Movies

A Odisseia dos Tontos

Novo filme argentino com Ricardo Darín no elenco retrata os reflexos sofridos do povo quando planos econômicos impactam a nossa vida

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Warner/Divulgação

Um plano econômico quando é adotado num país não só confisca o dinheiro da poupança, “come” os zeros e altera o nome da moeda ou limita a quantia que você deve sacar do banco. Termina, sim, por confiscar os dias, devorar a saúde do povo, principalmente a dos idosos, mudar o sentido de justiça e limitar nossas forças diante da vida. Quantos traumas e suicídios a ministra Zélia Cardoso de Melo não endossou ao anunciar, há quase três décadas, o fatídico Plano Collor, do presidente caçador de marajás? Quantos aposentados não infartaram em 2001, quando foi instalado o “corralito”, o confisco dos depósitos bancários, fantasma que ainda persegue o povo argentino?

Pois este é o tema do mais recente filme estrelado pelo ator Ricardo Darín, que pela primeira vez atua ao lado do filho Chino Darín. O roteiro de A Odisseia dos Tontos (La Odisea de los Giles, Argentina/Espanha, 2019 – Warner), que estreou nesta quinta-feira no Brasil, é baseado no romance do escritor Eduardo Sacheri e feito em coautoria com o diretor Sebastián Borensztein, do fantástico Um Conto Chinês. Em vez de abordar o assunto de forma pesada, o tom da narrativa procura atenuar os reflexos sofridos pelo povo portenho com um bom humor inteligente presente em diálogos dinâmicos, repletos de ironia e palavrões colocados na medida.

Trata-se de uma comédia dramática leve, ao estilo sessão da tarde, porém sem deixar as críticas políticas de lado, como muitas citações ao peronismo e o anarquismo do russo Mikhail Bakunin. O filme usa aquela máxima de que o povo é sempre tratado como idiota, enganado pelo sistema. Como o próprio nome diz, a odisseia é a saga de moradores da província de Alsina (os “tontos”) que viram o desejo de montar uma cooperativa ir para os ares depois da crise, assim como a vida de pessoas queridas que também se esvaíram após o golpe. Mas o que desperta a grande revolta por parte dos locais é o fato de terem sido enganados pelo advogado Manzi (Andrés Parra), amigo do gerente do banco, que conseguiu informações privilegiadas e trocou, a tempo, os pesos argentinos por dólares.

Darín interpreta Fermin Perlassi, um ex-jogador de futebol que se transforma em Robin Hood e convoca os amigos fiéis a bolar um plano para recuperar o dinheiro do advogado malandro. Como todo bom argentino, faz da solidariedade o antídoto para combater a injustiça (e não a vingança, como no papel do mesmo Darín em Relatos Selvagens).

O filme traz ainda ótimas atuações de atores veteranos. Luís Brandoni, que faz um anarquista dono de uma oficina mecânica, chega a brilhar mais que próprio protagonista. Além de Rita Cortese, que aparece tímida no papel de uma empresária local.

Vale lembrar que o livro que deu origem a este longa-metragem foi escrito pelo mesmo autor da obra que originou O Segredo de Seus Olhos, que conquistou o Oscar de melhor produção em língua não inglesa em 2010. Depois disso, o trabalho de Darín alcançou outro patamar e ultrapassou as fronteiras do então país comandando por Cristina Kirchner, que volta à cena agora política como vice-presidente. Pois Darín, a prata da casa e sinônimo de cinema argentino, acertou na decisão de não se juntar aos americanos, recusando papeis secundários oferecidos por Hollywood. E, ainda, para alegria de seus fãs, inspirou o filho a trilhar a mesma profissão. Com apenas 30 anos de idade e oito de carreira, Chino já acumula um currículo extenso, tendo estrelado um punhado de excelentes filmes, entre eles As Leis da Termodinâmica (disponível na Netflix).

A Odisseia dos Tontos fica aquém de outras comédias estreladas pelo mais famoso ator do cinema argentino. No entanto, mesmo sendo um filme sem grandes pretensões, vale a pena ver o dono dos olhos azuis e cabeleira cada vez mais grisalha atuando nas telonas. A família Darín é sempre um bom convite para ir ao cinema e rir da tragédia. Pelo menos enquanto o fantasma retratado no filme está adormecido…

Music

Los Hermanos

Oito motivos para não perder a nova passagem de Camelo, Amarante, Medina e Barba pela capital paranaense

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Caroline Bittencourt/Divulgação

Dez anos foi o tempo de ativa do Los Hermanos, desde a primeira aparição em festivais até o último show, feito em 2007, para a divulgação álbum 4. Foram apenas quatro discos de músicas inéditas, mas o suficiente para transformar o cenário da música popular brasileira e influenciar dezenas de bandas e artistas nacionais, que seguiram com a indisfarçável influência dos barbudos.

Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Rodrigo Barba e Bruno Medina formaram o Los Hermanos em 1997, no Rio de Janeiro, partindo de influências diversas, como marchinhas carnavalescas, bandas do underground brasileiro e do rock alternativo em voga no mundo naquela década. De toda essa mistura surgiu um som que flertou com os mais diversos ritmos, do ska (como no primeiro álbum) à bossa nova, da chanson francesa ao hardcore. Sempre com letras de amor caprichadas num português impecável.

O Los Hermanos não tardou a sentir o gosto especial do sucesso estrondoso. Tudo por causa de uma história de amor não correspondido: a canção “Anna Júlia”,  terceira faixa do álbum de estreia, que leva o nome da banda. O disco foi lançado em 1999, época em que a internet ainda engatinhava no Brasil e que para se projetar no mainstream musical ainda era preciso recorrer às grandes gravadoras e selos. Em 2005, ao atingir o ápice do sucesso, levando à lotação máxima as casas de show pelo país, a banda resolveu parar. Mas sem deixar os fãs órfãos, já que promovem reencontros esporádicos em pequenas turnês nacionais.

Depois de um hiato de quatro anos, Camelo, Amarante, Barba e Medina estão novamente tocando pelo Brasil. Essa volta traz um nuance especial, uma canção nova após 14 anos sem uma composição inédita. “Corre, Corre” segue no estilo e com o frescor de uma banda que, no início do século, peitou os grandes e mostrou que quem manda na vida do artista é ele mesmo, é a sua arte, é a sua vontade. E antes que aconteça o próximo recesso, o Mondo Bacana dá oito motivos para não perder o show desses barbudos grisalhos que já têm mais de duas décadas de história e passam por Curitiba no próximo dia 10 de maio.

O primeiro fenômeno da internet no Brasil

Antes mesmo de existirem redes sociais populares no país e plataformas de divulgação musical, como MySpace (2003), Orkut (2004) e YouTube (2005), a banda (então formada por Camelo e Amarante nas guitarras, Bruno Medina nos teclados, Rodrigo Barba, na bateria e Patrick Laplan no baixo) acompanhou a popularização da webem terras tupiniquins e multiplicou seu público em progressão geométrica. “Ô Anna Júuuuuliaaaaa”… No finalzinho do século passado, não havia um único ser vivo neste país que não conhecesse esse refrão da balada de sonoridade sessentista. Logo depois, o álbum Bloco do Eu Sozinho (2001) tornou-se febre entre os jovens brasileiros sem tocar suas faixas na mesma rotação de “Anna Júlia” e deixou vários clássicos que, até hoje, são exaltados e cantados em uníssono por todos os fãs em todos os shows.

Aversão a “Anna Júlia”

“Anna Julia (incorporada pela atriz Mariana Ximenes no clipe “adolescente” que não saía das paradas da MTV Brasil) deixou uma marca profunda na carreira da banda. A canção passou “de mão em mão”. Todo mundo a cantou ou gravou nos mais diversos estilos populares: axé (foi a música mais tocada no carnaval de 2000), samba, forró… Até que encontrou alguém “à sua altura”. Nada mais, nada menos que um beatle. O guitarrista do quarteto fantástico de Liverpool, George Harrison, pouco antes de morrer de câncer, gravou o hit cuja versão em inglês aparece no disco do músico britânico Jim Capaldi (que era casado com uma brasileira). Além da participação do autor de “Something”, a versão contou com Paul Weller (Jam, Style Council) no backing vocal e Ian Paice (Deep Purple) na bateria. Mas a obsessão nacional por “Anna Júlia” era tamanha que chegou à exaustão. Nos shows, a plateia chegava a implorar para que os barbudos a cantassem, mas eles se mantinham relutantes em eliminar a obra do repertório. As mais pedidas sempre eram “Pierrot” e, claro, “Anna Júlia”. E todo mundo voltava para casa sonhando em ouvir a música de novo através do Los Hermanos.

