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Crime Sem Saída

Trama policial mostra a beleza noturna de Nova York mas se atrapalha com o ritmo inconstante do enredo

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Galeria Distribuidora/Divulgação

A nova produção dos irmãos Russo, responsáveis pela direção dos dois filmes dos Vingadores (Guerra Infinita e Ultimato), é o policial Crime Sem Saída (21 Bridges, EUA. 2019 – Galeria Distribuidora). Estrelado por Chadwick Boseman (o Pantera Negra), o filme acompanha a saga do detetive da polícia de Nova York Andre Davis para encontrar dois assassinos de policiais.

A direção de Brian Kirk deixa claro desde a primeira cena que o sentimento que reinará neste filme é a tensão. Cenas de ação intensas, trilha sonora envolvente e a atuação fria de Boseman contribuem para a criação do universo de Kirk. Além de uma intensa perseguição policial, Crime Sem Saída é uma interessante imersão pela cidade de Nova York durante a noite, com toda sua beleza e peculiaridade.

JK Simmons e Sienna Miller reforçam o elenco e a força policial da trama. O primeiro, atuando como Capitão McKenna, não tem todo o seu potencial explorado. Em alguns momentos parece que está mais fazendo mais uma participação especial do que engajando ativamente na história.

O ritmo inconstante de Crime sem Saída atrapalha o envolvimento com o enredo. Cenas de ação mescladas com investigações muito enroladas dão sensação que o diretor queria causar um grande suspense sobre a reviravolta do final. Não funcionou. A todo instante o espectador sabe o que está acontecendo, como se tivesse dado uma espiada no roteiro.

Eis que o fim chega de maneira apressada. São apenas 99 minutos. Poderia ter sido usado mais tempo para aprofundar o desfecho e não deixar a sensação de que o que foi mostrado não convenceu. A justificativa usada pelo roteiro para explicar a motivação do antagonista é ruim. Faria mais sentido não ter justificativa alguma.

Crime Sem Saída junta elementos interessantes e atrativos para um bom filme policial. Conflitos internos, protagonista com defeitos, perseguição à noite, cenas de ação envolventes… Tudo isso está presente mas o produto final não convence 100% quem está olhando para a tela.

Movies

Duas Rainhas

Filme exalta a força da Rainha da Escócia (e, por direito, da Inglaterra) Mary Stuart, um dos maiores ícones da realeza britânica em todos os tempos

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Texto por iaskara (História) e Abonico Smith (resenha)

Foto: Universal Pictures/Divulgação

História

Rainha desde o berço. Mary Stuart mal nascera (8 de dezembro de 1542) e já perdera o pai, o rei James V, seis dias depois, o que a fez herdar a coroa do reino da Escócia. Uma herança sombria ser uma Stuart e herdar a coroa da Escócia, pois sempre tiveram de lutar contra inimigos de fora, inimigos do país e contra si próprios.

Logo após a morte do pai, sua mão fora pedida pelo tio avô Henrique VIII, rei da Inglaterra e tio de James V, para o filho e herdeiro Eduardo. O objetivo era unir as duas coroas em uma só e governar a Grã-Bretanha com o desejo de supremacia mundial naquele momento.

Uma cláusula secreta do contrato feito por Henrique VIII dizia que, caso a criança morresse prematuramente, todos os domínios e propriedades do reino escocês passariam a ele. Logo ele, que já havia mandado cortar a cabeça de duas esposas e rompido com a Igreja Católica para fundar a sua própria igreja e mudando oficialmente a religião de seu reino para o protestantismo, inclusive se autodeclarando o líder religioso maior desta reforma. A mãe de Mary, católica fervorosa, recusou-se a enviar a filha a Londres para que fosse educada por “hereges protestantes”. Como vingança, Henrique VIII iniciou uma guerra interna, mandando tropas em busca da menina e com a ordem de destruir Edimburgo e outras cidades, saqueando e queimando tudo o que fosse encontrado pelo caminho.

Mãe e filha foram postas em segurança em um castelo e um novo acordo se estabeleceu com o rei inglês para que Mary Stuart  fosse entregue a Londres com 10 anos de idade. Porém Henrique VIII morreu quando Mary estava com apenas 5. Apesar da exigência da entrega da pequena noiva, à força, diretamente para Eduardo, os escoceses não tinham mais interesse nesse acordo, sendo esmagados novamente em uma batalha com mãos de 10 mil mortos.

