Movies

The Boys In The Band

Reunião de amigos gays expõe de forma intensa e dramática barreiras de meio século atrás que ainda permanecem difíceis de serem quebradas

Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Netflix/Divulgação

Desde a rebelião de Stonewall que o movimento LGBTQIA+ vem ganhando cada vez mais visibilidade nos espaços de discussão. Mas, apesar das várias conquistas que o grupo teve ao longo de todos esses anos, será que as coisas realmente mudaram? A segunda adaptação cinematográfica homônima da peça teatral escrita por Mart Crowley em 1968, ainda tem muito a dizer sobre as vicissitudes dessa comunidade nos dias atuais. Produzida por Ryan Murphy (das séries Hollywood e Ratched), a nova versão de The Boys In The Band (EUA, 2020 – Netflix) é uma obra relevante e provocativamente anacrônica. Pouco mais de meio século depois de ter sido criada, a trama segue ousada por trazer de forma tão crua as particularidades de uma comunidade que teve – e ainda tem – sua voz silenciada. 

O enredo do filme dirigido por Joe Mantello é simples: em uma noite de 1968, um grupo de amigos gays se reúne para comemorar o aniversário de um deles. O que era para ser apenas mais uma festa comum acaba, na verdade, aflorando mágoas e ressentimentos escondidos sob uma fina camada de falsa felicidade. Essa reunião aparentemente despretensiosa expõe temas delicados como amizade, homofobia e preconceito de forma fluida e áspera ao mesmo tempo.

O longa se passa em um local apenas, o apartamento novaiorquino de Michael (Jim Parsons, o Sheldon da série The Big Bang Theory). Ao contrário do que muitos podem pensar, em momento algum a história se torna monótona ou cansativa. Isso se dá graças às rápidas respostas e diálogos afiados preservados do roteiro de Crowley. Os longos papos sobre autoaceitação e discriminação que permeiam o apartamento são inesperadamente potentes. 

Enquanto os homens vão esmiuçando os problemas latentes que eles negam existir entre si, a tensão que se arquiteta no ambiente chega a ser sufocante. À medida que os espectadores – assim como os personagens – sentem que não existe para onde ir, a inquietação se intensifica. Um ótimo recurso para criar esse clima claustrofóbico –  que passa quase despercebido – é o confinamento do grupo dentro da pequena sala do apartamento, uma vez que começa a chover na cidade. 

Aos poucos, o público descobre que Michael é um homem inquieto, que carrega um desejo quase extremo de agradar as pessoas e nunca saiu do armário completamente. Ele, com a ajuda do ex-namorado Donald (Matt Bomer), organiza uma festa para o sarcástico aniversariante Harold (Zachary Quinto, o Spock atual da franquia cinematográfica Star Trek), com quem mantém uma relação complicada. Entre os convidados estão Larry (Andrew Rannells), que mesmo não acreditando no conceito de monogamia, mora junto com Hank (Tuc Watkins), que acabou de deixar a família para ficar com o amado. Além deles, estão presentes o performático e animado Emory (Robin de Jésus), e Bernard (Michael Benjamin Washington), o mais tímido do grupo.

Tudo fica ainda mais angustiante quando a chegada de Alan (Brian Hutchison), um velho amigo da faculdade de Michael, revela que a cumplicidade entre os amigos é mais frágil do que parece. Resultado das personalidades dissonantes, os embates, por vezes engraçados, chegam ao ápice quando Michael é confrontado com a homofobia (não tão) velada de Alan, fazendo com que sua raiva há muito reprimida emerja. Nos absurdos, na petulância e na dor que preenchem a performance de Parsons é que reside o momento mais dramático do filme.

As inconstâncias, desejos, medos e alegrias dos personagens permeiam as duas horas do longa sem que pareça um “espetáculo exótico” para ser admirado. Pelo contrário. Sob esse novo The Boys In The Band paira um olhar atento e próximo que denuncia que as barreiras que deveriam ter sido quebradas há muito tempo seguem firmemente de pé.

