Movies

O Farol

Thriller psicológico com Robert Pattinson e Willem Dafoe aumenta as expectativas para o futuro da carreira do diretor Robert Eggers

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

Sendo um dos mais antecipados filmes do ano passado, O Farol (The Lighthouse, Canadá/EUA, 2019 – Vitrine Filmes), de Robert Eggers, distancia-se do horror comercial que ocupou as telas dos cinemas brasileiros – com cobertura modesta em Curitiba, o longa só está em exibição no Cine Passeio. Estrelado por Robert Pattinson e Willem Dafoe, O Farol é de cair o queixo.

O roteiro, assinado por Eggers e seu irmão Max, retrata o isolamento de Thomas Wake (Dafoe) e Ephraim Wilson (Pattinson), que fora contratado por aquele para ser seu ajudante no farol que comanda no meio do mar. Aos poucos, o clima na pequena ilha que habitam torna-se cada vez mais nervoso – (e o espectador acompanha esta tensão), transformando O Farol num retrato do enlouquecimento ao mesmo tempo que uma visita ao enlouquecimento que nos é subjetivo. O texto é conciso, oscilando entre o falatório de Wake e o silêncio inquieto de Wilson, amparado por um simbolismo que flerta com a mitologia greco-romana e uma estética aterrorizante, mas não do jeito jumpscare de se aterrorizar.

Em vez de “terror” de fato, esta é uma obra de thriller psicológico. Convida o espectador para uma jornada tão enclausurada quanto a de seus personagens por meio de sua razão de aspecto: o filme é praticamente quadrado, mais estreito que os filmes clássicos dos primórdios do cinema, filmados em uma razão 1.33:1. O Farol, por sua vez, é fotografado em 1.19:1.

Essa é somente uma das inúmeras decisões de Eggers que destacam seu trabalho de direção. As imensas sombras projetadas nas paredes e nos próprios atores, o enquadramento de seus personagens (muitas vezes em um contra-plongée anguloso) e a utilização de planos longos são marcas registradas aqui, aproximando a obra da estética do impressionismo alemão, com reflexos da inventividade do noir. Tal proximidade é fruto da colaboração do diretor com o diretor de fotografia Jarin Blaschke, com quem trabalhou em A Bruxa. Ele faz um ótimo uso do filme de 35mm, que confere mais desta atemporalidade à trama. Ainda há a manipulação da cor do filme – que traz céus mais escuros que o mar em planos de beleza ímpar.

A montagem de Louise Ford (pasmem: também egressa de A Bruxa) é exemplar. Criando um ritmo que é próprio de O Farol, Ford corta apenas quando necessário, entregando ao espectador planos longos, com mise-en-scène exemplar de Eggers, mas sem medo de justapô-los aos densos close-ups, onde Dafoe e Pattinson têm total controle da tela – e mais podem brilhar.

Contudo, há um ponto de primor em O Farol que nada contra a revisitação estética do passado do cinema: a música de Mark Korven (pasmem: ele também trabalhou em A Bruxa). O compositor cria uma atmosfera eletrizante e desconfortável, com timbres atuais e uma experimentação que é típica deste século 21, que acaba por atribuir à obra um frescor contemporâneo. Não é nada extremamente inovador, mas é único ao longa. As sequências não teriam tanto impacto psicológico sem a música de Korven.

Ela acompanha todo um desenho de som, de Mariusz Glabinski e Damian Volpe, que a auxilia a desenvolver essa atmosfera opressiva e de tensão inigualável. No entanto, este filme faz jus às capacidades criativas do desenho de som de modo tal que nenhum título lançado em 2019 (embora tenha se atrasado por aqui, O Farol teve lançamento mundial no ano passado), em um instante que se impregna na memória. Assim que assistir ao longa, o leitor será capaz de identificar o momento que descrevo. E digo mais: O Farol deveria se encerrar ali.

