Teatro

FUERZA BRUTA

24.10.2019

Grupo argentino apresenta na Pedreira Paulo Leminski espetáculo onírico, desafiador e de estética inovadora

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Texto por Janaina Monteiro

Fotos por Abonico Smith, Iaskara Souza e Janaina Monteiro (de cima para baixo)

A sensação é de participar de um sonho, de mergulhar no inconsciente da personagem, um homem de branco que caminha a passos frenéticos na esteira da vida, uma simulação da nossa corrida diária contra o tempo. Assim começa o espetáculo da companhia Fuerza Bruta chamado Look Up, que ficou por mais de dez anos em cartaz na Broadway, em Nova York e agora chega a Curitiba, com uma curta temporada na Pedreira Paulo Leminski. Se levado ao pé da letra, a expressão significa “olhar para cima”. Ou seja, enxergue além do que sua capacidade sensorial permite.

O show lúdico, interativo, com performances que desafiam o corpo e os sentidos e estimulam as emoções é um misto de arte circense, dança e balada. A companhia de Buenos Aires nasceu em 2003, formada por gente vinda de dois grupos de teatro alternativo portenhos. Aliás, em BsAs a arte circense é uma tradição – desde pequenas, as crianças são encorajadas a fazer aulas de acrobacias e malabarismos. Tanto é que a estrutura montada na entrada resgata essa memória circense, com carrinhos de cachorro-quente, pipoca, sorvete e bebidas para os espectadores entrarem no clima e socializarem entre si.

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Por isso, a indicação é para que o público vista roupas confortáveis e chegue cedo para aproveitar o máximo possível do momento e se ambientar ao clima. Às 20h30, todos são convidados a seguir por um corredor que dá acesso à “caixa preta” de 500 metros quadrados e com capacidade para cerca de mil pessoas. O público fica de pé e aguarda ansioso pelo desconhecido. O sonho começa e as surpresas surgem de todos os cantos: do chão, das paredes, do alto. Por quase uma hora, ao que se assiste é um espetáculo 360 graus, de uma estética inovadora que desafia a nossa percepção de realidade, da força humana e proporciona uma experiência sui generis.

Da parede negra, surge o homem que aperta o passo na esteira e atravessa paredes e portas, cruza com bailarinas ninfas que dançam presas a cabos de aço. Ele dorme e mergulha numa festa com muitos efeitos especiais, com luzes estroboscópicas, gelo seco, papel picado, vento, água, danças com trilha sonora que mescla batida tribal e eletrônica com pitadas de música brasileira. Todos falam a mesma língua, pois não há diálogos, apenas gestos e gritos. Só a interpretação do enredo que é pessoal.

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À medida que o espetáculo avança, os espectadores precisam se mover para dar espaço aos atores que, de repente, surgem ali mesmo, no chão, interagindo com a plateia que a todo tempo é convidada a dançar, pular, libertar-se das amarras. A grande atração de Look Up é a piscina gigante onde quatro atrizes nadam, caminham e se jogam sobre as cabeças dos espectadores, como se todos fôssemos peixes fora d’água. Então ficamos de boca aberta e em êxtase diante delas e do nosso reflexo no plástico ultrarresistente.

É um espetáculo único, de uma engenharia e magia incríveis. Por isso, não há o que temer. O mundo ali é seguro. Não se reprima. Liberte-se até o final desse show onírico e fantástico.

 

O RECITAL DA ONÇA

18.04.2019

Regina Casé volta ao teatro após 25 anos refletindo sobre a identidade brasileira e retoma parceria do Asdrúbal Trouxe o Trombone

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Texto, entrevista e foto por Abonico R. Smith

Quase meio século atrás uma turma de jovens revolucionava o teatro brasileiro aproveitando o clima de abertura política que, junto com a gradual despedida do governo ditatorial militar, trazia a oportunidade para a turma dos vinte e poucos anos de se ver ali refletida no palco em atores que expressavam as esperanças, angústias, medos e alegrias da geração que cresceu sob o medo e o tolhimento da liberdade. Sob o complexo porém não menos inventivo nome de Asdrúbal Trouxe o Trombone, a trupe tornou-se sinônimo de sucesso, com direito a uma legião de fãs de voltava inúmeras vezes para ver as suas peças, e tentáculos posteriores na música e na televisão que consolidariam a influência para quem veio depois.

