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História de um Casamento

Scarlett Johansson comanda um time de grandes atuações em filme que mostra como um divórcio pode fazer mal sobretudo aos filhos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Netflix/Divulgação

Existe um ditado que diz mais ou menos assim: você só conhece uma pessoa de fato quando se separa dela. Ou seja, uma gatinha pode se tornar uma leoa da noite para o dia quando se trata de proteger a cria.

Enfrentar um divórcio é como entrar numa guerra. Raros são aqueles que chegam a um acordo de paz sem antes lutar contra justamente a pessoa que, um dia, entrou na sua vida para compartilhar o tempo, o espaço e a genética. Aquele que ontem era seu amigo e emprestava os ombros pra você chorar hoje dá de ombros e te faz chorar, transformando-se num rival. Durante o doloroso processo, muitas vezes é preciso cavar até o fundo do poço para, enfim, desmembrar aquele território edificado a dois com enorme dispêndio de energia, afeto, carinho, amor e, claro, dinheiro.

Casamento, enfim, é como qualquer sociedade. Pode ou não dar certo. Tentativa e erro. Para serem bem-sucedidos, os sócios devem estar muito bem alinhados. Caso contrário, o relacionamento chega ao fim, não se sustenta, desmorona, como tudo na vida que é efêmero. A única diferença é que, sem filhos, o adeus pode ser definitivo. Como é impossível dividir um filho, o desfecho pode tomar outro rumo. Nesse caso, o desgaste é maior e o poder de negociação atinge limites impensáveis, com trocas de acusações na frente do juiz, que revelam segredos e deixam feridas expostas. E todo o amor que um dia talvez tenha existido dá lugar à raiva, à amargura, como nos mostra o tocante longa História de um Casamento (Marriage Story, EUA/Reino Unido, 2019 – Netflix), do diretor e roteirista Noah Baumbach, hoje casado com a atriz, diretora e roteirista Greta Gerwig.

Separação, aliás, é um tema recorrente da filmografia de Baumbach. Em sua primeira obra, a autobiográfica A Lula e a Baleia, o diretor se inspirou na separação dos pais e conduziu a história sob o ponto de vista dele e do irmão. Já em seu mais recente e cultuado História de um Casamento, um dos nove indicados ao Oscar de melhor longa em 2020, ele se debruça em seu divórcio com a atriz Jennifer Jason Leigh, com quem tem um filho de 9 anos, praticamente a mesma idade do filho dos protagonistas vividos por Scarlett Johansson, exuberante no papel da atriz Nicole, e Adam Driver, que interpreta Charlie, um respeitado diretor de teatro.

A história do título (que lembra Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman) começa pelo fim do relacionamento entre Nicole e Charlie. Para quem não vivenciou a traumática experiência de uma separação, é bem possível que História de um Casamento seja percebido como uma obra mediana, com uma direção correta e um roteiro bem-feito. Talvez se fosse distribuído para o cinema e não exibido diretamente via streaming, a recepção fosse outra. Eu, no entanto, tive de pausá-lo algumas vezes por causa de tamanha identificação com a personagem de Scarlett, que também se inspirou na experiência pessoal para transmitir com um realismo pungente toda a angústia, frustração e tristeza do fim de um longo relacionamento.

O drama começa numa sessão de terapia de casal, uma tentativa vã de recuperar algo daquela faísca do amor primordial. Charlie escreve sobre as qualidades de Nicole e as lê em voz alta. Ela, por sua vez, não consegue fazer o mesmo. Para Nicole, não há mais salvação. A relação terminou e por motivos comuns a vários casais, como traição e desencanto pelo parceiro. Quando se casou, Nicole abriu mão de uma carreira promissora de atriz de cinema em Los Angeles para morar em Nova York, onde Charlie dirige uma companhia de teatro. Ao longo dos anos, ela passou a se sentir ofuscada pelo marido.