O Farol se destaca entre todos os lançamentos dos últimos anos, aumentando as expectativas para a carreira de Robert Eggers vertiginosamente. Com sensibilidade, tensão e a medida certa de experimentação para afastá-lo do convencional sem fazê-lo de vez, o filme é destaque em todas as áreas da produção cinematográfica. Do começo a depois de seu fim, ele te prende na cadeira da sala de cinema. E o convida a enlouquecer junto ao seu incrível elenco.

Music

Scott Walker (1943 – 2019)

Quem foi o cara que misturou tristeza e posicionamento político em suas canções e foi influência suprema de David Bowie e o britpop

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Texto por Carlos Eduardo Lima (Célula Pop)

Foto: Reprodução

Certas notícias a gente torce para nunca escrever. A morte de Scott Walker, ocorrida no último dia 25 de março, por exemplo, é uma delas. Certamente quase um desconhecido por aqui, Scott era um desses artistas que expandiu as fronteiras da música popular no século 20. Em alguns momentos, sua carreira esteve em pé de igualdade com Beatles e Rolling Stones em termos de influência e até mesmo popularidade. Sua obra foi responsável por influenciar centenas de outras bandas e cantores e seu estilo de cantar e compor transformou para sempre o rock. Entre seus herdeiros musicais estão David Bowie, Jarvis Cocker, Marc Almond, Richard Hawley, Suede, Radiohead, Blur, Last Shadow Puppets e todo vocalista ou banda pop que resolveu subir num palco cantando as agruras da vida.

Sim, porque Scott se tornou notório a partir de uma combinação improvável de vocais operísticos/barítonos com capacidade de evocar referências literárias/artísticas que lhe permitiam cantar sobre a questão política da Primavera de Praga em pleno 1968, fazer referências a filmes cult como O Sétimo Selo, do diretor sueco Ingmar Bergman – muito antes desta ideia atual de cultsequer existir – e, ao mesmo tempo, forjar um padrão de pop orquestral e belo, versando sobre amor não correspondido, arrependimento, tristeza, solidão. Além disso, suas canções abriam espaço para suicidas, ressentidos, drogados, vagabundos noturnos. Scott Walker tinha a capacidade de colocar pra baixo o mais esfuziante ser e escrevo isso sem tom pejorativo.

Scott era americano, nascido Noel Scott Engel em 9 de janeiro de 1943. Saiu da improvável cidadezinha de Hamilton, Ohio, para fazer fama na Inglaterra, em meados dos anos 1960. Formou com John Maus e Gary Leeds o Walker Brothers. Claro, não eram irmãos, muito menos se chamavam Walker. Fizeram sucesso arrebatador na Inglaterra, especialmente com versões de clássicos como “Make It Easy On Yourself” e “The Sun Ain’t Gonna Shine Anymore”, canções belíssimas e tristíssimas. Seu registro vocal característico misturava influências operísticas e mesmo do teatro japonês – algo impensável para a época. Tal fato virou a cabeça de um iniciante David Jones, que se chamaria David Bowie em seguida, que deve sua marca vocal registra a Scott.

Com o fim dos Walker Brothers em 1968, Scott impôs-se como artista solo. Ele já vinha lançando sua série de álbuns homônimos/numerados, que culminou com Scott 4, em 1969. Deste período vêm pérolas próprias e de outros compositores, como “Montague Terrace (In Blue)”, “Jackie”, “The Girls From The Streets”, “Windows Of The World”, “It’s Raining Today”, “Copenhagen”, “The Seventh Seal” e até a inacreditável “Old Man’s Back Again (Dedicated To The Neo Stalinist Regime)”, que, como o título diz, fala sobre a política da URSS em relação ao mundo em 1969. A preferida pessoal deste que vos escreve, no entanto, é a lindíssima e cortante: “The Lights Of Cincinatti”, com os versos:

“And I can see them shining
Through the willows and the pines,
The lights of Cincinatti
Oh, so many miles behind,
I could build myself a new life
And make it on my own,
But the lights of Cincinnati
Will keep calling me back home.”