Movies

Alice Júnior

Longa-metragem curitibano acerta em cheio ao tratar sobre tolerância e diversidade sexual para o público-alvo de jovens e adolescentes

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Divulgação

É lamentável que em pleno 2020 os termos sexismo, discriminação de gênero e transfobia ainda estejam tão em voga, mesmo depois da aparição de Roberta Close e Rogéria décadas atrás nos principais veículos de imprensa nacionais. Se por um lado o salto evolucionário tecnológico alcança Marte, o ranço conservador persiste no núcleo de muitas famílias e governos. Por isso um filme como Alice Júnior (Brasil, 2020) – que estreou em cinemas drive-in e agora chega à Neftlix, depois de também ficar disponível no YouTube e em outros serviços de VOD e streaming – é tão necessário. Ele abre a mente dos caretas e afaga o coração dos liberais, dando aquele gostinho de quero mais.

A premiada produção que brotou da “República de Curitiba” é dirigida pelo paranaense Gil Baroni e tem roteiro assinado por Luiz Bertazzo e Adriel Nizer Silva. No bate-papo com os jornalistas do coletivo Jaccu (Jornalistas Autônomos Culturais de Curitiba), veiculado no YouTube do Canal Pausa Dramática (assista ao episódio e escute o podcast nos links abaixo), Bertazzo – que também é ator e DJ – revelou que teve o insight de rodar um filme com a temática trans durante uma festa. O roteirista compartilhou sua ideia a Baroni, que prontamente disse querer dirigir a história. E assim surgia Alice Júnior, nome da protagonista interpretada pela recifense Anne Celestino Mota.

O próximo passo, então, seria justamente encontrar uma atriz trans que se enquadrasse na proposta para conferir veracidade à trama sem que soasse caricata como muitos Crôs por aí. Com o apoio da mãe, Anne, que já atuava como YouTube, soube do teste de elenco e… #partiuCuritiba. Após ser sabatinada por Baroni e Bertazzo, a jovem foi escolhida para o papel e, de quebra, fazer história no cinema brasileiro. Por conta disso, o roteiro sofreu uma série de intervenções, incorporando experiências vividas e observadas por ela. 

Ao tratar um tema sério de um jeito leve, o longa-metragem conquistou a plateia de importantes festivais (como Berlim) e Anne levou o candango em Brasília. Uma emoção semelhante àquela vivenciada pelo ator Silvero Pereira, o cangaceiro queer Lunga de Bacurau, que vem abocanhando prêmios e desfilou pelo tapete vermelho de Cannes montado como o alterego Gisele Almodóvar.

Assim como Lunga, Alice não vive no País das Maravilhas. Pelo menos não é pobre e tem o apoio e afeto do pai, fato que não ocorre com muitas jovens trans. Na história, o viúvo francês Jean Genet (Emmanuel Rosset) é bioquímico e foi contratado por uma indústria de perfumes para inventar uma nova fragrância. O único porém é que a tal fragrância é encontrada numa longínqua e conservadora Araucárias do Sul (esta seria um alterego de Curitiba?) e Alice precisa acompanhar temporariamente o pai na nova empreitada. Aqui ainda fica evidente a ironia implícita no roteiro que alude a símbolos tipicamente curitibanos: Jean é francês, assim como vários conterrâneos seus que vieram trabalhar numa montadora de veículos na região metropolitana da capital paranaense, onde também foi erguida uma famosa fábrica de perfumes. 

Em Recife, Alice já havia batalhado para conquistar amizades mais um crush em quem estava prestes a dar seu primeiro beijo, além de ter saído vitoriosa num reality show e desfilado para um estilista famoso. No Sul, a garota precisa enfrentar novamente tortos olhares de preconceito, risadas maliciosas e muito bullying para conquistar seu espaço, assim como acontece com dezenas de adolescentes como ela. Contudo, em vez de se vitimizar e ficar chorando pelos cantos, a protagonista encara como um rolo compressor o período de adaptação à nova escola, onde passa a desfilar com o queixo erguido e ganhar, pouco a pouco, a simpatia de todos. No fim das contas, a garota trans empoderada (que é o termo da moda, aliás!) torna-se um exemplo de autoestima não só para o universo LGBTQ+ mas para todos que já sofreram algum tipo de discriminação, independentemente de gênero ou orientação sexual, origem geográfica e classe socioeconômica.