Com a união em colapso, Nicole aceita a proposta para estrelar o piloto de uma série de televisão e se muda para a casa da mãe em Los Angeles, levando com ela o filho Henry (Azhy Robertson). Charlie continua do outro lado do país. Perdido com toda a situação, parece não se dar conta de que Nicole não voltará mais. Os dois, então, permanecem separados física e emocionalmente e ele se desdobra para viajar até a Costa Oeste para visitar Henry.

O ressentimento, aliado ao fator filho, leva Nicole a procurar a advogada Nora, interpretada pela sensacional Laura Dern (que levou os principais prêmios de coadjuvante da temporada por este papel). Quando os advogados entram em cena, o drama toma o rumo bem ao estilo de Kramer vs Kramer, vencedor do Oscar de melhor filme em 1979, com Dustin Hoffman e Meryl Streep. O dilema que poderia se encerrar num acordo – e que seria mais benéfico para Henry – transforma-se em disputa judicial pela guarda da criança. As economias, até então reservadas para pagar a futura faculdade do filho, agora vão direto para o bolso dos advogados, que cobram honorários astronômicos, dignos de estrelas de Hollywood. Durante o litígio, a vida do casal é totalmente esmiuçada; cada detalhe, cada deslize, por mínimo que seja, pode ser usado perante o juiz, desde tomar uma mísera taça de vinho na frente do filho ou esquecer de acomodar o assento no carro.

Conforme a narrativa se desenvolve, Scarlett cresce no papel e nos envolve com sua personagem, como na cena de sua primeira reunião com Nora, quando subitamente começa a chorar ao contar a história. A advogada desce do salto e consola a atriz, num discurso que expõe toda a pressão sobre a figura materna rodeado pelo mito da irgem Maria: a sociedade tolera que o homem seja um pai ausente, mas à mãe jamais é permitido sair da linha.

Sem dúvida, a sequência mais visceral e desconcertante é a cena em que Charlie e Nicole discutem sozinhos e lavam toda a roupa suja. Não sobra nada, nem um par de meias. Nesse ponto, a direção de Baumbach insere o espectador lá dentro do apartamento, como se testemunhássemos a discussão.

Histórias de um Casamento pode não ter levado o Oscar, mas é um filme sensível e honesto, com foco no roteiro e atuação do elenco (tirando a mãe de Nicole, cujo papel é exagerado). E o belíssimo desfecho nos mostra que, para proteger a saúde mental do filho, a mágoa, a raiva e a culpa devem dar espaço à dignidade, à civilidade e ao respeito mútuo.

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Parasita

Contraste socioeconômico promove questionamentos entre ações e intenções dos personagens em vibrante história sul-coreana

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Textos por Andrizy Bento e Janaina Monteiro

Fotos: Pandora Filmes/Divulgação

“É por isso que as pessoas não deveriam fazer planos. Sem plano, nada pode dar errado. E se algo sair do controle, não importa”.

Drama sul-coreano, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2019, Parasita (Gisaengchung, Coreia do Sul, 2019 – Pandora Filmes) é brilhante, surpreendente e um verdadeiro soco no estômago. O título do longa não poderia ser mais oportuno. É como parasita que uma família, cujos membros estão todos desempregados, infiltra-se na rica e abastada mansão do clã Park, lançando mão de sua sagacidade, ardis e de um impressionante dom para a vigarice. Mas, ao abordar os vínculos de dependência e dominação e a total ausência de gratidão da família Park por aqueles que os servem, o diretor Bong Joon-ho propõe um questionamento: quem são os verdadeiros parasitas nessa história?

O motorista desempregado Kim Ki-taek (Song Kang-ho) e sua esposa Choong-sook (Jang Hye-jin) vivem com seus dois filhos, Ki-woo (Choi Woo-shik) e Ki-jeong (Park So-dam), em condições precárias, em um apartamento sujo e claustrofóbico situado no subsolo de um prédio na área mais pobre de Seul. A família atravessa uma situação financeira lastimável, exercendo alguns trabalhos esporádicos a fim de pagar as contas, mas sem perspectiva de empregos efetivos. Quando o filme tem início, os integrantes da família estão se virando como podem, lutando para encontrar um lugar da casa em que possam conectar seus smartphones à rede wi-fi de algum vizinho. É então que recebem a visita de Min-hyuk (Park Seo-joon), um amigo de Ki-woo, que lhes traz um presente – uma rocha que o rapaz alega ser capaz de trazer grande fortuna e saúde para a família – e uma oportunidade irrecusável para o primogênito dos Kim: dar aulas particulares de inglês para Da-hye (Jung Ji-so), a filha de um rico empresário do ramo da tecnologia que vive em uma luxuosa mansão.

