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A Luz no Fim do Túnel

Casey Affleck retorna à direção e protagoniza história que serve de metáfora para o instinto diário de sobrevivência

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

O fim do mundo é um tema bastante explorado pela sétima arte. Há os filmes em que aliens dominam o planeta, em que a humanidade precisa lutar contra zumbis para sobreviver e aqueles em que uma grande parcela da população é dizimada por vírus ou superbactérias. E se nosso cotidiano já é suficientemente catastrófico, imagine então sobreviver a uma praga que elimina quase todas as mulheres da face da Terra e ter que criar sozinho a filha no meio do mato, desconfiando de tudo e de todos? Embora essa seja a premissa de A Luz no Fim do Túnel (Light Of My Life, EUA, 2019 – Imagem Filmes) e suas claras referências a um mundo pós-apocalíptico de The Walking Dead e Filhos da Esperança, o longa-metragem estrelado, dirigido e escrito por Casey Affleck resume-se a uma metáfora sobre o instinto diário de sobrevivência.

A Luz no Fim do Túnel é primeiro trabalho de Affleck após ter recebido o Oscar de melhor ator por Manchester à Beira-Mar, período em que fora acusado de assédio sexual. E como no documentário-farsa Eu Ainda Estou Aqui, de 2010, estrelado pelo então cunhado Joaquin Phoenix, Affleck mostra mais uma vez sua faceta de faz-tudo aos moldes de Woody Allen. O resultado é uma atuação marcada pelo seu conhecido estilo introvertido, mas capaz de causar empatia e conexão imediatas com o espectador.

O assunto clichê é simplesmente um pano de fundo, um cenário, para um mergulho filosófico em questões sobre religião, ética, em como manter-se fiel às regras morais diante de uma sociedade que se desintegrou e precisa renascer. Aqui surge outro ponto central do drama: a importância do feminino para a perpetuidade da raça humana.

Quem desconhece que o filme seja uma criação de Affleck já passa a desconfiar de sua participação no roteiro logo na primeira cena, em que “Dad” (“Pai”, como é chamado durante todo o filme) conta uma parábola sobre a história bíblica da Arca de Noé para a filha Rag, interpretada com bravura e ternura por Anna Pniowsky. A história se arrasta por longos minutos, mas a doçura com que é encenada capta profundamente a atenção do espectador. Só depois que a cena termina e ocorre a mudança de plano, dá-se conta que pai e filha estão deitados no interior de uma barraca de acampamento e que esta é a residência deles pós fim do mundo. Pelas próximas duas horas (1h59, mais precisamente), a relação de afeto e confiança entre os dois será o mote de enredo nada original, que consegue abordar o medo do porvir nesta alegoria pós-apocalíptica de uma forma melancólica e terna ao mesmo tempo.

Affleck não revela logo na introdução porque os protagonistas estão vivendo nesse isolamento. Ele vai dando pistas sobre qual rumo a narrativa tomará, como na conversa em que pai explica ética e moral para a filha e como esses valores se invertem diante da necessidade de lutar pela própria sobrevivência e, sobretudo, para defender Rag, disfarçada o tempo todo de menino. O motivo pelo qual ela precisa esconder sua identidade também só é descoberto posteriormente pelo espectador: um vírus foi responsável por dizimar boa parte das mulheres do mundo. Por isso, a garota usa cabelos curtos e roupas nada femininas, segredo que, previsivelmente, será descoberto no decorrer da trama.

Durante todo o filme, Rag e seu pai encaram uma vida instável, montando e desmontando a barraca no meio do mato, entrando em casas abandonadas buscado um pouco de conforto e para fugir de desconhecidos, visitando cidades repletas de homens ameaçadores. O ritmo da narrativa é lento e durante a primeira hora prioriza os diálogos entre a figura paterna que busca dosar coragem e paciência diante de uma garota curiosa e ao mesmo tempo amorosa e cúmplice.

Depois que o espectador percebe a realidade enfrentada pelos protagonistas, o suspense vai se intensificando até a cena final com o semblante arrebatador de Rag. Este é o símbolo de uma passagem precoce para a fase adulta e o poder da mulher em dar continuidade à existência humana.

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Atentado ao Hotel Taj Mahal

Ataque terrorista ocorrido em 2008 em hotel de luxo na Índia chega aos cinemas brasileiros logo após eventos semelhantes em Sri Lanka

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Quase 62 horas ou pouco mais de 2.350 quilômetros de distância separam o Hotel Shangri-La, em Colombo, no Sri Lanka, do Taj Mahal Palace Hotel, em Mumbai, na Índia. Os dois hotéis de luxo cinco estrelas em dois países de extrema desigualdade social foram alvo de ataques terroristas. No último domingo de Páscoa, data que simboliza a ressurreição de Jesus Cristo, foram 253 mortos no Sri Lanka. Os terroristas islâmicos explodiram igrejas – templos do catolicismo – e hotéis – templos de turistas endinheirados em várias cidades do país.

