e ativista dos direitos civis que se tornou o primeiro juiz afrodescendente a integrar a Corte Suprema Americana. A história se passa pouco antes da Segunda Guerra, quando Thurgood Marshall defende um motorista negro acusado de atacar uma mulher branca, crime que ele nega ter cometido. 

Disponível: Telecine Play, Google Play, Apple TV e Microsoft Store.

Get On Up: a História de James Brown (2014)

Boseman interpretou com maestria a cinebiografia da lenda do funk e também o godfather do soul James Brown. Dirigido por Tate Taylor, o filme conta a trajetória da infância até o estrelato, de uma das figuras mais simbólicas da música do século 20, através de alguns flashbacks e um momento histórico crucial dos anos 1960.

Disponível: Telecine Play, Google Play, Apple TV, Looke

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Alan Parker

Oito filmes para lembrar para sempre a trajetória do diretor e roteirista britânico que morreu aos 76 anos de idade

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Texto por Janaina Monteiro

Fotos: Reprodução

Difícil saber qual filme de Alan Parker fez mais sucesso. O diretor e roteirista, que morreu aos 76 anos decorrente de uma “longa doença” (não informada pela família) no último dia de julho deste ano pandêmico, foi mestre em fazer um cinema comercial de qualidade e capaz de arrebatar grandes bilheterias. Saudosa época em que se formavam filas para assistir aos filmes do londrino que migrou da publicidade para o cinema na década de 1970.

Versátil, Parker transitava entre gêneros e conseguia tecer críticas ao sistema, denunciando a violência sem soar agressivo. Alcançou o estrelato com O Expresso da Meia-Noite (1978). O drama, com roteiro assinado por Oliver Stone, foi inspirado em fatos reais. A história do jovem americano preso por tráfico de drogas na Turquia rendeu-lhe a primeira indicação ao Oscar. A segunda foi por Mississipi em Chamas (1988), com Willem Dafoe, Gene Hackman, Frances McDormand, sobre violência racial que marcou (e ainda persiste) nos EUA dos anos 1960.

Mas foi o flerte com a cultura pop que fez Parker alcançar popularidade. Seus musicais marcaram duas décadas seguintes, época em que os jovens passavam a consumir videoclipes com o advento da MTV. Assinou a direção de Fama (1980), Pink Floyd – The Wall (1982), The Commitments – Loucos pela Fama (1991) e o longa Evita (1996), protagonizado pela diva pop Madonna.

Parker respirava e transpirava cinema. Gostava de estar na frente e atrás das câmeras. Atuou em alguns de seus filmes (como em The Commitments), escreveu o livro que deu origem ao roteiro de Quando as Metralhadoras Cospem (1976) e ainda compôs parte de algumas trilhas sonoras. Em 2015, Parker anunciou sua aposentadoria, após ver seus filmes arrebatarem dez estatuetas do Oscar e quinze Baftas.

O Mondo Bacana faz uma homenagem ao cineasta britânico, lembrando oito filmes que marcaram sua trajetória na sétima arte.

Quando as Metralhadoras Cospem (1976)

A estreia de Parker no cinema veio com um inusitado filme que certamente seria proibido hoje por ter atores mirins no papel de gângsteres. Parker se inspirou na própria rotina para criar o musical Bugsy Malone (seu título original), uma vez que atuava com publicidade e vivia cercado de crianças, seja nos comerciais pra TV ou em casa, já que tinha quatro filhos pequenos na época. Ambientada na Nova York de 1929, ano do crash da bolsa de valores de Wall Street, a obra talvez seja uma das mais subestimadas dele. No elenco, estavam a talentosa iniciante (e futura diretora) Jodie Foster, que no mesmo ano também fez o clássico Taxi Driver, e ainda Dexter Fletcher, o futuro diretor de Rocketman e Bohemian Rhapsody.

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O Expresso da Meia-Noite (1978)

O trabalho seguinte de Parker já mostrava uma veia mais eclética e densa, deixando clara a sua intenção de não se prender a estilos. Midnight Express é um drama sombrio baseado na história real do norte-americano Billy Hayes (Brad Davis), estudante que é preso na Turquia por contrabando de haxixe. O longa escancarou a violência no sistema prisional de países de fora do primeiro mundo e traz uma das cenas mais parodiadas na história do cinema: aquela em que um vidro separa a personagem de John Hurt e sua amada.

