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Oscar 2019

Oito motivos para você não se esquecer da cerimônia de entrega dos prêmios Academy Awards deste ano

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Reprodução

Queen

Muita gente pode ter se perguntado: o que diabos o Queen faria lá no palco do Dolby Theatre em Los Angeles na cerimônia do Oscar em 2019? Afinal, até então, o privilégio para a apresentação de números musicais ao vivo era dado somente às canções originais concorrentes na categoria. A dúvida se desfez logo após a primeira batida da noite deste 24 de fevereiro, dando abertura à festa. Sob o comando de Roger Taylor, o “tum-tum-tá” típico de “Will We Rock” colocou de pé as estrelas de Hollywood e todos os especialistas nos bastidores da sétima arte. Logo depois viriam Adam Lambert na voz e Brian May no matador solo de guitarra que conclui o arranjo. Era o Queen (ou o que sobrou dele; ou, para muitos, apenas um cover oficial da própria banda) abrindo alas para Bohemian Rhapsody brilhar na noite faturando o mais alto número de prêmios para um único filme (quatro, no total, incluindo o de ator para Rami Malek, no papel de Freedie Mercury). Logo em seguida, o trio Taylor-May-Lambert emendou a balada “We Are The Champions”, que, originalmente também vem na sequência de “We Will Rock You”, no álbum News Of The World). Jogo ganho. Não só in locomas também ao redor do mundo inteiro. Já que o Oscar quis fazer desta noite uma aposta mais popular e chamativa, conseguiu logo de cara. De quebra, o filme sobre Mercury e Queen ainda uniu novamente a dupla de Quanto Mais Idiota Melhor (Mike Myers e Dana Carvey, eternamente populares pela cena em que seus personagens batem cabeça no carro ao som da parte mais pesada de “Bohemian Rhapsody”) para fazer o anúncio do videoclipe que apresentava a obra como uma das indicadas ao prêmio máximo da noite.

Heróis e vilões

Muito de falou nas últimas semanas sobre quem poderia ser o apresentador oficial do Oscar. Contudo, nenhum ator ou comediante acabou fechando contrato para o papel de âncora. A Academia, então, anunciou que as aberturas dos envelopes seriam feitas por “heróis e vilões do cinema”. Contudo, quem esperava que alguém pudesse surgiu caracterizado com uniformes, roupas, cabelos e maquiagens típicas dos personagens encarnados nas telas, errou redondamente. Por conta de direitos autorais, isso não foi realizado. Entraram, sim, atrizes e atores vestidos formalmente (com exceção da dupla Melissa McCarthy e Bryan Tyree Henry, que partiram de vez pro escracho misturando exageros e símbolos referentes aos longas A Favorita e Pantera Negra). A “Rainha Anne” de Melissa estava com dezenas de coelhos adornando uma capa de cauda longuíssima, por exemplo. Um dos poucos momentos de humor debochado da noite. Valeu a pena.

Lady Gaga e Bradley Cooper

Já era prevista a vitória de “Shallow” como a canção original da temporada cinematográfica. Contudo, o número musical protagonizado pela dupla de atores de Nasce Uma Estrela foi comovente. A balada poderosa – que entre seus compositores, além da Gaga, tem o DJ e produtor Mark Ronson (responsável por muitos discos de primeira, entre eles Back To Black, de Amy Winehouse) e o guitarrista Anthony Rossomando (cujo currículo traz serviços prestados a excelentes bandas indie como Libertines e Dirty Pretty Things) – começou com um playback instrumental na medida para Gaga e Cooper soltarem o gogó de forma franca, sincera e emocional. De quebra, a cantora e atriz ainda tocou piano na parte final do arranjo. Como diz o Faustão, quem sabe faz ao vivo.

Spike Lee

Justiça foi feita a um dos diretores e roteiristas mais importantes do novo cinema autoral norte-americano das últimas décadas. Infiltrado na Klan, uma das obras mais interessantes desta temporada, concorria nas categorias filme, direção e roteiro adaptado. Pode ter perdido nas duas primeiras, mas pelo menos abocanhou uma “consolação de luxo” por contra a história do policial negro que consegue, do modo mais absurdo e inteligente possível, ser aceito nos quadros da organização fascista e racista que tocava o terror nos estados do Sul dos Estados Unidos até bem pouco tempo atrás. Vestido de chofer com a cor violeta dando o tom dos pés ao quepe, ele chegou no palco pulando no colo do apresentador Samuel L Jackson e ainda fez um belo discurso cheio de conteúdo sóciopolítico.

