Series, TV

Game of Thrones

Por que o fim da série que se tornou objeto de culto pelo mundo todo decepcionou bastante os seus ardorosos fãs?

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Texto por Andrizy Bento

Foto: HBO/Divulgação

Após oito temporadas, 73 episódios e 47 Emmys (que a tornaram a série recordista de estatuetas na premiação), Game of Thrones teve seu último episódio exibido em 19 de maio pela HBO. No entanto, o que prometia ser épico, conseguiu ser apenas frustrante. Em meio à fúria despejada pelos fãs nas redes sociais – ainda mais cáustica que o fogo expelido pelos dragões de Daenerys Targaryen em seus inimigos – até havia um ou outro espectador argumentando que a finale teve, sim, suas qualidades e que o saldo final não foi tão ruim – de um ponto de vista analítico, houve até quem defendesse e justificasse as decisões tomadas pelo roteiro. Contudo, não há quem considere o último episódio da série realmente satisfatório.

Satisfatório é diferente de “atender às expectativas dos fãs e entregar exatamente o que eles querem ver na tela”. Em suma, está longe de significar fanservice. Assim como decepcionante não quer, necessariamente, dizer ruim. No caso de GoT, no entanto, a finale conseguiu ser os dois. Ao invés de proporcionar aos espectadores as devidas resoluções de conflitos e encerramentos de arcos narrativos, o desfecho deixou ainda mais pontas soltas e perguntas sem respostas – resultado sistêmico de toda uma temporada deficiente. Aliás, convém salientar que, desde a quinta, a qualidade da produção vinha caindo drasticamente.

Baseada na saga de livros best-seller As Crônicas de Gelo e Fogo, de autoria do escritor norte-americano George R. R. Martin, a série estreou em 17 de abril de 2011 na HBO. Ambiciosa, a produção idealizada por David Benioff e D. B. Weiss investia em cenas gráficas de nudez, sexo e violência e, por apresentar uma narrativa envolvendo a disputa por um trono e permeada por alguma magia, foi até mesmo apelidada de “O Senhor dos Anéis para adultos”. Claro que esses se tratavam apenas de alguns dos aspectos que tornavam o produto mais atraente. Porém, o estrondoso sucesso da qual a série desfrutou nos anos em que se manteve no ar, vai muito além das comparações com o livro de J. R. R. Tolkien ou do teor sexual e violento de suas cenas.

Sua consagração por especialistas e a assombrosa audiência que conquistou se devem a vários outros fatores: a força da narrativa, a entrega do elenco, o carisma de uma galeria numerosa de personagens, o acuro na composição dos planos, os enquadramentos soberbos, o requinte de cenários e figurinos, as batalhas magistralmente executadas e que em nada ficavam devendo a blockbusters cinematográficos, toda uma atraente rede de intrigas e um jogo de poder que nos instigava a acompanhar semanalmente os episódios. Não surpreende que a HBO, em estratégia para evitar a pirataria, tenha optado pela transmissão simultânea em mais de 170 países – o interesse do público era tamanho que GoT se tornou a série com o maior número de downloads ilegais no mundo. Afinal, quem não via Game of Thrones e não debatia acerca das teorias que constituíam um dos grandes atrativos da produção era imediatamente excluído das rodas de conversa nas segundas-feiras.

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A história é situada no continente fictício de Westeros, lar dos Sete Reinos e das terras inexploradas além da grande Muralha. Em linhas gerais, a série se propõe a narrar a luta de famílias nobres pelo Trono de Ferro ou por sua independência, recorrendo a violentos confrontos e alianças forjadas a partir de interesses políticos, em sua maioria, sórdidos. Esse é o fio condutor da trama.

A primeira temporada da produção tem início com a visita de Robert Baratheon – Rei e Senhor dos Sete Reinos – ao castelo de Winterfell, onde reside Ned Stark, o Protetor do Norte, junto de sua família. O objetivo da visita é fazer um convite formal a Ned para que ele seja a Mão do Rei – uma espécie de primeiro conselheiro. Este, no entanto, acaba tomando conhecimento acerca de uma conspiração que levou ao assassinato da Mão do Rei anterior e as suspeitas recaem sobre os Lannister, incluindo a Rainha Cersei e seu irmão Jaime, com quem ela vive um caso secreto e incestuoso.

