Movies, Music

Adoniran: Meu Nome é João Rubinato

Artista conhecido por imortalizar personagens reais de São Paulo em suas  “crônicas sociais do submundo” ganha documentário

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Pandora/Divulgação

Adoniran Barbosa está para São Paulo assim como Noel Rosa está para o Rio de Janeiro. O filho de imigrantes italianos nascido em Valinhos, cidade perto de Campinas, no interior do estado, imortalizou a capital mais cosmopolita do país e tornou-se um de seus mais populares cronistas. Retratava em versos a imagem sem filtros do cotidiano de um povo trabalhador, do imigrante, do caipira e do crioulo, todos com pouco acesso à educação. Ele mesmo abandonou os estudos para entregar marmita e ajudar a família no sustento. Por isso suas letras cheias de erros de português (“nóis fumo”, “nóis vortemo”, “adifício”, “frechada”, “taubua”), foram barreira para que as composições emplacassem no rádio.

Não há como cantar São Paulo sem lembrar dos sambas genuinamente paulistas, interpretados pelo Dêmonios da Garoa, como “Samba do Arnesto”, “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca” e “Tiro ao Álvaro”, esta imortalizada na voz da também saudosa Elis Regina. Não há como passar por locais como Brás, Bixiga, Mooca, Lapa, e, claro, por Jaçanã sem se lembrar de Adoniran, que nasceu João Rubinato em 1910, mesmo ano de Noel. Foi com “Filosofia”, samba do Poeta da Vila, que o artista emplacou a carreira depois de ter sido desclassificado de concursos por causa da voz fanha que foi se tornando cada vez mais rouca, machucada pelo álcool e cigarro, seus parceiros fieis até a morte em 1982. Morreu pobre, deixando de herança apenas uma casa, e quase esquecido. Boêmio por natureza, Adoniran foi se entristecendo cada vez mais com o progresso da sua musa São Paulo.

É a partir da morte do artista que começa o documentário do diretor e roteirista Pedro Serrano, Adoniran: Meu Nome é João Rubinato (Brasil, 2019 – Pandora). O filme, que conta como João virou Adoniran e resgata a memória de um dos mais populares cancioneiros do Brasil, segue em cartaz no Cine Passeio em Curitiba, sendo uma ótima pedida para assistir neste carnaval. Afinal, “Trem das Onze”, um de seus maiores sucessos, foi a grande premiada no carnaval do Rio de Janeiro de 1965.

Fã de carteirinha do compositor paulista, Serrano já havia homenageado o sambista no curta-metragem Dá Licença de Contar, no qual Paulo Miklos dá vida ao compositorPara o documentário, o cineasta fez uma vasta pesquisa sobre a vida e obra de Adoniran, resgatando imagens raras de arquivo, reportagens publicadas em jornais da época e entrevistas a programas de televisão (como a Fernando Faro no Ensaio). Também há o depoimento de personagens fundamentais na carreira e vida do sambista: familiares, amigos, produtores, parceiros (como Carlinhos Vergueiro), o autor da biografia do compositor (Celso de Campos Jr) e, claro, do conjunto Demônios da Garoa, que impulsionou a obra de Adoniran.

O diretor opta por uma linguagem tradicional, simples, assim como era Adoniran, que quando jovem foi entregador de marmita, balconista, garçom até começar a frequentar programas de calouros da rádio Cruzeiro do Sul. Com sua veia para comédia, o artista, além de cantar, atuava em radionovelas e dava vida a personagens como um chamado Charutinho. Participou de filmes e novelas na Record e Tupi, sempre encarnando os personagens da vida real, fazendo a “crônica social do submundo” (expressão que estampou uma notícia de jornal).

O documentário recupera preciosidades – um poema que o cantor Antônio Marcos escreveu na ocasião da morte do compositor – e relembra encontros com Elis Regina e Clementina de Jesus, além da parceria de anos com Osvaldo Moles. Serrano vai em busca de causos pitorescos, como as várias versões que cercam os versos de “Samba do Arnesto”. Aliás, o tal Arnesto é um dos entrevistados.

Tal qual nos sambas de seu ídolo, o diretor mostra imagens de São Paulo através do tempo, dos anos 1930 aos 1980, sobrepondo-se às letras das canções, cujos erros atraíram críticas de gente importante como Vinícius de Moraes (alias, Adoniran mais tarde musicou um poema do Poetinha!). A reputação foi aliviada por conta do texto do intelectual Antônio Cândido na capa do LP em homenagem aos 70 anos do sambista, em que Elifas Andreato retratou o sambista como um palhaço triste.