Fama (1980)

Musical que abriu a década de 1980 e se transformou em febre entre os jovens, tendo conquistado o Oscar de Trilha Sonora e Canção Original, categoria que também rendeu um Globo de Ouro. Fame revelou a atriz e cantora Irene Cara, que interpreta a música-tema e três anos depois triplicou sua fama ao estrelar Flashdance. O musical traz a história de oito adolescentes que pleiteiam uma vaga na New York’s High School of Performing Arts e virou fenômeno entre os primeiros millennials. Todo mundo passou a copiar o figurino de Irene, principalmente usando as tais polainas. Curiosidade: nomes como Madonna, Tom Cruise, Patrick Swayze e Michelle Pfeiffer não foram aprovados nas audições para participar do elenco. Depois este filme foi adaptado para uma série de televisão e chegou a ganhar um remake em 2009. O nostálgico videoclipe da música-tema, com o elenco dançando nas ruas de Nova York, está disponível no YouTube.

Pink Floyd – The Wall (1982)

Esta é a versão cinematográfica do clássico álbum do quarteto inglês e trouxe a grande influência dos videoclipes seguindo a estética inicial da MTV. Roger Waters escreveu o roteiro com tons autobiográficos. O musical (parte feita em animação assinada por Gerald Scarfe) conta a história de Pink, interpretado por nada menos que Bob Geldof (cantor e compositor irlandês e que anos depois seria o idealizador do festival Live Aid). Ele interpreta um roqueiro deprê e viciado em drogas que perdeu o pai na Segunda Guerra Mundial. The Wall fez um grande sucesso e teve, de fato, cenas transformadas em videoclipes. No entanto, o longa revelou-se um experiência desgastante e acabou minando a relação entre o cineasta, Waters e Scalfe.

Coração Satânico (1987)

Adaptação do romance de William Hjortsberg, Angel Heart se transformou em obra cult ao misturar terror com policial noir bem ao molde de Stephen King, que, por sinal, tece elogios ao livro. A história se passa em Nova York, em 1955. Louis Cyphre (Robert De Niro) contrata o detetive Harry Angel (Mickey Rourke) para encontrar um cantor desaparecido no pós-guerra. Recentemente, o título foi relançado no Brasil pela DarkSide Books.

Mississipi em Chamas (1988)

Este é um filme que infelizmente soa atemporal por tratar de questões ainda não resolvidas pela sociedade como a segregação e preconceito racial. Rupert Anderson (Gene Hackman) e Alan Ward (Willem Dafoe) interpretam em Mississipi Burning dois agentes do FBI que investigam o desaparecimento de militantes dos direitos civis em meados dos anos 1960. A atriz Frances McDormand foi revelada neste trabalho e Parker, por ele, indicado ao Oscar de melhor diretor.

The Commitments – Loucos pela Fama (1991)

Parker retornou aos musicais com esta história baseada no romance de Roddy Doyle sobre músicos amadores de Dublin que se reúnem para formar um grupo para tocar soul music. O sucesso foi tão grande, que o filme não só levou quatro prêmios Bafta em 1992 como a própria banda ganhou vida fora das telas, fazendo turnês mundo afora. A trilha sonora de The Commitments vendeu mais de 15 milhões de cópias e é considerada um marco dos anos 1990, trazendo clássicos do soul como “Mustang Sally”, “Take Me To The River”, “The Dark End Of The Street”, “In The Midnight Hour” e “Try A Little Tenderness”.

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Evita (1996)

Se Madonna foi descartada em Fame, aqui ela tornou-se a estrela principal no papel da primeira-dama Eva Perón. O filme arrebatou vários prêmios, como os Globos de Ouro de musical, canção original (“You Must Love Me”) e atriz para Madonna. A música também levou o Oscar. Baseado na ópera-rock homônima de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, arrecadou mais de 140 milhões de dólares de bilheteria. Na esteira do sucesso, porém, vieram polêmicas e problemas diplomáticos, como protestos do povo argentino, que não aprovou Madonna no papel de um verdadeiro mito, além do fato de terem transformado um drama político e uma tragédia pessoal num musical. Peronistas chegaram a pichar muros com “Fora Madonna”. Também estão no elenco o espanhol Antonio Banderas (Che) e Jonathan Pryce (Juan Domingo Perón).