Distante dali, no Mar Estreito, Viserys Targaryen, conhecido como o Príncipe Exilado, planeja o casamento de sua irmã, Daenerys, a Princesa de Pedra do Dragão, com Khal Drogo, líder do povo Dothraki – uma tribo de guerreiros que percorre o continente de Essos. Com o casamento, o príncipe exilado visa a conseguir um exército a fim de retomar o Trono de Ferro que é seu por direito. No passado, Baratheon conquistou a coroa assassinando Aerys II Targaryen (o Rei Louco) e Rhaegar – respectivamente, o pai e o irmão de Viserys. Após esse acontecimento, ele e a irmã foram exilados nas Cidades Livres do Continente de Essos. Desde então, o príncipe é movido pelo intenso desejo de vingar sua família e retomar o poder e a coroa a qualquer custo.

Assim, fomos arremessados aos bastidores cruéis e sangrentos da guerra dos tronos. A primeira temporada representou não apenas o ponto de partida, como o esboço a partir do qual se desenhou toda a série. Traçou cenários que, mais adiante, viriam a impactar as vidas e jornadas de dezenas de personagens. Inseriu simbologias e easter eggs que, no decorrer dos anos de exibição, vieram a fazer a diferença no todo. No entanto, da maneira superficial como foi colocado até aqui, não é possível compreender exatamente a razão que levou Game of Thrones a ser esse fenômeno de audiência. É realmente necessário assistir à série e acompanhar as reviravoltas da trama intrincada para entender os motivos de tanto estardalhaço em torno de GoT. O fato é que testemunhar a evolução dos personagens, a construção dos elos entre eles, a ganância e a sede de poder que ditavam os rumos do jogo, bem como todos os meandros que culminaram em batalhas colossais, é que tornou a jornada tão divertida de se assistir durante oito temporadas. Daí toda a ansiedade com que os espectadores aguardavam pelos domingos em que os episódios eram veiculados pela HBO.

Aprendemos a exercitar o desapego (afinal, um protagonista morre já na finale da primeira temporada!), nos acostumamos a prender o fôlego devido à aflição causada pelos épicos confrontos e ao temor de perder um personagem fan favorite. A produção nos presenteou com momentos gloriosos em termos televisivos como, por exemplo, o nono episódio da sexta temporada, o já clássico e plasticamente impecável A Batalha dos Bastardos, que dificilmente encontrará rival à altura em outro produto do gênero. Game of Thrones nos ensinou que, na guerra dos tronos, ou você ganha ou você morre – literalmente. Alimentou teorias, não teve pudores em abusar do fator surpresa, apresentou audaciosos e chocantes plot twists, jamais entregou somente o que o público queria ver, não se limitou a agradar à audiência. Seu legado é incontestável. Uma pena o fim dessa história ter deixado um gosto tão amargo na boca de seus fiéis espectadores.

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Desde que a série começou a ser exibida, no já longínquo ano de 2011, o mundo passou por transformações significativas no tocante ao cenário político, econômico e social. Esse tipo de mudança, não raramente, acaba por impactar e se refletir também na cultura pop. Normal, afinal a produção cultural e artística de qualquer época é sempre um retrato de sua geração, para o bem ou para o mal, em maior ou menor escala, intencional ou inconscientemente. No caso do recorte de tempo que compreende a exibição de Game of Thrones, por exemplo, as pautas feministas ganharam ainda mais força dentro e fora das redes sociais e ativistas vocais se dedicaram a apontar o sexismo enraizado em diversos livros, histórias em quadrinhos, roteiros de cinema e televisão. Muitas das cenas de estupro protagonizadas por personagens femininas relevantes passaram a ser questionadas e duramente criticadas – uma vez que algumas delas tratavam-se de cenas de sexo consensual nos livros e outras sequer existiam em sua mídia de origem. Ao longo das temporadas, a nudez (majoritariamente feminina) e o sexo (por vezes gratuito) diminuíram exponencialmente, bem como a violência tornou-se mais contida e menos sangrenta. Contudo, a despeito do desenvolvimento das personagens femininas, que passaram a ter mais do que seus corpos expostos e a violência sexual tida como o rito de passagem que as fortaleceu, foram elas as mais injustiçadas no último ano da série.