Corta para o início de 2019. Regina Casé, nome mais famoso revelado pelo Asdrúbal em suas montagens, está de volta ao teatro, depois de 25 anos afastada, fazendo trabalhos apenas no cinema e na TV. Sua reconciliação com os palcos vem com a companhia do velho parceiro da profissão, o mentor do Asdrúbal, o diretor Hamilton Vaz Pereira, o mesmo com quem trabalhou na mais recente estada nas coxias, Nardja Zulpério. De quebra, a atriz ainda traz mais dois nomes que a acompanham nas últimas três décadas na telinha: o atual marido Estevão Ciavatta (também na direção) e Hermano Vianna (assinando boa parte da concepção textual do espetáculo). Depois de uma pequena temporada experimental durante o verão de Salvador numa igrejinha baiana adaptada para a função de centro cultural, O Recital da Onça ganhou, enfim, os teatros brasileiros. A primeira escala foi realizada na capital paranaense, na semana inicial do Festival de Teatro de Curitiba (28 e 29 de março), no mesmo Teatro Guaíra onde já havia se apresentado com a peça anterior.

Apesar de ser um monólogo, O Recital da Onça, no fundo, é uma atualização do espírito verborrágico e libertário levado pelo Asdrúbal. É todo esquematizado em cima de impressões e experiências pessoais da artista, tendo como costura a leitura de trechos de importantes autores da literatura brasileira. Obras estas que, de alguma forma, têm conexão com o que Casé vai relatando à plateia.

A história tem como base um pouco das angústias vividas por Regina alguns anos atrás, após o sucesso do filme Que Horas Ela Volta?, filme no qual é a protagonista e cuja trama critica as desigualdades gritantes da sociedade brasileira através do cotidiano de uma família da classe A e a sua empregada doméstica. Quando convidada para dar uma palestra na Universidade de Harvard, ela acabou tendo contratempos com o departamento de imigração dos EUA. Estes momentos vividos pela atriz são a mola propulsora do espetáculo, que parte da premissa das diferenças culturais para propor reflexões a respeito de alma e da identidade brasileira.

Por isso o texto escalado para o encerramento, Meu Tio, o Iauaretê, de Guimarães Rosa, vai direto ao coração do Brasil. Mais precisamente ao Pantanal, à selva, à onça, à mestiçagem que sempre foi uma das grandes bandeiras culturais de Regina Casé nos programas de TV que apresenta. A parte final do conto, que conta a história de um caçador de onças que acaba por se identificar com o animal que deveria abater, dá o tom sério e dramático do espetáculo, a ponto dela se despedir do palco mandando um papo reto e sincero, bastante propício para os dias de hoje (“Não tenham medo! Coragem!”). E é justamente nela que reside – para muitos – a maior surpresa do espetáculo, Afinal, mais identificada como atriz de comédias, Regina dá um show de interpretação (com a ajuda de um telemprompter, claro, porque ninguém conseguiria decorar um trecho gigante de um livro em tão pouco tempo para reproduzi-lo ao vivo) e deixa muita gente se perguntando o porquê dela não ter se dedicado mais ao teatro neste último quarto de século.

A transição entre o deliciosamente engraçado e o inegavelmente contundente se dá pelo quatro trecho literário lido na peça (também com a ajuda do TP). Em A Mineira Calada, ela retorna ao universo de diferenças extremas entre patroa e empregada. Para ser mais preciso, entre Clarice Lispector, a autora deste conto, e Aninha, a “doméstica que gosta de ler livros complicados e dispensa histórias água-com-açúcar”. A forma com que Clarice se refere a Aninha pode até soar agressiva e presunçosa para alguns espectadores, entretanto revela uma das facetas mais duras dos grandes centros urbanos do país. Não é preciso nenhum exercício mais puxado de imaginação para estender o narrado na relação para outros vínculos empregatícios quaisquer. Assim como o texto anterior, mais atual impossível, mesmo tendo sido escrito décadas atrás.

