Movies

Medo Profundo: O Segundo Ataque

Sequência de história de dois anos atrás chega aos cinemas com elenco desconhecido mas cheio de sobrenomes famosos

medoprofundosegundoataque

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Esqueça as leis da física. Esqueça a lógica. A sequência do terror survival Medo Profundo: O Segundo Ataque (47 Meters Down: Uncaged, Reino Unido/EUA, 2019 – Paris Filmes) menospreza a capacidade intelectual do espectador mas nem por isso deixa de proporcionar alguns sustos. Rasos, por sinal. De profundo mesmo só o mar da Península de Yucatán, no México, onde se passa a aventura de quatro garotas (duas irmãs, como no primeiro filme) que decidem mergulhar para conhecer um recém-descoberto santuário maia.

O filme traz sobrenomes famosos entre as atrizes novatas. A modelo Sistine Rose Stallone faz sua estreia no cinema. E adivinha quem é o pai dela? Essa é fácil: Sisitine é a segunda filha de Sylvester, o Rambo, o Cobra, com a também modelo americana Jennifer Flavin (para ver que ela seguiu mesmo a profissão dos pais). Corinne Foxx é filha do ator e cantor Jamie Foxx. Há também a novata Brec Bassinger que, apesar do sobrenome, não é filha de Kim. No elenco também há um ator jovem chamado Khylin Rhambo, que, obviamente, não é filho do Sly. Para fechar, integram o cast John Corbett, Nia Long, Sophie Nelisse, Brianne Tju e o carioca radicado nos Estados Unidos Davi Santos.
O primeiro Medo Profundo, de 2017, também dirigido pelo inglês Johannes Roberts, entrou para a lista de mais um daqueles filmes sobre tubarão que surgiram na esteira do clássico de Steven Spielberg. O longa virou hit, apesar da premissa um tanto absurda: duas irmãs vão passar as férias num praia paradisíaca mexicana e decidem entrar numa daquelas gaiolas de mergulho usadas por turistas para ver os tubarões-brancos mais de pertinho, mas a gaiola arrebenta do barco que a sustenta e as garotas afundam em alto-mar a exatos 47 metros da superfície.

follow-up do ataque de tubarões surge dentro do mesmo contexto com as irmãs Mia (Sophie Nélisse) e Sasha (Corinne Foxx) que moram na península paradisíaca no México. O pai delas é interpretado por Corbett, o mergulhador que descobre o tal santuário do povo maia submerso. Certo final de semana, ele propõe que as filhas façam um passeio típico de turista, até como estratégia para aproximá-las (já que as duas não se bicam!) e observar os tubarões num daqueles aquários submersos. Na fila da atração, Mia acaba encontrando suas rivais da escola. Sasha e mais duas amigas convidam-na para uma aventura mais empolgante: mergulhar no cemitério subaquático.

Por um momento, o suspense nas primeiras cenas debaixo d’água gera a expectativa de que o filme trará surpresas. Porém, as decepções são grandes e várias situações não tardam a incomodar, como a voz límpida das garotas mesmo usando máscaras de mergulho e o fato de o mar parecer um piscinão já que nenhum peixe surge nos primeiros minutos. Quando você começa a se perguntar sobre onde estariam os peixes, surge a resposta através de um único exemplar de nadadeiras cego. A explicação é que o peixe evoluiu para se adaptar às profundezas, como os abissais. As garotas, porém, muito ingênuas desconheciam que ali também era habitat de tubarões, que também são cegos, mas não bobos como elas. As garotas viram iscas numa armadilha e precisam lutar contra os peixões e a falta de oxigênio.

A primeira cena de ataque, por mais previsível que seja, ainda é capaz de provocar certo susto. Como praticamente toda a trama se passa debaixo d’água, o diretor não tem para onde fugir e até consegue ser criativo em algumas sequências – como na cena em que um mergulhador é abocanhado com Roxette ao fundo. Os demais jump-scares se tornam ineficientes. Aliás, alguns chegam a provocar risos de indignação. Afinal, como ser mordido por um tubarão-branco sem ao menos ter a perna amputada?