Desde o momento em que coloca os pés na residência dos Park, ele se mostra bastante entusiasmado com sua sofisticação, não escondendo o fascínio que a elegante construção, projetada por um renomado arquiteto, exerce sobre si. Munido de currículo e certificados falsos, Ki-woo não demora a conquistar a confiança da Sra. Park e se torna efetivamente o tutor de sua filha adolescente. Ao perceber que o filho caçula da família, Da-song (Jung Hyun-joon), é hiperativo e tem uma imaginação profícua, ele convence a madame Park a dar uma oportunidade de emprego para sua irmã como professora de arte do garoto, sem revelar, no entanto, o grau de parentesco que possui com ela. Ki-jeong chega à mansão se apresentando como Jessica, uma brilhante profissional, dona de um currículo invejável. Já na primeira noite, ela arma uma cilada para o motorista da família ser despedido e seu pai ocupar a função. Removendo empecilho por empecilho do caminho, resta apenas se livrar da funcionária mais antiga, que trabalha na residência desde antes de a família Park adquirir a propriedade: a governanta Gook Moon-gwang (Lee Jung-eun). Aproveitando-se de uma informação revelada acidentalmente por Da-hye, eles utilizam a fraqueza da governanta contra ela mesma e, enfim, conseguem fazer com que seja despejada e substituída por Choong-sook. Desse modo, toda a família acaba empregada na mansão.

Eles mantêm a farsa, omitindo seus laços sanguíneos e reais identidades. Apesar de soar como um plano engenhoso e elaborado com minúcia, na verdade, cada integrante da família apenas se vale do senso de oportunidade perfeito. É quase orgânico como tudo ocorre; o timing é que parece estar sempre a favor deles. A primeira grande reviravolta da trama, no entanto, ocorre quando Moon-gwang retorna à mansão em uma noite em que os ex-patrões encontram-se fora, e revela que seu marido tem morado secretamente há quatro anos no porão da casa dos Park, escondendo-se de agiotas. A antiga governanta, eventualmente, acaba descobrindo a verdade sobre a família de Kim e, a partir daí, se inicia um jogo de coerção entre eles que aponta para um desfecho violento e catastrófico.

Com um roteiro bem engendrado e direção de atores cuidadosa, Parasita é bem-sucedido em todos os requisitos, tanto estéticos quanto narrativos. A cinematografia é eficiente e primorosa ao explorar a arquitetura da requintada mansão, tornando o local um personagem na história, tamanha a importância que o cenário desempenha para a trama. Versando sobre os extremos da pobreza e da riqueza e o choque resultante disso, direção de fotografia e roteiro se empenham em explorar os contrastes entre o ambiente espaçoso e ostentatório dos Park e o local claustrofóbico e humilde dos Kim, e essa compreende a simbologia elementar do longa.

Da janela de sua modesta residência, em um bairro pobre de Seul, tudo o que a família de Kim vê durante a hora do jantar são indivíduos alcoolizados que insistem em urinar bem em frente à sua casa. Já em uma noite que os Park vão acampar em comemoração ao aniversário do filho caçula, a família de Kim se apropria da mansão e desfruta de luxo e conforto – fantasiando com uma vida que não possuem, mas almejam –  ao mesmo tempo em que observam a paisagem verdejante e idílica que a enorme janela da mansão lhes proporciona. A chuva, elemento que confere um efeito belo e poético para aquele momento, mais tarde traz desgraça para modesta residência dos Kim. Figura similar possui a escada na narrativa. Reparem como a família Kim está sempre descendo pelas escadas de modo a acessar os porões e mesmo a sua residência no bairro pobre, como se para simbolizar as distinções entre os altos e baixos níveis que compõem uma injusta e desigual estrutura econômica. O presente de Min-hyuk, a rocha, também agrega um valor metafórico à trama. O objeto contundente desempenha um papel fundamental no trágico clímax do filme.

