Music

Madonna

Sessenta curiosidades para marcar o aniversário de 60 anos da cantora, atriz e principal lançadora de tendências pop desde os anos 1980

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Texto por Flávio St. Jayme (Pausa Dramática)

Fotos: Reprodução

Neste dia 16 de agosto de 2018, Madonna Louise Veronica Ciccone completa 60 anos. Chega a essa idade, profissionalmente falando, solitária: Michael Jackson e Prince, que, assim como ela, nasceram em 1958 e formaram a trinca de maiores popstars da década de 1980 (os anos dourados do videoclipe), não estão mais entre nós. E ela é mais que uma cantora, é um ícone. Na música, na moda, na polêmica, tudo em que põe a mão estoura. É considerada a rainha do pop. Lança tendências e é copiada à exaustão.

O Mondo Bacana– em parceria com site Pausa Dramática – publica 60 curiosidades sbre Madonna para celebrar os seus 60 anos. De início estão, entre aspas, 25 fatos que a própria Rainha do Pop contou sobre si mesma ao jornal Boston Herald, em entrevista publicada em 2015.

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Na apresentação durante o Met Gala 2018

>> “A minha música favorita de meu repertório é ‘Bitch, I’m Madonna’, certamente. E a que menos gosto é ‘Material Girl’. Eu nunca, jamais, quero ouvir aquilo de novo!”

>> “A minha cidade favorita é Roma. É tão linda. A luz é calma e relaxante para mim, a arquitetura é esplêndida e a comida é incrível. Eu sou totalmente apaixonada por esse lugar.”

>> “Eu não suporto cogumelos. Ou escargot. Eca! É como uma gosma. Uma gosma cara!”

>> “A pessoa que eu mais idolatro é Paul Farmer. Ele é um médico e ativista que reconstruiu o sistema de saúde no Haiti mesmo antes do terremoto de 2010. Ele fez o mesmo em Ruanda.”

>> “A última vez que fiz compras no supermercado foi há um ano.”

>> “Eu não sinto falta de absolutamente nada sobre crescer em Michigan. Absolutamente nada.”

>> “A pessoa que eu mais quero conhecer é o presidente Obama. Quando é que vou conhecê-lo? Ele só precisa me convidar para a Casa Branca. Ele provavelmente pensa que eu sou muito provocadora para estar lá. Estou falando sério. Se eu fosse um pouco mais recatada… ou se eu estivesse casada com Jay Z. Ei, se o Jay Z me levasse lá como sendo sua segunda esposa, então eu com certeza teria um convite para me encontrar com o presidente.”

>> “A única coisa que jamais eu seria pega usando é um biquíni coberto de pele de algum animal.”

>> “Os momentos mais felizes da minha vida foram quando os meus filhos nasceram e quando me casei duas vezes.” (Nota: ela foi casada com o ator Sean Penn e o cineasta Guy Ritchie)

>> “Minha parte favorita no meu corpo são meus olhos. A parte que mais detesto são meus pés de dançarina. Eles são horríveis.”

>> “Eu descobri que casamentos só duram se você não dividir o banheiro. A melhor coisa de ser solteiro é que não há ninguém para te expulsar de seu banheiro quando você quiser privacidade.”

>> “A coisa que eu menos sinto falta em ser casada é ser chamada de “a esposa’. Essa é a pior.”

>> “Meu maior prazer na comida e o que faz engordar é pizza ou batata frita. Eu amo!”

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No clipe da música “Vogue”

>> “A última vez que eu fiquei em choque foi quando Alain Delon me ligou quando eu estava em Copenhagen durante a minha última turnê. Eu estava tentando levá-lo a fazer uma aparição no palco durante um pequeno show em Paris. Eu estava tremendo porque eu o amo! Eu nunca conheci o cara e só o conhecia de filmes. Ele foi a minha paixão adolescente. Foi patético.”

>> “Eu realmente não assisto a TV. Eu só gosto de duas séries – True Detective e uma irlandesa chamada The Fall – e eu não estou envergonhada em admitir. Muitas pessoas dizem ‘The Fall com Jamie Dornan’, mas eu digo ‘The Fall com Gillian Anderson’. Ela é tão boa.”