Little Quail & The Mad Birds

No começo da carreira do Los Hermanos, Camelo nunca escondeu seu fascínio pela primeira banda famosa de Gabriel Thomaz (há duas décadas liderando os Autoramas). Tanto que a famosa Anna Júlia é inspirada no Little Quail & The Mad Birds: uma baladinha power pop com verniz Jovem Guarda e melodia tremendamente grudenta. Camelo era fã de carteirinha do Little Quail e acompanhava os ensaios, shows e camarim antes de chegar à fama. Já o trio brasiliense lançou três álbuns entre 1994 e 1998, tendo sido o primeiro pelo selo Banguela, aquele que descobriu os Raimundos.

Bloco do Eu Sozinho

Como superar um primeiro disco com um poderoso hit que gerou 300 mil cópias vendidas? Invertendo a ordem das coisas. Quebrando tabus. Buscando a voz interior e sendo autêntico. Experimentando. A banda rompeu com “Anna Júlia”, uniu-se ao produtor Chico Neves (Lenine, O Rappa, Paralamas do Sucesso) e se mudou para um sítio na região serrana do Rio de Janeiro. O ar bucólico parece ter trazido o sopro de criatividade de que eles precisavam. Sem pretensão qualquer de criar outro hit, o Los Hermanos começou a compor. Nessa época, o baixista Patrick Laplan se desentendeu com a banda e deu adeus à formação oficial, que estabilizou-se como um quarteto. Com o lançamento de Bloco do Eu Sozinho, a banda mostrou novamente a que veio. O segundo álbum foi lançado em 2001 e trouxe elementos nada óbvios em sonoridade, ritmo, métrica, andamento, letras. Tanto que esse clima “libertário” trouxe certa resistência por parte dos executivos da Abril Music, que não receberam muito bem o disco, já que não havia um hit radiofônico em potencial para seguir a trilha de “Anna Julia”. “Hoje, com esses lances pré-apocalíptcos de qualidade total, há na lógica comercial essa história de atender a um público supostamente sentado em cadeiras, que vai preencher um formulário e definir o que vai ser o produto. Isso é burro, porque o público é formado a partir do que você propõe”, filosofava Amarante em entrevista à Folha de S. Paulo naquele ano. Depois que veio a esse público, Bloco… transformou-se em um marco da música brasileira mesmo não tendo sido um sucesso comercial (vendeu 35 mil cópias apenas). Só que era justamente isso que a banda vislumbrava. Afinal, este era um álbum totalmente diferente do que havia sido feito até então na música nacional, sem deixar de ser eclético e ter mistura de ritmos. O disco abre com “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, que ganhou videoclipe todo filmado em plano sequência, e segue numa sequência de canções com Camelo e Amarante, com sua rouquidão suave e rebelde, fazendo revezamento nos vocais. Entre os destaque do repertório estão “A Flor” e “Sentimental” (composta por Amarante), uma das mais belas canções de amor da MPB. Uma longa turnê conseguiu manter a banda na ativa, gerando um público novo cativo e conferindo um certo ar cult ao grupo que iria perdurar até hoje.

Ventura

Desde o lançamento de Bloco do Eu Sozinho, a idolatria continuou a crescer em progressão geométrica. Basta lembrar os shows em Curitiba. Para lançar o álbum de estreia, Los Hermanos se apresentou no então Coração Melão (mesmo local que depois viria a se chamar Forum, Master Hall e, atualmente, Live Curitiba) e nem “Anna Júlia” conseguiu lotar o salão.  Com Bloco…, faziam shows para menos de mil pessoas, como quando se apresentaram nos também extintos bares Era Só o Que Faltava e Cine. Mas foi com o lançamento de Ventura, em 2003, que a banda explodiu de vez. O terceiro álbum de estúdio, produzido por Kassin, é considerado por muitos o principal de toda a carreira. Impecável do início ao fim, o álbum foi eleito como o melhor de todos os tempos num concurso promovido na internet. Desta vez, a banda, o produtor e o “time” dos metais se reuniram num sítio em Petrópolis, onde passaram os dias trabalhando na pré-produção. O modus operandido grupo foi registrado no documentário Além do Que Se Vê (disponibilizado no YouTube). É curioso ver a delicadeza e a sutileza de Camelo e Amarante durante o processo criativo. Quando os dois conversam sobre a faixa “Deixa o Verão Pra Mais Tarde”: “Você, quem? Verão? Verão não é você”, diz Amarante. Quando Camelo fica em dúvida se usava ou não determinada palavra na letra: “‘Dissabor’, vocês acham muito radical?”, questiona Marcelo, que se revela um dos maiores letristas da sua geração, sendo comparado a Chico Buarque. Ventura começa com “Samba a Dois” e guarda para o miolo os hits “Cara Estranho” e “O Vencedor, tocados massivamente nas rádios mais identificadas com o pop e o rock. O disco tem ainda canções que parecem hinos. Como “Conversa de Botas Batidas” e seu final apoteótico em coro, que é uma verdadeira ode ao amor (“Diz quem é maior que o amor/ Me abraça forte agora/ Que é chegada a nossa hora”).  Esse disco foi só o começo do fim. O quarto álbum de estúdio da banda, lançado em 2005, deixa explícita a diferença entre as composições de Camelo e Amarante. As letras do primeiro são mais melancólicas, mais intimistas. Já Amarante segue na linha oposta, otimista, como em “Paquetá”, “O Vento” e “Condicional”. Depois do estrondoso sucesso de Ventura, tornou-se um disco difícil de absorver, até mesmo para os fãs, que lotaram o Teatro Guaíra em sua capacidade máxima no show da turnê em Curitiba. A última faixa, “É de Lágrima”, encerrava ali a carreira de dez anos.