Serrano faz um belo serviço ao resgate da memória musical brasileira, mas poderia ter acrescentado a essa homenagem mais uma personagem: a voz do próprio povo paulistano, matéria-prima da obra eterna de Adoniran Barbosa/João Rubinato.

Movies

Judy: Muito Além do Arco-Íris

Renée Zellweger entrega uma fantástica performance em cinebiografia que retrata o conturbado último ano de vida da estrela de O Mágico de Oz

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Judy Garland continua brilhando no inconsciente coletivo mesmo após meio século de seu falecimento. É o que revela Judy: Muito Além do Arco-Íris (Judy, Reino Unido, 2019 – Paris Filmes), longa-metragem que aborda o último ano da vida da estrela enquanto ela fazia estadia em uma casa de shows em Londres tumultuada pela bebida e pelo vício em remédios. Além de um pedaço da história dela, o filme mostra uma estrela se apagando aos poucos.

A cinebiografia apresenta diversas faces de Judy. Tem a mãe, a artista, a ex-esposa, a garota-prodígio, a estrela decadente, a amante frágil, a mártir e, a mais marcante, a mulher que acredita que sua própria identidade era mais um de seus inúmeros personagens. Em um momento do filme, a atriz aparece dando uma entrevista na Inglaterra em que afirma que era Judy Garland por apenas uma noite, depois era uma pessoa comum com uma família e que queria ser feliz. A declaração permeia o filme como um norte. Judy Garland não queria ser estrela o tempo todo, só que precisava disso. E não apenas por dinheiro, mas porque a fama era quase como um comprimido.

Renée Zellweger encarna a protagonista em uma interpretação por vezes doce e simpática e outras conturbada e explosiva. A atriz emagreceu e dedicou-se a aprender maneirismos específicos de Garland. Por isso, entrega a melhor atuação de sua carreira e torna-se o ponto alto e absoluto do filme.

Judy não inova e segue um formato bastante quadrado. O roteiro não ajuda. Um texto mais ambicioso poderia ter tirado o filme da zona de conforto da biografias. As inserções do passado da atriz são um pouco confusas e por vezes quebram o ritmo do filme, mas a história sai da mesmice em sua linda cena final.

Uma grata surpresa é a delicada menção da importância do público LGBT na carreira de Judy Garland. Considerada o “Elvis” dos gays, a atriz se tornou um símbolo da comunidade, principalmente por conta de seu papel em O Mágico de Oz, no qual pregava o amor e aceitação às diferenças. Em épocas mais repressoras, era comum que os gays nos Estados Unidos se identificassem entre si usando os códigos “amigo da Judy” ou “amigo da Dorothy”.

Judy: Muito Além do Arco-Íris encontrou uma forma tocante e digna de contar a triste história de uma das maiores estrelas de Hollywood. O maior legado do filme, juntamente dos prêmios merecidamente vencidos de Renée Zellweger, é mostrar a luta de uma estrela infantil em sua vida adulta e como as consequências do estrelato precoce podem afetar profundamente uma pessoa. Judy Garland teve toda sua vida controlada por homens, executivos, estúdios, empresários, remédios, bebida. Muito famosa desde muito jovem, nunca conseguiu conquistar independência completa, fosse ela profissional ou emocional.

Music

Seu Jorge – ao vivo

Cantor deixa o groove de lado em Curitiba e faz uma bela apresentação contida e minimalista mas nem por isso menos animada

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Texto e foto por Janaina Monteiro

A música popular brasileira é recheada de Jorges. Tem o Ben Jor, com seu genial samba rock. O Mautner, do maracatu atômico. O Vercilo, das canções românticas. Outro Jorge não leva sobrenome artístico, mas é dono de uma voz tão potente e de uma história de vida tão incrível que alcançou os quatro cantos do mundo. Este Jorge usa apenas um pronome de tratamento na frente, abreviação de Senhor. Seu Jorge foi Nosso Jorge em Curitiba no primeiro dia de agosto de 2019, onde apresentou um “senhor” show de voz e violão, acompanhado pelo sambista e mestre do cavaquinho Pretinho da Serrinha.