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Brooklyn Sem Pai Nem Mãe

Trama escrita, dirigida e protagonizada por Edward Norton como um detetive cheio de tiques e TOCs rompe com a clássica estética noir

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

Brooklyn Sem Pai Nem Mãe (Motherless Brooklyn, EUA, 2019 – Warner), o novo filme de Edward Norton e segundo de sua carreira de diretor, é uma história detetivesca com enfoque em Lionel Essrog, portador de uma síndrome que provoca tiques nervosos, vocais e comportamentos obsessivo-compulsivos. Após a morte de seu chefe e mentor, Lionel desvenda uma trama política com diversos podres por baixo dos panos.

O texto, também de Norton, é adaptado de um livro homônimo de Jonathan Lethem e explora dois conflitos de Lionel: a busca pelo assassino de Minna, seu mentor interpretado por Bruce Willis, e a batalha diária contra uma doença incurável – e toda dor de cabeça que vem com isso. É justamente esse aspecto do personagem que prende o foco do filme e de seu espectador – a brilhante atuação de Norton é capaz de criar um protagonista multidimensional, capaz de comédia, mas também do drama. No entanto, Lionel é muito passivo. Isto é, os elementos da trama ocorrem a ele, não por causa dele, traço que se reflete no andamento de duas horas e meia – o que, infelizmente, é “tempo demais” para um longa-metragem hoje em dia.

Norton não é o único a realizar um ótimo trabalho em frente às câmeras. A maior companheira de tela de Lionel é Laura Rose, interpretada por Gugu Mbatha-Raw. Ela trabalha na intensidade certa, dosando bem as reações de outra personagem muito reativa. Alec Baldwin, o antagonista da trama, cria um personagem consciente de sua ameaça, sem precisar extrapolá-la para surtir efeito.

A fotografia traz à tona uma decisão estética interessantíssima de Brooklyn Sem Pai Nem Mãe, à qual até o roteiro contribui, em certa instância. Este é um longa com trama girando em torno de um detetive, nos anos de ouro dos Estados Unidos, em plena Nova York. Ainda assim, a obra rompe com diversas tradições do film noir, imortalizado como o “filme de detetive” por excelência. As cenas rodadas de dia, sem sombras duras projetadas ou até mesmo o chiaroscuro (o alto contraste entre sombras e realces), distanciam-se em muito dessa decisão estética que imperava lá pelos anos 1940 e 1950. No entanto, é possível ver as homenagens ao estilo fílmico em cenas noturnas, que são poucas, mas abusam dos conceitos do chiaroscuro para trazer dramaticidade. Ainda há de se levar em conta o esforço do desenho de produção em construir a ambientação da história, das grandes externas aos sets internos e intimistas, dentre os quais podem ser destacados  clube de jazz e o escritório de Minna. Convém, também, levar em conta o impacto que a música de Thom Yorke, tal como a versão de Wynton Marsalis, tem sobre a obra. Um dos momentos mais emocionantes, ainda no primeiro ato, é amparado inteiramente em Daily Battles, que toca até perto de seu final.

Enfim, Brooklyn Sem Pai Nem Mãe é um filme interessante, bem feito, bem atuado e bem dirigido. No entanto, ele não tem quaisquer características excepcionais: da mesma forma que é bom também mas não é memorável. Diferentemente de demais títulos esquecíveis, esse não é assim por ser mediano. Sua história é interessante, estética apurada e ótimas atuações fazem de Motherless Brooklyn um belo filme de telecine, daqueles ao qual assistimos tranquilamente no fim de semana, zapeando os canais da TV por assinatura.

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Coringa

Joaquin Phoenix encarna com maestria o clássico vilão de Gotham em contundente história que metaforiza a psicopatia da sociedade atual

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Texto por Janaina Monteiro

Fotos: Warner/Divulgação

Sorria, mesmo que seu coração esteja dolorido. Sorria, mesmo que ele esteja partido. Charles Chaplin, que deu vida ao palhaço Carlitos, escreveu esses versos em “Smile”, música composta nos anos 1930 para o filme Tempos Modernos.

