Music

Kamasi Washington

Trabalhando com conceitos musicais de hoje, saxofonista segue viva a tradição de improvisos de subversão de John Coltrane e Pharoah Sanders

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Texto por Carlos Eduardo Lima (gentilmente cedido por Célula Pop)

Foto: Durimel/Divulgação

Vocês sabem, há o jazz. Sim, o estilo, das glórias do passado, de tantos mestres e tradições. De Miles Davis, John Coltrane, Cannonball Aderley, Bill Evans, gente que entrou para a História do Século 20 – e da música popular – como exploradores, esticadores de limites, fazedores de obras de arte, latu sensu. E, bem, há o jazz enquanto ideia, enquanto forma de pensar a música popular. E é neste segmento de sentido que está Kamasi Washington. Até porque, meus amigos e amigas, não dá pra reproduzir hoje, pleno Século 21, as mesmas condições que proporcionaram o surgimento do jazzdo início do parágrafo, lá por meados do século passado. E Kamasi sabe disso.

É muito fácil vermos músicos que se aplicam em reproduzir as texturas e belezuras do passado, para o deleite de um monte de pessoas que não conhecem o significado do termo “jazz”. Tudo bem, a gente não vai esperar erudição e noção de todos, ainda mais quando é preciso atenção para compreender plenamente que jazz é ir contra convenções e improvisar diante de uma estrutura opressora. Se os músicos mencionados como mestres do estilo enfrentaram todo tipo de discriminação para oferecer uma janela de expressão e liberdade para negros e pobres americanos em outros tempos, tal missão ainda está em validade e a visão de Kamasi entra exatamente aí. Seu sucesso e genialidade estão presos a estas duas interpretações – do jazz como tradição e do jazz como subversão.

Ele traz em si a herança de dois saxofonistas supremos: John Coltrane e Pharoah Sanders, não só em técnica, mas na perspectiva de soltar amarras e buscar expressões ideais. Ambos, especialmente Coltrane, abriram sua visão para atingir uma forma de comunicação com o “divino”. Algumas pessoas hão de lembrar de A Love Supreme, disco que Coltrane lançou no início de 1965, que subvertia estruturas, conceitos e abraçava novos formatos em busca de contato com … algo. É como procurar alguma coisa que não vemos, apenas sentimos e que SABEMOS que está lá. Tal movimento por parte de Coltrane, num tempo – segunda metade dos anos 1960 – em que o jazz buscava modernizar-se em face ao furacão do rock, abriu caminho para novas e geniais criações. Nesta esteira veio Pharoah Sanders, discípulo e gênio ao mesmo tempo. Discos como Elevation (1973) e Karma (1969), este último trazendo o seu maior sucesso, Creator Has A Master Plan, uma espécie de Dez Mandamentos de jazz espiritual para as gerações futuras.

Kamasi Washington entra aí. Ele é um herdeiro desta tradição, mas, como é inteligente e talentoso, sabe que precisa entendê-la no mundo de hoje, 2019. Então, ele insere estas noções na abordagem da música negra via hip hop e eletrônica, atualizando o discurso e as modalidades. Ao mesmo tempo, acrescenta suas próprias impressões, entre as quais estão uma saudável aproximação com a música pop de algumas décadas atrás e de hoje. Também há uma mistura legal de visuais afrofuturistas aqui e ali e a vontade de se inserir em uma linhagem que também comporta o afrobeat e a soul music. Nada em Kamasi parece olhar pra trás e este é um de seus charmes para estar na ordem do dia. Ele parece novo aos olhos e ouvidos de uma maioria de formadores de opinião. Sua abordagem faz remissão direta ao hip hop jazzístico de gente como A Tribe Called Quest, Guru e Digable Planets. Sua música troca os samples pelos sons ao vivo.

Seus dois álbuns são os melhores trabalhos de jazz do Século 21 até agora. The Epic, de 2015, e Heaven And Hell, do ano passado. Tudo ali é tão brilhante e magnífico que fica difícil destacar uma ou outra gravação. Aos ouvidos de gente curiosa e interessada, a experiência de estar diante de uma obra assim deve ser absolutamente transformadora e irresistível.

Agora temos a segunda chance de ver o homem ao vivo por aqui. Depois de passar por Rio e São Paulo divulgando o primeiro disco, Kamasi volta nesta semana para shows no Rio de Janeiro (23), Curitiba (24), Porto Alegre (26) e São Paulo (27) – mais informações sobre os respectivos eventos você tem clicando aqui, aqui, aqui e aqui. E este é um show que não pode ser ignorado. Poucas vezes estivemos diante de um artista em plena forma, criativa e técnica, consolidando seu nome na História. Uma lindeza. Se há um Pantera Negra além do ex-jogador de futebol Donizete, este só pode ser Kamasi Washington.

Music

Escambau

Criador da banda curitibana fala sobre o relançamento do álbum de estreia com dez faixas-bônus gravadas em 2007 no Paraguai e relembra o período

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Texto por Abonico R. Smith a partir de depoimento de Giovanni Caruso

Fotos: Acervo Escambau

Em abril de 2007, depois de atuar dez anos à frente dos Faichecleres, sem muito explicar ele abandonou a banda que ajudou a fundar. No auge da carreira, fez as malas e se isolou durante quatro meses no interior do Paraguay. A cidade de San Bernardino, adornada pelo famoso Lago Azul de Ypacaraí, está localizada a cerca de 50 km ao sul da capital, Asunción. “O pequeno povoado é muito procurado no verão como destino de férias. Por outro lado, o misterioso balneário vira do avesso no inverno, tornando-se um local completamente silencioso, pacato e vazio. Um cenário perfeito para criar, meditar e também pra fazer filmes de terror. É uma cidade fantasma!”, conta Giovanni Caruso.