Como Anne já atuava como vlogueira, houve o prerrequisito da aproximação do olhar do diretor ao mundo digital, o que acaba deixando tudo mais atraente para o público-alvo de produtos populares como Malhação. Indispensável ainda é a trilha sonora deste filme teen. O fato de Bertozzi ser DJ colaborou bastante para a escolha do repertório, que traz nomes não muito costumeiros em soundtracks de obras nacionais, como Karina Buhr, Barbara Eugênia, a banda Verónica Decide Morrer e a cantora curitibana Surya Amitrano. No filme, aliás, Surya interpreta uma das novas melhores amigas de Alice. E  também soma-se ao elenco da história Katia Horn, da tradicional família curitibana de artistas de mesmo sobrenome, fazendo o papel de uma divertida mãe bicho-grilo.

Agora é esperar que Alice Júnior e toda a sua diversidade nos mostre que existe esperança de um mundo mais tolerante no fim do arco-íris. Enquanto isso fica a torcida de que a gente, de alguma maneira, já esteja bem perto de onde ele termina.

Movies

Abe

Longa com diretor de Quebrando o Tabu e ator de Stranger Things mostra o poder de unir culturas e apaziguar conflitos pela gastronomia

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Downtown/Divulgação

Família é tudo igual, só muda de endereço, de país, de religião. Quantas ceias de Natal ou festas de aniversário já não terminaram em desavença regada a lágrimas de sour cream? Uma bela refeição temperada por temas como política e religião só pode se transformar numa terrível indigestão. Por isso, Abe (EUA/Brasil, 2019 – Downtown), longa dirigido por Fernando Grostein de Andrade (também conhecido como o irmão postiço de Luciano Huck e produtor do documentário Coração Vagabundo, sobre Caetano Veloso, e da série Quebrando o Tabu), usa o fascínio de um garoto de 12 anos pela culinária como gatilho para discutir antissemitismo, preconceito, tolerância e educação dos filhos enquanto enaltece o poder gastronômico de unir culturas e apaziguar conflitos. 

O longa foi lançado no Festival de Sundance, no ano passado, e, por causa pandemia de 2020, estreou em abril nos Estados Unidos, diretamente nas plataformas de vídeo on demand – no Brasil, chegou a ser exibido no cinema durante a Mostra de SP. Nele, Abe é interpretado pelo simpático Noah Schnapp, o Will da série teen sensação da Netflix Stranger Things. O simples fato de explicar a origem de seu nome já indica o caminho pelo qual a trama seguirá. Cada lado da família, o israelense judeu por parte de mãe e o palestino muçulmano por parte do pai (que, inclusive, é ateu), chama o menino por nomes diferentes que carregam o mesmo significado: Abrahim, Abraham e Avraim. Por isso, o apelido é o jeito mais fácil de encurtar as diferenças. 

O roteiro assinado pelos palestinos Lameece Issaq e Jacob Kader baseia-se numa premissa simples, porém eficaz, como arroz com feijão: a de que fusion cuisine, mais precisamente o falafel, serve para sustentar a união entre as pessoas e consegue levantar a discussão sobre intolerância religiosa de uma forma leve, sobretudo para o público infantojuvenil. Além disso, Grostein, que é radicado em Los Angeles, preocupa-se, nesta conexão Brasil-Estados Unidos, em imprimir dinâmica e agilidade aos seus movimentos de câmera, aproximando-se do universo frenético da internet, com cenas em que aparecem o feed do Instagram de Abe, hashtags e outros símbolos do ambiente virtual. 

O pré-adolescente, aliás, não é do tipo popular nas redes sociais e vive recebendo críticas negativas. Abe, porém, não dá muito valor pra isso. No mundo real, diante de tantas desavenças, o garoto tenta permanecer na Faixa de Gaza domiciliar e agradar aos dois lados da família, fato praticamente impossível – é preciso escolher, ser judeu ou muçulmano. Como seu hobby é cozinhar, ele procura aliviar na comida toda essa tensão que coincide com sua chegada à adolescência. Um dos momentos mais graciosos do filme é quando Abe encontra as receitas antigas da avó materna, um verdadeiro tesouro, transmitido de geração a geração, que na contemporaneidade vem perdendo sentido e valor. 

De tanto insistir em estudar gastronomia, Abe é matriculado pelos pais em um curso para aprimorar sua técnica. Quando percebe que se trata de aulas para crianças, o garoto desiste e corre até o restaurante de Chico Catuaba, o chef de cozinha brasileiro com quem Abe se encontrou pela primeira vez numa feira gastronômica no Brooklyn, bairro miscigenado de Nova York, onde a família do menino mora. 

