Movies

Alice Júnior

Longa-metragem curitibano acerta em cheio ao tratar sobre tolerância e diversidade sexual para o público-alvo de jovens e adolescentes

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Divulgação

É lamentável que em pleno 2020 os termos sexismo, discriminação de gênero e transfobia ainda estejam tão em voga, mesmo depois da aparição de Roberta Close e Rogéria décadas atrás nos principais veículos de imprensa nacionais. Se por um lado o salto evolucionário tecnológico alcança Marte, o ranço conservador persiste no núcleo de muitas famílias e governos. Por isso um filme como Alice Júnior (Brasil, 2020) – que estreou em cinemas drive-in e agora chega à Neftlix, depois de também ficar disponível no YouTube e em outros serviços de VOD e streaming – é tão necessário. Ele abre a mente dos caretas e afaga o coração dos liberais, dando aquele gostinho de quero mais.

A premiada produção que brotou da “República de Curitiba” é dirigida pelo paranaense Gil Baroni e tem roteiro assinado por Luiz Bertazzo e Adriel Nizer Silva. No bate-papo com os jornalistas do coletivo Jaccu (Jornalistas Autônomos Culturais de Curitiba), veiculado no YouTube do Canal Pausa Dramática (assista ao episódio e escute o podcast nos links abaixo), Bertazzo – que também é ator e DJ – revelou que teve o insight de rodar um filme com a temática trans durante uma festa. O roteirista compartilhou sua ideia a Baroni, que prontamente disse querer dirigir a história. E assim surgia Alice Júnior, nome da protagonista interpretada pela recifense Anne Celestino Mota.

O próximo passo, então, seria justamente encontrar uma atriz trans que se enquadrasse na proposta para conferir veracidade à trama sem que soasse caricata como muitos Crôs por aí. Com o apoio da mãe, Anne, que já atuava como YouTube, soube do teste de elenco e… #partiuCuritiba. Após ser sabatinada por Baroni e Bertazzo, a jovem foi escolhida para o papel e, de quebra, fazer história no cinema brasileiro. Por conta disso, o roteiro sofreu uma série de intervenções, incorporando experiências vividas e observadas por ela. 

Ao tratar um tema sério de um jeito leve, o longa-metragem conquistou a plateia de importantes festivais (como Berlim) e Anne levou o candango em Brasília. Uma emoção semelhante àquela vivenciada pelo ator Silvero Pereira, o cangaceiro queer Lunga de Bacurau, que vem abocanhando prêmios e desfilou pelo tapete vermelho de Cannes montado como o alterego Gisele Almodóvar.

Assim como Lunga, Alice não vive no País das Maravilhas. Pelo menos não é pobre e tem o apoio e afeto do pai, fato que não ocorre com muitas jovens trans. Na história, o viúvo francês Jean Genet (Emmanuel Rosset) é bioquímico e foi contratado por uma indústria de perfumes para inventar uma nova fragrância. O único porém é que a tal fragrância é encontrada numa longínqua e conservadora Araucárias do Sul (esta seria um alterego de Curitiba?) e Alice precisa acompanhar temporariamente o pai na nova empreitada. Aqui ainda fica evidente a ironia implícita no roteiro que alude a símbolos tipicamente curitibanos: Jean é francês, assim como vários conterrâneos seus que vieram trabalhar numa montadora de veículos na região metropolitana da capital paranaense, onde também foi erguida uma famosa fábrica de perfumes. 

Em Recife, Alice já havia batalhado para conquistar amizades mais um crush em quem estava prestes a dar seu primeiro beijo, além de ter saído vitoriosa num reality show e desfilado para um estilista famoso. No Sul, a garota precisa enfrentar novamente tortos olhares de preconceito, risadas maliciosas e muito bullying para conquistar seu espaço, assim como acontece com dezenas de adolescentes como ela. Contudo, em vez de se vitimizar e ficar chorando pelos cantos, a protagonista encara como um rolo compressor o período de adaptação à nova escola, onde passa a desfilar com o queixo erguido e ganhar, pouco a pouco, a simpatia de todos. No fim das contas, a garota trans empoderada (que é o termo da moda, aliás!) torna-se um exemplo de autoestima não só para o universo LGBTQ+ mas para todos que já sofreram algum tipo de discriminação, independentemente de gênero ou orientação sexual, origem geográfica e classe socioeconômica.