Olivia Colman

Quem também brilhou no discurso foi a atriz britânica Olivia Colman. Ou melhor, no não-discurso. Visivelmente transtornada de emoção e surpresa por ter superado “a favorita” (não dá para escapar do trocadilho infame!) Glenn Close na categoria, ela não sabia se falava, chorava, gaguejava ou mandava beijos para as concorrentes superadas. Com a estatueta na mão, protagonizou informalmente um dos mais espontâneos e engraçados momentos da cerimônia. De quebra quase se pôs de joelhos aos pés de Lady Gaga, que, sentada na fila da frente, retribuiu o carinho também de forma histriônica. E convenhamos: o trabalho de Colman como a Rainha Anne da A Favorita está espetacular. E nem é pela transformação física, de ter ganhado quinze quilos a mais para fazer o papel.

Pantera Negra

Antes de começar a cerimônia, o filme já havia quebrado uma escrita e entrado na História: foi a primeira produção baseada em um super-herói dos quadrinhos a concorrer à premiação máxima da noite. Se o drama com elenco negro e vivido quase que inteiramente na África (no fictício país de Wakanda) não foi agraciado como o melhor longa-metragem da noite, pelo menos saiu com três importantes prêmios técnicos: trilha sonora, figurinos e design de produção (categoria antigamente chamada direção de arte). Sinal de que uma produção caprichada nicho do grandioso público nerd pode, sim, rimar arte com altas bilheterias.

Alfonso Cuarón

Produtor, diretor, roteirista, fotógrafo. Alfonso Cuarón foi praticamente um faz-tudo nas funções mais importantes de Roma. Seu trabalho competentíssimo – e carregado de emoção e lembranças de sua vida na infância – garantiu a ele um excesso de bagagem para a volta para casa: faturou três estatuetas na noite, referentes às categorias filme em língua não inglesa, cinematografia e direção. Não levou a de melhor filme, é bem verdade, embora merecesse também. Entretanto, ninguém pode sair reclamando da falta de reconhecimento de seu múltiplo talento. Muito menos o México, o país onde nasceu. Afinal, a dinastia mexicana de direção no Oscar continua nas mãos de Cuarón, Iñarritú e Del Toro, vencedores dos prêmios nas últimas cinco edições.

Green Book

Como era de esperar, o filme mais mediano – e agradável à maioria das pessoas – foi agraciado com o prêmio principal da noite. Tocando de modo light na questão do racismo (a história se passa no início dos anos 1960, quando a luta pelos direitos civis nos EUA ainda não estava em momento explosivo e tenso) e também passando superficialmente por outros temos polêmicos, incluindo a homossexualidade, Green Book (esqueça o subtítulo pavoroso que o filme ganhou de sua distribuidora no Brasil) favoreceu-se do critério de votação dos membros da Academia. Vale lembrar que desde 2010, quando o número de concorrentes a melhor filme passou de cinco para até dez (são sempre oito ou nove, dependendo do coeficiente de corte na listagem apurada para o anúncio das indicações), todo votante precisa numerar esta lista de um a oito ou nove, segundo sua preferência pessoal. Portanto, aquela produção que fica ali no meio, entre segundo e quarto, justamente por ter o menor índice de rejeição, acaba sendo projetada no cômputo geral dos pesos e levando a estatueta. Foi o que aconteceu agora à história do branco bronco italiano de Nova Jersey que, por necessidade, durante algumas semanas do ano de 1962, trabalha como motorista de um renomado músico de jazz de Nova Yordurante uma turnê por cidades racistas ao sul dos Estados Unidos – e, ao fim da convivência cheia de diferenças culturais e ideológicas, um acaba sendo modificado pelo outro. Nada mais água com açúcar para agradar à maioria das pessoas. E, de quebra, Green Book faturou outros dois prêmios importantes da noite: roteiro original e ator coadjuvante (Mahershala Ali). Pode não ter sido o mais premiado na noite, mas saiu do Oscar 2019 como o principal filme da temporada pela importância das categorias.