Quem está acostumado com o groove de Seu Jorge, tendo inclusive um naipe de metais, conheceu um outro lado do multiartista. Ele, Pretinho e mais um DJ chegaram de mansinho e conduziram uma apresentação contida, mas nem por isso pouco animada. Em se tratando de Seu Jorge, mais pra quê? Sentado ou de pé, ele tem suingue e seu vozeirão é suficiente para animar a plateia. Mesmo minimalista, o cantor conseguiu dar sentido a um repertório eclético – capaz de reunir o que há de melhor no terreno da música popular – e marcado por contrastes. Vai de samba de raiz, cover de Racionais MCs, revival de canções do Farofa Carioca (banda da qual ele era integrante nos anos 1990), clássicos da bossa nova e até Tim Maia no derradeiro número. Houve, claro, alguns tropeços, tanto por conta do comportamento da plateia quanto da estrutura do set list. Mas nada que tolhesse o carisma e a competência do artista que enaltece o cotidiano das “minas” e dos “manos” para um público repleto de “burguesinhos” e “burguesinhas”.

Essa discrepância já tomava forma na chegada à Ópera de Arame, onde o público era recepcionado por música clássica (para combinar com o nome do local!) até o início do show, às 21h15. O erudito, então, deu a vez ao samba e suas vertentes. E a luz negra que iluminava o teatro se refletiu no palco. Seu Jorge entrou vestido com calças e agasalho amarelos, como um leão, e logo agarrou uma xícara de chá – com sachê à mostra – para espantar o frio (e olha que aquela não foi uma das noites mais geladas neste inverno curitibano).

Em instantes, engatou clássicos da MPB e quebrou a expectativa de todos, que cantaram “Samba da Minha Terra”, de Dorival Caymmi, e a sua “Carolina”. Mesmo sentado, Jorge dava vazão à famosa malemolência dos sambistas, charme que deixava um grupo de amigas, atrás de mim, derretidas. Em vez de cantar, elas não paravam de rasgar elogios à “pérola negra”. “Ah, eu pegava ele”, dizia uma delas…

A terceira canção foi “Negro Drama”, dos Racionais. Na plateia, um grupo de mulheres negras se levantou e empunhou as mãos para cima. Jorge aproveitou a ocasião para lembrar a presença feminina no samba, dando o exemplo de Leci Brandão. “As mulheres estão no front agora”, disse. Foi um dos únicos momentos contestadores em que o artista se levantou da cadeira e largou o violão. Depois seguiu homenageando a Mangueira com um samba de Cartola, “Preciso me Encontrar”, e “Você Abusou”, de Antônio Carlos e Jocafi. Reverenciou, também, João Gilberto num momento especial, ao convidar sua filha Flor de Maria para cantar “Retrato em Branco e Preto”. Foi uma doce homenagem a um dos pais da bossa, apesar de a composição ser de Chico Buarque e Tom Jobim. “Mas esta música estava no repertório de João”, justificou o cantor. Também foi chamado ao palco o trompetista Azeitona (Paulo Henrique) com um belo porém quase inaudível solo.

Logo que as músicas mais animadas começam a invadir o teatro, a plateia – jovem ou idoso, branco ou negro – deixava a timidez de lado e se levantava para sacolejar. Menos ele, Jorge, que continuava sentado, tocando seu violão, escorregando num acorde vez ou outra.  Então, a Ópera se enchia de boemia, alegria e simpatia do músico, que conversava sem parar, contanto causos sobre música. Só faltavam mesmo a mesa de bar e o churrasco. Porque a bebida não era problema para os presentes, apesar da restrição clara no ingresso.

Quando chegou a hora do sucesso “É Isso Aí” (versão de “The Blower’s Daughter”, tema do filme Closer – Perto  Demais), Jorge mostrou que dá conta do recado sem Ana Carolina. Cantou com tanto vigor que, provavelmente, os versos foram ouvidos em toda a vizinhança. Apesar de quase engolir o microfone, sua voz não agredia, apenas abafava a do público que tentava acompanhá-lo.