Mas como sorrir quando se é miserável de alma e conta bancária? Quando se é vítima de toda a sujeira mais imunda que o ser humano pode produzir? Quando o bullying e o abandono se arrastam pela vida adulta? Quando você perde emprego, vive sozinho, deprimido, e, pra piorar, sofre de transtorno psicótico? Esse é o dilema de Coringa (Joker, EUA, 2019 – Warner). No filme que leva o nome em português do personagem, o vilão se transforma em herói retratado de forma humanizada pelo diretor Todd Phillips (mais conhecido pela trilogia Se Beber Não Case). O aguardado e aclamado longa sobre um dos antagonistas de Batman, vencedor do último Leão de Ouro em Veneza, estreia nesta quinta-feira no Brasil cercado de polêmicas e protagonizado por Joaquin Phoenix, um ator com estrutura física e psicológica para viver o papel que já foi interpretado por Heath Ledger (morto por overdose acidental de medicamentos logo após terminar as filmagens de Batman: O Cavaleiro das Trevas), Jared Leto e Jack Nicholson.

O Coringa de Phoenix sorri por conta de sua psicose acompanhada de um distúrbio neurológico (ele ri incontrolavelmente a ponto de quase sufocar) e do seu trabalho como palhaço de rua. Arthur, na verdade, chora através de suas risadas histéricas. Ele é o freak, o weirdo, em busca de sentido de pertencimento no mundo cada vez mais apático e egocêntrico. Faz parte da escória da humanidade, que de tanto sofrer assume a personalidade de Joker e se transforma num monstro guiado pela violência nua e crua, similar à praticada por jovens armados em escolas e cujos massacres são exibidos e reexibidos pelos telejornais. Por isso a preocupação com a censura: no Brasil, o filme não é recomendado para menores de 16 anos.

A introdução mostra o drama de Arthur em seu ambiente hostil. Gotham City está infestada por ratos reais, numa analogia à Nova York do início dos anos 1980 quando o número de habitantes roedores quase ultrapassou a população. Arthur mora com a mãe num prédio decadente do Bronx e sonha em ser comediante de stand-up. O tempo todo ele é esculhambado, ridicularizado por colegas, agredido por gangue de adolescentes, refém de sua doença, dos remédios e da pilhéria da sociedade em que vive.

Phillips, que coescreveu o roteiro, conseguiu de forma soberba traduzir essa personagem dos quadrinhos capaz de causar tanto fascínio e terror. E humanizar o vilão, digno de pena. Todo o sofrimento serve como base de seu comportamento no decorrer da trama. Arthur não chega a ser um psicopata, pois consegue sentir compaixão: cuida da mãe tão perturbada quanto ele. E como todo psicótico, encontra fuga numa realidade paralela. Quando assiste, por exemplo, ao seu talk show preferido, chamado Live With Murray Franklin, imagina-se dentro do programa. Delira e encontra no apresentador  (interpretado por Robert De Niro) o pai que nunca teve. O mundo de Arthur está em vias de explodir quando perde o emprego, momento em que seu alterego passa a dominar.

O turning point acontece quando ele descobre a verdade sobre sua mãe, sobre o seu passado, sua doença, sobre o pai que nunca conheceu e que poderia ser o mesmo pai de Bruce Wayne, o Batman, super-herói nascido em berço de ouro. Thomas Wayne, bem ao estilo Donald Trump, é candidato a prefeito de Gotham e se refere aos pobres como sendo palhaços. O filme, aliás, faz um paralelo surpreendente com a história de Batman e confronta as duas personagens, dando uma suposta prévia do novo filme sobre o Homem-Morcego.

Na mente do Joker (o nome original do Coringa, em inglês), Arthur passa do homem ridicularizado, vítima de chacota e agressão, ao palhaço vingativo, terrorista. Sua satisfação vem através da violência. Em vez de estourar seus miolos, Arthur decide eliminar quem o ridicularizou. E poupa aqueles que o trataram bem, na maioria das vezes também minorias.

Cenas chocantes não faltam no filme, que alimentam a polêmica de fomentar atos de violência. Entretanto, o roteiro consegue a proeza de, em algumas delas, nos fazer rir com uma certa culpa por conta da atitude perturbada do protagonista. Phillips e Phoenix transformam em arte cenas de dança em que o Coringa comemora e parece emular Carlitos, incorporando gestos de tai chi. Aliás, o balé do Coringa foi feito de improviso. Joaquin e Todd não gostaram do primeiro resultado e o ator, gênio, começou a dançar, o que rendeu uma cena de beleza poética e transformou em marca registrada desse Joker.