Escrever e gravar sobre estes temas, buscando expandir fronteiras musicais não são traços de um popstar, certo? Scott tornou-se um artista recluso, quase uma lenda. Seus álbuns posteriores à quadrilogia Scott são menos inspirados, ainda que tragam momentos impressionantes. Os anos 1970, no entanto, foi mais das crias estéticas de Scott do que dele mesmo. O grande acontecimento para ele foi o retorno dos Walker Brothers originais em 1978, a bordo do disco Nite Flights, que apenas marcou a reunião do trio inicial, enquanto o mundo estava ouvindo disco music e punk rock.

Scott ressurgiria por algumas vezes lançando discos. Em 1984, com Climate Of Hunter e, onze anos depois, com Tilt, trabalhos que já podem ser entendidos sob o ponto de vista “alternativo”, algo que Walker fez na maioria das vezes que lançou álbuns. Mais recentemente, viriam The Drift, em 2006; Bish Bosch, em 2012; e Soused, colaboração com o grupo americano Sunn O))), lançado em 2014. Walker permanecia oculto, nas sombras, local onde sempre pareceu sentir-se mais adequado e confortável. Seu último trabalho foi a trilha sonora do filme Vox Lux, estrelado por Natalie Portman, em cartaz no Brasil.

Não há mais espaço na música pop para gente como Scott Walker. Se um equivalente seu surgisse hoje, seria desencorajado a seguir carreira na música. Referências literárias? Desejos instrumentais e operísticos? Canções fora dos padrões? Poucas visitas em perfis de redes sociais? Scott é reflexo de um tempo em que havia possibilidade da arte menos popular impregnar outros campos – populares – gerando cultura e novas abordagens. Sem ele, a música pop seria incrivelmente mais pobre e mais óbvia. Que seu talento seja reconhecido por mais e mais pessoas.

Music

Escambau

Criador da banda curitibana fala sobre o relançamento do álbum de estreia com dez faixas-bônus gravadas em 2007 no Paraguai e relembra o período

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Texto por Abonico R. Smith a partir de depoimento de Giovanni Caruso

Fotos: Acervo Escambau

Em abril de 2007, depois de atuar dez anos à frente dos Faichecleres, sem muito explicar ele abandonou a banda que ajudou a fundar. No auge da carreira, fez as malas e se isolou durante quatro meses no interior do Paraguay. A cidade de San Bernardino, adornada pelo famoso Lago Azul de Ypacaraí, está localizada a cerca de 50 km ao sul da capital, Asunción. “O pequeno povoado é muito procurado no verão como destino de férias. Por outro lado, o misterioso balneário vira do avesso no inverno, tornando-se um local completamente silencioso, pacato e vazio. Um cenário perfeito para criar, meditar e também pra fazer filmes de terror. É uma cidade fantasma!”, conta Giovanni Caruso.

Nestas condições, foram idealizadas e gravadas em formato de demo As Gloriosas Esferas do Inconcebível Esplendor. Este é um conjunto de dez faixas registradas com vozes e violões, guitarras, baixos, percussões e até arranjos de sopro modulados em um antigo teclado. Tudo gravado por Giovanni e da maneira mais simples possível: com um velho microfone Shure SM58 e todos os instrumentos ligados em linha, plugados diretamente numa antiga mesa Yamaha de quatro canais. “Queria reciclar meu trabalho. Montar uma nova banda. Pra isso, precisava de material. Aproveitei meu autoexílio para isso. Compor, gravar, meditar. Enfim, reorganizar minha vida. Pra mim, de certa forma, era uma emergência. Queria voltar ao Brasil com algo encaminhado debaixo dos braços, trazendo algo sólido para buscar novos parceiros e cair na estrada para tocar novamente.”