Seu Jorge, experiente no cinema, oferece uma atuação sem sal, sobretudo quando está comandando sua cozinha formada por brasileiros que mal falam inglês (assim como a vida real), e parece bastante deslocado no papel. Na surdina, Abe começa a trabalhar de ajudante de Chico, primeiro lavando louça e descartando o lixo até colocar a mão na massa de verdade na cozinha “sincrética” de Chico, aos moldes da salada mista que o ator-cantor-compositor fez com algumas das mais clássicas canções de David Bowie para a trilha sonora do filme A Vida Marinha com Steve Zissou

No caso de Abe, porém, a trilha é o suprassumo do filme. Assinada por Gui Amabis e com supervisão de Jacques Morelenbaum, ela traz no repertório faixas de Zeca Veloso (filho do Caetano), Tulipa Ruiz, Sabotage, Carlinhos Brown, o uruguaio Jorge Drexler e clássicos da bossa nova. A ficha técnica, aliás, é um caldeirão multicultural. Além de atores americanos e brasileiros, o elenco conta com nascidos na Polônia e no Irã. Quem assina a direção de fotografia é o experiente italiano Blasco Giurato, de Cinema Paradiso.

Apesar de ter se cercado de ótimos profissionais, Abe se aproxima de um filme feito para a TV, principalmente por conta das locações reduzidas. A narrativa se desgasta ao se aproximar da metade da história. Afinal, do restaurante para casa e da casa para o restaurante não há mais nada para acontecer até o conflito do último ato, quando a família lava a roupa suja enquanto o peru está assando.

Music

Cocteau Twins

Trinta anos de Heaven Or Las Vegas, o sexto álbum da carreira do trio escocês que traduziu com perfeição a representação musical dos sonhos

Texto por Fábio Soares

Foto: 4AD/Divulgação

No ano de 2017, em programa apresentado na rádio inglesa BBC 4, os cientistas Adam Weir Rufherford e Hannah Fry receberam uma pergunta curta e grossa de uma ouvinte de apenas nove anos de idade: “Por que sonhamos?”, indagava Mila O’Dea, panamenha da cidade de Gamboa.

O secular questionamento vindo da jovem caribenha fazia todo o sentido, tendo em vista que milhares de estudos sobre o fenômeno transpassam décadas sem receber um definitivo “martelo”. A mais famosa delas foi desenvolvida pelo fisiologista Eugene Aserisnky, da Universidade de Chicago, em dezembro de 1951. Ele conectou seu filho de apenas oito anos a um aparelho de eletroencefalograma. A partir do disparo frenético da agulha do maquinário, Aserisnky percebeu que os olhos do garoto também eram estimulados por uma espécie de frenesi interno. Este fenômeno foi batizado por Eugene com uma sigla: R.E.M. (Movimento Rápido dos Olhos, em português). O resto é história.

Mas teria o sonho uma trilha sonora que o traduzisse à sua quase totalidade? Sim! Em setembro de 1982, um trio escocês daria ao mundo Garlands, uma bolacha que vinha mais para confundir do que explicar. Com atmosfera assustadora e afinações de baixo longe do convencional, os Cocteau Twins traziam um quesito a mais: a linha vocal de Elisabeth Fraser, que fugia (e muito) do lugar-comum. Fraser não cantava, mas, sim, conduzia um bólido sonoro por caminhos tortuosos. Tamanha indentidade chamou a atenção do lendário radialista britânico John Peel. Dois anos depois, no antológico disco Treasure, a voz de Liz atingia o patamar de inimaginável. Suas nuances e curvaturas vocais lhe renderam a alcunha de “Voz de Deus” por parte da crítica especializada inglesa. Estava solidificado, portanto, o termo dream pop. Gênero específico, inacessível porém, sublime. Mas ainda faltava algo. Um álbum para as massas. E coube ao ano de 1990 o papel de recorte temporário a um inevitável ápice.

Reza a lenda que o clima do trio durante as gravações de Heaven Or Las Vegas não era dos melhores. O casamento de Fraser com o guitarrista Robin Guthrie, não estaria bem, mesmo após o nascimento da única filha do casal, Lucy Belle, em 1989. Somado a isso, o vício de Guthrie em álcool e drogas levou a união de ambos à beira de um colapso. Alheio a este turbilhão, o baixista Simon Raymonde era o fiel da balança para fazer a coisa andar. E ela andaria nem que fosse na marra.