A tensão é mantida do início ao fim, garantida pela riqueza da personagem e o brilhantismo do ator. Como é possível esperar qualquer coisa da mente de um psicótico, há tomadas tão carregadas de suspense que o espectador sente aquele frio na espinha. Somando a isso, a trilha sonora do filme é fundamental na manutenção dessa condição de ansiedade e expectativa. Muitas vezes, por si só, uma canção é capaz de dar sentido à determinada sequência. Como “Send In The Clows” (gravada originalmente por Frank Sinatra e interpelada por uma das vítimas do Coringa) e “Smile”, de Chaplin, sobre quem há faz várias referências durante esta história (o homem por trás de Carlitos era um gênio, filho de mãe doente mental e que acabou tendo fama de pedófilo).

Além de close-ups reveladores e movimentos de câmeras sempre em sintonia com o tom sombrio do filme, Phillips também faz uso de elementos não verbais para mostrar o conflito de personalidade e a angústia de Arthur. Exemplos disto são as cenas em ele aparece numa escadaria, sinônimo de verticalidade, representando os planos do espírito, da mente, a ligação entre o céu e a Terra. A trama, aliás, é tão bem costurada que o espectador não consegue definir quais são momentos de delírio e sanidade da personagem até que, quase na metade do filme, um flashback desnecessário surge como uma explicação para os improváveis desatentos.

Muito mais que a história de um conflito pessoal, Coringa é a metáfora de uma sociedade que caminha para uma psicopatia, na qual seus cidadãos usam da violência, desprezo, abandono para resolver diferenças e exigir seus direitos, num mundo em que a raiva toma conta e os fins justificam os meios. Essa sociedade exclui, ignora, marginaliza e trata essas pessoas como meros clowns.

Quando o protagonista se transforma em vigilante, há referências claras a Guy Fawkes e críticas evidentemente políticas a injustiças sociais, como o fato da extinção do serviço social que garante os remédios de Arthur.

Coringa é um soco na cara. Pisa na ferida e escancara a violência de modo brutal, pura, ácida, nua e crua. É um papel tão forte, poderoso, trágico que só um Phoenix (irmão do ator River, morto por overdose em 1993, aos 23 anos de idade) para encará-lo de forma esplêndida. O ator emagreceu 23 quilos para encarnar o vilão e lembra Christian Bale em O Operário (Bale, aliás, foi Batman nas telas). Nessa nossa sociedade delirante, nem todos são psicóticos, mas pobres mortais são, sim, todos palhaços.

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Represálias

Por evocar a violência e transformar o vilão em herói, embora a Warner negue isso, o filme vem sofrendo represálias e chegou a ser proibido em Aurora, cidade norte-americana onde um rapaz supostamente inspirado no Coringa abriu fogo numa sala de cinema matando doze pessoas em 2012. O medo é que este novo filme inspire novas tragédias. O diretor Todd Phillips, porém, diz que não é justo fazer essa associação. “É um personagem de ficção num mundo fictício que existe há 80 anos”, justificou Phillips numa entrevista.

A Warner divulgou um comunicado respondendo a uma carta escrita por familiares do massacre de Aurora, enfatizando que violência por arma de fogo é um assunto crítico e que o estúdio tem uma longa história de doações a vítimas de violência, incluindo esta cidade do estado do Colorado. “Ao mesmo tempo, a Warner Bros acredita que uma das funções da arte de contar histórias é provocar diálogos difíceis sobre questões complexas. Não se engane: nem o personagem fictício Joker, nem o filme, é um endosso de qualquer tipo de violência no mundo real. Não é esta a intenção do filme, dos cineastas ou do estúdio manter esse personagem como um herói”, declarou a empresa.

Music

L7 – ao vivo

Duas aulas de feminismo e resistência, performances juvenis arrebatadoras mais aquela certeza do eterno caráter transgressor do rock alternativo

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Suzi, Jennifer e Donita em Porto Alegre

Texto por Fernando Halal (Porto Alegre) e Abonico R. Smith (Curitiba)

Fotos de Fernando Halal/FHF (Porto Alegre) e Priscila Oliveira/CWB Live (Curitiba)

Um quarto de século após a histórica apresentação no Hollywood Rock, onde ofuscaram até mesmo um tal de Nirvana, as musas do L7 voltaram ao Brasil para uma disputada turnê que percorreu cinco capitais. Mas este é um cenário bem diferente daquele encontrado em 1993. O grunge perdeu vários de seus heróis para as drogas e a depressão. Chris Cornell, Layne Staley, Scott Weiland, todos deixaram uma lacuna difícil de preencher. Kurt Cobain virou mártir absoluto. E o rock, como todos sabemos, jamais teve um movimento de renovação tão forte quanto aquele.

