Movies

As Viúvas

Diretor Steve McQueen justapõe contornos dramáticos a empolgantes cenas de ação e perturba o espectador em seu novo filme

widows2018

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Fox/Divulgação

História de um grupo de assaltantes iniciantes que se reúne para executar aquele roubo à mão armada que vai salvar suas vidas de pendengas financeiras não é novidade no cinema. As Viúvas (Widows, Reino Unido/EUA, 2018 – Fox) , porém, traz uma diferença a esta premissa: junta nesta quadrilha sem experiência alguma no submundo do crime mulheres entre os trinta e cinquenta anos que acabaram de perder seus maridos, criminosos “assumidos” ou ainda “no armário” para a família, e receberam de “herança” dívidas que serão cobradas em breve por um cruel contraventor de uma região mais pobre da cidade de Chicago. Enquanto elas se decidem por botar a mão na massa para salvar as suas peles, duas raposas do cenário político local passam a se digladiar nos bastidores de uma eleição que em breve poderá lhes dar mais ainda mais poder em seu próprio território.

Adaptado para o cinema pela afiada dupla Steve McQueen (também assinando a direção deste longa) e Gillian Flynn (autora de Garota Exemplar e Lugares Escuros, ambos thrillers assustadores tanto nas páginas literárias quanto na grande tela) de uma série de TV escrita pela atriz, roteirista e escritora britânica Lynda La Plante, este longa-metragem prende o espectador com seus muitos contornos dramáticos permeando as cenas de ação. Se estas são de tirar o fôlego, aquelas são de levar as pessoas do compadecimento à revolta.

Ninguém é inteiramente vítima ou vilão na história. Nem os maridos assassinados pela polícia em uma ação onde tudo deu errado, nem as viúvas que decidem também se aventurar pelo crime. Nem o candidato representante da elite branca e rica, nem o rival negro e pastor de uma igreja evangélica frequentada pelos moradores pobres da área que domina. Nem o filho mimado e seu pai corrupto, nem o capanga sangue frio e seu irmão gângster. Chantagens, balas disparadas à queima-roupa, lobbies, trapaças, mentiras, intrigas, cinismo e ameaças à integridade física convivem com ações de sororidade, desesperos de mãe, a humilhação de passar por seguidos atos de abuso, o sentimento de solidão após o luto e o sofrimento de passar anos a fio pela manipulação da própria família. Discussões sobre gênero sexual, racismo, religião e abuso de poder e autoridade acabam ganhando quase o mesmo peso conforme a trama vai se desenvolvendo, fazendo com o que o tal assalto preparado pelas viúvas venha a ser apenas mais elemento dela, não o mote principal. Claro que reviravoltas acontecem durante este tempo, o que torna o filme ainda mais delicioso.

A hábil mão do diretor McQueen – que não ganhou o Oscar de sua categoria em 2014 mas viu seu 12 Anos de Escravidão levar o prêmio principal da noite – acrescenta sutis detalhes à história de La Plante. Recorre a linguagens distintas no tratamento da perspectiva pela qual o espectador vê homens e mulheres na tela. Abusa de bela fotografia, capaz também de apostar em planos-sequência matadores, e ainda brinca com a montagem desde o início da sessão, intercalando momentos de passado e presente, reflexão e ação. E, o principal de tudo, não leva seu filme a tomar partido de qualquer lado: deixa para que quem estiver vendo faça seus próprios julgamentos baseados em suas crenças, convicções e experiências de vida.

Não bastasse tudo isso, o elenco é de primeira. Viola Davis, mais uma vez, brilha nas telas na pele da protagonista Veronica, a chefe da nova quadrilha. Aos poucos, seja como personagens coadjuvantes ou ainda participações menores mas com importância em algum ponto da trama, surgem Liam Neeson, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Carrie Coon, Cynthia Erivo, Robert DuVall, Colin Farrell, Bryan Tyree Henry e Daniel Kaluuya.

As Viúvas provoca impacto do começo ao fim, não deixa quem o vê sair levantar impassível da poltrona e, sobretudo, mostra que é possível, sim, fazer bom cinema baseado em uma sinopse que pede ação, muita ação. Chega aos cinemas já com cheirinho de várias indicações ao Oscar 2019 e outras importantes premiações da temporada.

Music

Built To Spill – ao vivo

Em Belo Horizonte, Doug Martsch leva os fãs ao delírio tanto em show solo acústico quanto acompanhado por sua banda na noite seguinte

bult to spill 2018 minas

Texto e foto por Douglas Dickel

Com 26 anos de carreira, o Built To Spill, banda americana do estado de Idaho, veio ao Brasil pela primeira vez, com passagem por Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo neste começo do mês de novembro. Na capital mineira, o show teve dois atos. O primeiro foi na quarta-feira, dia 7. Foi uma apresentação acústica de Doug Martsch, que é compositor, vocalista, guitarrista e “dono” do BTS. O cenário? Do Ar, um bar novo que fica em uma casa antiga de dois andares, com vários cômodos e um belo pátio com uma piscina vazia coberta por uma rede com almofadas. Como abertura, a banda Valv também tocou músicas suas com voz e violão.