É simplesmente lamentável ver como as mulheres de GoT foram diluídas no decorrer de toda essa temporada final. O roteiro se concentrou na rivalidade entre elas; em expor fraquezas, fragilidades e vaidades das mesmas; em mostrar como elas não sabiam lidar com o poder. Cersei Lannister, uma vilã inteligente e uma das maiores estrategistas da trama, ganhou desfecho abrupto e totalmente insípido. Apesar de ter sido Arya Stark a derrotar o grande vilão, Rei da Noite, sua tão almejada vingança contra Cersei não foi concretizada e a personagem limitou-se a ver Porto Real se transformar em destroços e cinzas, enquanto Daenerys Targaryen sobrevoava a cidade em seu Dragão que, impiedosamente, cuspia fogo em mulheres e crianças inocentes. Sansa Stark, que havia crescido tanto como personagem, foi reduzida ao papel de uma garota caprichosa que não queria ter seu reinado, no Norte, ameaçado. E Daenerys… A figura forte, imponente, majestosa, intrépida e destemida – um exemplo de heroína que apresentou uma das evoluções mais notáveis ao longo da série – simplesmente enlouqueceu. Tornou-se a Rainha Louca, facilmente corruptível pelo poder, herdando o temperamento de seu pai e, ao invés de quebrar a roda (como proclamava) corroborou o discurso simplista de que a descrição da Casa à qual o indivíduo pertence dita todo o rumo de seu destino. Pior: terminou a série morta pelo punhal do homem a quem amava e que também tinha seu sangue – seu sobrinho, Aegon Targaryen, mais conhecido como o bastardo Jon Snow.

E a coerência desapareceu à medida que o inverno chegou.

Eis um problema flagrante de toda produção seriada. Existe uma ânsia incompreensível dos showrunners por querer encerrar todos os arcos narrativos apenas no último capítulo, ao invés de responder às perguntas gradativamente, fechar os ciclos aos poucos, de modo orgânico. Creio que o mais adequado seria dedicar uma ou duas temporadas para resolução de todos os conflitos e, assim, oferecer desfechos satisfatórios para cada personagem. Game of Thrones foi um exemplo e, infelizmente, não o único de uma trama que acumulou muitas questões a serem resolvidas somente na finale e, óbvio, não conseguiu contemplar todas elas.

Outra possível explicação para o resultado ter ficado tão aquém do esperado está no fato de a história ainda não ter sido finalizada nos livros. Porém, esses argumentos não são suficientes para justificar uma finale tão ruim, uma vez que a série possuía força o bastante para se sustentar de maneira independente, como qualquer bom produto transmídia deve fazer. Existe um sem número de erros crassos de continuidade e cenas que, simplesmente, não fizeram sentido para o espectador atento que, assim como o Norte, se lembra disso depois. E, diferentemente dos Lannister, os roteiristas não pagaram todas as suas dívidas.

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A última temporada trai toda a mitologia da saga tão cuidadosamente arquitetada até ali, joga para escanteio a construção e o desenvolvimento de personagens, traz diálogos que contradizem o cânone e a essência da trama. Sim, Game of Thrones sempre trabalhou com reviravoltas, traições, choque, morte de personagens importantes. O problema não são estes mecanismos – que, aliás, movimentaram a trama desde seu primeiro episódio e com os quais estávamos plenamente habituados, convém dizer. O problema é como eles foram utilizados, escancarando a falta de planejamento de produtores e roteiristas. Esses artifícios foram despejados na tela de maneira simplesmente desleixada.

As falhas, no entanto, não são apenas de ordem narrativa, mas também estética. Um nítido exemplo é a batalha contra os White Walkers, que prometia ser o ápice da trama desde o primeiro episódio, e é extremamente inferior ao acuro visual da Batalha dos Bastardos. Entre copos da Starbucks esquecidos nas mesas de jantar de Winterfell e um confronto nonsense contra a Frota de Ferro, liderada por Euron Greyjoy – que resultou na morte anticlimática de um dragão – tudo foi absurdamente descuidado. Porém, nada foi mais incoerente, insatisfatório e insosso do que o conselho formado para deliberar sobre o novo rei após a morte da Rainha Daenerys Targaryen. Nas palavras de Tyrion Lannister:

“O que une as pessoas? O ouro? Os exércitos? As bandeiras? As histórias. Não há nada mais poderoso no mundo que uma boa história. Ninguém pode detê-la, nenhum inimigo pode vencê-la. E quem possui histórias melhores que Bran, o Quebrado? O menino que como não podia andar aprendeu a voar…”

O menino que passou a série inteira sem fazer absolutamente nada e se tornou, primeiramente, o Corvo de Três Olhos para então virar rei…