Já a primeira metade do espetáculo é reservada àqueles textos que poderão variar de cidade em cidade. Em Curitiba, o início se deu com O Turista Aprendiz e o relato de viagem do modernista Mário de Andrade a Natal, quando passou por várias capitais nordestinas entre novembro de 1928 e fevereiro de 1929 para pesquisar as culturas populares da região. Para brindar os espectadores paranaenses, foram escolhidos Dalton Trevisan e Paulo Leminski para o cardápio do Festival de Teatro. Do primeiro, o conto escolhido foi Moreno Ingrato, que parece não ter agradado a uma boa parcela da plateia (também, o que esperar da republiqueta diante da aspereza e das sacanagens típicas do autor?). Do segundo, um trecho do romance Agora é Que São Elas (“muita gente diz que esse é o pior livro que ele escreveu, mas eu vou ler assim mesmo”, desafiou Regina antes de pegar a edição e abrir na página previamente marcada. A homenagem à terra dos polacos e polaquinhas terminou com um monte de gente branquela subindo ao palco a convite da atriz para sambar ao som do Maxixe Machine.

Não é de agora que a narrativa transmídia bate ponto em peças teatrais. Contudo, pode se dizer que Regina e sua trupe fiel ousam ao escolher levar a literatura brasileira de qualidade aos palcos em O Recital da Onça. Funciona tanto na intimidade de uma igrejinha baiana, quanto no tradicional palco de um dos maiores teatros brasileiros como o Guaíra. Funciona também em qualquer lugar do país, sempre com a artimanha de aproximar o público de seus autores conterrâneos também (em Salvador, por exemplo, leu-se Jorge Amado). Funciona sempre tendo o viés pessoal da artista, que inclui ali um pouco de sua pessoalidade e assim consegue criar maior intimidade com quem está ali lhe vendo no conforto da poltrona. Funciona também pela ligação com um ou outro interlúdio musical, cuja temática acaba se conectando com o que está sendo dito ali em cena. Funciona por sair do quadrado, tal qual era feito lá atrás, sempre com muito humor, com o Asdrúbal Trombone o Trombone.

Três perguntas

Em tempos sombrios, com tantas brigas e falta de entendimento entre as pessoas, qual é o papel do humor?

Hamilton Vaz Pereira: Lá em 1974, no comecinho do Asdrúbal, compositores como Chico Buarque e Gonzaguinha falavam em suas letras que o importante é ser feliz neste momento. O que vale é a alegria de viver, a inteligência, a certeza da beleza da vida. Melhor do que o humor só a morte e isso não a teremos. A vontade é sempre a de dizer que não importa qualquer situação que estejamos vivendo. A vida é maior do que tudo.

Como está a juventude de hoje em relação à juventude de quatro décadas atrás, do tempo do Asdrúbal Trouxe o Trombone?

Hamilton Vaz Pereira: Acho que posso falar com propriedade sobre isso. Afinal tenho um filho de 25 anos. Ele se chama Iuri, é um garotão classe média e um excelente exemplar de como são os novos brasileiros. Eu já tenho 67 anos e percebo como eles são melhores em tudo em relação à nossa juventude. São mais finos, mais educados, mais inteligentes. Possuem um grau imenso de sensibilidade, uma referencia bem maior de cidadania. Veem beleza física em absolutamente tudo. São o inverso daquele valor de beleza dos gregos antigos. Também faço um trabalho com o grupo Teatro da Laje. Eles são da Vila Cruzeiro, um lugar bastante barra-pesada no Rio de Janeiro. Lá eu vejo como o teatro serve como exercício de cidadania. Vivem me contando tudo o que aprenderam com o teatro, sobretudo a ter respeito aos pais e professores, embora na hora do tiroteio eles se joguem no chão ou pulem pela janela porque o mais importante é se manter vivo. Lá também é arma contra o bullying. Esses meninos falam que ninguém mexe mais com eles depois que começaram a fazer teatro. Sabe, não foi a academia, não foram as artes marciais, foi o teatro. Este é o encanto. A arte salva e dá moral para todo mundo.