E quanto ao L7 de hoje? Haveria ainda espaço para as notórias excentricidades do quarteto, como jogar absorventes na plateia ou mostrar a bunda para a TV em horário nobre, como na última vez delas por aqui?  Obviamente não. Até porque, no mundo pós-grunge, o politicamente incorreto é uma lembrança remota. Mas não se engane: em Porto Alegre, a noite de 4 de dezembro de 2018 teve peso e sujeira transbordantes. As atrações de abertura do Morrostock Vênus em Fúria seguiram o clima e também se destacaram pela representatividade: teve o dínamo punk Replicantes (da irrequieta vocalista Julia Barth) e, antes deles, Bloody Mary Una Chica Band, o projeto garage noise da multi-instrumentista Marianne Crestai (ex-Pullovers). Em suma, distorção girl power foi o que não faltou.

As cortinas reabriram para a atração principal. No palco, as pioneiras do movimento riot grrrl continuam velozes, lisas, empilhando riff em cima de riff – elas só estão mais sorridentes, e acredite, isso é muito bom. O grupo voltou em 2015 na sua formação mais clássica, após o hiato de quase uma década e meia. Donita Sparks (voz/guitarra), Suzi Gardner (guitarra), Jennifer Finch (voz/baixo) e Dee Plakas (bateria) seguem entregando um show vigoroso e que não evidencia qualquer marca do tempo. O repertório passeia por todas as fases, com destaque para os álbuns Bricks Are Heavy (1992) e Smell The Magic (1990), sempre com uma energia absurda. A chance de testemunhar ao vivo petardos como “Fast And Frightening”, “Pretend We’re Dead” e “Everglade” era o sonho molhado de qualquer jovem espectador da MTV dos anos 1990, e o L7 não decepcionou. Ainda houve espaço para a clássica “Shitlist”, que figurou na trilha sonora de Assassinos por Natureza (1994), além de faixas mais recentes, como “Come Back To Bitch” e “Dispatch From Mar-a-Lago”.

Definitivamente, a idade não chegou para a banda; não é todo dia que se pode testemunhar quatro mulheres na faixa dos 55 anos batendo cabeça, ajoelhando até o chão e fazendo air guitar sem soar datado ou ridículo. Sorte que o L7 nunca foi uma banda qualquer. Muito mais que um show de rock feito para tiazinhas pagarem suas contas, o que se viu foi uma celebração à vida e ao barulho, ao poder feminino, a envelhecer com desprendimento e amor próprio. Não é pouco, mesmo. (FH)

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Donita e Jennifer em Curitiba

O neoliberalismo é uma doutrina opressora, tanto social quanto economicamente. Vamos começar a sentir isso na pele logo a partir da virada do ano. Os britânicos sabem muito bem o que foi o regime mão-de-ferro da primeira ministra Margaret Thatcher entre 1979 e 1990. Já os americanos experimentaram uma versão um pouco menos severa durante os oito anos (1981-1989) em que o republicano Ronald Reagan esteve à frente da Casa Branca.

E o que isso tem a ver com o rock’n’roll? Simplesmente, muito. Afinal, não fosse a apatia geral da juventude do país naquela época talvez não houvesse surgido em torno dos principais centros universitários do país uma geração inconformada que uniu música e atitude e revolucionou o rock daquela época. Esta turma consolidou, com muito punk e hardcore na veia e uma boa dose de um heavy metal mais desacelerado, o que viria a ser chamado posteriormente pela indústria de “alternativo” e mais tarde ficaria conhecido no Brasil sob a alcunha geral de indie.

E quais eram as melhores armas para se enfrentar os tempos bicudos de opressão socioeconômica somada a pessimismo, depressão e desesperança? Um caldeirão de ativismo político repleto de elementos como cinismo, deboche, tosqueira, improvisos, quebra de paradigmas e sobretudo o eterno desafio ao estabilishment. Foi nos porões, muquifos e vans pela estrada afora por todo o país que aquela geração gerou uma série de ícones underground. Uns tornaram-se muito populares, mesmo não sabendo trabalhar direito com os percalços trazidos pela fama, como foi o caso de Nirvana e REM. Outros chegaram a flertar com o sucesso de massa por um curto intervalo de tempo. Vários outros construíram uma carreira consolidada e respeitada e até hoje, ainda na ativa ou não, conquistaram o direito definitivo de morar no coração de uma devotada legião de fãs.

