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It: Capítulo Dois

Clássica trama de Stephen King ganha sequência na qual amigos de adolescência voltam a enfrentar o palhaço Pennywise 27 anos depois

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Warner/Divulgação

Enfrentar medos, lutar contra fobias e espantar traumas que muitas vezes nos impedem de arriscar e mudar o rumo da vida são os maiores desafios do ser humano. As cicatrizes deixadas por casos de bullying, desamparo ou frustração, sobretudo na infância, moldam nosso caráter e personalidade e assombram a mente, como se fôssemos perseguidos eternamente por monstros.

Em It – A Coisa, todos esses medos e sequelas do passado, conscientes e inconscientes, personificam-se numa figura ambígua e que de engraçada não tem nada: o terrível palhaço Pennywise, do clássico de mais de mil páginas escrito pelo mestre do terror Stephen King. O livro foi publicado em 1986 e ganhou a primeira adaptação no formato de telefilme em 1990. Três décadas depois, a história reapareceu desmembrada em dois capítulos a fim de cativar desde a geração X até os millennials que já nasceram na era dos efeitos especiais computadorizados.

A primeira parte do remake estreou em 2017, trazendo para as telas a história de sete amigos (Bill, Richie, Stan, Mike, Eddie, Ben e Beverly, que formaram o Clube dos Losers) e enfrentaram na virada para os anos 1990 o palhaço devorador de criancinhas. A continuação desta trama assustadora chegou nesta quinta aos cinemas brasileiros. Em It: Capítulo Dois (It: Chapter Two, EUA/Canadá/Argentina, 2019 – Warner) os amigos da adolescência fazem jus ao pacto de sangue e revivem os traumas e medos do passado ao se reencontrarem, 27 anos depois, para lutar contra o mesmo fantasma – ou melhor, o mesmo palhaço dos balões vermelhos. A criatura é tão horripilante que talvez só outro palhaço seja capaz de desbancá-lo em bilheteria e terror: o Coringa encarnado por Joaquin Phoenix, que chega no mês que vem aos cinemas.

Em se tratando de Stephen King é desnecessário informar que o filme é longo, com quase três horas de duração. Mas nada que um roteiro e direção sintonizados garantam uma experiência agradável e prazerosa, apesar de aterrorizante, como uma sessão de psicanálise. Para adaptar um “catatau” do rei Stephen só mesmo um roteirista expert em filmes de terror (Gary Dauberman, de A Freira, A Maldição da Chorona Annabelle) e a parceria impecável com o diretor portenho Andy Muschietti. A dupla consegue manter uma sincronia especial para segurar o público na poltrona até o fim, mesmo quando aborda clichês como a cena de início do filme, ambientada num parque de diversões. Lá é onde o medo e a diversão se encontram. Em vez de um casal heterossexual, a história já coloca de cara dois namorados sofrendo o ataque homofóbico de uma gangue de valentões.  O roteiro também se preocupa em situar aqueles que não assistiram ao primeiro capítulo de It, através de uma série de flashbacks muito bem coordenados na trama e que por diversas vezes retomam a narrativa de forma até poética.

Nesta segunda parte, a aventura revivida pelos amigos, agora adultos, traz um ar nostálgico, um misto de Goonies com Indiana Jones e Stranger Things (um dos membros do grupo teen é vivido por Finn Wolfhard, que também está no elenco da série da Netflix) ao som de New Kids On The Block. A escolha dos atores e a construção das personagens, por si só, garantem a empatia do público. Difícil não se identificar com o perfil deles, que acumulam defeitos como todo loser. Ben (Jay Ryan), que sofria bullying pelos quilinhos a mais, virou atleta mas ainda tem o pensamento estereotipado de “gordinho”. A doce Beverly (que na fase adulta é interpretada pela ruivíssima Jessica Chastain) casou-se com um marido possessivo, bem aos moldes de seu pai, e precisa ser durona para enfrentar as agressões. Outro exemplo, Bill (James McAvoy), tornou-se escritor e roteirista de cinema mas é mestre em fazer finais ruins, porque assim é a realidade, repleta de finais infelizes.

Dos sete, apenas um componente do Clube dos Losers permaneceu em Derry, a cidade fictícia que fica no estado de Maine e onde se passa a trama. E quem é fã do “iluminado” Stephen King sabe que o cenário de suas histórias só pode ser onde o escritor de 71 anos mora até hoje. Maine é marca registrada da obra do rei do terror, estado que abriga suas cidades fictícias, com atmosfera nebulosa, como Chamberlain de Carrie, a Estranha, ou Ludlow, de Cemitério Maldito.