Mary foi escondida no convento de Inchmahome, na pequena ilha de Meinteth, até que a França entrou no cenário para impedir a Inglaterra de submeter a Escócia ao seu jugo. Henrique II, filho de Francisco I, rei da França, enviou uma armada forte e em seu nome pediu a mão de Mary Stuart para o filho do rei, o herdeiro do trono, Francisco II. Assim, ao invés de se tornar rainha da Inglaterra, de repente Mary foi destinada a se tornar rainha da França e, ainda aos 5 anos de idade foi enviada para Paris. Junto com ela embarcaram outras quatro meninas de nomes Mary como forma de proteção.

Mary foi recebida com pompa e como rainhazinha da Escócia (“reinette”) e assim deveria ser saudada por todas as cidades e aldeias, com as mesma honrarias de um delfim. A corte francesa era uma das mais brilhantes e grandiosas do mundo, voltada tanto para cultura como para as artes e a ciência. Mary foi educada para dominar com perfeição línguas clássicas como o grego e o latim bem como o italiano, o espanhol e o francês. Deveria dominar também a poesia, a literatura, a música e as artes. Seu desenvolvimento intelectual, além de precoce, tornou-se notável. Seu casamento foi apressado quando o delfim tinha somente 14 anos, por ele ter saúde frágil e também pelo interesse da França em assegurar o direito à coroa da Escócia e da Inglaterra, por Mary ser herdeira presuntiva deste trono. O casamento se deu em 1558, quando Francisco II recebeu, então, a coroa da Escócia e Mary, com quase 16 anos de idade, tornou-se herdeira da coroa da França.

No mesmo ano morreu Mary Tudor, primogênita de Henrique VIII e então rainha da Inglaterra. Como Eduardo já havia morrido, sua meio-irmã Elizabeth subiu ao trono, sendo que sua legitimidade era questionada, já que sua mãe Ana Bolena teve seu casamento com Henrique VIII anulado um pouco antes da decapitação desta. Isto tornava Elizabeth bastarda, restando o trono, por direito, à católica Mary Stuart. Restavam duas possibilidades: aos 16 anos de idade, Mary poderia ceder e reconhecer sua prima como legalmente rainha da Inglaterra e abdicar de seu próprio direito ou declarar que Elizabeth usurpou a coroa e determinar que exércitos da França e da Escócia derrubassem-na à força. Mas seus conselheiros escolheram um terceiro caminho e o pior deles: em vez de um golpe decidido contra Elizabeth, apenas reclamam publicamente o trono mas não o defendem. O casal real francês incluiu em seu brasão a coroa real inglesa e Mary se fez chamar publicamente de Regina Franciae, Scotiae, Angliae e Hibernae. Isso virou uma provocação. Nesse momento, Mary transforma a mulher mais poderosa do mundo em sua inimiga irreconciliável. Elizabeth passou a considerá-la sua rival e maior ameaça.

Em 1559, o rei da França se feriu mortalmente com uma lança em um torneio em Paris. Nesse momento, aos 16 anos, Mary foi coroada rainha da França. O destino foi implacável, pois Francisco II, o novo rei, estava doente e os médicos vigiavam-no dia e noite. Em dezembro de 1560, sua saúde se agravou e um infecção no ouvido levou-o à morte. Mary não perdia somente o companheiro generoso e bondoso, mas o seu grande amigo, a sua proteção na França e também a sua posição na Europa.

Catarina de Medici, sua sogra, revelou-se bastante hostil, arrogante e traiçoeira. Mary, por sua vez, com seu orgulho indomável, não quis ficar em nenhum lugar onde fosse apenas a segunda na hierarquia. Outras coroas (Espanha, Áustria, Dinamarca, Suécia) se anteciparam e enviados pediam a mão de Mary. Mas ela decidiu voltar à Escócia. Sua despedida da França foi difícil, pois esse lugar havia se tornado sua pátria nos últimos doze anos, com parentes de laços maternos e proteção. Enquanto na Escócia a esperavam duras provações.

Desde a morte de sua mãe, que como regente administrava sua herança, os lordes protestantes, seus piores inimigos, predominavam na corte e não escondiam a resistência de chamar de volta para o país uma católica seguidora de Roma. Ainda havia Elizabeth com um acordo entre escoceses e ingleses de reconhecê-la como herdeira legítima do trono. Este documento, quando levado à França, não foi assinado nem por Francisco II e nem por Mary, que colocou seu direito em segundo plano por questões políticas mas jamais renunciou ao direito à herança de seus antepassados.