O filme, enfim, mostra que ser filho de peixe grande não é suficiente e que as atrizes carecem de mais aulas de interpretação. Numa das sequências finais, é nítido quando Mia dá risada enquanto a irmã se esforça pra sobreviver (vamos entender que foi um riso de desespero…). Um ponto positivo é para o make à prova d’água das garotas (queria saber a marca!) e os ferimentos, que pareciam reais.

Apesar de ter no elenco herdeiras de astros de Hollywood, essa seqüência não merece mais do que três estrelas. Nem o tubarão, coitado, é tão assustador assim. Talvez se fosse em 3D escaparia de ir água abaixo.

Movies, News, TV

Oscar 2019

Oito motivos para você não se esquecer da cerimônia de entrega dos prêmios Academy Awards deste ano

oscar2019queen01

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Reprodução

Queen

Muita gente pode ter se perguntado: o que diabos o Queen faria lá no palco do Dolby Theatre em Los Angeles na cerimônia do Oscar em 2019? Afinal, até então, o privilégio para a apresentação de números musicais ao vivo era dado somente às canções originais concorrentes na categoria. A dúvida se desfez logo após a primeira batida da noite deste 24 de fevereiro, dando abertura à festa. Sob o comando de Roger Taylor, o “tum-tum-tá” típico de “Will We Rock” colocou de pé as estrelas de Hollywood e todos os especialistas nos bastidores da sétima arte. Logo depois viriam Adam Lambert na voz e Brian May no matador solo de guitarra que conclui o arranjo. Era o Queen (ou o que sobrou dele; ou, para muitos, apenas um cover oficial da própria banda) abrindo alas para Bohemian Rhapsody brilhar na noite faturando o mais alto número de prêmios para um único filme (quatro, no total, incluindo o de ator para Rami Malek, no papel de Freedie Mercury). Logo em seguida, o trio Taylor-May-Lambert emendou a balada “We Are The Champions”, que, originalmente também vem na sequência de “We Will Rock You”, no álbum News Of The World). Jogo ganho. Não só in locomas também ao redor do mundo inteiro. Já que o Oscar quis fazer desta noite uma aposta mais popular e chamativa, conseguiu logo de cara. De quebra, o filme sobre Mercury e Queen ainda uniu novamente a dupla de Quanto Mais Idiota Melhor (Mike Myers e Dana Carvey, eternamente populares pela cena em que seus personagens batem cabeça no carro ao som da parte mais pesada de “Bohemian Rhapsody”) para fazer o anúncio do videoclipe que apresentava a obra como uma das indicadas ao prêmio máximo da noite.

Heróis e vilões

Muito de falou nas últimas semanas sobre quem poderia ser o apresentador oficial do Oscar. Contudo, nenhum ator ou comediante acabou fechando contrato para o papel de âncora. A Academia, então, anunciou que as aberturas dos envelopes seriam feitas por “heróis e vilões do cinema”. Contudo, quem esperava que alguém pudesse surgiu caracterizado com uniformes, roupas, cabelos e maquiagens típicas dos personagens encarnados nas telas, errou redondamente. Por conta de direitos autorais, isso não foi realizado. Entraram, sim, atrizes e atores vestidos formalmente (com exceção da dupla Melissa McCarthy e Bryan Tyree Henry, que partiram de vez pro escracho misturando exageros e símbolos referentes aos longas A Favorita e Pantera Negra). A “Rainha Anne” de Melissa estava com dezenas de coelhos adornando uma capa de cauda longuíssima, por exemplo. Um dos poucos momentos de humor debochado da noite. Valeu a pena.

Lady Gaga e Bradley Cooper

Já era prevista a vitória de “Shallow” como a canção original da temporada cinematográfica. Contudo, o número musical protagonizado pela dupla de atores de Nasce Uma Estrela foi comovente. A balada poderosa – que entre seus compositores, além da Gaga, tem o DJ e produtor Mark Ronson (responsável por muitos discos de primeira, entre eles Back To Black, de Amy Winehouse) e o guitarrista Anthony Rossomando (cujo currículo traz serviços prestados a excelentes bandas indie como Libertines e Dirty Pretty Things) – começou com um playback instrumental na medida para Gaga e Cooper soltarem o gogó de forma franca, sincera e emocional. De quebra, a cantora e atriz ainda tocou piano na parte final do arranjo. Como diz o Faustão, quem sabe faz ao vivo.