O conflito entre patrões e empregados tem sido um mote bastante trabalhado no cinema atual. O tema foi tratado de maneira mais direta no brasileiro Que Horas Ela Volta?, ganhou contornos mais líricos no mexicano Roma e, agora, no sul-coreano Parasita alcança um simbolismo perfeito. As três obras citadas, apesar das abordagens distintas, carregam pontos em comum. Em todos eles, os patrões veem algo de intrusivo no comportamento daqueles a quem consideram subalternos; mostram um inegável desprezo pelas suas condições humildes; os tratam como mera mão de obra, sem nenhuma individualidade, criados apenas para obedecer cegamente às ordens de seus empregadores. Os burgueses são retratados defendendo uma estrutura vertical de classes, mas também apresentam uma inegável dependência e necessidade dos serviços daqueles a quem julgam inferiores, precisando que estes se responsabilizem com zelo e afinco pelas extensivas e ingratas tarefas domésticas, pela educação de seus filhos e condução de seus automóveis luxuosos. Desde que nunca, logicamente, transcendam os limites e invadam espaços que não lhes dizem respeito, eles são “bem-vindos”. Ao ultrapassarem essa linha, no entanto, são vistos como pragas a infestarem seu habitat. E é exatamente nesse ponto que o texto de Bong Joon-ho alcança uma consistência e brilhantismo inigualáveis, pois, no fim das contas, mais parasitários são os Park dada a forma como exploram seus empregados.

Os recursos encontrados para abordar a velha temática desigualdade social são inventivos, passando longe de qualquer discurso clichê. Impressiona o quão redondo, bem resolvido e arquitetado é o longa. A história mescla drama e thriller temperados com um humor ácido e cruel e converge para as disparidades sociais e econômicas existentes no país. Trafegando com exímia destreza e naturalidade por entre esses elementos dramáticos, Bong Joon-ho reveste sua obra de um tom preciso de denúncia e crítica social, compondo um retrato ímpar da distinção entre classes, com direito a um plot twist surpreendente no ápice da produção.

Outro dos acertos do cineasta é jamais separar seus personagens em bons e maus, em núcleos de mocinhos e vilões, evitando o fácil caminho do maniqueísmo. Os Kim podem ser vistos como vigaristas, trapaceiros, alpinistas sociais, mas não são pintados na tela como vilões ou psicopatas. Isso se estende também à família burguesa ou a ex-governanta e seu marido. Todos acreditam em sua própria verdade, carregam suas próprias convicções e visões deturpadas do mundo e da realidade que os cerca, o que acaba por justificar suas atitudes, ainda que por vias tortas.

Embora todo o elenco esteja muito bem, o destaque do cast é mesmo é Song Kang-ho como o motorista Kim Ki-taek. O ator impressiona em diversos momentos. É doloroso observar a mágoa em seu olhar ao ouvir os comentários inapropriados do Sr. Park a respeito do cheiro peculiar “de metrô” que ele e sua família possuem. A humilhação e o desejo de vingança expressos em sua face na cena da festa, que representa o clímax do filme, são tão palpáveis que não tem como se sentir indiferente.

É inteligente a escolha de Bong Joon-ho em observar o desenrolar dos eventos e as ações de seus personagens com um olhar frio, distante e até mesmo didático, quase como um voyeur durante a maior parte da projeção. Porém, em seus minutos finais, o cineasta faz questão de adentrar os sentimentos e propor um mergulho nas emoções dos personagens, garantindo um tom de maior humanidade e pessoalidade a eles, utilizando o famigerado recurso do voice over de maneira segura, astuta e quase onírica.