A música inédita

Que o Los Hermanos se reúne a cada três anos em média para rodar algumas capitais do país e reativar a marca valiosa, isso todo mundo já sabe. Mas a diferença é que agora há de fato uma música inédita no repertório depois de 14 anos. “Corre, Corre” foi composta por Marcelo Camelo e gravada no final de março. Disponível desde o primeiro dia de abril no YouTube, o áudio da canção já ultrapassou os 600 mil acessos.

Carreiras solo bem-sucedidas

Quando a banda se separou, Amarante dedicou-se à Orquestra Imperial (da qual já fazia parte no tempo do Los Hermanos) e foi passar uma temporada em Los Angeles onde acabou fixando residência. Lá, formou o trio Little Joy com o baterista do Strokes (banda da qual era fã), o brasileiro Fabrizio Moretti, e a multi-instrumentista Binki Shapiro. “Ruivo” e Moretti se tornaram parceiros e depois membros da banda de apoio de Devendra Banhart. O Little Joy lançou apenas um álbum, em 2008, com sonoridade que lembra a surf music vintage. Em 2013, Amarante lançou-se carreira solo com o álbum Cavalo. Em 2018, gravou “Tuyo”, tema da série Narcos (2015), da Netflix. Neste ano, enquanto o Los Hermanos se apresenta em turnê nacional, Amarante aproveita para fazer alguns shows intimistas com canções de sua carreira solo. Já Marcelo Camelo lançou dois álbuns solo, Sou(2008) e Toque Dela (2011) com o cultuado sexteto Hurtmold como banda de apoio. Em 2014, ele se mudou para Portugal, onde formou a Banda do Mar ao lado da cantora, esposa e mãe de sua filha Mallu Magalhães mais o percussionista lusitano Fred Ferreira. O trio produziu baladas como “Dia Clarear” e a pérola dançante “Mais Ninguém”. No ano passado, Camelo decidiu se aventurar pelo erudito e lançou um disco de música clássica com os trinta minutos de sua “Primitiva”, uma sinfonia em quatro atos.

O show no Maracanã

A apresentação em Curitiba vem na sequência da memorável apresentação no Maracanã, onde a banda realizou um sonho e tocou para mais de 42 mil pessoas. Este show do Rio de Janeiro foi transmitido ao vivo para todo o Brasil pelo canal Multishow e vai entrar para a história a banda, que estava um pouco tensa por causa do desafio e enfrentou pequenos imprevistos no decorrer do concerto, como problemas técnicos com a guitarra de Marcelo Camelo. Enquanto isso acontecia, Amarante tentava improvisar ao microfone falando com o público. Mais para o final, ele foi “pra galera”, quando cantou junto aos fãs da fila do gargarejo. O set list irretocável se mantém durante a turnê. Agora, é só esperar pela nova catarse na capital paranaense. O quarteto encerra a turnê no dia 28 de maio, em São Paulo.

Movies

Roma

Oito motivos para cair de amores pelo novo longa-metragem escrito e dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Netflix/Divulgação

Desde o último dia 14 de dezembro já está disponível na Netflix, o mis novo filme do diretor e roteirista mexicano Alfonso Cuarón. Primeira obra do artista após o badalado Gravidade, o novo longa-metragem também vem a reboque de um grande hype. Festejado pelos críticos de todo o mundo com as mais altas cotações de suas resenhas, Roma traz motivos de sobra para não apenas para o oba-oba em torno de si, mas também para as polêmicas a respeito de apontar para novos caminhos para o cinema, nem que, para isso, paradigmas sejam quebrados em todos os sentidos. Inclusive no de dar um toque mais artístico ao que é extremamente popular, propondo a saída do quadrado e uma luz que aponta para bem longe do que é simplesmente comercial. E o Mondo Bacana apresenta abaixo oito motivos para você cair de amors pelo filme.

