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Shazam!

DC se aproxima da Marvel ao apostar no humor no longa do mitológico super-herói com poderes dos heróis do Olimpo

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

A DC tem mostrado que, embora tenha sido tortuoso seu começo na construção de seu universo cinematográfico, ela vem aprendendo com seus erros. Aquaman é um bom exemplo da nova onda de frutíferos produtos nos cinemas. Com Shazam! (EUA, 2019 – Warner), a produtora atira-se na comicidade tanto atribuída à Marvel. Derrota para os ortodoxos fãs da seriedade do universo que se iniciou com Homem de Aço (2013).

Com a direção de David F. Sandberg, o mitológico Shazam, cujos poderes provêm das virtudes dos heróis do Olimpo, apresenta-se agora o mais jocoso dos super-heróis da produtora. Mas, antes de conhecê-lo, na forma de Billy Batson (Asher Angel), somos introduzidos a Thad, uma criança passando por um difícil momento com seus pais. Ao ser convocado pelo mago Shazam (Djimon Hounsou), que não é o herói em si, mas o responsável por seus poderes, o garoto é posto à prova: deve resistir às tentações dos Sete Pecados Capitais. Revoltado por sua falha, Thaddeus (agora interpretado por Mark Strong) passa a vida em busca dos Pecados, para obter o Olho (uma estrutura mágica que lhe concede poderes) que fora tentado. Ao consegui-lo, o vilão serve como “casa” para os Sete Pecados, que obedecem a seus comandos.

De volta a Billy Batson, o roteiro de Henry Gayden constrói um adolescente de catorze anos cuja vida se resume a fugas de lares de adoção desde que fora perdido por sua mãe, aos três anos, e sua busca interminável por ela. Assim, quando Billy é adotado por uma nova família, composta inteiramente de crianças adotadas, apresenta resistência ao novo universo. É nele que conhece Freddy (Jack Dylan Grazer), cujo conhecimento sobre o mundo dos heróis é parte importante do crescimento do protagonista. É importante ressaltar a existência de dois Billies: o interpretado por Angel, adolescente, e o de Zachary Levi, que assume o corpo de Batson quando este se transforma. Este é fortemente infantil, preenchendo os quadros com suas faces caricaturais, enquanto aquele representa toda a amargura da difícil vida de Billy.

O problema de roteiro não está, no entanto, tão fortemente na construção divergente do mesmo personagem em dois momentos, mas em sua estrutura. Shazam! falha em oferecer sensação de perigo ao espectador, alongando-se em sequências puramente cômicas e diminuindo as consequências dos atos de seus personagens. É justamente na transição do cômico ao dramático que o filme se embola. Thaddeus é, até certo ponto, bem interpretado, porém falta-lhe uma motivação consistentemente explanada. O espírito palhaço de Billy interrompe insistentemente os momentos de ação – que na maior parte das vezes, consiste na fuga do “herói” do filme. A inteligente intenção de demonstrar a resolução do conflito interno de Billy como causa da resolução do conflito externo é apressada, tornando-se indigesta.

O design dos Sete Pecados Capitais, principais vilões do filme, é estranho, reduzindo-os a monstrões malignos, cuja extensão dos poderes não é abordada na trama. Assim, a sensação obtida no ato final é tão vazia de expectativa quanto as centenas de sequências de heróis combatendo exércitos de “caras maus”.

A atuação dos personagens principais é bastante competente – embora a infantilidade de Levi seja difícil de aceitar. Esta é amplificada, porém, pelo elenco infantil que compõe a família de Billy. Embora narrativamente simples e unidimensionais, Darla (Faithe Herman), Eugene (Ian Chen) e Mary (Grace Fulton) são bem trabalhados, enquanto Pedro (Jovan Armand) parece existir para completar o bando. Deste núcleo, é a atuação de Jack Dylan Grazer que mais se ressalta, ainda que presa demais no humor facial.

A direção de Sandberg é bastante competente, embora não passe disso. A impressão constante é de que o filme poderia ser feito por qualquer diretor de estúdio que trabalha atualmente em Hollywood. A feliz exceção, porém, é quando o diretor imerge sua influência do terror na mise-en-scène de Shazam. A música, no entanto, é plenamente esquecível, copiando melodias já ouvidas nos demais filmes de heróis. A montagem é astuta, mas também não foge do padrão do nicho de mercado.