Qual o principal objetivo de O Recital do Onça?

Regina Casé:É muito saudável acabar com a barreira que divide o que chamam de alta e baixa cultura. Fazer uma ponte high-low social, econômica e cultural. Unir o high, que, em tese, é do branco, com dinheiro e que tem acesso aos estudos, e o low, que, também em tese, vem dos pobres, negros e analfabetos. Como falar do Brasil hoje sem que se brigue com o amigo ou alguém da família? Não vamos chegar a lugar algum ao nos antagonizarmos. É necessário que se estabeleça uma relação da gente com os nossos valores, identidades e a biodiversidade. É resgatar o verdadeiro sentido da palavra popular, seja na literatura, na música ou qualquer outra área. Não se pode ficar em um pedestal, preso em uma torre de marfim. O Brasil precisa se reconhecer nas coisas suas. O melhor meio para isso é através do amor e do afeto. Para isso existe a arte. Cito como um grande exemplo disso o meu amigo Zeca Pagodinho. Para começar, ele ir ao teatro já é um fenômeno. Não vai, não gosta de ir, mas foi me ver uma noite lá na temporada inicial em Salvador. Ele comentava junto com as minhas falas igual a uma criança na plateia de um espetáculo infantil. Sem contar o fato de que ele fazia isso justamente porque não sabia que a peça já havia começado. Achava que eu estava ali perto da plateia sei lá o quê, conversando, batendo papo com as pessoas.

 

ROMEU + JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE

03.11.2018

Clássica peça de William Shakespeare vira musical com sotaque brasileiro e trilha sonora de canções compostas e gravadas pela cantora

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Texto por Jocastha Conceição e Kevin Grenzel

Foto: Caio Galucci/Divulgação

Inglaterra, final do século 16. Uma era violenta, regida por guerras e conflitos políticos. Um jovem buscava aliviar as agonias da época com poesia e arte. Em fase de transição entre o clássico e o novo, o poeta inglês compôs seu primeiro sucesso e até hoje considerada sua maior obra. Romeu e Julieta é peça que não se define como comédia ou tragédia, mas como um misto entre estes. Obra que se encontra na dualidade entre amor e ódio.

A obra de William Shakespere revolucionou a escrita naquele tempo e se mantém relevante até os tempos atuais, seja pela construção do arquétipo do amor juvenil e imprudente ou até pelas críticas politicas de sua época. Romeu e Julieta traz uma atemporalidade singular e, mesmo após 400 anos depois de escrita, continua se renovando através de canções, filmes e peças musicais, nos fazendo rir e chorar com seus amores e tragédias. E até agora, em uma sociedade perdida em seus valores, podemos ter uma pausa singela para sonharmos novamente. Nem que apenas por algumas horas.

Brasil, final do século 20, no início de uma guerra violenta, regida por ódio e conflitos políticos, uma jovem buscava aliviar as agonias da época com poesia e música. Marisa Monte se revelou como uma pérola nacional, com voz e sonoridade únicas. É considerada uma das maiores cantoras da música contemporânea brasileira, junto com os nomes de Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia.

Embora a obra de Marisa seja extremamente recente, já podemos notar sua influência na música nacional. Ela foi uma das primeiras a misturar a linguagem do pop ao que chamamos de MPB e se tornou referência a diversos cantores que surgiram – com destaque a Silva, cantor capixaba que conta com um álbum dedicado apenas a rgravações de obras de Marisa Monte. Com musicalidade genuinamente brasileira, Marisa se arrisca, mistura o eletrônico e analógico, antigo e o novo, chegando ao ponto de utilizar até o belcanto (técnica de canto da ópera italiana) em suas canções.