>> “A maior ambição da minha vida que eu ainda quero cumprir é o de ficar com o Drake. Mas apenas beijá-lo.”

>> “O momento mais embaraçoso da minha vida foi eu ter caído do palco, Deixe-me reformular isso… “sendo sufocada no palco por duas dançarinas japonesas no Brit Awards”. Foi extremamente embaraçoso!”

>> “A coisa mais linda que eu já vi foi a minha filha Lourdes tocando ukulele e cantando ‘La Vie en Rose’ para mim.”

>> “Meu ritual de beleza secreto é colocar gelo em meus olhos todas as manhãs. Ice, ice, baby!

>> “Falando nisso, se eu estivesse presa em uma ilha deserta com Vanilla Ice ou Dennis Rodman, eu iria escolher o Dennis. Ele tem melhor senso de humor. Além disso, ele pode sempre usar as minhas roupas.”

>> “A qualidade que eu mais detesto nas pessoas é fazer suposições. Não querem fazer a pesquisa, investigar ou fazer perguntas e apenas supõem algo. Ah, isso isso me deixa louca. Eu também não suporto quando estou falando com alguém e eles estão mandando mensagens de texto. Meus filhos fazem isso toda hora! Me faz subir pelas paredes! Eu coloco minha mão em seus telefones e acabo com o que eles estão fazendo.”

>> “Eu não posso dizer qual foi meu pior encontro com um namorado, mas houve muitos. Eu sou uma mulher do mundo, baby. Um atributo inegociável em um amante: ele não deve nunca querer ficar longe de mim por mais de duas semanas de cada vez.”

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No clipe da música “Like a Virgin”

>> “Eu sofro de claustrofobia. Eu não gosto de ficar preso em espaços pequenos e fechados ou em multidões. Isso me faz ficar alucinada.”

>> “Meu dia de folga ideal é passar o dia deitada na cama, o dia todo. Dormir por algumas horas, então acordar e assistir a filmes antigos, como o meu favorito Breathless. Adoro comer na cama, quando meus filhos vêm me ver e depois eu volto a dormir. Eu nunca gosto de sair do meu quarto.”

>> “As minhas memórias favoritas de Michael Jackson foram quando eu pedia para ele baixar a guarda e relaxar. Ele era tão tímido. O dia que eu quase consegui foi quando o deixei bêbado no restaurante The Ivy, em Beverly Hills. Eu estava dirigindo minha Mercedes e o desafiei para lançar seus óculos escuros para fora da janela. Não conseguia parar de rir.”

>> Madonna possui o mesmo nome de sua mãe, que é descendente de franco-canadenses. Ela herdou o sangue italiano da família de seu pai, Sylvio Ciccone.

>> Quando estava no colegial, uma colega de Madonna a filmou “fritando” um ovo em sua própria barriga.

>> A cantora é expert em yoga. Tanto é verdade que ela conseguiu mudar a profissão de sua personagem no filme Sobrou Pra Você. Originalmente, Abbie deveria ser uma professora de natação.

>> O álbum Like a Virgin, o segundo de Madonna, tornou-se o mais vendido nos Estados Unidos em 9 de fevereiro de 1985. Esta foi a mola propulsora definitiva de sua carreira.

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Como Evita Perón no filme Evita

>> Em seu aniversário de 47 anos, Madonna caiu de um cavalo e fraturou a clavícula, uma mão e três costelas. Ela estava estreando o presente dado pelo fotógrafo Steven Klein: um chicote de couro com suas iniciais.

>> O papel de Mulher-Gato interpretado por Michelle Pfeiffer em Batman – O Retorno deveria ter sido de Madonna. A cantora acabou perdendo a oportunidade porque fez uma lista imensa de exigências para participar da produção, o que aborreceu a equipe executiva.

>> Madonna comprou os três touros que aparecem no clipe da canção “Take a Bow”, de 1994.

>> Em 1994, Madonna participou do tradicional talk show americano Late Show, apresentado por David Letterman. Desbocada, a cantora pronunciou o palavrão “fuck” 13 vezes. Diante do fato, David Letterman comentou: “Você sabe que isso será transmitido, né?”