Heaven Or Las Vegas, já o sexto álbum da carreira, lançado em 17 de setembro de 1990, nasceu GIGANTESCO – a caixa alta ao defini-lo é plenamente justificável a partir de sua faixa de abertura. O vocal de Fraser, mais seguro como nunca, jamais soou tão avassalador. Aos 27 anos de idade, a soprano parecia atingir seu ápice técnico. A linha de baixo de Raymonde nunca soou tão segura como base para a genialidade de Guthrie. Arranjos estrelados mantém o nível em altíssimo patamar. Tente ficar indiferente à marcial batida de “Cherry-Coloured Funk” e falhe miseravelmente. O leque harmônico da banda parecia ser infinito. Como um sonho, claro. Propositalmente? Difícil saber. Prefiro acreditar que um liquidificador emocional foi ligado no estúdio e as sobreposições de camadas vocais, instrumentais e o raio que o parta veio para disparar nosso rápido movimento dos olhos acentuado na dobra de “Pitch The Baby” e “Iceblink Luck”.

A atmosfera de sonho atinge o nível máximo do sublime na faixa-título. O vocal de Liz conduz o ouvinte a um sobrevôo sobre a paisagem que melhor lhe convier. O céu de brigadeiro está ali e cabe a você, reles mortal, gratuitamente aproveitá-lo. O slide guitar de Guthrie é o trem de pouso. Você demorou demais para aproveitar. Portanto, volte a faixa para o início e decole novamente.

O voo termina com “Frou-Frou Foxes In Midsummer Fries” com a voz de Liz nos lembrando de que já é hora de acordar. Nos lembrando também de que Heaven Or Las Vegas, trinta anos após seu lançamento, permanece inabalável. Uma catedral sonora tão generosa que fica ali, de portas abertas para quem quiser adentrá-la. Afinal, Deus estava certo ao enxergar em Liz Fraser sua perfeita mensageira.

Entendemos a mensagem, Senhor. Mas, por favor, nos deixe sonhar mais um pouco. E que assim seja, por mais múltiplos de trinta…

Movies

Pulsão

Documentário procura evidenciar a influência e o poder das redes sociais na política brasileira dos últimos anos

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Reprodução

Quando Guy Debord escreveu A Sociedade do Espetáculo, que serviu de base para os acontecimentos de maio de 1968, não poderia imaginar que a internet, seus algoritmos e o mar de fake news divulgados via WhatsApp potencializariam, algumas décadas depois, sua teoria sobre a submissão alienante proporcionada pela mídia. O livro é leitura fundamental para tentar compreender o mundo moderno do pós-guerra, quando a sociedade se viu dominada pela mercantilização das relações, sejam elas sociais, políticas e econômicas. 

Seguindo ideias marxistas que flertavam com o pensamento freudiano, Debord acreditava que o espetáculo é uma forma de dominação da burguesia sobre o proletariado. Alguns desses conceitos podem ser claramente percebidos no documentário Pulsão, dirigido, produzido e escrito por Diego “Di” Florentino em parceria com Sabrina Demozzi. A missão, aqui, é traçar uma retrospectiva que permite evidenciar a influência e o poder das redes sociais nos acontecimentos políticos dos últimos anos, desde as passeatas promovidas pelo Movimento Passe Livre em 2013 (e que eram organizadas via Facebook), passando pela operação Lava-Jato, o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o desfecho com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

O título do documentário, lançado diretamente no YouTube no último dia 4 de setembro, evoca a teoria freudiana das pulsões: a pulsão da morte, o thanatos, é o movimento em direção à morte, à destruição. Ou seja, entende-se pelo desenrolar da narrativa que, há sete anos, o Brasil vem sendo empurrado ladeira abaixo, depois dos casos de corrupção que provocaram o impeachment de um nome eleito pelo povo até culminar na eleição, também democrática, de um representante da extrema-direita, que desde o início de sua campanha eleitoral não escondeu sua paixão por armas de fogo e sua aversão às minorias. A eleição de Bolsonaro teria sido um tiro no pé disparado pelos brasileiros num comportamento do tipo “efeito manada”, estimulado pelas redes sociais e criação de perfis falsos e, claro, pela verdadeira elite formada por grandes grupos econômicos e midiáticos. Agora, os marqueteiros de plantão, experts em SEO, somam-se à Rede Globo no que coube até hoje, na história do país, tornar o povo massa de manobra. A mensagem é simples: não acredite em nada daquilo que você vê. Não acredite em Bonners nem em Kataguiris. 