Foi com esse propósito de mistura que chegou aos cinemas brasileiros a peça Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte, embalada pelas canções compostas e gravadas por Marisa Monte e com direção musical do produtor Apollo Nove. Dirigido por Guilherme Leme Garcia, o musical foi apresentado no Teatro Frei Caneca (SP) e, na noite de 21 de outubro, contou, pela primeira vez no Brasil, com transmissão ao vivo em salas de cinema.

A fusão da obra inglesa com a música popular brasileira é bem representada na escolha dos atores, que não se limitou ao parâmetro de beleza europeu, sempre priorizado para viver os personagens desta história. Os papéis de Julieta (Bárbara Sut), do Montequio Mercuccio (Ícaro Silva), do Capuletto Teobaldo (Pedro Caetano) e de muitos outros foram concedidos a atores negros, levando maior representatividade ao espetáculo. Além da seleção musical e de elenco, também pode ser notado o toque de brasilidade nas falas de cada personagem. Eles usam termos nacionais, gírias, divergem em sotaques de todas as regiões e arriscam até em utilizar memes da cultura nacional para roubar risos. Essa localização traz a empatia do público, que se sente parte da história, e um refresco para uma obra já conhecida mas que ainda tem muito a dizer.

O cenário é simples, muitas vezes contando somente com divisas sem detalhes. Entretanto, apenas a atuação e história são suficientes para instigar o espectador a criar em sua mente os castelos, bailes, igrejas e cidades. O figurino dos atores nos remete aos trajes medievais, ainda que em algumas cenas pareça bastante moderno. Na obra original era explícita a dicotomia entre sentimentos, principalmente entre o amor e ódio. Nesta peça de 2018 não é diferente. Há ênfase no humor e na tragédia, que são muito bem encaixados em todos os atos, mas nunca pendendo para qualquer lado e ou se tornando cansativo.

Em dois atos, acompanhamos a trajetória do mais famoso casal da dramaturgia, Romeu (interpretado por Thiago Machado), da família Montequio, grande inimiga da família Capuletto, de Julieta. O pai de Julieta (Marcello Escorel) realiza um grande baile, onde sua filha conheceria seu pretendente em potencial. Porém, o plano do velho Capuletto é interrompido com o encontro vibrante de Julieta e Romeu ao canto de “Não Vá Embora”, num encaixe perfeito com a cena. Logo os dois se apaixonam e começam a enfrentar os primeiros problemas deste amor proibido. A comédia também ganhou espaço em meio à história conflituosa, principalmente com os cúmplices do romance: a Ama (Stella Maria Rodrigues), com seus muitos elogios ao amado de Julieta e suas falas engraçadas a todo momento, assim como o Frei (Claudio Galvan), com seus conselhos e trejeitos.

O primeiro ato é leve. Conta com diversos pontos de alívio cômico. As cores são claras e os personagens, bem apresentados – até aqueles que não possuem tanto tempo de cena, como o Príncipe de Verona (Kadu Veiga) e o primo de Julieta, Teobaldo. Essa leveza é delineada pelas músicas que são cantadas, desde as mais solenes, como “Pelo Tempo que Durar”, até as mais agitadas e festivas, como “Panis et Circencis”. A metade inicial se encerra com o casamento proibido de Romeu e Julieta, carregado de paixão com a música “É Você”, mas também de tensão por estarem quebrando regras familiares. O que, aliás, ganha mais impacto ainda com a construção do cenário: luz baixa, apenas o casal diante do frei, com as únicas testemunhas da cerimônia sendo pessoas encapuzadas de preto, segurando velas, em coro de “Vilarejo”.

Após uma breve pausa, vem o segundo ato. E já no início percebe-se que o clima é outro. Os figurinos são mais escuros e a luz, mais densa. Não existem tantos momentos cômicos, afinal a trama é tomada pela tensão. A história reinicia com um conflito de espadas entre Montequios e Capulettos, que lutam enquanto “Volte Para o Seu Lar” é cantado com vozes graves, trazendo tom de bravura à cena.