Apesar de refletir uma realidade sul-coreana, Parasita é universal. (AB)

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O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, um dos poucos pensadores que conseguem traduzir em ideias a sociedade contemporânea, afirma que o capitalismo é um sistema parasitário: “como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento”. Por isso, não é à toa que o sul-coreano Bong Joon-Ho (Okja, Mother, Hospedeiro) tenha batizado seu novo longa de Parasita” (Gisaengchung, Coreia do Sul, 2019 – Pandora Filmes), um filme denso e complexo sobre a exploração resultante da desigualdade social e que leva ao pé da letra a luta de classes entre pobres e ricos. O pano de fundo desse embate é a Coreia do Sul, uma potência econômica e tecnológica, mas que ainda guarda o ranço do subdesenvolvimento.

Em cartaz há várias semanas no Cine Passeio, em Curitiba, Parasita é, em sua essência, um suspense com uma carga de tragicomicidade surpreendente e eloquente, que se adequa à proposta de Joon-Ho de retratar a disparidade entre classes no que ele define como um filme-escada: enquanto “o de cima sobe, o de baixo desce”. A cena do início já evidencia essa noção de hierarquia social, mostrando um cabide para varal pendurado com meias em frente à janela de um apartamento emporcalhado, cheio de tranqueira, no subsolo de uma viela. Assim vive a família de Kim Ki-taek (Song Kang-ho). Ele, os filhos e a esposa estão desempregados e sobrevivem fazendo bico, montando caixas de pizza. Vivem no submundo da existência como no porão habitado por ratos. Abaixo do nível da rua, da sociedade e de padrões éticos e morais. Da janela, é possível ver um bêbado mijando na lixeira em contraste com a água da chuva capaz de inundar em segundos toda a propriedade. Chuva que, em vez de lavar o apartamento sujo, faz eclodir o esgoto coreano e que poderia muito bem ser as entranhas de qualquer cidade de terceiro mundo. Dessa mesma janela, é possível ver a neve que congela a alma e os sonhos de um pai que sempre quis ver o filho estudar numa universidade.

No primeiro ato, o espectador é apresentado a essa família peculiar e grotesca, que caiu na pobreza por conta de falências e demissões. O filho de Ki-taek, Ki-woo (Choi Woo-shik), está preocupado em captar o sinal do wi-fi do restaurante para conseguir acessar um vídeo no YouTube: por necessidade e não entretenimento. O humor negro faz o espectador rir, mas com uma dose de melancolia. É aquele riso com culpa da tragédia alheia. E de tanto apanhar da vida, a moral dessa família se confunde com a malandragem. Para quem não tem nada a perder, a fraude e mentira se tornam algo habitual. Passar a perna em quem tem dinheiro é uma atitude condescendente, como se os ricos tivessem culpa pela pobreza alheia e fossem obrigados a pagar por isso.

A reviravolta na vida da família acontece quando Ki-woo aceita a proposta de um amigo abastado para assumir seu lugar como tutor de inglês de uma adolescente rica. Com o pretexto de visitar o amigo e oferecer a oportunidade de emprego, o rapaz lhe presenteia com uma pedra que promete trazer riqueza material. “Isso é tão metafórico”, responde Ki-woo, seu bordão ao longo do filme. A riqueza para quem não a conhece é algo assim, metafórico.

Ki-woo passa, então, a trabalhar para a família Park, uma versão às avessas da família Kim, que ocupa uma mansão modernosa projetada por um arquiteto famoso. O ritmo e os travellings de Joon-Ho mostram a opulência e a sofisticação do ambiente que contrastam com o núcleo suburbano. Ampla, sem um sinal de poeira, a fortaleza é como um museu de porcelana onde vive o casal e seus dois filhos, uma menina adolescente e um garotinho que adora brincar de índio e dar uma de cacique pra cima dos pais. Com o desenrolar da narrativa, Joon-Ho mostra que a diferença entre classes não se prende ao nível dos cifrões: que inteligência, esperteza e sagacidade não se compram com dinheiro. Que o conforto e segurança podem gerar o comodismo e alienação.