Dessa forma, Shazam! almeja colocar-se como o filme mais marvelesco da DC, mas sofre de problemas de roteiro que o reduzem a uma tentativa de comédia mal formulada. É competente e arranca boas risadas em diversos pontos, mas contém uma estrutura fraca demais, tanto em construção narrativa como em desenvolvimento de personagens, para ser lembrada futuramente.

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Oscar 2019

Oito motivos para você não se esquecer da cerimônia de entrega dos prêmios Academy Awards deste ano

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Reprodução

Queen

Muita gente pode ter se perguntado: o que diabos o Queen faria lá no palco do Dolby Theatre em Los Angeles na cerimônia do Oscar em 2019? Afinal, até então, o privilégio para a apresentação de números musicais ao vivo era dado somente às canções originais concorrentes na categoria. A dúvida se desfez logo após a primeira batida da noite deste 24 de fevereiro, dando abertura à festa. Sob o comando de Roger Taylor, o “tum-tum-tá” típico de “Will We Rock” colocou de pé as estrelas de Hollywood e todos os especialistas nos bastidores da sétima arte. Logo depois viriam Adam Lambert na voz e Brian May no matador solo de guitarra que conclui o arranjo. Era o Queen (ou o que sobrou dele; ou, para muitos, apenas um cover oficial da própria banda) abrindo alas para Bohemian Rhapsody brilhar na noite faturando o mais alto número de prêmios para um único filme (quatro, no total, incluindo o de ator para Rami Malek, no papel de Freedie Mercury). Logo em seguida, o trio Taylor-May-Lambert emendou a balada “We Are The Champions”, que, originalmente também vem na sequência de “We Will Rock You”, no álbum News Of The World). Jogo ganho. Não só in locomas também ao redor do mundo inteiro. Já que o Oscar quis fazer desta noite uma aposta mais popular e chamativa, conseguiu logo de cara. De quebra, o filme sobre Mercury e Queen ainda uniu novamente a dupla de Quanto Mais Idiota Melhor (Mike Myers e Dana Carvey, eternamente populares pela cena em que seus personagens batem cabeça no carro ao som da parte mais pesada de “Bohemian Rhapsody”) para fazer o anúncio do videoclipe que apresentava a obra como uma das indicadas ao prêmio máximo da noite.

Heróis e vilões

Muito de falou nas últimas semanas sobre quem poderia ser o apresentador oficial do Oscar. Contudo, nenhum ator ou comediante acabou fechando contrato para o papel de âncora. A Academia, então, anunciou que as aberturas dos envelopes seriam feitas por “heróis e vilões do cinema”. Contudo, quem esperava que alguém pudesse surgiu caracterizado com uniformes, roupas, cabelos e maquiagens típicas dos personagens encarnados nas telas, errou redondamente. Por conta de direitos autorais, isso não foi realizado. Entraram, sim, atrizes e atores vestidos formalmente (com exceção da dupla Melissa McCarthy e Bryan Tyree Henry, que partiram de vez pro escracho misturando exageros e símbolos referentes aos longas A Favorita e Pantera Negra). A “Rainha Anne” de Melissa estava com dezenas de coelhos adornando uma capa de cauda longuíssima, por exemplo. Um dos poucos momentos de humor debochado da noite. Valeu a pena.

Lady Gaga e Bradley Cooper

Já era prevista a vitória de “Shallow” como a canção original da temporada cinematográfica. Contudo, o número musical protagonizado pela dupla de atores de Nasce Uma Estrela foi comovente. A balada poderosa – que entre seus compositores, além da Gaga, tem o DJ e produtor Mark Ronson (responsável por muitos discos de primeira, entre eles Back To Black, de Amy Winehouse) e o guitarrista Anthony Rossomando (cujo currículo traz serviços prestados a excelentes bandas indie como Libertines e Dirty Pretty Things) – começou com um playback instrumental na medida para Gaga e Cooper soltarem o gogó de forma franca, sincera e emocional. De quebra, a cantora e atriz ainda tocou piano na parte final do arranjo. Como diz o Faustão, quem sabe faz ao vivo.