A batalha é bem coreografada. Os movimentos se assemelham a passos de dança sem tirar o peso do momento. Pode-se dizer que esta é a cena em que existe maior ação em toda peça. As peças do cenário concebido por Daniela Thomas mudam de lugar e trazem uma sensação de movimento à cena como nos cortes e movimentos de câmera de um filme. Isso quebra aquele efeito “estático” do teatro e aumenta a aflição do público. Um encontro resulta no falecimento de um personagem querido e gera revolta e desejo de vingança em Romeu, que, diante de sua dor, batalha contra o Capuletto Teobaldo, obtendo vitória sobre ele. Romeu acaba castigado por tal feito, tendo de se retirar da cidade, para longe de Julieta. Antes de sua partida, o grande sucesso “Velha Infância” emociona o público, que assiste à despedida do casal, que, com melancolia e paixão, jura amor um ao outro.

O conhecido final da trama é embalado por “De Que Vale Tudo Isso”. E mesmo com uma obra criada há quase meio milênio, a renovação dos personagens e a trilha melancólica ainda são capazes de nos sensibilizar e retirar algumas lágrimas até daqueles mais fortes emocionalmente. Por fim, a produção acerta em trazer uma modernização inesperada e inusitada ao texto clássico. Aqueles que ainda não conhecem direito o clássico de William Shakespeare têm a oportunidade de se emocionar com os personagens famosos. E os que já estão saturados com a obra podem aproveitar uma releitura despretensiosa e refrescante, revivendo os sentimentos e momentos com a rica música de Marisa Monte.

>> Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte abandona agora o eixo Rio-São Paulo e parte em turnê em diversas cidades do país. Em Curitiba, o espetáculo chega ao Teatro Guaíra nos dias 16 e 17 de novembro (mais informações aqui).

 

SALOMÉ BY FAUSTO FAWCETT

16.04.2018

Criador de Kátia Flávia se une a companhia teatral curitibana em uma provocativa experiência multicultural e multissensorial

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Texto por Abonico R. Smith

Foto de iaskara

Apesar de todo o espectro ainda reminiscente dos anos de chumbo da ditadura militar que governava o país, quem viveu a infância e a adolescência a partir da segunda metade da década de 1970 pode ter uma ampla formação cultural que, mesmo sofrendo com todo o atraso de conexão com o eixo Europa-EUA e os poucos canais disponíveis para a troca e obtenção de informações. Imagine se isso, então, aconteceu em um dos maiores centros urbanos brasileiros, uma cidade efervescente de ideais, um caldeirão de linguagens culturais.

Fausto Fawcett não só é um produto deste tempo, como todo este fascínio por arte e informação veio a marcar o seu trabalho desenvolvido ao longo dos anos 1980. Transitando entre a faculdade de Comunicação Social e as noites e madrugadas pelas ruas da Zona Sul carioca (em especial as do bairro de Copacabana, espécie de refúgio artístico que encontrou para basear as suas criações), desenvolveu um trabalho performático todo especial unindo uma verve particular de ritmo e poesia misturando várias linguagens absorvidas das artes (música, cinema, teatro) e da comunicação (sobretudo a oriunda das palavras faladas, da cultura do rádio, veículo com muita força durante, justamente, a sua criação no Rio de Janeiro).

Com seguidas apresentações impactantes no circuito local, Fausto transformou-se em um dos grandes nomes da cultura underground carioca graças as frenéticas narrações canto-faladas (sempre acompanhadas por uma banda tocando um punhado de temas funkye extremamente dançantes) ambientadas nas ruas de Copa. Suas protagonistas, mulheres endiabradas, loiraças lascivas e no mais completo domínio de toda e qualquer situação. As história, sempre inundadas de alto teor de ação, futurismo, sexo, violência e, sobretudo, referências sociais, políticas, econômicas, culturais e comportamentais da atualidade. A narrativa, com as palavras sendo cuspidas como rajadas de metralhadora, sem deixar qualquer tempo e possibilidade de reação para o ouvinte.