Tom autobiográfico

Muito do que costura a história da babá Cleo e da família de classe média de quatro filhos e pais professores universitários veio das próprias vivencias e memórias do roteirista e diretor Alfonso Cuarón – tanto que ele não apenas se autorretrata em um dos meninos mais novos que habitam a casa número 21 da Rua Tapeji do bairro Roma, na Cidade do México como também dedica, antes dos créditos finais, a obra a Libo, a Cleo da vida real. Isso explica toda a ternura com que ele trata a personagem central. E nada mais atraente do que toda a sinceridade autobiagráfica imposta por Cuarón ao seu filme.

Yalitza Aparicio

Cleo é uma jovem analfabeta que mora nos fundos da casa de seus patrões e passa todos os dias em função dos afazeres em torno das quatro crianças da casa. Veio para a cidade grande ainda na adolescência para trabalhar na metrópole. Não perdeu a ingenuidade tampouco as referências de sua origem, a região pobre de Oaxaca, situada ao sul do país. Entretanto, impõe-se com simplicidade no dia a dia, mantendo a ordem de toda uma engrenagem sem nunca revelar a sua real importância para toda a estrutura, Para interpretar a personagem, Cuarón escalou Yalitza Aparicio, professora infantil também oriunda de Oaxaca e sem qualquer experiência anterior como atriz, tampouco havia visto ou sabia o nome de algum dos filmes anteriores do diretor. A sua Cleo pouco diz palavras durante as duas horas do filme. O silêncio pode imperar em boa parte do tempo, mas é inegável que olhares, postura e gestos falam muito. Yalitza acabou não sendo indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática e se ficar de fora das outras premiações da temporada (inclusive do Oscar) isso será uma grande injustiça. Outro detalhe: Yalitza fala várias vezes no dialeto mixtec, característico de sua região.

Roteiro oculto

Cuarón era a única pessoa no set a saber todo o roteiro e a direção que cada personagem tomaria. Os atores só recebiam as suas falas no próprio dia das filmagens, apenas um pouco antes da câmera começar a rodar.  O objetivo era garantir a maior espontaneidade possível de seu elenco, sobretudo quanto às reações ao que se passava em cena. O que se reflete de modo positivo durante todo o longa, sobretudo em alguns dos momentos decisivos da trama. Se você quiser conhecer mais a fundo o roteiro, ele foi disponibilizado por Cuarón, tanto em inglês quanto em espanhol, e pode ser lido aqui.

Nostalgia do cinema

Entre as reminiscências da infância de Cuarón o cinema aparece de maneira clara e cristalina dentro da história. Como válvula de escape para os problemas da vida, alguns de seus personagens vão duas vezes a um dos principais cinemas da Cidade do México. Yalitza é abandonada pelo namorado no meio de uma sessão de A Grande Escapada  (1966). Outra hora, fica bem claro o quanto o filme Sem Rumo no Espaço (1969) fascinou o futuro diretor de Gravidade. O mais legal é perceber o quanto uma ida ao cinema mexia com as pessoas. As instalações monumentais, a entrada glorificante, sempre cheia de pessoas e ambulantes ao redor (vendendo de pipocas a balões), e a ligação direta com a calçada e a grande avenida talvez não passem de meras elocubrações inverossímeis para uma geração que já nasceu mecanizada com a ida a um multiplex insípido incrustado em um shopping center ou mesmo o conforto total do streaming no sofá da sala ou na cama do quarto. Este último detalhe ainda se mostra um completo contrassenso quando vem a reflexão de que Roma é um filme que glorifica a experiência do cinema de rua que quase todo mundo verá sem precisar sair de casa.

Autorreferências

A citação a Gravidade (2013) pode aparecer de modo bem explícito lá pela metade final, mas não é a única autorreferência feita nele por Cuarón. A cena do parto de Cleo é similar à de Filhos da Esperança (2006). Outra coisa comum a Filhos da Esperança e Romaé o uso do mantra “Shantih Shantih Shantih” (“paz, paz, paz”). Além de marcar o retorno do diretor ao idioma e o cinema mexicano após dezoito anos, Roma também tem a ver com E Sua Mãe Também (2001) na hora em que a mãe reúne os filhos em um bar ao ar livre perto da praia para contar a eles que seu pai os abandonou.