Como Anne já atuava como vlogueira, houve o prerrequisito da aproximação do olhar do diretor ao mundo digital, o que acaba deixando tudo mais atraente para o público-alvo de produtos populares como Malhação. Indispensável ainda é a trilha sonora deste filme teen. O fato de Bertozzi ser DJ colaborou bastante para a escolha do repertório, que traz nomes não muito costumeiros em soundtracks de obras nacionais, como Karina Buhr, Barbara Eugênia, a banda Verónica Decide Morrer e a cantora curitibana Surya Amitrano. No filme, aliás, Surya interpreta uma das novas melhores amigas de Alice. E  também soma-se ao elenco da história Katia Horn, da tradicional família curitibana de artistas de mesmo sobrenome, fazendo o papel de uma divertida mãe bicho-grilo.

Agora é esperar que Alice Júnior e toda a sua diversidade nos mostre que existe esperança de um mundo mais tolerante no fim do arco-íris. Enquanto isso fica a torcida de que a gente, de alguma maneira, já esteja bem perto de onde ele termina.

Music

As Bahias e a Cozinha Mineira

Trio lança o primeiro disco por uma grande gravadora e fala em entrevista sobre amor, influências e a nova MPB LGBT

bahiascozinhamineira2019

Texto e entrevista por Janaina Monteiro

Foto: Divulgação

Se existe uma banda com atitude, crítica social e capacidade de inspirar e transformar o cenário musical atual é o trio As Bahias e A Cozinha Mineira. Só pelo nome já é possível perceber a carga de brasilidade e presença feminina no trabalho das cantoras trans Assucena Assucena e Raquel Virgínia – a baiana e a paulistana – e do mineiro Rafael Acerbi, que se apresentam em Curitiba neste final de semana no Teatro do Paiol (mais informações sobre os dois shows você tem aqui).

Os três se conheceram na Universidade de São Paulo, onde faziam História. Mas foi a morte de Amy Winehouse, em 2011, que despertou a vontade dos amigos em formar uma banda e se profissionalizar. Desde então, foram três álbuns lançados e prêmios conquistados. O mais recente trabalho, Tarântula, tem duplo sentido no nome e faz referência a uma operação da polícia paulista de 1987, que perseguiu e prendeu centenas de travestis sob a desculpa de “combater o avanço da aids”.

O trio bebe na fonte de vários ritmos e transita entre as mais variadas influências: da cultura hip hop ao axé, da Tropicália – principalmente Gal Costa e Caetano Veloso – ao Clube da Esquina. Por e-mail, Raquel falou com o Mondo Bacana sobre o novo disco e o momento atual do grupo.

A banda se conheceu durante o curso de História da USP. Vocês acreditam que podem fazer mais “história” com a música do que lecionando?

Não acho que dê pra fazer esse comparativo. São ofícios muito diferentes. A natureza dos dois trabalhos e o tempo de impacto social de cada função também. Acho as duas profissões fundamentais e importantes.

Liniker, Johnny Hooker, As Bahias e a Cozinha Mineira… é possível identificar um movimento na música popular brasileira que resgata a cultura popular como fizeram os tropicalistas ou o Clube da Esquina (que são suas referências) e que dá voz à comunidade LGBT, às minorias?

Acho que existe uma conjuntura que une as Bahias, Liniker, Johnny. Mas não consigo dizer que existe um conceito artístico e estético que nos una, como os tropicalistas. Não por enquanto. Estamos conectadas muito mais por questões comportamentais e sociais que artisticamente. Ainda sim, nossas artes correspondem de alguma maneira a esse momento e isso nos conecta, sem dúvida.

Vocês assinaram com a Universal, uma gravadora mainstream. Como conseguiram manter a identidade criativa da banda e as letras críticas (como em “Fuça de um Fuzil”) sem que a gravadora interferisse, por exemplo, no conteúdo? Isso é um sinal que os tempos mudaram, que existe o inverso, que o artista pode “mandar” nas gravadoras?