Spike Lee

Justiça foi feita a um dos diretores e roteiristas mais importantes do novo cinema autoral norte-americano das últimas décadas. Infiltrado na Klan, uma das obras mais interessantes desta temporada, concorria nas categorias filme, direção e roteiro adaptado. Pode ter perdido nas duas primeiras, mas pelo menos abocanhou uma “consolação de luxo” por contra a história do policial negro que consegue, do modo mais absurdo e inteligente possível, ser aceito nos quadros da organização fascista e racista que tocava o terror nos estados do Sul dos Estados Unidos até bem pouco tempo atrás. Vestido de chofer com a cor violeta dando o tom dos pés ao quepe, ele chegou no palco pulando no colo do apresentador Samuel L Jackson e ainda fez um belo discurso cheio de conteúdo sóciopolítico.

Olivia Colman

Quem também brilhou no discurso foi a atriz britânica Olivia Colman. Ou melhor, no não-discurso. Visivelmente transtornada de emoção e surpresa por ter superado “a favorita” (não dá para escapar do trocadilho infame!) Glenn Close na categoria, ela não sabia se falava, chorava, gaguejava ou mandava beijos para as concorrentes superadas. Com a estatueta na mão, protagonizou informalmente um dos mais espontâneos e engraçados momentos da cerimônia. De quebra quase se pôs de joelhos aos pés de Lady Gaga, que, sentada na fila da frente, retribuiu o carinho também de forma histriônica. E convenhamos: o trabalho de Colman como a Rainha Anne da A Favorita está espetacular. E nem é pela transformação física, de ter ganhado quinze quilos a mais para fazer o papel.

Pantera Negra

Antes de começar a cerimônia, o filme já havia quebrado uma escrita e entrado na História: foi a primeira produção baseada em um super-herói dos quadrinhos a concorrer à premiação máxima da noite. Se o drama com elenco negro e vivido quase que inteiramente na África (no fictício país de Wakanda) não foi agraciado como o melhor longa-metragem da noite, pelo menos saiu com três importantes prêmios técnicos: trilha sonora, figurinos e design de produção (categoria antigamente chamada direção de arte). Sinal de que uma produção caprichada nicho do grandioso público nerd pode, sim, rimar arte com altas bilheterias.

Alfonso Cuarón

Produtor, diretor, roteirista, fotógrafo. Alfonso Cuarón foi praticamente um faz-tudo nas funções mais importantes de Roma. Seu trabalho competentíssimo – e carregado de emoção e lembranças de sua vida na infância – garantiu a ele um excesso de bagagem para a volta para casa: faturou três estatuetas na noite, referentes às categorias filme em língua não inglesa, cinematografia e direção. Não levou a de melhor filme, é bem verdade, embora merecesse também. Entretanto, ninguém pode sair reclamando da falta de reconhecimento de seu múltiplo talento. Muito menos o México, o país onde nasceu. Afinal, a dinastia mexicana de direção no Oscar continua nas mãos de Cuarón, Iñarritú e Del Toro, vencedores dos prêmios nas últimas cinco edições.

Green Book

Como era de esperar, o filme mais mediano – e agradável à maioria das pessoas – foi agraciado com o prêmio principal da noite. Tocando de modo light na questão do racismo (a história se passa no início dos anos 1960, quando a luta pelos direitos civis nos EUA ainda não estava em momento explosivo e tenso) e também passando superficialmente por outros temos polêmicos, incluindo a homossexualidade, Green Book (esqueça o subtítulo pavoroso que o filme ganhou de sua distribuidora no Brasil) favoreceu-se do critério de votação dos membros da Academia. Vale lembrar que desde 2010, quando o número de concorrentes a melhor filme passou de cinco para até dez (são sempre oito ou nove, dependendo do coeficiente de corte na listagem apurada para o anúncio das indicações), todo votante precisa numerar esta lista de um a oito ou nove, segundo sua preferência pessoal. Portanto, aquela produção que fica ali no meio, entre segundo e quarto, justamente por ter o menor índice de rejeição, acaba sendo projetada no cômputo geral dos pesos e levando a estatueta. Foi o que aconteceu agora à história do branco bronco italiano de Nova Jersey que, por necessidade, durante algumas semanas do ano de 1962, trabalha como motorista de um renomado músico de jazz de Nova Yordurante uma turnê por cidades racistas ao sul dos Estados Unidos – e, ao fim da convivência cheia de diferenças culturais e ideológicas, um acaba sendo modificado pelo outro. Nada mais água com açúcar para agradar à maioria das pessoas. E, de quebra, Green Book faturou outros dois prêmios importantes da noite: roteiro original e ator coadjuvante (Mahershala Ali). Pode não ter sido o mais premiado na noite, mas saiu do Oscar 2019 como o principal filme da temporada pela importância das categorias.