Para a alegria dos fãs, cantou “Quem Não Quer Sou Eu”, “Tive Razão”, “Amiga da Minha Mulher” (dando um show de interpretação!), “Mina do Condomínio” e “Burguesinha”. De covers teve também “Mas Que Nada” (do então Jorge Ben e que ficou conhecida no exterior com Sérgio Mendes) e “Chega de Saudade”, marco inicial da bossa nova, feito por Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

E veio mais bossa no bis. Parte do público que já estava aquecido – como as “burguesinhas do condomínio” que estavam atrás de mim – não conseguiu entrar no clima de “S’Wonderful” e “Dindi”. Muitos conversavam em voz alta, de pé, ensejando pedidos de silêncio. Seu Jorge permanecia compenetrado, dedilhando seu instrumento. Outros foram embora antes mesmo do gran finale. Estes perderam a contagiante “Felicidade” (ou nossa versão tupiniquim de “Happy”), do álbum Música Para Churrasco II, e “Não Quero Dinheiro”, clássico de Tim Maia. Só no finalzinho é que o cantor ficou em pé e deu aquela sacudida no estilo James Brown, ao som do genuíno funk.

Seu Jorge, batizado assim pelo falecido Marcelo Yuka, tem sobrenome, sim senhor: ele é Jorge Mário da Silva. Goste dele ou não, o fato é que o músico representa um tremendo case de sucesso. Negro, pobre, nascido em Belford Roxo, região metropolitana do Rio de Janeiro, ele perdeu o irmão assassinado e, depois disso, passou três anos vivendo como mendigo. Lembro que fiquei impressionada quando assisti a uma entrevista dele no programa do Jô Soares (ainda nos tempos de SBT) na qual relatava como fora resgatado das ruas e entrara em contato com a música e o teatro, até se tornar um dos artistas brasileiros mais conhecidos mundo afora, inclusive com diversas atuações no cinema nacional (como em Cidade de Deus) e internacional (A Vida Marinha Com Steve Zissou, dirigido por Wes Anderson, para o qual escreveu catorze versões em português do repertório de David Bowie). Aliás, a vida de Jorge daria um belo filme. Radicado nos Estados Unidos, ele, há anos, viaja o mundo representando a música popular brasileira.

Music

Animal Collective – ao vivo

Representado por Panda Bear e Avey Tare grupo recria na íntegra, em Belo Horizonte, o instigante álbum Sung Tongs

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Texto por Danilo Kowalsky

Foto: Francisco Rocha/Queremos!/Divulgação

Quando ouvi o álbum Sung Tongs, do Animal Collective, pela primeira vez, em 2004, tive uma sensação mista de estranheza e familiaridade. Mas já volto a este assunto.

Não havia muita coisa no cenário de bandas novas que chamava minha atenção ali em 2003/2004. As bandas estavam desesperadamente buscando de reinventar em termos de som e de formato mas ao mesmo tempo queriam voltar a agradar os ouvidos de quem gostava de shows, de canções e de refrãos. Os resultados dessa busca não estavam lá muito empolgantes. Tudo andava meio insípido. E eu, consequentemente, estava bem mais interessado nas novidades instigantes e inovadoras que vinham do cenário da música eletrônica, de selos como Rephlex e Warp, por exemplo.

Volto agora ao assunto da estranheza e familiaridade simultâneas. Ora, não seria isso algo realmente bom para motivar os interesses? A excitação e os disparos sinápticos provocados pelo inesperado, mas que não chegam chutando a porta. Chegam macio, caramelizados pelo conforto do familiar, com algo de terreno já pisado.

A estranheza de Sung Tongs deixava claro que aquele som não caminhava na mesma direção da maioria das bandas alternativas ou da cena indie rock, americanas ou europeias, da época. Apesar do violão ser um instrumento central em Sung Tongs, aquilo ali não era bem uma releitura de folk. Não era também uma releitura jovem e escolarizada do country, que costumam chamar de alt-country. A estranheza talvez tenha vindo de um certo formato, pelo menos nos arranjos e nas modalidades das canções, que me lembrava de bandas como Sun City Girls. Estavam ali a modalidade musical/harmônica, as vocalizações, as onomatopeias bucais, a aliteração, a paranomásia e outras figuras vocais não usuais na canção ocidental que evocam as línguas de outros povos e também de outras culturas musicais. Talvez daí venha o nome deste disco — numa tradução livre, “línguas cantadas”.