As Bahias não foi um projeto que nasceu dentro de uma gravadora. Nascemos e fizemos os dois primeiros álbuns de maneira independente. Quando entramos na gravadora já carregávamos uma identidade, de certa forma. A gravadora quer reforçar e tornar mais popular o que nós já somos. Potencializar. Eles não interferiram de maneira incisiva nas canções. Foi e está sendo tudo muito tranquilo.

“Sou mulher de botar pra quebrar” diz um dos versos de “Mátria”, a faixa de abertura de Tarântula. Num tempo em que falamos sobre o empoderamento feminino, como a mulher pode botar pra quebrar hoje em dia? Sendo feminista ou feminina?  

Feminista. Sendo feministas podemos ser o que quisermos, inclusive femininas.

O trio tem duas musas inspiradoras Gal e Amy Winehouse. Quem seria o muso inspirador?

Caetano Veloso tem nos influenciado muito como grupo. Individualmente, amo Stromae, cantor e compositor belga.

Vocês cantam sobre o amor e as desilusões, sentimentos comuns independentemente de sexo, cor e religião. Mas nessa sociedade do consumo, a sensação é de que os relacionamentos são fugazes e não se sustentam mais. Como vocês enxergam o amor nos dias de hoje com os aplicativos onde as pessoas são escolhidas como num cardápio?

Eu tenho um olhar muito seco pro amor. Acho que amor tem raça, gênero e classe social. As pessoas se amam mas precisam estar num padrão pra serem amadas. Como mulher trans preta e que nunca teve um relacionamento afetivo, penso que o amor precisa ser ressignificado.

E o que mudou no país desde a operação policial que batizou o novo trabalho? É possível que o tempo cure esse retrocesso político em que vivemos?

Sendo muito honesta, não sei aferir o que mudou. A nossa História é muito apagada e fragmentada. Mas essa é uma boa pesquisa.

Pra descontrair: qual o prato da culinária paulista, baiana e mineira do qual vocês mais gostam? Como sairia uma receita dos três estados juntos?

Paulista: amo um bom pão na chapa; baiana: sou apaixonada por caruru; mineira: goiabada cascão. Uma receita dos três juntos de As Bahias e a Cozinha Mineira!

Music

Against Me! – ao vivo

Extenso set list e um largo sorriso estampado no rosto de Laura Jane Grace marcam a estreia da banda em solo brasileiro

againstme2018cwb01_gigante

Texto por Abonico R. Smith

Foto de iaskara

Ela não entendia muita coisa do que a plateia gritava em português ao final de quase todas as músicas que a banda tocava, mas captou a mensagem e também mandou o seu recado, ao microfone, contra a nova onda de fascismo que varre o mundo, em especial o Brasil nos dias atuais. Foi o que bastou para o salão de shows do Jokers, lotado, explodir em êxtase já quase no final do show. Era a coroação de uma noite de glórias, tão esperada havia anos por muitos fãs brasileiros.

Naquela noite de 19 de outubro de 2018 estreavam, tardiamente, Laura Jane Grace e seu Against Me! em solo brasileiro. Depois de mais de vinte anos da formação da banda e do lançamento de sete álbuns, o quarteto, enfim, realizava em Curitiba seu primeiro show no país, abrindo uma turnê brasileira que incluiria passagens em outras duas capitais (São Paulo e Natal) e marcava também o lançamento da edição nacional de sua autobiografia Tranny – Confissões da Anarquista Mais Infame e Vendida do Punk Rock. E claro que tudo isso seria uma noite bastante politizada.

O Against Me! transformou-se em sinônimo de banda política com o passar dessas duas últimas décadas. Não a política partidária ou econômica. Mas a política das coisas pequenas e cotidianas, do comportamento, da sexualidade, do rock’n’roll, do contestamento ao que já está estabelecido. Por isso, Laura Jane Grace é tão reverenciada. Seja pelas letras repletas de sarcasmo e ironia, incluindo um certo tom jocoso de autodepreciação – que sempre funciona para captar a identificação do público. Seja pelas melodias pegajosas, que ajudam a grudar as suas letras no cérebro e fazem todo mundo cantar junto com ela a hora que for. Seja pela questão de gênero, que envolve uma recente transição sexual. Seja pelas atitudes fora dos palcos, que colocam-na como uma das grandes expoentes da música LGBT mundial. Por isso, a turma do #EleNão entoava gritos contra um certo capitão. Aquela noite também era de protesto.