O Capítulo 2 de It tem início quando Mike (Isaiah Mustafa) monitora uma série de mortes atribuídas a Pennywise (Bill Skarsgård). A partir disso e por 2h49 para ser precisa (por isso, um conselho: vá ao banheiro antes da sessão começar), assistimos a um thriller psicológico que mistura humor negro e pitadas de melancolia que só a mente fértil de King é capaz de proporcionar.

A trama é recheada de cenas sangrentas, obviamente explícitas, nuas e cruas. Quando Pennywise ataca as criancinhas, babando de fome, ele abocanha sem dó nem piedade. E a direção não poupa esse choque e escancara a violência, nos levando a tomar sustos mas não ao ponto de pular da poltrona – mesmo porque já estamos habituados a ver coisas semelhantes nos telejornais diários.

Outras cenas um tanto trash trazem diálogos tão bem-humorados e criativos que, em vez de medo, instigam o riso. Resta saber quem vai rir por último dessa vez: Pennywise ou os amigos da adolescência?

Music, Videos

Clipe: Sharon Van Etten – Seventeen

Artista: Sharon Van Etten

Música: Seventeen

Álbum: Remind Me Tomorrow (2019)

Por que assistir: Duas décadas depois, Sharon Van Etten decidiu olhar para trás e fazer um pequeno balanço de sua vida naquele que a cantora e compositora considera o seu álbum mais maduro e, ao mesmo tempo, provocando reflexões sem deixar-se cair para os lados dos choros das dores-de-cotovelos e tentativas de reerguimento após a fossa. Remind Me Tomorrow – que chega às lojas físicas e virtuais no dia 18 de janeiro após um intervalo de cinco anos desde o trabalho anterior – trazendo um punhado de faixas sobre a vida e o seu passado. Uma delas é “Seventeen”, que acaba de ganhar clipe rodado nas ruas e estações de transporte público de Nova York e do bairro de Clifton, em Nova Jersey, onde passou boa parte da adolescência. A letra desta música é algo do tipo Sharon quase chegando aos 40 anos dando conselhos e relembrando aquela teenager de 17, saindo da high school e alcançando a maioridade. Talvez um resultado das novas experiências adquiridas nos últimos anos, como o trabalho de atriz (para o seriado The OA), a gestação e a maternidade. As mudanças também podem ser sentidas na sonoridade. Sempre apaixonada pelo rock conduzido pelas guitarras, Van Etten resolveu se permitir e experimentar arranjos construídos por sintetizadores e batidas mais retas e dançantes. Muitos podem até sentir, nos versos, melodias e até mesmo o jeito de cantar, uma certa aproximação com um velho ídolo do rock também de Nova Jersey, Bruce Springsteen. A música ainda gruda logo de cara e faz com que Sharon desbrave novos territórios, como o do AOR (sigla para a expressão “adult oriented rock”, que significa um rock mais radiofônico e popular, mas sem deixar de explorar temáticas mais sérias, reflexivas e muitas vezes extremamente pessoais).

Texto por Abonico R. Smith

Movies

Mentes Sombrias

Adolescente com poderes paranormais se une a outros iguais para descobrir que o inimigo do inimigo nem sempre pode ser amigo

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Fox/Divulgação

Uma das temáticas recorrentes em seriados nos últimos anos é a de crianças ou adolescentes com poderes paranormais que são retiradas dos pais para ficar sob a guarda de projetos governamentais (ou pelo menos com a chancela oficial) para serem estudadas ou até mesmo exterminadas. É assim em Believe. É assim em Stranger Things. É assim em The OA. Então, nada mais natural que o cinema também viesse a se apropriar disso, ainda mais depois do sucesso de uma enxurrada de produções com temática distópica juvenil.

Eis que Mentes Sombrias (The Darkest Minds, EUA, 2018 – Fox) ganha as telas tratando justamente disso. A história é uma adaptação do romance da jovem escritora norte-americana Alexandra Bracken. Publicado em 2012, o livro é, na verdade, o primeiro de uma série que já rendeu cinco títulos até agora, seguindo o mesmo esquema do boom de fantasia literária que vem sobrecarregando as prateleiras das megastorese fazendo um constante diálogo com o cinema por toda esta década.