Mas e o familiar? O que ali naquele som me trazia a familiaridade? A estranheza foi relativamente fácil de apontar, mas o lado acalentador e confortável estava mais difícil. E assim foi se construindo a vontade de continuar a ouvir o Sung Tongs. E depois mais uma vez. De novo. Até que…

A ficha caiu! Pet Sounds. Beach Boys. Brian Wilson. Estava ali se derramando em excelentes camadas de estéreo nos meus ouvidos e eu ainda não havia percebido. Harmonias vocais construídas belissimamente. Aquele fluxo harmônico flutuando em volta dos ouvidos que quase dá pra sentir com a mão. Aquele tipo de vocalização que se tornou praticamente uma vertente na música americana. E, claro, um tipo particular de psicodelia. Tipo particular de psicodelia que talvez tenha sido mesmo inventada ali, no Pet Sounds dos Beach Boys de Brian Wilson.

Foi isso, então, o que me fez gostar tanto do Sung Tongs. Em meio a toda a insipidez da cena alternativa na época, aparecia ali um disco luminoso. Um som instigante que continha o estranho e o inesperado calçados pela harmonia acalentadora. Mesmo quando Sung Tongs fica ríspido e soturno, há sempre algo costurado, na bela mixagem do disco, que aponta antenas e radares para o longe, mas que também lança raízes no solo da era de ouro da música pop ocidental.

Por isso tudo eu estava realmente ansioso pela chegada do Animal Collective com a celebração dos 15 anos do Sung Tongs em Belo Horizonte. E apreensivo também. A possibilidade do show apareceu pelo Queremos! e já fiquei imaginando como seria a recepção a um grupo tão pouco conhecido no Brasil. Certamente deveria ser um show pequeno num lugar pequeno, imaginei. Tudo se confirmou e eu fiquei surpreso ao saber que o show seria, na verdade, em uma casa de médio porte da cidade, o Music Hall, que comporta bem mais de mil pessoas. Ingresso comprado. Agora era esperar o último dia 26 de agosto. Ansiedade deixada de lado (por enquanto).

Chegou o dia do show. Nenhuma eletricidade no ar. Nenhum burburinho. Eu — meio elétrico. Ansiedade crescia. Como seria? E os efeitos eletrônicos? E os efeitos de estúdio que são tão importantes em toda a ambiência do disco? A atração de abertura não me interessava tanto e acabei chegando ao local e fiquei ali, perto da entrada, papeando, especulando mentalmente como seria o show que estava por começar. O lugar estava vazio; já se via. Isso trazia aquela sensação de que não teríamos uma experiência com pouco calor de som e de corpos.

Panda Bear e Avey Tare entraram no palco. Eu não vi nenhum sampler e nenhum outro tipo de auxílio eletrônico. Imediatamente ficou claro que toda aquela profusão de camadas de violão e de sons e de efeitos de Sung Tongs seria executada pelos dois apenas. Em tempo real, “no braço”, ali. Menos da metade da pista estava ocupada pelo público. As alas laterais e o mezanino estavam completamente vazios. Animal Collective, certamente, não faz um som de arena para milhares, mas esse vazio de público me causava um certo desconforto.

Começou o show. E veio logo uma música que eu não reconheci (“Tuvin”). O lugar parecia estranhar os primeiros sons. Violões e vocalizações. Nenhuma letra. Nenhuma palavra facilmente inteligível. Nenhuma progressão de acordes tradicional. Fico imaginando se não estavam apresentando o Sung Tongs com um outro arranjo totalmente diferente. Mas essa possibilidade foi embora quando começou “Leaf House”, a abertura do álbum, e, na sequência, a linda “Who Could Win a Rabbit”, segunda música. Duas faixas marcantes, com ritmo mais presente (eles usavam um tambor nas músicas de batida mais forte), com os violões a palhetadas pesadas e as vozes preenchendo tudo. Ambos usavam mais de um microfone; um limpo e outro carregado de efeitos para a voz como eco e delay. O público se empolgou um pouco mais e uma certa energia entre o palco e as pessoas começou a se formar, embora alguma já manifestassem, corporalmente, um certo desinteresse. Essa energia alegre e, ao mesmo tempo, curiosa se manteve na próxima faixa, “Winters Love”. Mas foi perceptível um arrefecimento quando chegou o meio do disco com faixas mais soturnas e menos melódicas, como “Kids On Holiday”, “Sweet Road” e “Visiting Friends”. O pequeno público se dispersou um pouco mais. Alguns indo ao bar comprar mais alguma bebida. Outros se virando para conversar isso ou aquilo. Os celulares iam descendo do ar de volta para os bolsos e bolsas até que não restasse mais nenhum aparelho hasteado. Os aplausos entre as músicas não cessaram, no entanto. Continuaram.