VEJA OS GANHADORES DE CADA CATEGORIA

Filme: Green Book: O Guia

Direção: Alfonso Cuarón (Roma)

Atriz: Olivia Colman (A Favorita)

Ator: Rami Malek (Bohemian Rhapsody)

Canção original: “Shallow” (Nasce Uma Estrela)

Trilha Sonora: Pantera Negra

Roteiro adaptado: Infiltrado na Klan

Roteiro original: Green Book: O Guia

Curta-metragem de ficção: Skin

Efeitos visuais: O Primeiro Homem

Documentário em curta-metragem: Period. End Of Sentence

Animação em curta-metragem: Bao

Animação: Homem-Aranha no Aranhaverso

Ator coadjuvante: Mahershala Ali (Green Book: O Guia)

Montagem: Bohemian Rhapsody

Filme em Língua não inglesa: Roma

Mixagem de som: Bohemian Rhapsody

Edição de som: Bohemian Rhapsody

Fotografia: Roma

Design de produção: Pantera Negra

Movies

Escape Room

Aventura de escape de salas fechadas através de pistas escondidas chega às telas em história que não empolga

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Sony Picutres

A premissa de Escape Room (EUA/África do Sul, 2018 – Sony Pictures) é simples convenção de gênero: desconhecidos entre si são postos à prova, lutando contra a morte. Seus personagens são ainda mais convencionais, mantendo-se em seus estereótipos durante todo o longa. Quase dois anos após o último episódio de Jogos Mortais (que obteve críticas decepcionantes), parece conveniente repetir a fórmula bilionária, mesmo que ela já tenha saturado o suficiente. Uma ideia que, mercadologicamente, teria tudo para dar certo.

Mas não dá. A direção de Adam Robitel, que fez Sobrenatural: A Última Chavee escreveu Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma, leva o filme a caminhos já trilhados à exaustão, abusando de convenções de gênero para construir algo previsível. Aqui, os seis protagonistas (apenas dois homens brancos, demonstrando uma feliz inclusão) devem sobreviver a desafiadoras Escape Rooms, jogos imersivos onde você precisa encontrar pistas para escapar de salas. Neste caso, porém, cada local brinca com os traumas de cada personagem, uma escolha clichê que poderia abrir portas para a construção de personagens. O mistério por trás da corporação apontada como a grande vilã do filme quase funciona, mas se desmantela num terceiro ato decepcionante, que desconstrói todos os pontos altos do longa-metragem.

São poucos os destaques, na verdade. O design de produção é bom, criando salas repletas de detalhes, porém é pouco aproveitado pelo roteiro, que busca soluções óbvias para seus puzzles e não se esforça em imergir o espectador neles; O elenco tem nomes competentes, como Deborah Ann Woll e Jay Ellis, porém ofuscados pela falta de construção de personagens da trama.

Sem empolgar nas cenas de ação, apostando em montagem confusa e em uma trilha sonora maçante trabalhada por um desenho de som igualmente confuso, Escape Roomé deaques filmes com nada a dizer. O único objetivo é o escapismo, mas nem isso diverte o espectador, já que cai para uma experiência monótona e forçada.

Movies

Aquaman

Filme-solo tira de fundador da Liga Justiça o estigma de super-herói inútil e lhe devolve o crédito perdido após frequentes zombarias na internet

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Texto por Andrizy Bento

Foto: Warner/Divulgação

Membro-fundador da Liga da Justiça, durante anos o Aquaman foi subestimado pela cultura pop e tornou-se alvo de zombaria de produtores de memes pela internet afora. Talvez sua representação na famigerada animação Superamigos, exibida na TV aberta entre as décadas de 1970 e 1980, tenha contribuído para que o personagem fosse relegado à condição de super-herói inútil, com os poderes mais “estúpidos”, e apontado constantemente como a grande piada do universo dos super-heróis. Uma grande injustiça, convém dizer. Quem realmente teve contato com o personagem em sua mídia original sabe que ele protagonizou arcos de qualidade nas HQs e que, neles, o Aquaman representava muito mais do que um mero objeto de sátira de South Park. Eis que, agora, o cineasta James Wan lhe devolve a dignidade perdida com uma adaptação cinematográfica empolgante e que resgata o clima épico das aventuras protagonizadas pelo herói nos quadrinhos.

Primeiramente, é necessário esclarecer que Aquaman (EUA, 2018 – Warner) não se trata de uma obra-prima das telas. O fato é que depois de pesar a mão em filmes pretensamente grandiosos, sombrios, carregados de seriedade, de frases de efeito e sequências em slow motion – procurando desesperadamente fugir com da condição de “filme para toda a família”, em uma resposta aos longas coloridos, bem humorados, dinâmicos e mais calcados na ação, produzidos pela Marvel Studios – como foi o caso de O Homem de Aço (2013) e Batman Vs Superman: A Origem da Justiça (2016), a DC/Warner resolveu mudar de tática. Uma vez que os filmes não pareciam encontrar seu tom e nem satisfazer qualquer tipo de público – fosse o infanto-juvenil ou o mais adulto – os longas da marca investiram em mais ação, fantasia, leveza e bom humor, sem abandonar a aura de épico. Um exemplo bem-sucedido é Mulher Maravilha (2017); outro não tão bem recebido foi Liga da Justiça, lançado no mesmo ano. Felizmente, Aquaman se aproxima mais do primeiro e acerta no equilíbrio entre os elementos narrativos, conferindo grandeza à origem e mitologia do herói, ao mesmo tempo em que proporciona uma trama ágil (a despeito das mais de duas horas de duração), agradável, divertida e até romântica, encontrando seu tom e cumprindo exatamente o que promete. E o melhor: tornando atraente e até mesmo instigante tudo aquilo que já foi considerado ridículo pelos haters do personagem – seja o visual, repleto de escamas pelo corpo, ou a habilidade de se comunicar com peixes e outros animais aquáticos, dentre outras de suas clássicas características.