A celebração ficou por contato do extenso repertório, elaborada especialmente pela banda para sanar a sua ausência até então dos palcos brasileiros. Talvez por isso tenha havido a opção de resgatar, de modo equilibrado, as três distintas fases do Against Me!. Das 26 músicas pinçadas para o set list da noite no Jokers, quase metade representavam os três primeiros álbuns, lançados entre 2002 e 2005, quando a banda iniciava seus passos no circuito do punk rock americano com canções mais juvenis, urgentes, diretas e barulhentas. Da fase que representou o período de contrato por uma grande gravadora (com dois álbuns produzidos por Butch Vig entre 2007 e 2010, singles nas paradas de sucesso, números musicais em cultuados programas de entrevistas e humor na TV, presença no topo das listas dos melhores discos do ano), um belo recheio de sete músicas. Da fase em que Tom Gabel deixou de existir para dar lugar a Laura Jane Grace (mais dois discos entre 2014 e 2016, sendo o primeiro o essencial Transgender Dysphoria Blues, no qual o conceito é justamente a disforia de identidade de gênero da vocalista), outras sete. Então fã nenhum pode sair reclamando. Teve para todos os gostos, teve para todas as fases.

Um show do quarteto também significa que as músicas falam por elas mesmas. Daí a opção de Laura por falar bem pouco entre as canções. Era uma pancadaria atrás da outra. Quase sem interrupção, com uma banda afiadíssima, contando com o esperado retorno do baixista Andrew Seward, que passou os últimos cinco anos tocando outros negócios, e o novo baterista Atom Willard, nome experiente do rock alternativo, que encaixou-se como uma luva na engrenagem motora do ritmo do Against Me!.

Então, por quase duas horas, a plateia curitibana foi levada à loucura. Do início arrasador (com a dobradinha “FuckMyLife666” e “Transgender Dysphoria Blues”) ao final do set, com uma série de clássicos enfileirados (“I Was A Teenage Antichrist”, “The Ocean”, “Dead Friend”, “333”, “True Trans Soul Rebel” e “Black Me Out”) foi um festival de punhos erguidos no ar, coro em uníssono durante todas as letras e stage divings celebradíssimos – em especial o de uma garota de apenas dez anos de idade, fanática pela banda e levada pelos pais também fãs assumidos. Ainda deu tempo para um bis longo fuçar o repertório da primeira fase do grupo e entregar canções não tão óbvias como um presente especial para quem esperou por tanto tempo.

Na letra de “True Trans Soul Rebel”, Laura pergunta se Deus abençoaria seu coração transexual. Deus é amor, alegria e energia. E ele, com certeza, estava presente junto aquelas pessoas que se espremiam cantando tudo em alto e bom som no Jokers. Um belo e largo sorriso, estampado em seu rosto frequentemente coberto pelos longos cabelos, entregava o estado de espírito da vocalista. Uma verdadeira alma trans rebelde. Rebelde e muito feliz no Brasil.

Set list: “FuckMyLife666”, “Transgender Dysphoria Blues”, “Pints Of Guinness Make You Strong”, “Cliché Guevara”, “Rice And Bread”, “Pretty Girls (The Mover)”, “Miami”, “From Her Lips To God’s Ears (The Energizer)”, “New Wave”, “Piss And Vinegar”, “Ache With Me”, “Haunting, Haunted, Haunts”, “Walking Is Still Honest”, “Those Anarcho Punks Are Mysterious…”, “Animal”, “Americans Abroad”, “I Was A Teenage Antichrist”, “The Ocean”, “Dead Friend”, “333”, “True Trans Soul Rebel” e “Black Me Out”. Bis: “Joy”, “Baby, I’m An Antichrist!”, “We Laugh At Danger (And Break All The Rules)” e “Sink, Florida, Sink”.

Music

Against Me!