Apesar dos pesares — do pequeno público, da dispersão e dos espaços vazios — um sentimento já emergia: a maioria dos presentes percebeu que ali, naquele palco, o trabalho musical que se desenrolava era de fôlego. Talvez não estivesse suprindo tão bem a expectativa de entretenimento de algumas pessoas. Mas era claro que possuía um conceito forte e também forte determinação artística. Essa sensação foi reforçada com a canção “College, que é uma bela peça vocal de um minuto. Todos ficaram mais silenciosos e se deixaram arrebatar pelo momento “petsoundiano-brianwilsoniano”. Na sequência veio “We Tigers”, uma faixa mais percussiva que retomava um pouco daquela alegria frugal da abertura. E os aplausos entre as músicas continuavam.

As três faixas finais (“Mouth Wooed Her”, “Good Lovin Outside” e “Whaddit I Done Brat”) foram levando o pequeno público, fosse provido de uma ou três cervejas, a manifestações mistas de uma certa descontração dançante ligeiramente ébria tipo “já que estamos aqui” ou a uma dispersão ainda maior. O vazio do lugar e o tamanho do espaço vazio estavam surtindo seus efeitos agora mais que antes.

Logo depois tivemos uma breve comunicação de Avey Tare com o público (se não me engano, Panda Bear nada disse além de “thank you!”), dizendo que ali havia se encerrado a caminhada por todas as músicas de Sung Tongs. Veio, então, um bônus de mais quatro músicas que não reconheci de imediato. Posteriormente soube que se tratavam de duas músicas de um ótimo EP chamado Prospect Hummer (“I Remember Learning How To Dive” e a faixa-título), lançado em 2005; uma ainda não gravada (“Sea Of Light”); e uma outra que está em uma compilação lançada somente em vinil, em 2009 (“Don’t Believe The Pilot”).

Tudo acabou e a pequena plateia rapidamente se pôs para fora do lugar. Em mim ficou a sensação de que uma ótima apresentação perdeu seu potencial. Ou, ainda, teve seus efeitos desvirtuados devido a uma escolha infeliz para o lugar do show.

Sunga Tongs é um álbum com muitas nuances. Cheio de microssons, cheio de camadas de efeitos, vozes, violões, samples. Cheio de onirismo e sutilezas. O lugar grande, com os ecos e ressonâncias indesejadas ocasionadas pelo vazio, só contribuiu para erodir a força de uma apresentação tão bela. Esse tipo de sonoridade pede um lugar mais compacto — em que a imersão seja mais intensa, em que a atenção ao som possa ser maior, em que o som possa ser mais preciso, com mais qualidade e menos volume, a fim de revelar tudo o que pode ser revelado e a fim de cumprir todos os efeitos (sejam eles intencionais ou não). Dessa maneira, som e ambiente adequados contribuiriam muito mais, e melhor, para o afeto do público. Para se ter uma “experiência Animal Collective”.

Voltando um pouco à segunda comunicação de Avey Tare e Panda Bear (se não me engano, houve um “good evening!” lá no início), entre a última faixa de Sung Tongs e as faixas extras (não foi um bis, pois os dois não chegaram a sair do palco): houve um momento de aplausos sinceros e calorosos, como deveria ser. Mas uma alegria não muito cintilante estava no rosto e nos lábios dos dois no palco. Essa alegria moderada talvez fosse o tom correspondente a uma apresentação que, na concepção deles, tenha sido “ok”. Como escrevo esta resenha mais de três meses depois, realmente não me lembro exatamente o que os dois disseram naquele momento final. Mas a reafirmação do motivo do show e do motivo da turnê certamente foi pronunciada: os 15 anos do lançamento de Sung Tongs. Um trabalho importante para eles, sem dúvida. E importante para mim também. Ainda não sei bem quando, nem quantas vezes. Mas sei que irei ouvir Sung Tongs novamente.

Set list: “Tuvin”, “Leaf House”, “Who Could Win a Rabbit”, “The Softest Voice”, “Covered In Frogs”, “Winter’s Love”, “Kids On Holiday”, “Sweet Road”, “Visiting Friends”, “College”, “We Tigers”. “Mouth Wooed Her”,  “Good Lovin Outside”, “Whaddit I Done”, “Prospect Hunter”, “Sea Of Light”, “Don’t Believe The Pilot” e “I Remember Learning How To Dive”.