VEJA OS GANHADORES DE CADA CATEGORIA

Filme: Green Book: O Guia

Direção: Alfonso Cuarón (Roma)

Atriz: Olivia Colman (A Favorita)

Ator: Rami Malek (Bohemian Rhapsody)

Canção original: “Shallow” (Nasce Uma Estrela)

Trilha Sonora: Pantera Negra

Roteiro adaptado: Infiltrado na Klan

Roteiro original: Green Book: O Guia

Curta-metragem de ficção: Skin

Efeitos visuais: O Primeiro Homem

Documentário em curta-metragem: Period. End Of Sentence

Animação em curta-metragem: Bao

Animação: Homem-Aranha no Aranhaverso

Ator coadjuvante: Mahershala Ali (Green Book: O Guia)

Montagem: Bohemian Rhapsody

Filme em Língua não inglesa: Roma

Mixagem de som: Bohemian Rhapsody

Edição de som: Bohemian Rhapsody

Fotografia: Roma

Design de produção: Pantera Negra

Music

História do Rock: Buddy Holly + Ritchie Valens + Big Bopper – Parte 2

Desastre aéreo que matou três astros promissores da música jovem deixou o 3 de fevereiro de 1959 marcado como “o dia em que a música morreu”

buddyhollycrickets

Buddy Holly e os Crickets

Texto por Abonico R. Smith

Fotos: Reprodução

>> Continuação da Parte 1 – para ler clique aqui

Nascido em 1930 em uma pequena cidade do Texas na divisa com a Louisiana, JP Richardson sempre foi um menino brincalhão e extrovertido envolvido com a música por gosto familiar. O que acabou refletindo cedo em suas escolhas profissionais. Acompanhou a era de ouro das big bands durante a infância e na adolescência já dava seus primeiros passos profissionais como disc-jockey. Ao voltar de um período servindo o exército, entre 1955 e 1957, retomou as atividades radiofônicas, desta vez incorporando um personagem chamado Big Bopper. O rock’n’roll já estava absorvido pela indústria cultural norte-americana e além de tocar os discos e falar ao microfone, Richardson passou também a compor algumas músicas gravadas por outros artistas.

Em maio de 1957, ele bateu o recorde de transmissão contínua no dial: ficou cinco dias, duas horas e oito minutos no ar. Tocou 1821 discos e aproveitava para tomar banho durante os intervalos de cinco minutos de blocos com notícias jornalísticas. Em 1958, gravou seu primeiro single, “Chantilly Lace”, que o projetou ao outro lado da fama: o de artista que é tocado pelos DJs das rádios. Para promover a música, apresentou-se no programa musical de TV apresentado por Dick Clark atuando como um personagem dentro de um roteiro e uma cenografia elaborada especialmente para as câmeras. Ele também propagava aos quatro cantos que filmes de curta duração seriam “o futuro da música” e que os discos passariam a ser filmados. Por conta própria, fez os vídeos de outras duas faixas, incluídas como lados B no compacto de “Chantilly Lace”. Tanto que chegou Portanto, não é exagero dizer que JP foi um precursor da estética que ficou conhecida posteriormente como videoclipe. Caso não tivesse morrido aos 28 anos de idade, poderia ter dado outras boas contribuições para a música, tanto na área da comunicação quanto como cantor e compositor. Entre os seus pertences achados no jatinho estavam uma caderneta com anotações de vinte composições, que ganharam o epíteto de “20 lost songs”.