Onze anos separam este domingo de Páscoa daquele 26 de novembro, um dia qualquer na capital econômica da Índia, terra do hinduísmo (que divide a sociedade em castas), do jainismo, do budismo, do sikhismo e onde a população muçulmana cresce a cada ano. País onde a vaca é sagrada e a mulher ainda é inferiorizada e constantemente vítima de violência sexual.

Em 2008, assim como no Sri Lanka (que tem o budismo como religião predominante), uma série de ataques terroristas matou mais de 160 pessoas. Esses quatro dias de pânico são recontados no primeiro longa do diretor Anthony Maras, Ataque ao Hotel Taj Mahal (Hotel Mumbai, Austrália/Índia/EUA, 2018 – Imagem Filmes). A produção tem o ator britânico Dev Patel (estrela de Quem Quer Ser um Milionário, longa rodado em Mumbai e que estreou no cinema no ano do atentado) como protagonista e produtor executivo. Retrata o “11 de setembro da Índia” e entrou em cartaz no Brasil na última quinta-feira, um ano após o lançamento de outro filme sobre o tema, One Less God, também australiano.

O longa de Maras (premiado diretor dos curtas Azadi, de 2005, e The Palace, 2011, sobre o conflito Chipre-Turquia) foi lançado no festival de cinema de Adelaide, no final de março, em uma sessão emocionante que reuniu sobreviventes do atentado, entre eles o chef do Taj Mahal, Hermant Oberoi (interpretado pelo veterano ator indiano Anupam Kher), que ajudou a salvar centenas de hóspedes. Em entrevista à NBC News, Oberoi disse que a experiência de reviver o ataque foi visceral, sobretudo nas primeiras cenas de tiroteio.

E essa era a intenção de Maras: trazer a maior carga de verossimilhança possível e retratar o heroísmo de pessoas comuns diante do terror. Pessoas que, sem poderes sobrenaturais, escolheram arriscar a vida para salvar desconhecidos diante do abismo. Foram humanas, demasiadamente humanas.

É nítida a intenção do diretor australiano em chocar, expor a realidade, seja com o estampido dos tiros – nada artístico, sem uso de qualquer música clássica como em Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola – ou em cenas em que as personagens precisam escolher entre permanecer no hotel para salvar outras vidas ou tentar escapar para reencontrar a família.

As cenas de tiroteio, aliás, parecem intermináveis. São tantos tiros de AK-47 que o espectador corre o risco de deixar o cinema com náusea e dores de cabeça. A sensação, porém, não chega aos pés de quem sofreu na pele uma situação limite de estar em meio a um massacre ao vivo.

O apocalipse de Atentado ao Hotel Taj Mahal já fica evidente no início com os contrastes de um país onde milhões de pessoas são indigentes; onde agricultores cometem suicídio todos os anos, e 40% das crianças com menos de cinco anos sofrem de desnutrição crônica.

Os dez terroristas paquistaneses chegam à cidade de barco, com suas mochilas nas costas e sempre seguindo instruções do líder que faz uma massiva lavagem cerebral. “You feel strong. There is no fear in your heart. You are like sons to me. I am with you. God is with you. Paradise awaits” (Você se sente forte. Não há medo em seu coração. Vocês são como filhos para mim. Estou com vocês. Deus está com vocês. O Paraíso espera). É como o líder terrorista profetizou: o mundo inteiro está vendo. E com as mídias sociais, o alcance das mensagens de intolerância religiosa fica cada vez mais potente.

O grupo se separa a fim de concretizar a sequência de ataques. Corta para a personagem de Patel: Arjun está num banheiro público e se arruma na frente do espelho. Sua filha, ainda bebê, está no chão sujo, chorando. Ele a pega no colo e segue para o trabalho da mulher porque não tem com quem deixar a criança. A esposa está grávida. Com o turbante sikh (que fortalece nosso deus interior), apressa-se para não chegar atrasado ao imponente hotel – uma construção de arquitetura gótica vitoriana que homenageia a umas das sete maravilhas do mundo. Lá ele trabalha como garçom. No caminho, perde um dos sapatos e, por pouco, não perde o emprego. Oberoi, seu chefe, empresta-lhe um par e Arjun precisa atender os clientes mancando.