O filho de Ki-taek vai encontrando brechas para ludibriar a dona da casa a demitir todos seus criados. Pouco a pouco e com o auxilio do YouTube (por onde aprendem dicas valiosas), ele, a irmã, a mãe e o pai passam a trabalhar para a madame desempenhado funções como motorista, governanta e professora de artes do caçula. Para interpretar esses novos papéis (ou empregos), a família ensaia em conjunto, proporcionando os momentos mais hilários do filme.

E assim, do lixo ao luxo, o plano é “conquistar” a casa dos ricos, lembrando o que Jordan Peele fez em Nós. Porém, a descoberta de um bunker (construído nas casas como proteção contra uma possível ataque da Coréia do Norte) abala o plano da família invasora. No decorrer de 132 minutos, a narrativa, então, vai abrindo espaço para a questão sobre quem são de fato os parasitas: os criados que sustentam a família rica ou a família rica que depende dos criados?

Seja pela direção de fotografia excepcional (como na “cena dos líquidos”, quando os Kim tentam impedir o medindo de fazer xixi jogando um balde de água fria) ou pela edição e montagem (como na sequência em que a sinfonia de Georg Friedrich Händel é a música clássica para representar a sofisticação da família rica e atinge uma sincronia perfeita com a imagem), Parasita é esteticamente sublime, tendo arrebatado a Palma de Ouro em Cannes, o Globo de Ouro como melhor obra em língua estrangeira e levando seis indicações para o Oscar, inclusive para concorrer a filme e diretor.

No final, Joon-Ho escancara a luta entre pobres e ricos de forma cruel e sangrenta e nos leva à conclusão que, por mais que façamos planos (a representação da esperança), sempre seremos, de certa forma, prisioneiros do sistema. (JM)

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Vice

Atuação de Christian Bale é o ponto alto desta cinebiografia do vice-presidente de George W. Bush com muito humor e crítica política

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Um dos filmes mais comentados nesta temporada de premiações, acumulando indicações e desenvolvendo um hype de Oscar, é Vice (EUA, 2018 – Imagem Filmes). O filme de Adam McKay (que em 2015 já mexera em outra grande ferida recente de seu país em A Grande Aposta) conta a trajetória de Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos durante o governo de Bush Filho (2001- 2009), desde sua origem em Wyoming até os dias atuais. E será que toda a repercussão da obra vale o ingresso?

A trama retrata as nuances do poder adquirido por Cheney, brilhantemente interpretado por Christian Bale, que repete a parceria com McKay. Aqui, Bale também passa por transformações físicas para seu protagonista, sendo que o ponto alto de sua atuação é o detalhe. Cada trejeito do político americano é cuidadosamente arquitetado por seu ator. O elenco de apoio também não deixa a desejar mas poderia ser melhor aproveitado. Como Amy Adams, que interpreta sua esposa, Lynne Cheney, demonstrando seu inegável talento com seus momentos de brilhantismo; e Steve Carell, que orbita entre o drama sádico e a inconveniência humorística como o secretário de defesa Donald Rumsfeld.

McKay constrói o filme de maneira equivalente a seu laureado antecessor, repetindo seu estilo de narração com traços de documentário investigativo com o acréscimo da maturidade no tom. A seriedade da trama privilegia o humor fortemente visual da obra, que se aproveita da estética cinematográfica para preencher suas duas horas com momentos genuinamente engraçados. Grande mérito de Viceé  a utilização de metalinguagem, que presenteia o espectador com as melhores piadas do filme.

Numa outra camada de metalinguagem, o filme alterna suas razões de aspecto e cria uma formidável confusão, na qual não entendemos se as imagens mostradas são mesmo reais ou gravadas para esta produção. Essa estranha sensação amplifica as consequências das decisões de Cheney e sua equipe, o que torna o filme particularmente denso, sem abandonar a leveza com que McKay trata suas cenas.