A premissa é interessante. A protagonista Ruby (Amandla Stenberg) sobrevive a um poderoso e letal vírus que atinge a população até os primeiros dezoito anos de vida. Quem não morre (apenas 2% desta faixa etária) passa a ser considerado como uma potencial ameaça à humanidade. Ruby, que passa a desenvolver a habilidade de apagar a memória das outras pessoas e interferir na mente de qualque rum à sua frente, é classificada o nível máximo de “perigo” e deve ser abatida a qualquer custo. Separada da família ainda na infância, ela consegue passar alguns anos em um campo de concentração, disfarçada entre outros iguais porém com habilidades inferiores e mais inofensivas.

Quando sua real condição é descoberta, ela recebe ajuda da doutora insurgente Cate (Mandy Moore) e acaba escapando rumo a uma outra turma de jovens igualmente separados na clandestinidade, mas ainda por motivos incertos. Através de uma outra menina na nova localidade, a pré-adolescente Zu (Miya Cech), junta-se quase por acidente a uma turma de rebeldes para fugir desta segunda zona de confinamento. O inimigo do seu inimigo nem sempre é seu amigo, ensinam-lhe a ele os dois rapazes mais velhos, Liam (Harris Dickinson) e Chubs (Skylan Brooks) que lideram o agora quarteto dissidente.

Durante a fuga, eles batalham contra caçadores de recompensas, doidos para recapturá-los. Enquanto isso, descobrem os sentidos da amizade, da solidariedade, da sensualidade e do amor (sendo uma história juvenil, claro que não ficaria de fora o clima de início de romance entre Ruby e Liam). E só também. Nada de muito inovador acontece tanto no roteiro quanto da direção de Jennifer Yuh Nelson (mais conhecida por trabalhos anteriores com as animações 2 e 3 de Kung Fu Panda). Pior: a química entre Amandla e Harris é quase zero – a atriz, inclusive, declarou-se lésbica recentemente.

De positivo, entretanto, ficam as entrelinhas delineadas por Bracken em sua trama. Nela ficam subentendidas a ideia de que o desconhecido sempre provoca medo na maioria das pessoas. Por isso, a fotografia sempre soturna do filme, as referências seguidas à escuridão ditas por Ruby, o título da história. De quebra, o valor sempre ressaltado pela independência, a eterna manutenção da desconfiança e resistência a grandes corporações (sejam elas quais forem) e ainda a possibilidade da resiliência, o ato de se dobrar, envergar e às vezes aceitar fazer parte do sistema para que isto permita a você realizar algo de bom para as outras pessoas.

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Jogador Nº 1

Steven Spielberg celebra o cinema pipoca que ajudou a inventar com filme-videogame que celebra a vasta cultura nerd criada nas últimas décadas

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Warner/Divulgação

A) Leitura superficial

Depois de ser o caçula da turma do cinema marginal que transformou Hollywood entre as décadas de 1960 e 1970, Steven Spielberg se transformou no grande Rei do cinema pipoca. Depois de E.T. – O Extraterrestre (1982), volta e meia ele tem entregue para a plateia de gosta de entretenimento com qualidade uma série de filmes juvenis de ação exatamente isso: histórias magníficas que despertam o teenager herói que existe na alma de cada um.

Com Jogador Nº 1 (Ready Player One, EUA, 2017 – Warner), adaptação do livro escrito por Ernest Cline, não é diferente. Em um futuro distópico não muito distante de nós (a trama se passa no ano de 2045), as pessoas regulam a sua vida inteira de de acordo com a realidade virtual. Tudo o que é feito gira de acordo com a percepção fornecida por uma geringonça que, acoplada à cabeça, simula uma realidade que só existe graças à tecnologia. Ali você pode ser quem você quiser, viver como quiser, fazer o que quiser, da maneira que quiser. E para os mais novos quem manda nesta second life é um mundo paralelo chamado Oasis, criado por um geek antissocial que já morreu e deixou como o legado não só a sua genialidade criativa como também uma espécie de desafio – um jogo com fases progressivas que dará a quem encontrar três chaves escondidas um tesouro mais do que especial: o controle majoritário das ações da empresa à qual pertence o Oasis. Isto significa não só a fortuna incalculável do excêntrico James Halliday (Mark Rylance, em mais uma excelente atuação sob o comando do cineasta) como também a possibilidade de fazer o que quiser e ser como quiser na realidade “de carne e osso”.