O Taj Mahal é um paraíso. Ali o hóspede – estrangeiro, rico, fino, vip, famoso – é tratado como um deus. Toma banho na temperatura perfeita. Enquanto isso, em nome de Alá ou Allah (a palavra árabe que designa Deus), os terroristas dão cabo ao primeiro ataque, na estação de metrô, onde calcula-se que cem pessoas tenham morrido. O tiroteio é noticiado pela televisão mas os hóspedes que chegam ao Taj ainda permanecem alheios ao terror, jantando nos restaurantes de luxo do hotel. Como o casal formado pela indiana Zahra (Nazanin Boniadi) e o americano David (Armie Hammer), que viaja com o filho recém-nascido e a babá dele (Tilda Cobham-Hervey).

Depois do ataque a um restaurante na cidade, as vítimas sobreviventes correm desesperadas para buscar refúgio no hotel e os terroristas se infiltram entre elas. O luxo se transforma em inferno. O sangue, o suspense e o pânico se instalam.

Forças militares de Nova Delhi demoram horas para chegar e o staff do hotel e uma equipe de policiais locais tentam salvar os hóspedes como heróis. Os dedos massacrados pelo sapato apertado de Arjun não importam mais. A dor desaparece diante do caos, de um pesadelo real, da luta pela sobrevivência.  Aos tiros somam-se o choro do recém-nascido e a experiência de assistir ao filme torna-se torturante.

Maras tenta ainda humanizar os terroristas, como na comovente cena em que um dos atiradores telefona para a família perguntando se o dinheiro já havia sido enviado aos pais. O vilão é o herói da família. O terrorista, capaz de amar e matar o próximo em nome de Alá, chora diante de suas vítimas amordaçadas.

Como toda história baseada em fatos reais, o desfecho desse filme já é esperado, é conhecido. E, se depender da escalada do terror que só cresce no mundo, muitos outros finais como esse serão retratados no cinema. Quem sabe o próximo título do filme de Maras será Atentado ao Hotel Shangri-La.

Saiba mais

Documentário

Este atentado na Índia já rendeu algumas produções cinematográficas. Em 2009, foi lançado um documentário sobre a infiltrada dos jihadistas. “A maioria dos ataques terroristas duram segundos. Mas o ataque em Mumbai foi diferente”, assim começa a narração do documentário Surviving Mumbai, sobre o ataque. O país é o vice-campeão mundial de taxa de extrema pobreza (perdeu para a Nigéria em 2018, segundo o relatório da Brookings Institution) e está entre aqueles com maior número de ataques e vítimas de terrorismo em todo o mundo, depois de Iraque e Paquistão. O documentário foi lançado em 2009 e traz relatos de sobreviventes, como Oberoi.

Reconstrução

Vidas não podem ser “reconstruídas”. Espaços físicos, sim. Dois anos após o atentado, o jornal New York Times publicou matéria sobre a restauração de preciosas obras de arte indiana que o Taj Mahal abrigava em suas dependências, como no imenso lobby. O trabalho durou 21 meses. Quase 300 peças, entre elas quadros de importantes pintores indianos como Vasudeo S. Gaitonde e Jehangir Sabala, ficaram cobertas por fuligem e fungo. Para ler mais sobre isso clique aqui.

Conflito sem fim

Índia e Paquistão são hoje duas potências nucleares e disputam a região da Caxemira antes mesmo de se tornarem independentes do Reino Unido, em 1947. Na época, foi traçado um plano territorial apresentado pelo parlamento britânico e o governante local (isto é, o marajá) da Caxemira decidiu se anexar à Índia, dando início ao conflito interminável. A rivalidade é intensificada por conta da religião. Na Índia, o hinduísmo ainda predomina. Já os paquistaneses são muçulmanos.

Music

Arquivo MB: E.S.S. (2002)

Texto publicado nos primeiros meses deste site celebrava o futuro da banda curitibana de digital rock, comandada por André Sakr

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Reprodução Facebook (obs: se foi você quem fez este clique, por favor, entre em contato para que possamos dar o devido crédito)