Spike Lee

Justiça foi feita a um dos diretores e roteiristas mais importantes do novo cinema autoral norte-americano das últimas décadas. Infiltrado na Klan, uma das obras mais interessantes desta temporada, concorria nas categorias filme, direção e roteiro adaptado. Pode ter perdido nas duas primeiras, mas pelo menos abocanhou uma “consolação de luxo” por contra a história do policial negro que consegue, do modo mais absurdo e inteligente possível, ser aceito nos quadros da organização fascista e racista que tocava o terror nos estados do Sul dos Estados Unidos até bem pouco tempo atrás. Vestido de chofer com a cor violeta dando o tom dos pés ao quepe, ele chegou no palco pulando no colo do apresentador Samuel L Jackson e ainda fez um belo discurso cheio de conteúdo sóciopolítico.

Olivia Colman

Quem também brilhou no discurso foi a atriz britânica Olivia Colman. Ou melhor, no não-discurso. Visivelmente transtornada de emoção e surpresa por ter superado “a favorita” (não dá para escapar do trocadilho infame!) Glenn Close na categoria, ela não sabia se falava, chorava, gaguejava ou mandava beijos para as concorrentes superadas. Com a estatueta na mão, protagonizou informalmente um dos mais espontâneos e engraçados momentos da cerimônia. De quebra quase se pôs de joelhos aos pés de Lady Gaga, que, sentada na fila da frente, retribuiu o carinho também de forma histriônica. E convenhamos: o trabalho de Colman como a Rainha Anne da A Favorita está espetacular. E nem é pela transformação física, de ter ganhado quinze quilos a mais para fazer o papel.

Pantera Negra

Antes de começar a cerimônia, o filme já havia quebrado uma escrita e entrado na História: foi a primeira produção baseada em um super-herói dos quadrinhos a concorrer à premiação máxima da noite. Se o drama com elenco negro e vivido quase que inteiramente na África (no fictício país de Wakanda) não foi agraciado como o melhor longa-metragem da noite, pelo menos saiu com três importantes prêmios técnicos: trilha sonora, figurinos e design de produção (categoria antigamente chamada direção de arte). Sinal de que uma produção caprichada nicho do grandioso público nerd pode, sim, rimar arte com altas bilheterias.

Alfonso Cuarón

Produtor, diretor, roteirista, fotógrafo. Alfonso Cuarón foi praticamente um faz-tudo nas funções mais importantes de Roma. Seu trabalho competentíssimo – e carregado de emoção e lembranças de sua vida na infância – garantiu a ele um excesso de bagagem para a volta para casa: faturou três estatuetas na noite, referentes às categorias filme em língua não inglesa, cinematografia e direção. Não levou a de melhor filme, é bem verdade, embora merecesse também. Entretanto, ninguém pode sair reclamando da falta de reconhecimento de seu múltiplo talento. Muito menos o México, o país onde nasceu. Afinal, a dinastia mexicana de direção no Oscar continua nas mãos de Cuarón, Iñarritú e Del Toro, vencedores dos prêmios nas últimas cinco edições.

Green Book

Como era de esperar, o filme mais mediano – e agradável à maioria das pessoas – foi agraciado com o prêmio principal da noite. Tocando de modo light na questão do racismo (a história se passa no início dos anos 1960, quando a luta pelos direitos civis nos EUA ainda não estava em momento explosivo e tenso) e também passando superficialmente por outros temos polêmicos, incluindo a homossexualidade, Green Book (esqueça o subtítulo pavoroso que o filme ganhou de sua distribuidora no Brasil) favoreceu-se do critério de votação dos membros da Academia. Vale lembrar que desde 2010, quando o número de concorrentes a melhor filme passou de cinco para até dez (são sempre oito ou nove, dependendo do coeficiente de corte na listagem apurada para o anúncio das indicações), todo votante precisa numerar esta lista de um a oito ou nove, segundo sua preferência pessoal. Portanto, aquela produção que fica ali no meio, entre segundo e quarto, justamente por ter o menor índice de rejeição, acaba sendo projetada no cômputo geral dos pesos e levando a estatueta. Foi o que aconteceu agora à história do branco bronco italiano de Nova Jersey que, por necessidade, durante algumas semanas do ano de 1962, trabalha como motorista de um renomado músico de jazz de Nova Yordurante uma turnê por cidades racistas ao sul dos Estados Unidos – e, ao fim da convivência cheia de diferenças culturais e ideológicas, um acaba sendo modificado pelo outro. Nada mais água com açúcar para agradar à maioria das pessoas. E, de quebra, Green Book faturou outros dois prêmios importantes da noite: roteiro original e ator coadjuvante (Mahershala Ali). Pode não ter sido o mais premiado na noite, mas saiu do Oscar 2019 como o principal filme da temporada pela importância das categorias.