Nascido Arthur Curry, um híbrido de atlante com humano, o Aquaman é filho de Atlanna, uma poderosa rainha do reino submerso de Atlântida, com Tom Curry, um faroleiro. Ambos se conhecem ao acaso, durante uma terrível tempestade noturna que leva Atlanna para o farol em que Tom trabalha. Obviamente, um desperta no outro sentimentos que superam as diferenças entre suas raças e eles dão à luz um filho, fruto dessa união. Algo bem clichê, mas que funciona nas HQs – onde o herói teve sua história recontada diversas vezes, sendo essa a versão mais atual – e, para surpresa dos mais céticos em relação ao personagem, funciona na tela também. Sob as ameaças de seu reino que a reivindica e orquestra até mesmo um ataque ao homem que ama e seu filho, Atlanna se vê forçada a abandonar a família que acabara de construir na Terra, retornar à Atlântida e tomar parte em um casamento arranjado com o rei Orvax por questões exclusivamente políticas. Sua origem é contada de maneira rápida, sem muita embromação, o que torna o início do longa um tanto quanto acelerado; no entanto, favorece o polo principal, que é a disputa entre o mestiço Aquaman e Orm, o filho legítimo concebido por Atlanna e Orvax, ao trono de Atlântida. A jornada de um relutante Arthur Curry que, a princípio, nem mesmo se acha digno do trono, atravessa céu, terra e mar, incluindo o deserto do Saara, Sicília (na Itália) e outros reinos distantes no fundo do mar, onde o mestiço coleta pistas, conhecimento, inimigos e diversas lutas corporais em busca do tridente de Atlantis.

Trata-se de uma narrativa simples e bem fundamentada, que jamais perde o senso de diversão e fantasia. De exuberante temos os cenários e o excelente emprego do CGI aliado à fotografia e à paleta cromática assertiva em seus tons vibrantes. As sequências que se passam no fundo do mar são primorosas, além de criativas. O grande destaque de Aquaman é justamente o design de produção acurado, que garante cenas visualmente impressionantes mesmo carregadas de reverência. No entanto, até isso é funcional, pois dá uma ideia mais precisa da imensidão daquele universo subaquático, repleto de criaturas fabulosas e composto de diferentes reinos e raças que corroboram a construção da mitologia do personagem no cinema, ofertando inúmeras possibilidades para futuras continuações.

A ação é turbinada com tiros, explosões, perseguições e sequências de lutas intermináveis que agradam em cheio aos fãs do gênero, enchendo os olhos daqueles que curtem um bom espetáculo pirotécnico. O elenco, além de afinado, mostra competência, levando a sério seus papéis mas, ao mesmo tempo, mostrando o quão divertido é estar na pele dos personagens. Jason Momoa, intérprete do protagonista, esbanja carisma e presença de cena. O ator divide a tela, durante a maior parte do tempo, com a destemida Mera, vivida por Amber Heard. A química entre o duo principal é certeira. Completam o elenco o sempre ótimo Willem Dafoe, como Vulko; Nicole Kidman, como Atlanna; e Patrick Wilson, interpretando Orm.

Dentre os deméritos estão o excesso de flashbacks acompanhados de voice-oversexpositivos de modo a elucidar a história (um recurso infalível porém enfadonho e para o qual o cinema, infelizmente, ainda não encontrou substituto); além da música incidental e a trilha sonora como um todo que, apesar de temas marcantes e algumas excelentes canções, é mal pontuada, excessiva e até mesmo artificial em determinadas sequências.

Ainda que fique aquém de Mulher-Maravilha, a melhor produção da DC/Warner até agora, o longa que leva o nome do herói fez muito mais por Aquaman do que apenas lhe devolver seu crédito perdido. O filme dirigido por James Wan é uma perfeita combinação de ação e fantasia, com um estilo até old fashion, envolvente e divertido. Com certeza, vale o ingresso.