Subtrama politizada

Halconazo é um dos mais tristes episódios sociopolíticos mexicanos no Século 20. Ocorreu no dia 10 de junho de 1971, durante as celebrações do feriado de Corpus Christi. Estudantes protagonizaram uma grande manifestação pública pelas ruas da Cidade do México, em protesto contra recentes medidas tomadas pelo presidente Luis Echeverría Álvarez e seus comparsas nos governos nacional e regionais. Cento e vinte manifestantes (número divulgado oficialmente, embora as suspeitas sejam de uma contagem ainda maior) foram cruelmente assassinados neste dia por membros de um exército paramilitar formado por civis exaustivamente treinados com artes marciais e armas de fogo para reprimir os opositores. Aos poucos, o Halconazo vai se desenhando na história de Cuarón. Primeiro quando Cleo retorna a Oaxaca e acaba assistindo um grande treinamento coletivo realizado em um campo de futebol de várzea e que, de certa forma, acaba se esgueirando rumo ao ridículo. Depois, no clímax desta subtrama, envolve-se como testemunha em um chocante caso de disparos à queima-roupa em um líder estudantil que tenta, em vão, salvaguardar sua vida escondendo-se na mesma loja de móveis em que a mãe de sua patroa a leva para escolher um berço para o bebê que carrega na barriga. O nome Halconazo vem de Los Halcones (Os Falcões, em espanhol), o grupo clandestino secretamente treinado secretamente – inclusive com a ajuda do governo dos Estados Unidos – para combater os frequentes protestos civis e estudantil realizados por todo o México naquela época. O uso do Halconazo em Roma serve como o clímax de uma série de denúncias de desigualdades sociais realizada no decorrer da trama.

Cinematografia de primeira

O convite fora feito inicialmente para o compatriota Emmanuel Lubezki, com quem já trabalhara antes em Gravidade e Filhos da Esperança. Diante da impossibilidade do amigo assumir o compromisso em Roma, Cuarón decidiu ele mesmo assinar pela primeira a fotografia de um filme. Não poderia ter feito a estreia em melhor estilo. Rodado em 70mm, Roma é um delírio para os olhos dos cinéfilos. Todo em preto-e-branco e com seu drama familiar espalhado por cenas cotidianas em casa ou nas ruas, começa sugerindo uma bela homenagem ao neorrealismo italiano e seus ícones (Visconti, Pasolini, Rosselini, De Sica). Não por acaso, o título faz uma ligação sináptica com o nome da capital desse país. Mas a fotografia de Roma vai além. Através de lentos e frequentes travellings, a câmera nunca para de os ambientes da história e transformando as locações em personagens tão importantes quanto os de carne e osso. Tanto quanto fixar-se nas ações e nos diálogos vale muito a pena deixar os olhos percorrerem tudo o que está ao redor e é dito apurada e silenciosamente por objetos, móveis, paredes, carros, aviões e figurantes.

Leão de Ouro

Impedido de ser inscrito em Cannes, que só permite filmes concorrentes que possam vir a ser lançados no cinema em um determinado intervalo de tempo posterior ao evento, Roma acabou abocanhando o Leão de Ouro, o prêmio máximo de outro importante festival europeu de cinema. Ao comentar a vitória em Veneza, ocorrida no mesmo dia de aniversário de Libo, Alfonso Cuarón disparou, em tom de brincadeira: “é seu presente e eu te cantaria ‘Parabéns Pra Você’, mas não vou ofender os ouvidos de toda esta gente”. No ano passado, o vencedor de Roma foi A Forma da Água, do também mexicano Guillermo Del Toro e que meses depois levou o Oscar de melhor filme. Aliás, a indicação de Roma aos Academy Awards já está sendo bastante esperada e é considerada a mais alta aposta já feita pelo serviço mundial de streaming, nos últimos anos “banido” da categoria principal pela rixa com os principais estúdios que ainda apostam nas bilheterias tradicionais.

Music

L7 – ao vivo

Duas aulas de feminismo e resistência, performances juvenis arrebatadoras mais aquela certeza do eterno caráter transgressor do rock alternativo

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Suzi, Jennifer e Donita em Porto Alegre

Texto por Fernando Halal (Porto Alegre) e Abonico R. Smith (Curitiba)

Fotos de Fernando Halal/FHF (Porto Alegre) e Priscila Oliveira/CWB Live (Curitiba)

Um quarto de século após a histórica apresentação no Hollywood Rock, onde ofuscaram até mesmo um tal de Nirvana, as musas do L7 voltaram ao Brasil para uma disputada turnê que percorreu cinco capitais. Mas este é um cenário bem diferente daquele encontrado em 1993. O grunge perdeu vários de seus heróis para as drogas e a depressão. Chris Cornell, Layne Staley, Scott Weiland, todos deixaram uma lacuna difícil de preencher. Kurt Cobain virou mártir absoluto. E o rock, como todos sabemos, jamais teve um movimento de renovação tão forte quanto aquele.