bigbopper1958

Big  Bopper

Nascido e criado em subúrbio latino de classe média-baixa de Los Angeles e de ascendência indígena mexicana, Richard Steven Valenzuela morreu com apenas 17. Ao completar esta idade, em maio de 1958, chamou a atenção do dono do selo Del-Fi, baseado em Hollywood, que procurava novos talentos do rock para, quem sabe, descobrir um outro Elvis Presley. Quando soube que havia um menino de um high school de Pacoima que era conhecido como “o Little Richard do vale de San Fernando”, não teve dúvidas e contratou Valenzuela. Mudou seu nome artístico para Ritchie Valens e lançou o primeiro single, com a canção autoral “Come On Let’s Go”. Na sequência, bancou um outro compacto, desta vez puxado pela balada romântica “Donna”, composta por Ritchie para sua namoradinha de colégio em um momento dor-de-cotovelo. Entretanto, a principal contribuição do astro precoce estava justamente “escondida” no lado B do disquinho em vinil.

Durante uma viagem a Tijuana, cidade mexicana mais perto da fronteira com a Costa Oeste, Valens apaixonou-se pela canção tradicional mexicana La Bamba e decidiu incorporá-la em seu repertório, com um arranjo rock’n’roll tendo o riff desenhado pelas guitarras. Bingo! Sucesso imediato e mais: a faixa tornou Valens um grande ídolo de toda a comunidade hispano-americana dos Estados Unidos, especialmente a espalhada pelo centro-sul da Califórnia. O baixista Don Tosti (do hit “Pachuco Boogie”) e o “humorista” Lalo Guerrero (“Pancho López”, uma adaptação do tema de Davy Crockett para a cultura de seu povo) já haviam popularizado anos antes o que se convencionou a chamar de gênero musical “chicano” (termo usado que denominar os descendentes de latinos na sociedade da época que, de um modo geral, servia como algo depreciativo e separatista). O garoto simpático e gorduchinho, que pulou dos assentos escolares para os palcos como um meteoro era, naquele momento, a grande aposta de um Estados Unidos que queria demonstrar a força da imigração latina, que, com o passar das décadas, viria a ser decisiva no mercado de música e entretenimento. Poderia ter tido uma carreira brilhante e, tal qual o companheiro de turnê Big Bopper, ter sido muito mais incisivo na questão do pioneirismo.

ritchievalens1958

Ritchie Valens

Curiosamente, este item também não faltava a Charles Hardin Holley, nascido em 1936 e outro texano (mas desta vez nascido para o norte do estado, na cidade de Lubbock, mais próxima do meio-oeste conservador (isto é, os estados de Oklahoma e Novo México) vindo de uma família que exercitava sua paixão pela música aprendendo e tocando instrumentos. Buddy Holly, com 16 anos de idade já fazia performances em emissoras locais de rádio e TV da região. Em 1956 começou a fazer suas primeiras gravações em estúdio, quase sempre assinado a autoria das mesmas músicas e coordenando em conjunto a produção artística. Pequeno gênio, encontrou no trio Crickets seu apoio musical e de quem nunca mais se separaria.

A união entre Holly e a formação de trio do Crickets acabaria por consolidar um formato até então nos arranjos de rock’n’roll: duas guitarras, um baixo e uma bateria. Antes era normal que houvesse piano, saxofone e violão. Depois de Buddy, as bandas de rock do mundo inteiro passariam a adotar este formato básico e nunca mais abandonado. Com influências de gospel, hillbilly rhythm’n’blues somadas às raízes caipironas texanas ainda deram a Holly um jeito original de cantar, compor e tocar denominado tex-mex.

Em apenas três anos de carreira deixou um legado de 50 canções distribuídas em três álbuns e 18 singles, como os hits “That’ll Be The Day”, “Rave On” e “Peggy Sue”. Até hoje este material permanece fresco, vivo e empolgante, inclusive sendo uma grande influência para o que se convencionou a chamar de indie rock ou rock alternativo que saudam até hoje o som cristalino de uma das guitarras e o vocal poderoso, sempre entoando versos de romantismo puro e outros sentimentos pessoas através de cativantes melodias. O visual carismático, típico de estudante nerd com cara de inteligente e óculos pretos de aro grosso preto também foi repetido posteriormente por gente como Elvis Costello e Rivers Cuomo (vocalista do Weezer). Aliás, não à tôa que um dos maiores hits do primeiro álbum do Weezer ganhou o título de “Buddy Holly”.