Não faz muito tempo assim. Década e meia atrás, na Inglaterra, o amor tomava conta de todos os dias do verão, guitarras andavam de braços dados com baterias eletrônicas e sintetizadores. Todo mundo só pensava em se divertir. Descendo o hemisfério e cruzando o Oceano Atlântico, porém, o panorama estava longe de ser igual. Música de pista era tudo taxada de dance music (ou – pior ainda – algo 100% comercialóide e por isso mesmo totalmente condenável e indefensável), sair para se acabar de dançar até o sol raiar e relatar publicamente a simpatia pelas músicas de Depeche Mode e New Order para todos os defensores do “rock-testosterona” significava o mesmo que assumir uma “orientação sexual heterodoxa”, mesmo que você não a tivesse.
Pois patrulhamento e preconceito acabaram. Com a (r)evolução tecnológica tomando o mundo a passos largos, a música eletrônica não só transformou-se em algo completamente usual como também oficializou de vez seu casamento com as guitarras – raivosas ou sentimentais, dedilhadas ou à base de riffs, reprocessadas ou orgânicas. E em Curitiba uma turma vem se especializando em promover cada vez mais esta espécie de ex-bicho papão, o digital rock.
Igor Ribeiro (teclados, guitarras e vocais; também integrante dos grupos/projetos Tods, OAEOZ e Iris), André Sakr (bateria, teclados, programações e vocais; também Iris), Fernando Lobo (baixo e vocais; também Tods) e Alessandro Oliveira (guitarra e vocais – nota posterior do autor: o mesmo que, futuramente, tocaria no Copacabana Club e no Audac) formam o E.S.S., quarteto que está com seu primeiro álbum quase finalizado. Enquanto o disco não fica pronto, o grupo se divide entre a produção de algumas festas bacanas (que já contaram com apresentações de bandas como Bad Folks, Mosha, Grenade, Suite Number Five e o hoje “importado” Wry) e viagens para o exterior (mais precisamente Igor e André, que passaram um tempo em Londres ao lado dos outros companheiros do Tods). Há ainda um EP chamado Rossfield rolando pelas mãos mais antenadas da cidade.
Rossfield é uma grande viagem para a cidadezinha que existe no interior de cada um”, explica vagamente Sakr, parafraseando uma antiga entrevista dada pelo grupo a uma emissora de rádio do litoral de Santa Catarina. O ponto de partida começa nos cem segundos de “Introducting Myself”, gravada na véspera do embarque de Igor e Fernando para Londres, no início deste ano. A faixa de abertura é um irresistível big beat construído a partir de biblioteca própria de samples. Enquanto o loop com o batidão funky rola solto, uma voz grave, reverberante e alterada pelo pitch serve de mestre-de-cerimônias para a própria banda. Entram alguns efeitos sobrepostos, uma linha melódica cantarolada e, enfim, palmas quando é anunciado o grupo.
Chega então, o “verdadeiro” E.S.S. em “Nine”, épico de quase nove minutos aberto pela confluência de graves teclados kraftwerkianos, batida com variação entre o housee o glammais e guitarras com linhas e riffs calcados na herança do blues e do rockabilly. A sonoridade à la Depeche Mode vai aumentando à medida que entra a primeira voz. “Things you do don’t make me change my mind/ Things you do don’t make me change my way of thinking about you”, protesta Igor. Depois entram camadas de órgãos e outros teclados e berros sufocados de Sakr, para os versos serem repetidos algumas vezes, agora com guitarras mais fortes (com muito delay) e em primeiro plano. Gravada ao vivo e em apenas dois canais, a música é um mistério até mesmo para seus integrantes. “Acho que é sobre estar puto com alguém”, arrisca o maior responsável pelas programações eletrônicas do grupo.
No mesmo dia e esquema de “Nine” o quarteto gravou “Mr Alexander”. Esta é uma faixa dividida em duas partes distintas. A primeira puxa um pouco mais para o lado psicodélico, com profusão de ecos, órgãozinho e batida funkeada. Lembra um pouco da veia rocker de Manchester do começo dos anos 1990 (leia-se a trinca Stone Roses, Inspiral Carpets, Happy Mondays) e abusa dos vocais de Alessandro invertidos no software usado para a edição. Enquanto isso, os versos retratam uma típica noite adolescente em Curitiba – mais precisamente ao encontrar os amigos em um dos mais famosos pontos indie da capital paranaense, o James Bar. “Talvez até esteja cantando algo autobiográfico”, revela Sakr. Alessandro então assume sua porção guitar hero entre solos e novos riffs e lá pela metade o arranjo começa a acelerar de maneira absurda, bombardeando os ouvidos por quase quatro minutos de pura viagem.
“Wake up/Look Around”, comanda uma misteriosa voz no terceiro épico do disco. House de dez minutos e a primeira música a ser composta pela banda, “Rossfield” está cheia de mensagens subliminares (pelo menos é o que garante André, que não quis entrar em maiores detalhes). Quem não quiser ficar de ouvido ligando procurando pistas feito Mulder e Scully, porém, pode se ligar no riff do baixo distorcido de Fernando – seguindo a escola do Primal Scream. E depois de um breve interlúdio ambient, volta a detonação de ritmo e barulho, cheia de efeitos, guitarras e gritos por Rossfield.
A julgar pela prévia, o E.S.S. (segundo André, “a sigla veio da expressão Experimental Sex Sound, mas hoje não significa nada em especial”) promete dar muito o que falar em 2003. Apostas estão feitas.

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André Sakr faleceu em São Paulo, neste último domingo, 3 de março de 2019.