Lançado na esteira do celebrado e premiado Democracia em Vertigem, de Petra Costa, Pulsão tem um quê de Cambridge Analytica, ao passo que mostra como o brasileiro se vê refém das redes sociais e suas fake news – além de reconstruir, passo a passo, como a sociedade abalada pelas denúncias de corrupção foi capaz de alçar ativistas políticos a políticos ativistas, elevar um juiz de primeira instância ao status de super-herói e eleger um presidente de extrema-direita. Neste ponto, a montagem de Rodrigo Baptista é extremamente eficiente ao confrontar imagens e discursos contraditórios resgatando material de arquivo de canais de tevê aberta (sobretudo Globo e TV Cultura) ou divulgado por outros canais de imprensa, além de conteúdo amador. Há uma sequência, por exemplo, em que uma jornalista elogia o fato de as passeatas serem pacíficas, enquanto a imagem mostra exatamente o oposto: um rapaz “de vermelho” sendo agredido ao atravessar a rua durante uma passeata. 

Também há o momento em que o então juiz Sergio Moro afirmava, durante uma palestra, que não tinha intenção de se envolver com a política. Outras cenas são patéticas, como a então jornalista Joice Hasselmann (ex-aliada de Bolsonaro e atualmente candidata a prefeita de São Paulo pelo PSL) bajulando Moro e, depois, tendo um ataque de histeria ao comemorar sua eleição como a deputada federal mais votada. É constrangedor!

A direção do longa-documental consegue empreender o ritmo ágil, inclusive pelo uso de recursos visuais que lembram o ambiente digital, e ainda linkar os acontecimentos de forma dinâmica durante pouco mais de uma hora. Um dos personagens principais desse doc é o celular, que se transforma em algo muito maior que um mero aparelho: uma arma de guerrilha, de disparos de informações falsas, de memes e discursos demagógicos.  

O tom didático, sobretudo por conta da narração em off de Cesinha Mattos (autor da trilha sonora), é uma das falhas. Com sua voz suave, parece que estamos diante de uma propaganda de maionese. O descuido na edição também incomoda. Ninguém lembrou-se de legendar os nomes das personalidades que aparecem no decorrer do documentário. Todo mundo sabe quem é Lula, mas nem todos são obrigados a saber quem é Marco Antônio Villa discursando com seu sotaque paulistano no microfone da rádio Jovem Pan. Também não há referência quanto à frase citada no desfecho do filme. É preciso recorrer ao “oráculo” Google para descobrir tais informações.

Outra questão é o caráter panfletário da obra, mesmo porque a ideia inicial do projeto era registrar o “Circo da Democracia”, evento ligado a entidades sindicais que reuniu em Curitiba diversas figuras políticas e acadêmicas de esquerda para debater a conjuntura política da época. Além disso, uma repórter do Intercept Brasil, veículo que publicou a série de vazamentos envolvendo Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, foi a responsável pela pesquisa ao lado de Sabrina. Mas ao contrário do que se costuma – ou costumava – aprender nas faculdades de Jornalismo, é impossível ser isento. O simples fato de eleger a sequência das imagens já se trata de um posicionamento.

Talvez se não estivéssemos num ano pandêmico, Pulsão teria outro alcance e engajamento da população. Movimentos populares se traduzem, na circunstância atual, em aglomerações nas praias, numa clara atitude displicente da população, condizente com o perfil do governante-mor brasileiro. De fato, as retóricas se confundem. O mesmo consumidor-cidadão-eleitor que acredita em fake news também parece acreditar que não será vítima de uma simples “gripezinha”. Resta saber se nessa massa sem máscara que invadiu as areias num final de semana de calor invernal estão apenas eleitores da esquerda ou direita. Para usar uma linguagem bem popular, para não dizer “dilmesca”, todos – seja lá qual lado for – são farinha do mesmo saco. Todos pagam o mesmo pato. À milanesa.