>> Apesar de ter alcançado o primeiro lugar da lista da Billboard uma semana depois de seu lançamento, o single “American Life” causou polêmica nos Estados Unidos. A cantora chegou a ser acusada de antiamericana porque falava sobre as repercussões e horrores da guerra no novo trabalho, lançado durante o conflito entre os Estados Unidos e o Iraque, ocorrido em 2003. Por causa disso, ela teve que reeditar o clipe da música às pressas. Ela também rebateu as críticas sobre seu posicionamento contrário à guerra dizendo: “Não sou anti-Bush, sou pró-paz”.

>> Madonna possui uma fortuna estimada em 400 milhões de dólares. Mesmo assim, precisou pedir dinheiro emprestado para pagar um sanduíche um dia. Ela estava em uma lanchonete em Londres, com os dois filhos e o então marido Guy Ritchie, quando percebeu que havia esquecido a carteira em casa. As moedas guardadas no bolso não eram suficientes para pagar a conta de 5,25 libras (cerca de 15 reais). O jeito foi apelar para duas jovens que comiam na mesa ao lado. As irmãs Mimi e Titi Negussie, que deram à cantora 2 libras (cerca de 5 reais), foram recompensadas com um cheque e um CD autografado.

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Look da turnê Virgin

>> O maior sonho da cantora pop, desde a infância, era ser bailarina. Ela, então, convenceu o pai a deixar que tivesse aulas e foi persuadida por Christopher Flynn, seu professor, para trilhar uma carreira na dança. Algum tempo depois, abandonou a faculdade e mudou-se para Nova York.

>> Conta-se que Madonna chegou a Nova York com apenas 25 dólares no bolso. Lá trabalhou como garçonete e faxineira no Dunkin’ Donuts e em outros estabelecimentos.

>> Madonna começou a trabalhar como dançarina de apoio para outros artistas consagrados. Envolveu-se romanticamente com o músico Dan Gilroy e, juntos, formaram sua primeira banda de rock, a Breakfast Club, na qual ela cantava, tocava bateria e guitarra.

>> Pouco tempo depois ela deixou a Breakfast Club e, junto de seu novo namorado, Stephen Bray, criou a Emmy. Porém, por causa de dificuldades financeiras, aceitou fazer hacking vocals para o cantor alemão Otto Von Wernherr. Assim, sua música impressionou o DJ e produtor Mark Kamins, que arranjou um encontro entre ela e o fundador da Sire Records, gravadora com quem assinou seu primeiro contrato.

>> Seu primeiro álbum foi lançado em 1983. Antes disso, ela já fazia sucesso com a música “Everybody”. O trabalho vendeu mais de dez milhões de cópias e alcançou o primeiro lugar das paradas de diversos países.

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No clipe da música “Material Girl”

>> Todo seu universo de início de carreira foi criado pela estilista e designer de joias Maripol e o olhar consistiu em tons de renda, saias sobre calças capri, meia arrastão, com joias de crucifixo, pulseiras e cabelos descoloridos.

>> Madonna é a cantora que mais acumulou prêmios na história da música. Já superaram a marca da terceira centena.

>> O clipe de “Material Girl” foi inspirado em uma cena do filme Os Homens Preferem as Loiras (1953), estrelado por Marilyn Monroe.

>> Madonna estreou como atriz no cinema com o filme Procura-se Susan Desesperadamente (1985) e também foi casada com o também ator Sean Penn. Entre os outros que participou estão Surpresa em Xangai, Quem é Essa Garota?, Dick Tracy, Uma Equipe Muito Especial e Evita – todos estes rodados e exibidos em um intervalo de apenas onze anos desde o primeiro. Ao todo, ela soma participação em vinte longa-metragens.

>> O papel de Evita Perón no musical Evita rendeu-lhe o Globo de Ouro, uma das mais importantes premiações do cinema.

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Duas páginas do livro Sex

>> Em 1992, Madonna lançou um livro de fotografias chamado Sex, no qual ela aparece nua em cenas de sadomasoquismo, voyeurismo e lesbianismo. A obra causou escândalo no mundo todo e ajudou a carreira da cantor: sua primeira edição esgotou em 48h. Em várias cidades do Brasil, pouqíssimas cópias importadas eram disputadas a tapa e folheadas por fãs curiosos em noites especiais promovidas em casas noturnas. No mesmo ano, Madonna lançou o disco Erotica, também com forte apelo sexual.