O discurso de Tyrion é interessante e bem escrito, mas um desperdício de palavras bonitas expressas pelo personagem que, durante oito temporadas, destacou-se como o mais profícuo emissor de quotas contundentes e memoráveis.  As palavras do outrora sábio anão estão lá unicamente para disfarçar a negligência dos roteiristas. O grande conselho é uma das piadas mais mal contadas da finale, pois é formado por nada menos do que três membros da Casa Stark, um tio dos Stark, um primo dos Stark, amigos dos Stark, uma cavaleira juramentada a proteger a Casa Stark, um Dorne, uma Greyjoy, mais alguns figurantes e um prisioneiro! Não sei dizer exatamente o que dói mais, se é o fato de que está óbvio quem seria favorecido por um conselho formado por estes membros ou Tyrion, prisioneiro por ter traído Daenerys, ter indicado o nome de Bran e, praticamente decidido o novo governante de Westeros – e ainda com o bônus de ser a Mão do Rei.

E isso não é tudo: por que Tyrion, prisioneiro, pôde participar da votação e Jon, igualmente encarcerado e com sangue Targaryen, não? Onde estão os membros representantes de outras Casas? Aqueles presentes na reunião do conselho não compreendem nem metade das famílias nobres de Westeros. Aliás, toda essa sequência serviu, especialmente, para embasar um futuro cenário de instabilidade política; afinal, as outras Casas podem, e com razão, questionar o favorecimento aos Stark considerando os componentes desse conselho fajuto. Sem falar do fato de Bran ter concedido a independência ao Norte. Quanto tempo mais até os demais Reinos reivindicarem a independência utilizando o Norte como argumento e isso resultar em uma nova guerra? Ademais, a figura de Bran como rei simplesmente não convence, pois não foi bem construída. Bran, o Quebrado, nunca teve aspirações ao trono e não fez nada de realmente útil durante toda a série que justificasse sua coroação. Ele nem mesmo queria ser rei. E esse papo de que é exatamente não desejar a coroa que o torna merecedor, simplesmente não funciona dentro daquele universo proposto.

Oito anos após o primeiro suspiro de Westeros na telinha, finalmente chegamos ao final da saga – uma finale que nos ofertou apenas um trono queimado (metáfora política sobre a destruição da iconografia; dos símbolos de poder capazes de corromper e que precisam ser derrubados); Porto Real transformada em cinzas; Tyrion Lannister, um fan favorite outrora inteligente e brilhante orador, reduzido ao papel de um fraco, traidor, guiado pelas emoções, capaz de atos estúpidos e autor de algumas das frases mais problemáticas da temporada; Daenerys, uma personagem feminina forte convertida em uma tirana genocida e, posteriormente, morta pelo seu amado; Jon Snow, o bastardo que continuou bastardo e se uniu aos selvagens do Povo Livre nos derradeiros momentos do show; Bran, o Quebrado, como um rei inexpressivo e inexperiente em relação aos assuntos da coroa; e, enfim, um final feliz para os Stark como recompensa por ter sido a família que mais sofreu desde o primeiro ano de série e que, talvez, tenha sido um dos únicos pontos gratificantes para uma relativa quantidade de espectadores. Eis o saldo final de Game of Thrones. Um fim melancólico, insuficiente e decepcionante.

Music

New Order

Oito motivos para não perder o show do histórico grupo que nasceu nas cinzas do não menos histórico Joy Division

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Divulgação

Vai ter New Order de novo no Brasil agora neste fim de 2018. Só que desta vez não será em um grande festival ou em locais abertos para plateias grandiosas. A banda que ajudou a colocar a cidade de Manchester no primeiro escalão do rock mundial logo no comecinho dos anos 1980 vem ao país para fazer três apresentações. A primeira será no Espaço das Américas, em São Paulo, no dia 28 de novembro (mais informações aqui). Depois, o quinteto parte para duas cidades onde jamais tocaram antes. No dia 30, será a vez da arena Sabiazinho, em Uberlândia, na região do Triângulo Mineiro (mais informações aqui). A última escala brasileira se dará na Live Curitiba em 2 de dezembro (mais informações aqui)

Por isso, o Mondo Bacana preparou uma relação de oito motivos para você não perder o show que fará você dançar como nunca dançou sem deixar de olhar para um quinteto de músicos tocando os seus instrumentos, que incluem guitarras e um contrabaixo nada usual no meio de sintetizadores e percussões eletrônicas.