Fica impossível conjecturar o que mais Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper poderiam ter feito para o mundo da música caso não estivessem naquele pequeno avião destroçado logo após a decolagem no dia 3 de fevereiro de 1959. Mas fosse o que fosse que tivessem feito com certeza o rock teria sido mais rico e criativo.

Music, Videos

Clipe: Killers – Land Of The Free

Artista: Killers

Música: Land Of The Free

Álbum: Título a ser anunciado (2019)

Por que assistir: Um dos itens em que Donald Trump sempre bateu durante a sua caminhada eleitoral rumo à Casa Branca e também depois de passar a ocupar o cargo da presidência dos EUA foi a construção de um grande muro para impedir a entrada em seu país de mais imigrantes vindos do território mexicano. A proposta, preconceituosa e separatista, é a principal personagem dos novos clipe e música do Killers. As cenas que ilustram o vídeo foram captadas sob o comando do cineasta e ativista político-racial Spike Lee durante o ano passado, que ainda terminou com uma grande caravana de gente de países centro-americanos (a maioria de Honduras) disposta a fazer de tudo para cruzar a borda na expectativa de uma vida mais digna na “terra da liberdade”. Nas imagens flagradas, impera o massacre da opressão diante da pobreza e pela violência física. Toda esta crueza de imagens choca ainda mais quando casada à mais nova música da banda liderada por Brandon Flowers. Agora com a formação reduzida a um trio – após o desligamento voluntário e por tempo indeterminado do guitarrista Dave Keuning – o Killers anuncia para o decorrer deste ano, com a faixa “Land Of The Free”, seu mais novo álbum, o sexto da carreira. Ainda sem o título anunciado, o disco deverá promover o retorno do grupo à sonoridade clássica de seus dois primeiros trabalhos (Hot Fuss, de 2004, e Sam’s Town, de 2006), com arranjos épicos, letras cheias de citações e referências politizadas, religiosas ou filosóficas. “Land Of The Free” se parece muito com “All The Things That I’ve Done” por apostar no arranjo vocal gospel, especialmente na hora dos refrães. Entretanto, sua base é o piano e, muito provavelmente pela ausência de Keuning no estúdio, as guitarras ficam bem para segundo plano. Ao lançar “Land Of The Free”, Flowers postou na internet um longo depoimento dizendo que sempre acreditou nos EUA e nos valores transmitidos desde a fundação dele, mas que andava profundamente chateado com toda a situação sociopolítica dos últimos anos (leia-se governo Trump), que o verdadeiro encarceramento em massa estava dentro do próprio país e que a onda de crimes envolvendo tiroteios aqui, ali e acolá o afetava muito, principalmente na condição de pai e descendente de imigrantes (a família de sua avó veio da Lituânia). Por isso, continuou, o melhor jeito de externar essa insatisfação seria colocar os sentimentos para fora em forma de música. Uma bela paulada no atual presidente, aliás, e algo surpreendente também para quem, na época das entrevistas de divulgação de Sam’s Town, provocou polêmica ao declarar uma certa simpatia pelo Partido Republicano e sua política de direita.

Texto por Abonico R. Smith

Movies

Roma

Oito motivos para cair de amores pelo novo longa-metragem escrito e dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón

romacuaron02

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Netflix/Divulgação

Desde o último dia 14 de dezembro já está disponível na Netflix, o mis novo filme do diretor e roteirista mexicano Alfonso Cuarón. Primeira obra do artista após o badalado Gravidade, o novo longa-metragem também vem a reboque de um grande hype. Festejado pelos críticos de todo o mundo com as mais altas cotações de suas resenhas, Roma traz motivos de sobra para não apenas para o oba-oba em torno de si, mas também para as polêmicas a respeito de apontar para novos caminhos para o cinema, nem que, para isso, paradigmas sejam quebrados em todos os sentidos. Inclusive no de dar um toque mais artístico ao que é extremamente popular, propondo a saída do quadrado e uma luz que aponta para bem longe do que é simplesmente comercial. E o Mondo Bacana apresenta abaixo oito motivos para você cair de amors pelo filme.