A fotografia é simples, ressaltando a narrativa visual do roteiro e criando a tênue margem entre realidade e ficção que dança ao longo do filme. Os planos abertos e posicionamentos simples da obra são bem montados, numa alternância de ritmo entre os momentos mais tensos e calmos, sem que deixemos de enxergar o poder nas mãos de Cheney. Ainda assim, quando a trama embarca em seus episódios sérios, não poupa esforços. Cenas fortes preenchem a tela, além de críticas (sutis e óbvias) à política da direita estadunidense. Trump e seus eleitores têm uma especial participação porque Vice mescla humor à crueza da vida política de uma das nações mais poderosas do mundo.

McKay consegue demonstrar seu lado “humano” presente em relações pessoais. Com uma iconografia que traça paralelos entre o personagem de Bale e o icônico Winston Churchill, a obra quase faz o espectador sentir empatia pelo vice-presidente de George W. Bush. Ainda assim, o roteiro e a camada de realidade que permeia o filme o vilanizam sem a necessidade de iluminação nefasta e revelação de planos malignos do político. Escancarando seus erros e as consequências deles, Vice nunca te deixa esquecer que seu protagonista é Dick Cheney.

[Nota do editor: Na noite de 7 de janeiro, ao receber o Globo de Ouro da categoria de melhor ator em comédia ou musical, Christian Bale agradeceu a satanás pela inspiração ao papel de uma pessoa sem qualquer carisma.]

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A Favorita

Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone revivem a realeza britânica do Século 18 em outra obra perversa do cultuado diretor Yorgos Lanthimos

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Texto por Abonico R. Smith

Fotos: Fox/Divulgação

Yorgos Lanthimos está longe de fazer cinema com o objetivo de entreter. Muito mais do que confundir, ele quer mesmo é perturbar. É difícil que o espectador escape ileso de uma sessão de algum filme seu. Desfilando elementos como cortes bruscos, trilha sonora angustiante (baseada em pequenos trechos de música erudita), muitas cenas externas com iluminação natural, interpretações intencionalmente gélidas (porém que não deixam a contundência de lado) e roteiros que transbordam niilismo, suas últimas obras vêm angariando muitos elogios entre os cinéfilos que não se prendem apenas a blockbusters. O Lagosta (2015) e O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017) tiveram bastante hype mas acabaram batendo na trave nas indicações para grandes premiações do cinema mundial. Agora, A Favorita (The Favourite, Irlanda/Reino Unido/Estados Unidos/Grécia, 2018 – Fox) vem para quebrar esta última barreira e consolidar o diretor e roteirista no panteão dos maiores nomes da atualidade em Hollywood.

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A Favorita desloca o cenário de absurdos, intrigas e perversidades para a Inglaterra do Século 18. Contudo, não se engane ao achar que realeza e nobreza aqui apresentadas se diferem muito dos governantes e elites contemporâneas. Encastelados em sua própria bolha movida a luxúria, ganância, desperdícios, frivolidades e aquela crença que o poder será sempre eterno. O centro das atenções é a rainha de temperamento bipolar Anne (Olivia Colman), que, entre problemas de saúde e desejos carnais lésbicos, não parece se importar com sua posição no topo de pirâmide e se deixa influenciar por decisões importantes, como guerras e aumento de impostos, tomadas por caprichos ou vontades de quem a cerca diariamente na camada imediatamente inferior.

É aqui que entra a importância das primas Sarah (Rachel Weisz) e Abigail (Emma Stone), a primeira transformada em uma espécie malvada de assistente pessoal de Anne para todas as ocasiões e a outra uma “intrusa” que acaba de chegar ao reino e arruma uma vaga na criadagem para não tardar a começar o alpinismo social. Utilizando astúcia, malícia, ironia, dissimulação e atributos físicos elas passam a duelar de modo ferrenho para ver quem chama mais a atenção de Anne e, simultaneamente provocar a dependência dela de sua companhia. Articulam, cada qual a seu jeito, doce ou amargo, maneiras de manipular também as demais pessoas ao redor (lordes, políticos, vassalagem). Ganham pequenas batalhas, sofrem com a derrota em outras. Até que chegam ao momento extremo de se confrontam diretamente no intuito de tirar de vez a rival de seu caminho.