VEJA OS GANHADORES DE CADA CATEGORIA

Filme: Green Book: O Guia

Direção: Alfonso Cuarón (Roma)

Atriz: Olivia Colman (A Favorita)

Ator: Rami Malek (Bohemian Rhapsody)

Canção original: “Shallow” (Nasce Uma Estrela)

Trilha Sonora: Pantera Negra

Roteiro adaptado: Infiltrado na Klan

Roteiro original: Green Book: O Guia

Curta-metragem de ficção: Skin

Efeitos visuais: O Primeiro Homem

Documentário em curta-metragem: Period. End Of Sentence

Animação em curta-metragem: Bao

Animação: Homem-Aranha no Aranhaverso

Ator coadjuvante: Mahershala Ali (Green Book: O Guia)

Montagem: Bohemian Rhapsody

Filme em Língua não inglesa: Roma

Mixagem de som: Bohemian Rhapsody

Edição de som: Bohemian Rhapsody

Fotografia: Roma

Design de produção: Pantera Negra

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Creed II

Continuação do sucesso de 2015 consegue empolgar mas ainda permanece à sombra dos clássicos do boxeador Rocky Balboa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

Em Creed II (EUA, 2018 – Warner), continuação do universo Rocky, Adonis Creed (Michael B. Jordan) revive fantasmas do passado ao enfrentar Viktor Drago, o filho do homem que matou seu pai (Ivan Drago, interpretado por Dolph Lundgren). Assim como em seu predecessor, os eventos do ringue são a parte mais importante da trama . E o filme não almeja esconder isso.

O reencontro multigeracional das famílias Creed e Drago é um dos pontos mais explorados da narrativa deste longa, que tem seus problemas. Desta forma, o arco de Adonis é construído em cima da imagem do pai, seja via roteiro ou pela narrativa visual, que ostensivamente enquadra o protagonista abaixo de uma figura de Apollo. Por outro lado, o mesmo arco pelo qual o personagem de Jordan passa satisfaz o espectador, em uma atuação vibrante deste. Ainda que não supere Killmonger, seu vilão em Pantera Negra (principal filme da Marvel no ano passado), o ator consegue viver as enxutas nuances escritas para seu personagem.

A rasa construção em tela de Ivan e seu filho os torna vilões de motivação fraca. Viktor (Florean “Big Nasty” Munteanu), por exemplo, apresenta poucas falas durante o longa. A falta de carisma e talento de Sylvester Stallone (que volta a viver Rocky Balboa) anula momentos arquitetados visando o impacto emocional, motivo de seu conflito interno parecer pouco aproveitado. Por fim, temos Tessa Thompson reprisando seu papel como Bianca. Sua interação com Jordan é satisfatória, criando uma das melhores químicas do filme. Porém a personagem faz parte de mais uma subtrama pouco aproveitada na história.

Ainda assim, o roteiro de Stallone e Juel Taylor é bem dirigido por Steven Caple Jr, que não diferencia em muito o estilo de Creed II e seu antecessor de 2015. As cenas de luta criam um aguçado senso de urgência. Por outro lado, quando longe da ação dentro do ringue, o filme tende a ficar maçante. Escolhas estilísticas óbvias – como o contraste entre tons quentes e frios para diferenciar Adonis dos Drago e a ostensiva câmera na mão ao retratar os russos – e o uso de montagens musicais, marca dos clássicos filmes de Rocky, são escolhas razoáveis do diretor apesar de utilizadas repetitivamente. Desta forma, ao tentar inovar, Caple Jr cai em conhecidos clichês e, ao repetir as convenções que consagraram a série de Stallone, mergulha na fonte da nostalgia sem resultados arrebatadores.

Mantendo-se à sombra dos longas de Rocky, Creed II consegue empolgar mesmo que seus conflitos e subtramas não sejam desenvolvidos a ponto de torná-lo um filme de camadas. Se você busca por escapismo, cenas de ação tensas e uma trilha sonora repleta de boas faixas de hip hop, com certeza não vai se decepcionar.