>> Além de cantora, dançarina e musa de várias gerações LGBT, Madonna também é escritora. Ela escreveu cinco livros. O primeiro foi um conto infantil chamado As Rosas Inglesas.

>> O filme Corpo em Evidência (1993), em que Willem Dafoe divide cenas quentes com Willem Dafoe, fez Madonna passar por um treinamento com uma dominatrix de verdade. A cena lendária da cera de vela foi improvisada.

>> O clipe de “Like a Prayer” é um dos mais polêmicos da cantor: cheio de imagens religiosas e sexualidade, que Madonna jura terem sido ideias da diretora Mary Lambert. O vídeo chegou a ser censurado pelo Vaticano.

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No clipe da música “Like a Prayer”

>> As cenas de “Justify My Love” foram consideradas quente demais até para a liberal MTV norte-americana, que não o exibiu. O mesmo aconteceria uma década depois, com o vídeo de “What It Feels Like For a Girl”, dirigido pelo então marido Guy Ritchie.

>> Já no caso do pesadíssimo “Erotica”, a MTV não quis tirar o clipe do ar por conta do enorme sucesso da artista na época. Entretanto, só o exibia após a meia-noite.

>> Madonna perdeu a virgindade aos 15 anos. Com a mesma idade teve sua primeira experiência homossexual.

>> Ela tem 1,64m de altura.

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No clipe da música “Justify My Love”

>> Também é diretora de cinema. Dirigiu em 2008 o longa Sujos e Sábios e em 2011 WE: O Romance do Século. Assinou também o roteiro deste último. WE foi indicado ao Oscar de melhor figurino em 2012.

>> Diz-se que WE perdeu a indicação na categoria de melhor canção (“Masterpiece”) porque Madonna não sabia da cláusula que obrigava a música a tocar durante o filme ou ser a primeira nos créditos finais. Mas a faixa concorreu na mesma categoria no Globo de Ouro. E venceu.

>> Madonna tem outras cinco indicações ao Globo de Ouro de melhor canção: “Die Another Day (007  Um Novo Dia Para Morrer), “Beautiful Stranger” (Austin Powers: O Espião Bond Cama), “I’ll Remember” (Com Mérito), “This Used To Be My Playground” (Uma Equipe Muito Especial) e “Who’s That Girl” (Quem é Essa Garota?).

>> Ela tem doze indicações ao Framboesa de Ouro, o prêmio dos piores do cinema. Destas, “venceu” sete vezes, entre elas como pior atriz por Destino Insólito (empatada com Britney Spears em Amigas Para Sempre), pior atriz por Sobrou Pra Você, pior atriz do século em 2000 e pior atriz por Quem é Essa Garota?.

>> Acessórios inusitados como uma cama no meio do palco e o famoso corselet de seios cônicos desenhado pelo estilista Jean Paul Gaultier para a turnê Blonde Ambition contribuíram para que os shows dela nos anos 1980 e 1990 reforçassem a liberdade de expressão e até mesmo o debate feminista.

>> Madonna possui treze álbuns de estúdio, três discos ao vivo, três discos de remix e seis compilações.

>> A cantor e atriz é prima distante de Gwen Stefani, ex-vocalista do No Doubt.

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Corselet criado por Jean Paul Gaultier para a turnê Blonde Ambition

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Baseado em Fatos Reais

Trama dirigida por Roman Polanski provoca tensão ao casar a discussão sobre a falta de inspiração criativa e a procura por uma identidade pessoal

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Misturar realidade e ficção costuma ser um artifício bastante utilizado por escritores e roteiristas. Afinal, nada mais inspirador do que extrair do cotidiano – passado ou presente – informações importantes para se construir histórias. Basta usar o artifício de trocar nomes, locais e outras referências que podem soar um tanto quanto óbvias. Muitos autores, porém, vão além e adoram misturar-se com suas criaturas, mantendo inclusive o mesmo prenome e colocando em falas e diálogos opiniões pessoais a respeito de um determinado assunto.