Esta rede de intrigas, artimanhas e ardis cai como uma luva no cinema autoral de Lanthimos. O cineasta grego (desta vez não assinando o roteiro da obra, que ficou sob o comando de Tony McNamara, nome experiente das séries da TV britânica, e com a estrutura dividida em sete pequenos capítulos) se deleita durante duas horas nas quais nem a extrema beleza de cenários, figurinos e direção de arte conseguem livrar o espectador da tensão total. E, caso você não tenha visto outro filme de Yorgos, é bom ressaltar: aqui não há a menor chance de haver um final feliz.

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Assunto de Família

Longa japonês vencedor de Cannes no ano passado emociona ao questionar limites e necessidades para a formação familiar

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Imovision/Divulgação

Família é aquela que é imposta a você por causa de laços sanguíneos ou a que o livre-arbítrio permite que, qualquer que seja o motivo, a escolha de ambos os lados? Este é o ponto central de um dos filmes de língua não inglesa mais badalados do ano passado, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, indicado ao Globo de Ouro e um dos nove finalistas que concorrem à indicação ao Oscar, no fim da atual temporada de prêmios do cinema norte-americano.

Assunto de Família (Manbiki Kazoku, Japão, 2018 – Imovision) chega aos cinemas brasileiros neste começo de ano trazendo esta discussão. Aparentemente os Shibata são uma família unida, apesar das grandes dificuldades do dia a dia. Moram em um bairro pobre da grande cidade, ganham pouco em subempregos sem muita perspectiva de melhoria de salários e cargos, sobrevivem basicamente da uma misteriosa pensão recebida pela matriarca da família. Avó, duas irmãs, o genro e um menino dividem o mesmo cubículo, entulhado de quinquilharias de casa. No dia a dia, pai e filho praticam pequenos furtos de comida para os jantares em casa e alguns objetos que possam ser vendidos para garantir um trocado a mais no orçamento já apertado (daí o título dado em inglês, Shoplifters, para o lançamento no mercado internacional). A mãe, por sua vez, colabora trazendo mais coisas do seu trabalho. Já a irmã dela assume um novo nome para fazer strip tese ao vivo para os homens do outro lado de uma tela de vidro. O pequeno garoto não vai à escola e apenas lê os livros disponíveis que estão jogados em algum canto de casa.

No trato cotidiano os Shibata são a família mais afável e unida que o espectador poderia acompanhar. Aos poucos, porém, vão surgindo na história novos elementos que podem vir a fazer ruir todo o castelo de cartas construído pelo núcleo e trazer desavenças aos seus integrantes. Tudo começa quando, no caminho de volta para o cubículo, após um passeio noturno, Osamu (Lily Frankie) se depara com uma garotinha de quatro aonde idade abandonada em uma casa vizinha. A pequena Yuri é largada ao léu pelos pais, sofrendo diariamente abuso psicológico e violência física. Levada na surdina para os Shibata, ela acaba sendo adotada informalmente e nunca mais devolvida ao seu lar de origem, para a alegria de qualquer espectador mais sentimental aliás. Esta decisão, apesar de inicialmente parecer acertada para este mesmo espectador com o coração de manteiga, acaba por desenrolar todo um novelo de complicações até o fim da projeção.

Enquanto isso, o diretor Hirokazu Koze-eda – que aqui assina também o roteiro – faz de seu novo filme mais uma bela experiência sobre as pequenas coisas cotidianas. Seu um apurado olhar contemplativo explora ângulos de impacto em espaços diminutos e embarca naquele ritmo lento característico do cinema nipônico – a ponto de explorar com extrema sutileza a sucessão das quatro estações durante as cenas externas, por exemplo. O que torna ainda mais lírica a sua visão de como diferentes pessoas e personalidades podem muito bem formar e se sentir uma família, mesmo com suas divergências. Morais, ideais ou até mesmo de sangue.