De volta a Curitiba, no final daquele ano, fora surpreendido por uma notícia que teria forte impacto na sua vida. Maria Paraguaya, sua companheira havia pouco mais de dois anos e que em breve viria a integrar a formação original do Escambau, estava grávida. A gestação acabou retardando um pouco os planos de lançar o novo projeto ainda no ano de 2008. Neste ínterim, ainda sem banda, decidiu entrar em estúdio para valer e, com a colaboração técnica de Rodrigo Barros e Luiz Ferreira, ambos ex-integrantes da banda Beijo Aa Força, fazer um registro mais profissional das novas canções. Na bateria, teve o apoio mais do que bem-vindo do irmão Glauco Caruso. “Que, por sua vez, fez um excelente e marcante trabalho, diga-se de passagem, e que, aliás, entre outras joias, trazia em seu currículo as assombrosas baterias do álbum A Sétima Efervescência, do cultuado músico gaúcho Júpiter Maçã”, adiciona. O organista Moacyr Boff completou o time, temperando com seu virtuosismo e indefectível acento bluesy a estrutura vertebral do álbum. Enquanto isso, todos os outros instrumentos ficariam sob a sua responsabilidade.

Maria Paraguaya, Adriano Antunes (Syd Vinicius) e Oneide Diedrich (Pelebroi Não Sei) acrescentaram vocais no hit “Dos Amores Mais Vendidos”, que, pouco tempo depois, ganharia um videoclipe premiado em dois festivais nacionais. O disco ainda contou com a participação de Raul de Nadal em “A Prostituta Apaixonada”, tocando acordeon, e de um ótimo e bem arranjado naipe de sopros na canção “Kallandra’s Bar”. Faixas como “Desparafuso”, “Mônica e Suas Esculturas” e “Amor em Si Bemol” logo deixaram fortes impressões nos seguidores da banda e, ainda nos dias de hoje, são muito requisitadas nas apresentações.

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Exatamente na virada para 2009, para a alegria dos fãs, o álbum Acontece nas Melhores Famílias foi disponibilizado gratuitamente na internet através da plataforma MySpace. A banda, já com formação definida e chamada Giovanni Caruso e o Escambau, estreou com casa lotada no dia 13 de março. Além de Giovanni, no baixo e nos vocais, estavam Maria Paraguaya, vozes e percussão; Moacyr Boff, teclados; Zo Escambau, guitarra; e Ivan Rodrigues, bateria. De lá pra cá, se vão dez anos, cinco discos, mudanças de nome e formação, shows pelo Brasil e exterior e vários videoclipes. Em 2019, para comemorar a simbólica data, o Escambau (que hoje conta com Caruso, Paraguaya, Zo, Yan Lemos no baixo e Yuri Vasselai na bateria) promete começar o ano com um explosivo lançamento que irá chacoalhar as estruturas de um carente e malfadado rock tupiniquim dos tempos atuais.

“Nosso sexto álbum já está pronto e foi gravado integralmente e ininterruptamente durante cinco dias, entre o fim de outubro e começo de novembro, dentro de uma locação do século XVIII, nas acomodações do luxuoso Hotel Camboa, na cidade histórica paranaense de Antonina”. Ainda em virtude da simbólica data comemorativa, o Escambau promete disponibilizar – o mais breve possível – todos os seus álbuns acrescidos de faixas-bônus e demo tapes inéditas nas principais plataformas de streaming. Agora é esperar para ouvir e deliciar-se, enquanto isso, com os raros sabores de um disco gravado e lançado antes da existência da própria banda.

Estranho isso, né? Pensando assim, permito-me imaginar que a alma do Escambau se encontra aqui. Neste primeiro sopro criativo intitulado Acontece nas Melhores Famílias. Nesta edição comemorativa, que se chama 10 Anos do Lançamento, conta ainda com dez faixas-bônus. Afinal são outtakes da pré-produção do álbum realizada em 2007 no Paraguay, onde o disco fora pré-concebido sob a curiosa alcunha de As Gloriosas Esferas do Inconcebível Esplendor.

>> Escute Acontece nas Melhores Famílias – 10 Anos do Lançamento nas plataformas iTunesSpotify e Deezer. O CD também pode ser comprado pela Tratore.

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