O segundo ato, no dia seguinte, foi com o Built To Spill propriamente dito, no Automóvel Clube de Minas Gerais. O clube é um dos mais tradicionais da cidade, com estilo de teatro clássico, incluindo lustres luxuosos e uma placa registrando a presença, em 1931, do pai da rainha Elizabeth II, o Príncipe George. O evento era o festival Música Quente – promovido pelo coletivo belorizontino Quente, que atua como selo e produtora. Nesta noite também se apresentaram as brasileiras Young Lights, Câmera, Metá Metá e Rakta – sendo que as únicas (incluindo o Valv) com músicas cantadas em português foram as duas últimas.

A primeira apresentação, no Do Ar, permitiu ver de perto o já quase cinquentão Martsch pintando no ar as doces melodias de sua voz aguda, com uma suave rouquidão de quem está cantando calmo, para um público intimista. Ele é tímido para aplausos. Mesmo sentado, mexe-se com intensidade e maciez para tocar seu violão, com ênfase em dançantes cabeça, boca e pernas. As pessoas presentes observaram a performance em silêncio de deleite e respeito. Podemos dizer que a noite foi de um show gracioso, com direito a cover de “Ashes To Ashes”, de David Bowie; “Harborcoat”, do REM; e “Civilian”, do Wye Oak – esta com a voz de uma sortuda convidada, Isabela Georgetti.

No Automóvel Clube, a formação que subiu ao palco foi um trio, mas a solidão da guitarra de Martsch foi um problema para o ouvido dos fãs. Faltou a guitarra que dedilhava ou que fazia uma base para os solos do líder. A formação variou, desde a criação do grupo, inclusive quanto ao número de integrantes, sendo que o mais comum foram quatro músicos – com dois guitarristas (Doug e mais um). Outro ponto negativo foi a acústica do local. Havia eco e o som estava abafado, talvez como consequência de o palco ser baixo, o que também dificultou a visualização do show pelo público. Mas esses dois problemas, claro, foram perdoados. Afinal, ali estava o Built To Spill, e Doug Martsch parece ser uma pessoa amável e apaixonada pela música.

O grande sucesso “The Plan” aqueceu a plateia. Mas a primeira música que realmente enlouqueceu os fãs foi “Carry The Zero”, fazendo o público cantar em coro e fazendo uma horda de braços empunhar celulares para gravar a canção em vídeos. Já para a minha memória emocional, o primeiro arrepio veio em “I Would Hurt a Fly”, do trabalho de 1997, Perfect From Now On, o primeiro lançado por uma grande gravadora, a Warner, que possibilitou a produção necessária para que os discos fossem “perfeitos dali para diante”. Também desse impecável álbum, primeira faixa, a banda tocou, no bis, “Randy Described Eternity”, uma ventania de energia em forma de ondas sonoras, voz e guitarra formando juntas um grande sopro mágico.

“Liar” também foi bastante celebrada quando apareceu no set list. Um magrinho cabeludo, talvez o mais enfático admirador da banda presente nos dois dias, saiu correndo e gritando em direção ao palco nesse momento. Eu havia trocado algumas palavras com ele na noite anterior. O amigo, que disse estar numa pior por causa do fim de um relacionamento, queria muito ouvir “Liar”. Então, quando o trio começou a tocá-la, ele foi à forra.

“Goin’ Against Your Mind”, música de 2006, foi unânime nos pedidos da plateia, mas não chegou a entrar no repertório da banda em Minas, talvez pela questão do número de guitarras. “You Are” é um hit que eu achei que ouviria, só que também não apareceu.

Built To Spill talvez tenha sido, entre as minhas bandas de predileção afetiva, uma daquelas que eu pude ver mais de perto, fora de eventos gigantescos. Outro presente que 2018 me trouxe foi o show solo do Lee Ranaldo que presenciei no Teatro da Unisinos (Porto Alegre), em agosto. Curiosamente, houve dois atos também, sendo que o primeiro foi uma sessão de autógrafos e uma pequena conversa no Agulha, que funciona como bar e casa de eventos, num antigo galpão industrial. Este foi um bom ano musical, apesar da política.

Set list 07.11: “Window”, “Gone”, “Dream”, “Offer”, “When Not Being Stupid Is Not Enough”, “Planned Obsolescence”, “Fling”, “Rock Steady”, “Ashes To Ashes”, “Tomorrow”, “Alright”, “Else”, “Until Tomorrow Then”, “Good Enough”, “Understood”, “Fool’s Gold,”, “Harborcoat”, “True Love Will Find You In The End”, “The Weather”, “Civilian” e “Liar “.

Set list 08.11: “Three Years Ago Today”, “In The Morning”, “The Plan”, “Hindsight”, “Living Zoo”, “Time Trap”, “So”, “Reasons”, “I Would Hurt A Fly”, “Some Other Song”, “Strange”, “Kicked It In The Sun”, “Carry The Zero”. Bis: “Liar”, “Randy Described Eternity” e “Car”.