Para voltar à Escócia, Mary precisava de um salvo-conduto para atravessar a Inglaterra, que fora negado por Elizabeth. Mary decidiu voltar pelo canal sem tocar na costa inglesa. Elizabeth se apressou e assinou um documento que chegou com dois dias de atraso. Mary já havia partido rumo à Escócia, chegando em Leith no dia 19 de agosto de 1561. É quando começa o filme lançado originalmente em 2018.

Para o biógrafo Stefan Zweig, o que é claro e evidente se explica por si próprio embora o mistério aja de maneira criativa. Por mais de quatro séculos, os mistérios que envolvem o drama ou a tragédia de Mary Stuart seduziu escritores e vem ocupando muitos pesquisadores, pois tudo que está difuso anseia por clareza e tudo que está escuro deseja a luz. Mistérios são descritos e interpretados de forma tão frequente quanto contraditória, não por falta de material mas pela sua abundância. Milhares de documentos, atas, protocolos, cartas e relatórios preservados. Com descreve Zweig, contra cada sim documentado existe um não igualmente documentado e contra cada acusação, uma absolvição. Até o século passado, os autores protestantes atribuíam toda a culpa a Mary Stuart; os escritores católicos, a Elizabeth. Nas narrativas inglesas, Mary quase sempre apareceu como culpada enquanto as escocesas colocavam-na como vítima. Não se pode esquecer que a História quase sempre é narrada pelos vencedores

Resenha

Toda essa explicação serve bem para contextualizar o “cenário de guerra” entre as primas que é retratado no filme Duas Rainhas (Mary Queen Of Scots, Reino Unido/Estados Unidos, 2018 – Universal Pictures). Na verdade, a história comandada pela veterana diretora teatral britânica Josie Rourke, estreando no cinema, é centrada nas lutas diárias da recém-chegada à Escócia Mary – e por isso o estapafúrdio título dado pela distribuidora no Brasil só serve para chamar a atenção do espectador para o fato de existirem duas jovens atrizes, ambas ascendentes em Hollywood, interpretando as rivais da monarquia. Este filme vai do dia 19 de agosto de 1561, quando Mary desembarca na Escócia, até a sua morte, aos 44 anos de idade, em 8 de fevereiro de 1587.

Saoirse Ronan acerta mais uma vez em cheio em papel e atuação. A jovem norte-americana descendente de irlandeses encanta com sua Mary indolente e atrevida, que chega com suas ideias e pensamentos revolucionários de uma França mais voltada às artes, à cultura e ciências. Aos poucos, contudo, vai esbarrando em vários obstáculos, entre eles a consequente insubordinação masculina diante da nova regência de uma mulher e, talvez o mais forte empecilho, a objeção do pastor protestante John Knox, ministro escocês. Assim, Mary passa a ser alvo de uma série de intrigas, mentiras e conspirações por parte de todos os lados. Da invejosa Elizabeth (aqui bem interpretada por uma coadjuvante Margot Robbie, australiana, ajudada por uma maquiagem tão belamente degradante ao longo da projeção que rendeu ao longa uma das três indicações ao Oscar da categoria neste ano) a Knox (David Tennant), passando por pretendentes a maridos e comandados da corte. O fim da história é sabido e contar aqui não vira spoiler: Mary é presa sob a acusação de conspiração ao trono e decapitada por ordem de Elizabeth.

O que importa neste longa-metragem, porém, é como Rourke e o roteirista Beau Willimon contam essa batalha íntima de Mary contra todos a seu redor. Willimon consegue encaixar momentos de ironia (como nos casos do relacionamento íntimo de Mary com o músico gay italiano David Rizzio ou na hora em que a rainha escocesa manda seu novo marido a fazer sexo oral nela) e outros de violência – a cruel execução de Rizzio pode provocar náuseas em espectadores mais sensíveis. Já Rourke brinda os olhos com belas imagens em paisagens e castelos escoceses sem se furtar a se arriscar em movimentos de câmera que possam, de vez em quando, sair do convencional.

Sem muitas pirotecnias na narrativa ou na montagem, Duas Rainhas retrata a força feminina de quase meio milênio atrás através de sua bela e ousada protagonista. Uma mulher que não teve medo de enfrentar quem estivesse pela frente justamente para reivindicar o que era seu de direito. Uma mulher cuja maior afronta era ser ela mesma diante daquilo que não lhe representava em sentimentos e ideias. Uma mulher com alma e cérebro em pleno Século 16. E, o mais importante, uma mulher preparadíssima para exercer o comando de um dos maiores reinos do mundo se tivesse a oportunidade.