No final de 1987, a história de Kátia Flávia, a Godiva do Irajá, catapultou ao sucesso o primeiro disco de Fausto e sua banda, batizada Robôs Efêmeros. Foi apenas a porteira aberta para um estrondoso sucesso que rendeu ainda outros dois álbuns com mais hits (“Santa Clara Poltergeist”, “Básico Instinto”) e homenagens a musas da vida real (as atrizes brasileiras Silvia Pfeiffer e Regininha Poltergeist, a deputada-pornô italiana Cicciolina), livros (romances e contos) mais alguns roteiros de filmes e seriados conduzidos como as suas letras.

Em 2016, Fausto recebeu o convite da curitibana Companhia de Teatro do Urubu para escrever uma peça teatral. Escrever, não. Adaptar. A clássica tragédia Salomé, de Oscar Wilde. Claro que à sua maneira. Então, revisitou a clássica histórica bíblica da jovem que, para o desgosto do tetrarca Herodes e deleite de sua sua mãe Herodíade pede a cabeça de João Batista em uma bandeja de prata, como prêmio por ter feito a dança dos sete véus. Apimentou tudo com bombas verbais de volúpia intensa e ainda adicionou elementos de tecnologia cibernética (o personagem, por exemplo, ganhou o novo nome de João Aplicativo Batista), a guerra sem fim entre judeus e palestinos, a questão dos refugiados sírios e, lógico, pitadas e mais pitadas da lamentável situação política na qual chafurda o Brasil nestes últimos anos.

O texto utilizado no verso do cartaz promocional da montagem, batizada Salomé By Fausto Fawcett, afirma que a encenação da Cia do Urubu é uma bricolagem de linguagens teatrais que se configuram a partir da relação dos personagens com seus contextos, formando um caleidoscópio existencial do homem humano e suas lógicas. Então, os seis atores em cena (entre eles a diretora do espetáculo, Carolina Meinerz) constroem relações entre o individual e o coletivo  enquanto travam uma luta para sobreviver perante a um festival de ironias e barbáries transformado em megaexperiência sensorial para os espectadores. Texturas, cheiros, gostos, cores, sons, luzes, projeções, músicas/batidas, atitudes e atos sexuais se confundem como interferências benvinda ao jorro libidinoso do texto assinado por Fawcett.

Encenada pela primeira vez em outubro de 2016, temporada de um mês pela qual abocanhou sete dos dez prêmios no qual concorria no Gralha Azul (premiação anual destinada aos melhores da dramaturgia paranaense), Salomé By Fausto Fawcettvoltou rapidamente a estar em cartaz por duas noites (28 e 29 de abril) na recém-finalizada edição 2018 do Festival de Teatro de Curitiba. O novo local, a garagem do Guairinha, combinou bem com o espírito steampunk da cenografia (baseada em estruturas de aço, latões, restos de bonecas, lâmpadas de neon) e figurino (muito preto em sapatos de couro e roupas justas, makesobrecarregado). Já o horário, próximo da meia-noite, também foi mais apropriado à temática e à narrativa underground.

O resultado não poderia ser outro. Ingressos esgotados antes da primeira sessão para mais duas efusivas apresentações de Carolina, Michelle Pucci, Anderson Caetano, Igor Kierke, Gustavo Gusmão e Muhammad Chab se dividindo em vários personagens (e ainda recebendo a plateia dançando freneticamente ao som das canções gravadas por Fawcett, no diminuto espaço cênico). Espectadores saindo atônitos depois de quase duas horas da performance-encenação-exocet da companhia. Prova de que, muitas vezes, o teatro pode ousar, expandir-se, surpreender e provocar bastante.

Mais de três décadas depois de Fausto Fawcett  provocar furor no underground cultural do Rio de Janeiro ele volta com tudo na capital paranaense com uma montagem grandiosa de um texto inédito – diga-se de passagem, precedida pelo relançamento de dois livros seus pelo selo curitibano Encrenca (em 2015). Em breve ainda chegará aos cinemas a história dramatizada de Kátia Flávia. Sua obra continua sendo atemporal e altamente explosiva.