Delphine de Vigan fez tudo isso. Em 2015, depois de enfrentar um bom tempo de vazio criativo provocado pelo transtorno de bipolaridade, ela lançou o livro Baseado em Fatos Reaisapropriando-se de sua própria experiência. Deu o próprio nome à protagonista e adicionou ao sofrimento pelo bloqueio pitadas extras que transformaram a história em um emocionante thrillerliterário. Agora, pouco tempo depois, o que está impresso nas páginas ganha uma versão cinematográfica, também devidamente alteradas pelos veteranos roteiristas Roman Polanski (também diretor do longa) e Olivier Assayas (que nos últimos anos ganhou projeção mundial com os filmes Depois de Maioe Acima das Nuvens. Adaptação esta que também é de tirar o fôlego.

Claro que muitos cinéfilos mais rígidos e insistentes vão reclamar que o Planski de Baseado em Fatos Reais(D’Après Une Histoire Vraie, França/Polônia/Bélgica, 2017 – Paris Filmes) nem de longe lembra o gênio de outrora (Repulsa ao Sexo, A A Dança dos Vampiros, O Bebê de Rosemary, Chinatown) ou mesmo o dos bons lampejos mais recentes (O Pianista, O Escritor Fantasma, Deus da Carnificina), embora seja sempre bom lembrar que um Polanski bem pouco inspirado (tal como outros grandes cineastas que insistem em continuar produzindo regularmente mesmo com a idade bem avançada), ainda assim, vale muito mais do que um Michael Bay em qualquer tempo ou situação. Claro que outros tantos, mais atentos à obra do mestre do suspense Stephen King, vão gritar que há semelhanças aqui, ali e acolá com uma de suas obras mais cultuadas,Louca Obsessão. Mas a história que envolve a doentia relação entre uma escritora perdida em seu próprio vazio (Delphine, interpretada por Emmanuelle Seigner, atual esposa de Polanski) e uma fã controladora, autoritária e possessiva (a ghostwriterElle, vivida por Eva Green cheia de caras e bocas e uma bela camiseta com o logo do álbum derradeiro de David Bowie) mostra ser muito capaz de ir além destas comparações superficiais e ainda suscitar boas doses de reflexão a respeito dos limites de até onde uma pessoa deve ir no trato com a outra mais próxima.

Limites na intimidade que incluem duas outras palavrinha que até provoca rima: privacidade e permissividade. Na ansiedade por sair do letárgico estado emocional em que se encontra, Delphine se encanta por Elle e, aos poucos, sem notar, dá espaço demais à outra para que ela a aprisione em sua própria vida. Já os limites a serem discutidos de acordo com as atitudes de Elle giram em torno da honestidade. Com que reais intenções ela se aproxima da escritora? O que a motiva? O que sua rotina de biógrafa ghostwriterpode indicar sobre a questão de se fazer passar por outra pessoa? Elle raramente se abre à sua interlocutora e, por isso mesmo, torna-se o grande mistério da parte inicial do filme.

A segunda parte começa quando, também, aos poucos, Delphine vai recobrando a consciência e a lucidez, mesmo com todas investidas escusas de Elle, e planeja o contrataque com segundas intenções não menos discutíveis. E começa o cabo de guerra com altas doses de suspense e o espectador perdido no meio do “tiroteio” entre as duas, sem saber qual lado escolher para torcer e ficar para se “proteger”.

Entre remédios ansiolíticos, venenos para ratos, respostas nada educadas de e-mails e anotações secretas em post-itse páginas de cadernetas e pernas quebradas, as duas se engalfinham psicologicamente e passam todo o desespero para quem nunca teve nada ver com isso e só está lá na frente, quietinho, sentado na poltrona do cinema. Tudo isso vem com minimalismo espacial (uma grande livraria, uma boate, um simpático bistrozinho parisiense, os apartamentos das duas, uma cainha de retiro no interior francês) e certa overdose cenográfica (na qual livros sempre brotam aos borbotões nos cenários e nunca param de transbordar pela tela).

Não dê bola para o mimimi de cinéfilos que sempre esperam a genialidade na próxima grande obra de um artista. Prefira a realidade do cotidiano de Delphine, que mostra o realmente pode acontecer no dia a dia de quem está sempre envolvido com a criação intelectual. Ali você se identifica com quem também é gente como a gente. Como os ávidos fãs-leitores que comram os livros de Delphine, aliás.