E quanto ao L7 de hoje? Haveria ainda espaço para as notórias excentricidades do quarteto, como jogar absorventes na plateia ou mostrar a bunda para a TV em horário nobre, como na última vez delas por aqui?  Obviamente não. Até porque, no mundo pós-grunge, o politicamente incorreto é uma lembrança remota. Mas não se engane: em Porto Alegre, a noite de 4 de dezembro de 2018 teve peso e sujeira transbordantes. As atrações de abertura do Morrostock Vênus em Fúria seguiram o clima e também se destacaram pela representatividade: teve o dínamo punk Replicantes (da irrequieta vocalista Julia Barth) e, antes deles, Bloody Mary Una Chica Band, o projeto garage noise da multi-instrumentista Marianne Crestai (ex-Pullovers). Em suma, distorção girl power foi o que não faltou.

As cortinas reabriram para a atração principal. No palco, as pioneiras do movimento riot grrrl continuam velozes, lisas, empilhando riff em cima de riff – elas só estão mais sorridentes, e acredite, isso é muito bom. O grupo voltou em 2015 na sua formação mais clássica, após o hiato de quase uma década e meia. Donita Sparks (voz/guitarra), Suzi Gardner (guitarra), Jennifer Finch (voz/baixo) e Dee Plakas (bateria) seguem entregando um show vigoroso e que não evidencia qualquer marca do tempo. O repertório passeia por todas as fases, com destaque para os álbuns Bricks Are Heavy (1992) e Smell The Magic (1990), sempre com uma energia absurda. A chance de testemunhar ao vivo petardos como “Fast And Frightening”, “Pretend We’re Dead” e “Everglade” era o sonho molhado de qualquer jovem espectador da MTV dos anos 1990, e o L7 não decepcionou. Ainda houve espaço para a clássica “Shitlist”, que figurou na trilha sonora de Assassinos por Natureza (1994), além de faixas mais recentes, como “Come Back To Bitch” e “Dispatch From Mar-a-Lago”.

Definitivamente, a idade não chegou para a banda; não é todo dia que se pode testemunhar quatro mulheres na faixa dos 55 anos batendo cabeça, ajoelhando até o chão e fazendo air guitar sem soar datado ou ridículo. Sorte que o L7 nunca foi uma banda qualquer. Muito mais que um show de rock feito para tiazinhas pagarem suas contas, o que se viu foi uma celebração à vida e ao barulho, ao poder feminino, a envelhecer com desprendimento e amor próprio. Não é pouco, mesmo. (FH)

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Donita e Jennifer em Curitiba

O neoliberalismo é uma doutrina opressora, tanto social quanto economicamente. Vamos começar a sentir isso na pele logo a partir da virada do ano. Os britânicos sabem muito bem o que foi o regime mão-de-ferro da primeira ministra Margaret Thatcher entre 1979 e 1990. Já os americanos experimentaram uma versão um pouco menos severa durante os oito anos (1981-1989) em que o republicano Ronald Reagan esteve à frente da Casa Branca.

E o que isso tem a ver com o rock’n’roll? Simplesmente, muito. Afinal, não fosse a apatia geral da juventude do país naquela época talvez não houvesse surgido em torno dos principais centros universitários do país uma geração inconformada que uniu música e atitude e revolucionou o rock daquela época. Esta turma consolidou, com muito punk e hardcore na veia e uma boa dose de um heavy metal mais desacelerado, o que viria a ser chamado posteriormente pela indústria de “alternativo” e mais tarde ficaria conhecido no Brasil sob a alcunha geral de indie.

E quais eram as melhores armas para se enfrentar os tempos bicudos de opressão socioeconômica somada a pessimismo, depressão e desesperança? Um caldeirão de ativismo político repleto de elementos como cinismo, deboche, tosqueira, improvisos, quebra de paradigmas e sobretudo o eterno desafio ao estabilishment. Foi nos porões, muquifos e vans pela estrada afora por todo o país que aquela geração gerou uma série de ícones underground. Uns tornaram-se muito populares, mesmo não sabendo trabalhar direito com os percalços trazidos pela fama, como foi o caso de Nirvana e REM. Outros chegaram a flertar com o sucesso de massa por um curto intervalo de tempo. Vários outros construíram uma carreira consolidada e respeitada e até hoje, ainda na ativa ou não, conquistaram o direito definitivo de morar no coração de uma devotada legião de fãs.