Joy Division

Às vésperas de embarcar com a banda para os Estados Unidos, o vocalista e letrista Ian Curtis, 23 anos, enforcou-se em sua casa nos arredores da cidade de Manchester, no dia 18 de maio de 1980. Desta maneira trágica, encerrava-se assim a promissora carreira de uma banda que estava começando a ser hypada pela imprensa musical britânica e ficando conhecida também fora do Reino Unido. Vale lembrar que o maior sucesso gravado pelo Joy Division não havia sequer saído em disco. A faixa “Love Will Tear Us Apart” chegou às lojas como um single no subsequente mês de junho e não foi incluída no álbum Closer, o segundo da breve carreira, lançado em julho. Por muito tempo o New Order não se rendeu à ideia de incluir a canção no set list de seus shows. Felizmente, de uns anos para cá, a banda reviu seus conceitos e hoje a masterpiece de Ian Curtis é um dos pontos altos do final de cada apresentação. Na atual turnê, o bis ainda costuma ser composto por outras músicas do Joy Division, como “Atmosphere”, “She’s Lost Control”, Disorder” e “Decades”.

Rock para dançar

Lá no comecinho dos anos 1980, quando os sintetizadores pareciam reinar absolutos nas novas tendências da música pop britânica, os três remanescentes do Joy Divison (o guitarrista e agora vocalista Bernad Sumner, o baixista Peter Hook e o baterista Stephen Morris) adicionam a então namorada e futura esposa de Morris Gillian Gilbert nos teclados, para estabelecer uma nova ordem sonora: a junção de batidas eletrônicas feitas para dançar com riffs, linhas e acordes de guitarras. Por cima de tudo, algumas pequenas cantadas. Foi o que bastou para que o New Order antevisse a união do rock com a dance musicque viria a se tornar extremamente popular no final da mesma década entre os jovens britânicos. Programações, baterias e percussões eletrônicas, muitos sintetizadores de um lado. Do outro, as afiadas guitarras de Sumner e as potentes linhas melódicas traçadas nas casas mais agudas do baixo de Hook.

Peter Saville

As capas elaboradas por Peter Saville para os discos do New Order lançados pelo selo independente Factory são verdadeiras obras de arte. “Ali tive uma liberdade sem precedentes no designde comunicação. Nós viviamos um ideal, sem nos basear em negócios para cada ação. Foi um fenômeno”, comentou o designer, que também era um dos sócios do jornalista e maluco de carteirinha Tony Wilson no selo. Para o álbum de estreia Movement (1981), a inspiração veio de um pôster do futurista italiano Fortunato Depero, brincando com várias cores de acordo com cada formato e mercado do lançamento. Em Power, Corruption & Lies (1983), a opção foi pela reprodução da natureza-morta pintada pelo renascentista francês Henri Fantin-Latour, hoje pertencente ao acervo do museu da National Gallery, de Londres. Para Low-Life (1985), projetou um capa dupla, com o retrato de um integrante em cada uma das quatro capas. Na frente, junto ao título, vinha o baterista Stephen Morris. Posteriormente, em versões em CD, é permitido a você trocar e escolher o seu membro preferido junto ao nome da obra. As primeiras edições de Brotherhood (1986) traziam a foto de uma folha de liga de titânio e zinco e ainda uma capa metálica para se guardar o disco. Já para a capa de Technique (1989) Saville alugou de um antiquário a estátua de um querubim para se colocar em um jardim. “É uma imagem muito bacana, que se ajustou ao momento anterior ao último crash financeiro e ao novo hedonismo movido a drogas envolvido na cena musical”, segundo o britânico. “É também meu primeiro trabalho irônico: todas as capas anteriores eram de algum modo idealistas e utópicas. Eu tive essa ideia de que arte e design poderiam tornar o mundo um lugar melhor. Que mesmo os pontos de ônibus poderiam ser melhores. De certa forma, também é bem neo-Warhol.”

“Blue Monday”

Talvez as gerações mais novas, que cresceram acostumadas à compactação sonora do formato MP3 e à facilidade de disseminação dos mesmos através da internet, não tenham tanta noção assim do que possa ter significado este recorde estabelecido entre 1983 e 1984 pelo New Order e nunca mais quebrado. Lançado na versão vinil doze polegadas (o mesmo tamanho de um long play), o single atingiu a marca, somente no mercado britânico, de 1,16 milhão de exemplares físicos comercializados, tornando-se o mais vendido (em vinil) da História do mercado fonográfico. Marca esta impensável para um simples compacto de uma música voltada às pistas de dança, por sinal. A capa deste single também foi uma brilhante ideia de Saville: a reprodução do visual de um daqueles primeiros disquetões utilizados em computadores até o comecinho dos anos 1990.