Music, Videos

Clipe: Secret Society – The Architecture Of Melancholy

Artista: Secret Society

Música: The Architecture Of Melancholy

Álbum: single (2018)

Por que assistir: Sociedades secretas são associações cujos iniciados têm acesso a determinados rituais, códigos e conhecimentos que não devem ser compartilhados com todo mundo, ficando tudo restrito apenas a seus líderes e membros. Maçonaria, Ordem Rosacruz, Illuminati e Sociedade Teosófica são famosos exemplos destes misteriosos grupos ao longo da História. Há menos de dois anos nasceu na capital paranaense uma nova Sociedade Secreta. Entretanto, esta se difere justamente pelo objetivo de ser conhecida pelo maior número de pessoas possível. Na verdade, é uma banda com este nome em inglês. Liderado por uma das figuras mais carimbadas do rock curitibano, o baixista e vocalista Guto Diaz, o trio acaba de lançar seu primeiro videoclipe, antes mesmo de disponibilizar suas músicas em plataformas de streaming e redes sociais – o que deve ser feito em breve, até o final deste mês de julho. Guto juntou-se novamente ao baterista Orlando Custódio e o guitarrista Fabiano Cavassin (com quem já tocara por muitos anos no Primal…, grupo que representou e muito bem a vertente heavy em Curitiba nos anos 1990 e 2000) para criar esta Secret Society sob as benção do hard rock mais underground e do post-punk mais pesado (por causa da maior presença das guitarras) e menos dançante e percussivo na bateria. Serão lançados três singlesde uma vez só. O primeiro deles a ganhar clipe é “The Architecture Of Melancholy”, cujo título foi inspirado pelo arquiteto e teórico italiano Aldo Rossi (que abraçou a Fenomenologia da Arquitetura e é o autor do projeto do Cemitério de Modena, cuja fotografia também estampa a capa do single desta música). Sob a direção do também músico, cantor e compositor Rapha Moraes (hoje em carreira solo e ex-integrante das bandas Nuvens e Polexia), as imagens traçam um paralelo entre as arquiteturas dos mortos e dos vivos, os primeiros em sua solidão nos túmulos dos cemitérios e os outros marcados pelo mesmo elemento, nos prédios e avenidas da cidade grande. Enquanto isso, a melancolia, personificada em cena por uma atriz, passeia livremente entre os dois territórios. A sonoridade desta música – e das demais da banda, que serão apresentadas na sequência – é fortemente marcada pelo lado mais misterioso e soturno do post-punk da primeira metade dos 1980. Entre as maiores influências assumidas por Guto estão tanto ícones do gênero na sombria Inglaterra (Killing Joke, Bauhaus, Cult, Sisters Of Mercy) quanto na ensolarada Los Angeles (Gun Club, Christian Death). Esta música representa o primeiro lançamento do novo selo/produtora de Curitiba, a Red Records.

Music, Videos

Clipe: Florence + The Machine – Big God

Artista: Florence + The Machine

Música: Big God

Álbum: High As Hope (2018)

Por que assistir: Madrugadas de festa contínua, bebedeira, drogas, crises familiares e o seu amor sem fim por locais situados na região Sul de Londres. Estes são os pilares básicos do novo álbum de Florence Welsh. Aos 31 anos, a cantora ruiva de pele alva lança seu quinto trabalho de estúdio ainda mais minimalista no seu som, porém sem abrir mão das letras poéticas e cheias de metáforas. “Big God”, segunda faixa do disco a ganhar videoclipe, é a reunião das memórias, alma e piano de Florence. Os versos, que falam sobre deus e Jesus, podem ser interpretados como alentos de fé e esperança em dias melhores que estão por vir. A conversa íntima com o Altíssimo (que por vezes parece que insiste em não ouvir ou dar respostas) rendeu um belo trabalho de videodança, dirigido pela fotógrafa Autumn DeWilde (Elliott Smith, Panic! At The Disco, Spoon, Death Cab For Cutie) e corégrafo por Welsh e o bailarino contemporâneo Akram Khan. Florence justifica a ideia dizendo que, ao compor a faixa, sempre a sentiu algo de muita força física. Por isso, sob véus coloridos e sobre um dos elementos da natureza, água, ela e outras oito mulheres constroem passos de resistência contra a opressão e procurando a liberdade a qualquer custo, como um desejo poderoso que se forma dentro de um vazio para se transformar em fúria, revolta e maravilhamento. E ainda chegam a levitar. Entretanto, a própria artista já evidenciou que também existem entrelinhas na letra de sua canção – que pode também se refeir ao sentimento de solidão e solitude que podem irromper dentro de qualquer ser humano nesta era megatecnológica que vê coletivos sendo erigidos de iniciativas individualizadas e a falta de uma comunicação mais clara, objetiva, direta e sincera entre as pessoas conectadas pelos aparelhos. Ou seja, o ser humano entrando em contato com “fantasmas” de outros seres humanos.

Texto por Abonico R. Smith