Então uma turma de adolescentes – amigos virtuais mas que nunca estiveram face a face – encabeça a corrida de três etapas para desvendar o intrincado quebra-cabeça criado por Halliday. À frente deste “videogame live action” estão o garoto Wade (Tye Sheridan) e a garota Samantha (Olivia Cooke), que, ao lado dos amigos, seguem toda a estrutura banal e corriqueira de um filme de ação deste tipo. Com direito a um supervilão a ser confrontado, claro. Nisto, o longa acaba prestando reverência a muitos dos populares videogames que tornaram-se itens cult da criançada e juventude das últimas quatro décadas.

No fim, chega a recompensa pelo esforço feito durante a jornada do herói, toda a tensão sexual vivida entre eles se dissipa do modo mais shipado possível e todos acabam felizes para sempre. Personagens e espectadores. Como em toda e qualquer Sessão da Tarde, elevada à categoria de blockbuster depois que a assinatura de Spielberg tornou-se grife nos anos 1980. E ainda há uma liçãozinha de moral na última cena.

B) Leitura intermediária

A história bolada por Cline (que também assina como um dos roteiristas) e levada às telas por Spielberg faz uma critica atroz à dependência tecnológica viva pelos seres humanos nas últimas décadas. Nada do que é feito sem as máquinas tem qualquer importância. O que vale mesmo é o que é vivido através de nossos avatares, sempre ligados, conectados e ávidos pelo consumo imediato de qualquer informação zero um que vier pela frente.

O mundo pode estar na maior decadência – aliás o conceito steampunk de favela apresentado logo no início é de um assombro visual só. A nossa vida pode estar na mão de megacorporações – uma delas é justamente comandada pelo principal antagonista da trama. Tais empresas gigantes como esta IOI (Innovative Online Industries) travestem seus reais objetivos através de “espelhinhos mágicos dados aos índios para eles se verem pela primeira vez”. Estão interessada apenas em rios de grana e seguir a velha cartilha capitalista de escravizar e sugar o sangue de seus funcionários, transformados em servos lobotomizados.

Cabe, porém, a qualquer ser humano decidir até onde vai a extensão tecnológica de sua reles vidinha mortal. E distinguir as reais vantagens e desvantagens de todo e qualquer negócio novo que é ofertado.

C) Leitura profunda

Além de ser uma bela homenagem à cultura pop dos anos 1980 para cá, Jogador Nº 1 é um megafestival de easter eggs proporcionados não só pela muleta do mundo virtual no qual os personagens passam a maior parte do tempo da trama, como também nas poucas cenas em que o espectador os vê em suas próprias vidas. Seja em primeiro plano na narrativa ou secretamente escondidos durante a história, o que rola nas quase duas horas e meia de projeção é uma torrente de referencias a jogos, filmes, quadrinhos, animes, cartoons e personalidades que construíram o universo nerd que hoje dá as cartas na indústria mundial do entretenimento. Até mesmo as canções pop parecem ter sido escolhidas a dedo para pontuar com seus versos a temática de determinadas cenas.

Como a grande brincadeira de um easter egg é achar pistas escondidas pelos criadores no meio de sua criação, nem vale a pena ficar citando estas referências. A graça é justamente a de ficar atento para encontrá-las na hora em que elas aparecem. O que pode mostrar o grau de nerdice que existe em cada espectador e depois ficar discutindo e apresentando aos amigos que não perceberam o que você já descobriu. Outro estímulo desses easter eggs (bingo para a indústria, aliás!) é estimular a mesma pessoa a consumir várias vezes o mesmo produto. Só isso vai garantir ao filme uma bela bilheteria ao longa nos cinemas de todo o mundo e depois sua sobrevida nos formatos e suportes posteriores.

Toda esta questão faz de Jogador Nº 1 um filme bastante excitante a quem não se prende pelo fascínio visual de videogame/tecnologia de última geração que gruda nas telas tanto os olhos dos mais novinhos como os gamers viciados e convictos. Amantes inveterados da cultura pop em seus mais variados níveis não correm o menor risco de se decepcionar com a história, já que este jogo criado por Cline e Spielberg também foi feito a el@s.

E viva à diversidade, celebrada, aliás, desde o início da história. Racial, social, étnica, sexual e – por que não? – nerd e geek.