Movies, Series, TV

Black Mirror: Bandersnatch

A possibilidade do espectador comandar os rumos da trama é justamente o que enfraquece o longa da cultuada série britânica

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Netflix/Divulgação

Você pagaria ingresso para entrar no Louvre e pintar o famoso e enigmático sorriso de Mona Lisa em um quadrado branco colocado no rosto dela especialmente para conectar você a Leonardo da Vinci? Ou, então, imagine que, ao inscrever a sua música “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” no Festival Internacional da Canção de 1968, o cantor e compositor Geraldo Vandré apresentasse somente o refrão completo e a melodia das estrofes, deixando para que completassem a letra as pessoas que estavam na plateia daquele superlotado ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro.

São apenas dois exemplos, bem tosos aliás. Mas podem representar muitas reflexões acerca da “grande novidade” que o recém-lançado longa-metragem Black Mirror: Bandersnatch (EUA/Reino Unido, 2018 – Netflix) propõe. Com duração que pode variar até noventa minutos, o filme permite que você seja o roteirista principal da produção e decida os rumos que o protagonista Stefan Butler (Fionn Whitehead, uma das revelações do jovem elenco de Dunkirk) vai tomando no decorrer da história, que mostra o que acontece a ele durante as semanas em que precisa desenvolver um novo jogo, baseado em um livro interativo, para a empresa mais hypada do mundo dos consoles.

A premissa é feita sob encomenda para a massa que embarca na onda do rótulo geek que assola a cultura pop da década. A trama se passa no ano de 1984, em pleno auge dos games 8-bits. A trilha sonora traz pérolas da época como Thompson Twins e Frankie Goes To Hollywood. A nostalgia da década que insiste em nunca terminar impera na ambiência é proposital. Serve como trunfo para pescar os guardiães do manto sagrado das séries e filmes desses tempos de streaming, a grande maioria formada por aqueles que nunca ou muito pouco viveram daquele tempo do qual sentem eternas saudades. E se você pode justamente escolher assistir a todos os capítulos seguidamente, maratonando uma série durante horas, por que não, justamente, interferir naquilo que você está vendo e ter a sensação de ter o controle do jogo nas mãos?

Este é o grande atrativo de Bandersnatch, o primeiro longa-metragem lançado sob a bandeira da série britânica Black Mirror. Projeto encampado pela Netflix – que há duas temporadas é a distribuidora mundial da série – e desenvolvido secretamente durante dois longos anos, o filme oferece cinco finais diferentes e, para se chegar até eles, um trilhão de combinações possíveis para a escolha dos percursos. Uau! Que máximo! O futuro finalmente chegou ao cinema que está ao alcance de suas mãos! A chance de nunca mais ver o mesmo filme repetidamente.

#SQN… Quem realmente achar tudo isso só vai estar assinando o atestado de bobo manipulado por mais uma gigantesca indústria corporativa do ramo do entretenimento. O que a Netflix quer é justamente dar esta falsa impressão de que você se sente conectado à história apresentada e realmente manipula o destino do pobre Stefan, que entra nesta paranoia de não ser mais capaz de controlar suas ações e seu destino para nunca mais sair dela. E mais: chega-se ao ponto de serem feitas piadas que transformam a própria Netflix em um personagem da história ou estarem espalhados easter eggs que remetem a todos os episódios das quatro temporadas anteriores do seriado. “Mas isso é muito Black Mirror!”, muitos certamente pensarão do outro lado – o da realidade – da tela do computador, do celular ou da TV.

Aí perde-se justamente o maior prazer de uma obra de arte. É justamente a passividade do consumidor que permite o encanto, a admiração, a reflexão. Com a existência da interatividade, o autor pode não deixar de ser por completo o autor, mas com certeza o espectador passa a não mais sê-lo para assinar a coautoria. Neste traslado perde-se todo o poder de deixar-se surpreender pela recepção integral do que o autor teria desejado dizer com tudo aquilo.  O seu livre-arbítrio de escolher que caminhos tomar, sejas por quais razões forem,  destroem todo o fascínio provocativo pela narrativa. O cinema deixa de ser cinema e transforma-se numa mera brincadeira de videogame.

Talvez seja mesmo este um caminho irreversível que resulta da cultura de convergência das mídias, tão venerado pelas novas gerações pouquíssimo afeitas a manter as tradições mais velhas. Mas enquanto o mundo não muda de forma tão radical assim é bom não ir se enganando: não é a vida que está virando Black Mirror, mas, sim, é a velha matrix que continua no poder, desta vez  querendo fazer com que, agora, você acredite deter o controle do jogo.