Tom autobiográfico

Muito do que costura a história da babá Cleo e da família de classe média de quatro filhos e pais professores universitários veio das próprias vivencias e memórias do roteirista e diretor Alfonso Cuarón – tanto que ele não apenas se autorretrata em um dos meninos mais novos que habitam a casa número 21 da Rua Tapeji do bairro Roma, na Cidade do México como também dedica, antes dos créditos finais, a obra a Libo, a Cleo da vida real. Isso explica toda a ternura com que ele trata a personagem central. E nada mais atraente do que toda a sinceridade autobiagráfica imposta por Cuarón ao seu filme.

Yalitza Aparicio

Cleo é uma jovem analfabeta que mora nos fundos da casa de seus patrões e passa todos os dias em função dos afazeres em torno das quatro crianças da casa. Veio para a cidade grande ainda na adolescência para trabalhar na metrópole. Não perdeu a ingenuidade tampouco as referências de sua origem, a região pobre de Oaxaca, situada ao sul do país. Entretanto, impõe-se com simplicidade no dia a dia, mantendo a ordem de toda uma engrenagem sem nunca revelar a sua real importância para toda a estrutura, Para interpretar a personagem, Cuarón escalou Yalitza Aparicio, professora infantil também oriunda de Oaxaca e sem qualquer experiência anterior como atriz, tampouco havia visto ou sabia o nome de algum dos filmes anteriores do diretor. A sua Cleo pouco diz palavras durante as duas horas do filme. O silêncio pode imperar em boa parte do tempo, mas é inegável que olhares, postura e gestos falam muito. Yalitza acabou não sendo indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática e se ficar de fora das outras premiações da temporada (inclusive do Oscar) isso será uma grande injustiça. Outro detalhe: Yalitza fala várias vezes no dialeto mixtec, característico de sua região.

Roteiro oculto

Cuarón era a única pessoa no set a saber todo o roteiro e a direção que cada personagem tomaria. Os atores só recebiam as suas falas no próprio dia das filmagens, apenas um pouco antes da câmera começar a rodar.  O objetivo era garantir a maior espontaneidade possível de seu elenco, sobretudo quanto às reações ao que se passava em cena. O que se reflete de modo positivo durante todo o longa, sobretudo em alguns dos momentos decisivos da trama. Se você quiser conhecer mais a fundo o roteiro, ele foi disponibilizado por Cuarón, tanto em inglês quanto em espanhol, e pode ser lido aqui.

Nostalgia do cinema

Entre as reminiscências da infância de Cuarón o cinema aparece de maneira clara e cristalina dentro da história. Como válvula de escape para os problemas da vida, alguns de seus personagens vão duas vezes a um dos principais cinemas da Cidade do México. Yalitza é abandonada pelo namorado no meio de uma sessão de A Grande Escapada  (1966). Outra hora, fica bem claro o quanto o filme Sem Rumo no Espaço (1969) fascinou o futuro diretor de Gravidade. O mais legal é perceber o quanto uma ida ao cinema mexia com as pessoas. As instalações monumentais, a entrada glorificante, sempre cheia de pessoas e ambulantes ao redor (vendendo de pipocas a balões), e a ligação direta com a calçada e a grande avenida talvez não passem de meras elocubrações inverossímeis para uma geração que já nasceu mecanizada com a ida a um multiplex insípido incrustado em um shopping center ou mesmo o conforto total do streaming no sofá da sala ou na cama do quarto. Este último detalhe ainda se mostra um completo contrassenso quando vem a reflexão de que Roma é um filme que glorifica a experiência do cinema de rua que quase todo mundo verá sem precisar sair de casa.

Autorreferências

A citação a Gravidade (2013) pode aparecer de modo bem explícito lá pela metade final, mas não é a única autorreferência feita nele por Cuarón. A cena do parto de Cleo é similar à de Filhos da Esperança (2006). Outra coisa comum a Filhos da Esperança e Romaé o uso do mantra “Shantih Shantih Shantih” (“paz, paz, paz”). Além de marcar o retorno do diretor ao idioma e o cinema mexicano após dezoito anos, Roma também tem a ver com E Sua Mãe Também (2001) na hora em que a mãe reúne os filhos em um bar ao ar livre perto da praia para contar a eles que seu pai os abandonou.