O L7 se equilibra nestas duas últimas categorias. De volta aos palcos e estúdios após um longo hiato que durou de 2001 a 2015, o quarteto prepara aos poucos um novo disco – duas canções já foram apresentadas, “I Came Back To Bitch” e “Dispatch From Mar-a-Lago”, a última um tapa na cara do presidente Donald Trump tal qual faz o Batman no Robin naquele famoso meme. Enquanto isso, Donita Sparks (guitarra e voz), Suzi Gardner (guitarra e voz), Jennifer Finch (baixo e voz) e Dee Plakas (bateria e vocais) continuam espanando a poeira circulando pelos palcos alternativos dos EUA e do mundo. No final de 2018, deram uma circulada por Chile e Brasil, fazendo seis shows em sete dias, no melhor esquema “banda em início de carreira”, apenas trocando a van por aviões em virtude das grandes distâncias do lado de baixo do Equador.

Na noite de 5 de dezembro a banda passou por Curitiba, como headliner da segunda edição do festival Coisarada, realizado no Hermes Bar. E por lá mostraram que continuam com seu teen spirit imutável. O que poderia significar percalço – como gripe, doença e o peso da idade (que hoje varia dos 52 aos 58 anos) – foi tirado de letra durante quase uma hora e meia de show, com muita garra, vontade e alma rock’n’roll. A dupla Sparks-Finch, então, é um caso à parte em sua performance: não faltaram as tradicionais balançadas de cabeça, poses para fotógrafos e tiradas bem-humoradas ao microfone.

O repertório ficou dividido entre os quatro clássicos álbuns lançados entre 1990 e 1997: Smell The Magic, Hungry For Stink, The Beauty Process: Triple Platinum e Bricks Are Heavy, com ligeira tendência preferencial para o último, de onde saíram sete faixas para o set list. A sonoridade, claro, torna-se bem mais crua ao vivo. Sem muitas sutilezas, tal como um monolítico bloco de riff se pequenos solos em bases que trafega entre o punk e o heavy e a adição de melodias pegajosas mais versos curtos, diretos e sem firulas líricas. E, claro, com os tradicionais erros seguidos da parada da banda inteira para começar a mesma música de novo. A beleza da imperfeição.

O começo foi arrasador, com a ousadia de engatilhar quatro clássicos logo de cara (“Deathwish”, “Andres”, “Everglade” e “Monster”). Do meio para o final foi mais um show para fãs de carteirinha, aquelas pessoas que cantam as letras todas, que esperavam ouvir também as duas novidades na noite, que se encatam com o resgate de pérolas “lados B” dos discos. Para o bis foram reservados um cover de heróis delas (neste caso, “American Society”, do obscuro grupo punk de uma early eighties Los Angeles Eddie & The Subtitles) mais o hit “Pretend We’re Dead” (até hoje presente nos playlists de rádios brasileiras de perfil rock) e a cult “Fast And Frightening” (o verso “Got so much clit she don’t need no balls” será sempre um irresistível slogan da banda).

Terminado o show do L7 ficou a feliz sensação de que, mais uma vez, esta mesma geração põe a cara a tapas para mostrar o quão nocivo, transgressor e perigoso o rock ainda pode ser, sobretudo diante de pretensões autoritárias e opressivas de se governar o mundo e controlar a vida das outras pessoas. Sorte que bandas como estas fizeram muitos discípulos por aí. Em Curitiba, as duas atrações de abertura provaram isso: o Shorts, com seu misto de blues, noise e psicodelia; e o ruído/mm, com suas várias ambientações instrumentais que muitos chamam de post-rock. Garanto que, ao sair de um Hermes Bar lotado e plenamente satisfeito com a trinca da noite, ninguém pensou que o rock está morto ou ainda precisa ser salvo. Pelo contrário, aliás. Quem precisa ser salvo são os outros. Pessoas e gêneros musicais. (ARS)

Set list Porto Alegre e Curitiba: “Deathwish”, “Andres”, “Everglade”, “Monster”,  “Scrap”, “Fuel My Fire”. “One More Thing”, “Off The Wagon”, “I Need”, “Slide”, “Crackpot Baby”, “Must Have More”, “Drama”, “I Came Back To Bitch”, “Shove”, “Freak Magnet”, “(Right On) Thru”, “Dispatch From Mar-a-Lago” e “Shitlist”. Bis: “American Society”, “Pretend We’re Dead” e “Fast And Frightening”.