O L7 se equilibra nestas duas últimas categorias. De volta aos palcos e estúdios após um longo hiato que durou de 2001 a 2015, o quarteto prepara aos poucos um novo disco – duas canções já foram apresentadas, “I Came Back To Bitch” e “Dispatch From Mar-a-Lago”, a última um tapa na cara do presidente Donald Trump tal qual faz o Batman no Robin naquele famoso meme. Enquanto isso, Donita Sparks (guitarra e voz), Suzi Gardner (guitarra e voz), Jennifer Finch (baixo e voz) e Dee Plakas (bateria e vocais) continuam espanando a poeira circulando pelos palcos alternativos dos EUA e do mundo. No final de 2018, deram uma circulada por Chile e Brasil, fazendo seis shows em sete dias, no melhor esquema “banda em início de carreira”, apenas trocando a van por aviões em virtude das grandes distâncias do lado de baixo do Equador.

Na noite de 5 de dezembro a banda passou por Curitiba, como headliner da segunda edição do festival Coisarada, realizado no Hermes Bar. E por lá mostraram que continuam com seu teen spirit imutável. O que poderia significar percalço – como gripe, doença e o peso da idade (que hoje varia dos 52 aos 58 anos) – foi tirado de letra durante quase uma hora e meia de show, com muita garra, vontade e alma rock’n’roll. A dupla Sparks-Finch, então, é um caso à parte em sua performance: não faltaram as tradicionais balançadas de cabeça, poses para fotógrafos e tiradas bem-humoradas ao microfone.

O repertório ficou dividido entre os quatro clássicos álbuns lançados entre 1990 e 1997: Smell The Magic, Hungry For Stink, The Beauty Process: Triple Platinum e Bricks Are Heavy, com ligeira tendência preferencial para o último, de onde saíram sete faixas para o set list. A sonoridade, claro, torna-se bem mais crua ao vivo. Sem muitas sutilezas, tal como um monolítico bloco de riff se pequenos solos em bases que trafega entre o punk e o heavy e a adição de melodias pegajosas mais versos curtos, diretos e sem firulas líricas. E, claro, com os tradicionais erros seguidos da parada da banda inteira para começar a mesma música de novo. A beleza da imperfeição.

O começo foi arrasador, com a ousadia de engatilhar quatro clássicos logo de cara (“Deathwish”, “Andres”, “Everglade” e “Monster”). Do meio para o final foi mais um show para fãs de carteirinha, aquelas pessoas que cantam as letras todas, que esperavam ouvir também as duas novidades na noite, que se encatam com o resgate de pérolas “lados B” dos discos. Para o bis foram reservados um cover de heróis delas (neste caso, “American Society”, do obscuro grupo punk de uma early eighties Los Angeles Eddie & The Subtitles) mais o hit “Pretend We’re Dead” (até hoje presente nos playlists de rádios brasileiras de perfil rock) e a cult “Fast And Frightening” (o verso “Got so much clit she don’t need no balls” será sempre um irresistível slogan da banda).

Terminado o show do L7 ficou a feliz sensação de que, mais uma vez, esta mesma geração põe a cara a tapas para mostrar o quão nocivo, transgressor e perigoso o rock ainda pode ser, sobretudo diante de pretensões autoritárias e opressivas de se governar o mundo e controlar a vida das outras pessoas. Sorte que bandas como estas fizeram muitos discípulos por aí. Em Curitiba, as duas atrações de abertura provaram isso: o Shorts, com seu misto de blues, noise e psicodelia; e o ruído/mm, com suas várias ambientações instrumentais que muitos chamam de post-rock. Garanto que, ao sair de um Hermes Bar lotado e plenamente satisfeito com a trinca da noite, ninguém pensou que o rock está morto ou ainda precisa ser salvo. Pelo contrário, aliás. Quem precisa ser salvo são os outros. Pessoas e gêneros musicais. (ARS)

Set list Porto Alegre e Curitiba: “Deathwish”, “Andres”, “Everglade”, “Monster”,  “Scrap”, “Fuel My Fire”. “One More Thing”, “Off The Wagon”, “I Need”, “Slide”, “Crackpot Baby”, “Must Have More”, “Drama”, “I Came Back To Bitch”, “Shove”, “Freak Magnet”, “(Right On) Thru”, “Dispatch From Mar-a-Lago” e “Shitlist”. Bis: “American Society”, “Pretend We’re Dead” e “Fast And Frightening”.