Assim no palco como nos estúdios

Com exceção de “Bizarre Love Triangle”, que transforma a plateia de cada show em pista de dança de clube noturno mas apela em demasia para as batidas pré-gravadas, todo o resto da sonoridade é reproduzido com extrema fidelidade às gravações originais, o que torna a banda ainda mais potente quando ela sobe em um palco. Vale lembrar que o New Order é um quinteto desde 2001, com a adição de Phil Cunningham, que se divide entre sintetizadores, guitarras e percussões eletrônicas. Também é compensada a ausência de Peter Hook, que brigou com Sumner em 2007 e desde então se dedica a excursionar com uma banda própria tocando ao vivo os clássicos do Joy Division e do New Order e escrever livros sobre o seu passado nas duas bandas. Adicionado em 2011, o novo baixista Tom Chapman dá conta do recado tanto nos clássicos como nos arranjos no álbum que gravou junto à banda (Music Complete, de 2015).

Títulos de pinturas impressionistas

Você já reparou que o nome de várias músicas do New Order sequer são citados em suas respectivas letras? Além de  “Ceremony”, canção resgatada do repertório do Joy Division e com letra desenhada por Ian Curtis, podem ser incluídas nessa lista “Bizarre Love Triangle” (onde sequer a palavra “love” é mencionada), “Love Vigilantes” (novamente sem a presença do vocábulo “love”), “Temptation”, “True Faith”, “Blue Monday”, “Your Silent Face”, “Everything’s Gone Green” e “Thieves Like Us”. A ligação do New Order com as artes plásticas e gráficas não se resume somente às capas de seus discos: títulos como estes parecem nomes de pinturas impressionistas que seriam dignas de estar em exposição nas paredes do Musée d’Orsay, em Paris.

“Bizarre Love Triangle”

São apenas duas estrofes e um refrão (com direito a interlúdio instrumental antecipando a explosão do primeiro refrão, algo que poucas bandas ousariam arriscar a colocar em qualquer arranjo), depois mais outras duas estrofes e o mesmo refrão repetido. A estrutura da composição – criada em cima de três únicos acordes – é de uma simplicidade só. Porém, como menos é mais, não há como deixar de admitir a beleza de toda a canção. Primeiro porque os versos, bastante imagéticos, tratam de maneira breve e direta todo um estado de confusão mental com dum pezinho no romantismo e o outro na religiosidade. A canção nunca chegou a escalar altos degraus no hit parade britânico quando foi lançada em 1986 e relançada em 1994, mas volta e meia rende boas releituras. As mais conhecidas dos brasileiros são a cara bossa nova dada pelo projeto francês Nouvelle Vague e a transformação em balada voz-e-violão assinada pelo quarteto australiano Frente!, cujo clipe chegou a ter boa veiculação na MTV tupiniquim. Mas Scarlett Johansson já a regravou e Brandon Fowers a tocou ao piano em alguns shows do Killers. Black Eyed Peas, Nada Surf e Echosmith foram outros que arriscaram fazer um cover da música. Até para o mandarim “Bizarre Love Triangle” já foi vertida.

“The Perfect Kiss”

A música é  irresistível, mas o videoclipe feito em 1985 pelo cineasta Jonathan Demme (que anos depois ganharia o Oscar com O Silêncio dos Inocentes) consegue ser ainda mais icônico. Ele flagrou a banda fazendo uma performance desta música ao vivo em um estúdio de ensaio. É tudo e cabo a rabo, em pouco mais de nove minutos. Quatro câmeras focalizam as compenetradas expressões faciais dos quatro integrantes. Outras pegam detalhes pontuais, como o solo mequetrefe de Sumner na guitarra, a poderosa e agudíssima linha de baixo de Hook, as texturas de Gilbert nos teclados (que vão de acordes a inusitados sons de buzinas, freadas e batidas de automóveis). Bem… E quanto a Morris? O baterista só aparece no vídeo nos closes de seu rosto. Foi o que restou a Demme quando este soube, de última hora, que toca a bateria era previamente toda programada.