Subtrama politizada

Halconazo é um dos mais tristes episódios sociopolíticos mexicanos no Século 20. Ocorreu no dia 10 de junho de 1971, durante as celebrações do feriado de Corpus Christi. Estudantes protagonizaram uma grande manifestação pública pelas ruas da Cidade do México, em protesto contra recentes medidas tomadas pelo presidente Luis Echeverría Álvarez e seus comparsas nos governos nacional e regionais. Cento e vinte manifestantes (número divulgado oficialmente, embora as suspeitas sejam de uma contagem ainda maior) foram cruelmente assassinados neste dia por membros de um exército paramilitar formado por civis exaustivamente treinados com artes marciais e armas de fogo para reprimir os opositores. Aos poucos, o Halconazo vai se desenhando na história de Cuarón. Primeiro quando Cleo retorna a Oaxaca e acaba assistindo um grande treinamento coletivo realizado em um campo de futebol de várzea e que, de certa forma, acaba se esgueirando rumo ao ridículo. Depois, no clímax desta subtrama, envolve-se como testemunha em um chocante caso de disparos à queima-roupa em um líder estudantil que tenta, em vão, salvaguardar sua vida escondendo-se na mesma loja de móveis em que a mãe de sua patroa a leva para escolher um berço para o bebê que carrega na barriga. O nome Halconazo vem de Los Halcones (Os Falcões, em espanhol), o grupo clandestino secretamente treinado secretamente – inclusive com a ajuda do governo dos Estados Unidos – para combater os frequentes protestos civis e estudantil realizados por todo o México naquela época. O uso do Halconazo em Roma serve como o clímax de uma série de denúncias de desigualdades sociais realizada no decorrer da trama.

Cinematografia de primeira

O convite fora feito inicialmente para o compatriota Emmanuel Lubezki, com quem já trabalhara antes em Gravidade e Filhos da Esperança. Diante da impossibilidade do amigo assumir o compromisso em Roma, Cuarón decidiu ele mesmo assinar pela primeira a fotografia de um filme. Não poderia ter feito a estreia em melhor estilo. Rodado em 70mm, Roma é um delírio para os olhos dos cinéfilos. Todo em preto-e-branco e com seu drama familiar espalhado por cenas cotidianas em casa ou nas ruas, começa sugerindo uma bela homenagem ao neorrealismo italiano e seus ícones (Visconti, Pasolini, Rosselini, De Sica). Não por acaso, o título faz uma ligação sináptica com o nome da capital desse país. Mas a fotografia de Roma vai além. Através de lentos e frequentes travellings, a câmera nunca para de os ambientes da história e transformando as locações em personagens tão importantes quanto os de carne e osso. Tanto quanto fixar-se nas ações e nos diálogos vale muito a pena deixar os olhos percorrerem tudo o que está ao redor e é dito apurada e silenciosamente por objetos, móveis, paredes, carros, aviões e figurantes.

Leão de Ouro

Impedido de ser inscrito em Cannes, que só permite filmes concorrentes que possam vir a ser lançados no cinema em um determinado intervalo de tempo posterior ao evento, Roma acabou abocanhando o Leão de Ouro, o prêmio máximo de outro importante festival europeu de cinema. Ao comentar a vitória em Veneza, ocorrida no mesmo dia de aniversário de Libo, Alfonso Cuarón disparou, em tom de brincadeira: “é seu presente e eu te cantaria ‘Parabéns Pra Você’, mas não vou ofender os ouvidos de toda esta gente”. No ano passado, o vencedor de Roma foi A Forma da Água, do também mexicano Guillermo Del Toro e que meses depois levou o Oscar de melhor filme. Aliás, a indicação de Roma aos Academy Awards já está sendo bastante esperada e é considerada a mais alta aposta já feita pelo serviço mundial de streaming, nos últimos anos “banido” da categoria principal pela rixa com os principais estúdios que ainda apostam nas bilheterias tradicionais.