Nestas condições, foram idealizadas e gravadas em formato de demo As Gloriosas Esferas do Inconcebível Esplendor. Este é um conjunto de dez faixas registradas com vozes e violões, guitarras, baixos, percussões e até arranjos de sopro modulados em um antigo teclado. Tudo gravado por Giovanni e da maneira mais simples possível: com um velho microfone Shure SM58 e todos os instrumentos ligados em linha, plugados diretamente numa antiga mesa Yamaha de quatro canais. “Queria reciclar meu trabalho. Montar uma nova banda. Pra isso, precisava de material. Aproveitei meu autoexílio para isso. Compor, gravar, meditar. Enfim, reorganizar minha vida. Pra mim, de certa forma, era uma emergência. Queria voltar ao Brasil com algo encaminhado debaixo dos braços, trazendo algo sólido para buscar novos parceiros e cair na estrada para tocar novamente.”

De volta a Curitiba, no final daquele ano, fora surpreendido por uma notícia que teria forte impacto na sua vida. Maria Paraguaya, sua companheira havia pouco mais de dois anos e que em breve viria a integrar a formação original do Escambau, estava grávida. A gestação acabou retardando um pouco os planos de lançar o novo projeto ainda no ano de 2008. Neste ínterim, ainda sem banda, decidiu entrar em estúdio para valer e, com a colaboração técnica de Rodrigo Barros e Luiz Ferreira, ambos ex-integrantes da banda Beijo Aa Força, fazer um registro mais profissional das novas canções. Na bateria, teve o apoio mais do que bem-vindo do irmão Glauco Caruso. “Que, por sua vez, fez um excelente e marcante trabalho, diga-se de passagem, e que, aliás, entre outras joias, trazia em seu currículo as assombrosas baterias do álbum A Sétima Efervescência, do cultuado músico gaúcho Júpiter Maçã”, adiciona. O organista Moacyr Boff completou o time, temperando com seu virtuosismo e indefectível acento bluesy a estrutura vertebral do álbum. Enquanto isso, todos os outros instrumentos ficariam sob a sua responsabilidade.

Maria Paraguaya, Adriano Antunes (Syd Vinicius) e Oneide Diedrich (Pelebroi Não Sei) acrescentaram vocais no hit “Dos Amores Mais Vendidos”, que, pouco tempo depois, ganharia um videoclipe premiado em dois festivais nacionais. O disco ainda contou com a participação de Raul de Nadal em “A Prostituta Apaixonada”, tocando acordeon, e de um ótimo e bem arranjado naipe de sopros na canção “Kallandra’s Bar”. Faixas como “Desparafuso”, “Mônica e Suas Esculturas” e “Amor em Si Bemol” logo deixaram fortes impressões nos seguidores da banda e, ainda nos dias de hoje, são muito requisitadas nas apresentações.

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Exatamente na virada para 2009, para a alegria dos fãs, o álbum Acontece nas Melhores Famílias foi disponibilizado gratuitamente na internet através da plataforma MySpace. A banda, já com formação definida e chamada Giovanni Caruso e o Escambau, estreou com casa lotada no dia 13 de março. Além de Giovanni, no baixo e nos vocais, estavam Maria Paraguaya, vozes e percussão; Moacyr Boff, teclados; Zo Escambau, guitarra; e Ivan Rodrigues, bateria. De lá pra cá, se vão dez anos, cinco discos, mudanças de nome e formação, shows pelo Brasil e exterior e vários videoclipes. Em 2019, para comemorar a simbólica data, o Escambau (que hoje conta com Caruso, Paraguaya, Zo, Yan Lemos no baixo e Yuri Vasselai na bateria) promete começar o ano com um explosivo lançamento que irá chacoalhar as estruturas de um carente e malfadado rock tupiniquim dos tempos atuais.

“Nosso sexto álbum já está pronto e foi gravado integralmente e ininterruptamente durante cinco dias, entre o fim de outubro e começo de novembro, dentro de uma locação do século XVIII, nas acomodações do luxuoso Hotel Camboa, na cidade histórica paranaense de Antonina”. Ainda em virtude da simbólica data comemorativa, o Escambau promete disponibilizar – o mais breve possível – todos os seus álbuns acrescidos de faixas-bônus e demo tapes inéditas nas principais plataformas de streaming. Agora é esperar para ouvir e deliciar-se, enquanto isso, com os raros sabores de um disco gravado e lançado antes da existência da própria banda.

Estranho isso, né? Pensando assim, permito-me imaginar que a alma do Escambau se encontra aqui. Neste primeiro sopro criativo intitulado Acontece nas Melhores Famílias. Nesta edição comemorativa, que se chama 10 Anos do Lançamento, conta ainda com dez faixas-bônus. Afinal são outtakes da pré-produção do álbum realizada em 2007 no Paraguay, onde o disco fora pré-concebido sob a curiosa alcunha de As Gloriosas Esferas do Inconcebível Esplendor.

>> Escute Acontece nas Melhores Famílias – 10 Anos do Lançamento nas plataformas iTunesSpotify e Deezer. O CD também pode ser comprado pela Tratore.

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