Oito motivos para você não perder a primeira passagem da banda de Laura Jane Grace pelo Brasil

againstme2017

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Casey Curry/Divulgação

Chega ao Brasil nesta semana uma das bandas mais importantes do punk rock da atualidade. Em sua primeira turnê pelo país, o Against Me!, criado como um projeto solo da vocalista Laura Jane Grace em 1997, na cidade de Gainesville, no estado da Florida (EUA), vem fazer três shows no país: 19 de outubro em Curitiba (mais informações aqui), 20 em São Paulo (mais informações aqui) e 21 em Natal (mais informações aqui). De quebra, Laura Jane ainda lança seu livro no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde também se apresenta com sua nova banda, o projeto paralelo Devouring Mothers (mais informações aqui). Por isso, o Mondo Bacana cita oito motivos pelos quais você não deve perder a passagem de Laura Jane Grace e o Against Me! por nosso país, já que isso demorou um bom tempo para acontecer.

Fat Wreck Chords

O Against Me! dos últimos trabalhos pode ser uma banda de punk pop, mas seus pilares mesmo estão naqueles arranjos mais acelerados, densos, berrados e urgentes de um território que flutua entre o vigor do punk oitentista californiano e a agressividade sonora do hardcore. Tanto que dois de seus três primeiros álbuns foram lançados pelo selo Fat Wreck Chords, fundado em 1990 por Fat Mike, baixista e vocalista do NoFX e do Me First and The Gimme Gimmes. Até hoje Laura Jane faz questão de tocar ao vivo determinadas faixas dos seus primeiros álbuns.

Madonna

Laura Jane é uma excelente melodista, daquelas de compor linhas que grudam na cabeça ao ouvir uma canção pela primeira. Não é à tôa. A vocalista é fã assumidíssima de Madonna e ainda mais da fase de maior relevância da diva loira. “Material Girl”, “Express Yourself” e “Justify My Love” estão entre as suas obras preferidas.

Butch Vig

Outro nome por trás da veia pop do Against Me! é o do produtor e baterista Butch Vig. O cara das baquetas do Garbage e que pilotou álbuns como Nevermind (Nirvana), Siamese Dream (Smashing Pumpkins), Bricks Are Heavy (L7) e Dirty (Sonic Youth) sabe mesmo como arredondar uma banda underground, aparar todas arestas e prepará-la para rumar ao estrelato. Foi assim com o disco New Wave, lançado pelo Against Me! em 2007. Com batidas mais desaceleradas, flertes com outros gêneros musicais e uma sonoridade assumidamente mais comercial em comparação aos trabalhos anteriores, o quarteto estreou por uma grande gravadora (Sire Records) e foi logo tendo mais espaço nas paradas de sucesso e listas de melhores discos do ano – a Rolling Stone americana o colocou como o nono melhor da temporada e a Spin cravou-o no topo da sua relação. Não à tôa que nos shows deste ano até sete faixas de New Wave costumam figurar no mesmo set list. Não à tôa, também, que Vig repetiu a dobradinha no álbum posterior, White Crosses (2010), que também tem diversas músicas espalhadas pelo repertório

Transgender Dysphoria Blues

Laura Jane Grace nasceu Thomas James Gabel em novembro de 1980 e carregou uma identidade de gênero masculina até 2012, quando tornou pública a sua transição para o feminino. Lançado em 2014, o álbum Transgender Dysphoria Blues é um raio X de todo este processo vivido por ela na época. As letras são autobiográficas e exploram os medos, as expectativas e as dificuldades enfrentadas pela vocalista em sua decisão. Muitos consideram-no o disco fundamental do Against Me!, exatamente por marcar profundamente o momento decisivo de sua vida. Não tem como não se arrepiar com alguns versos de faias como “True Tans Soul Rebel”, “Black Me Out” e a música que dá título ao disco. As três são peças fundamentais também em qualquer set list dos shows da banda. Aliás, a canção “The Ocean”, gravada em New Wave, já dava pistas explícitas sobre a disforia de Tom e o nome que ele viria a adotar anos depois. Esta música, também indispensável ao vivo, é o embrião do que viria a ser TDB.

Livro de memórias

As confissões de Laura Jane Grace a respeito de sua sexualidade não estão apenas no disco citado acima. Recentemente ela publicou um livro de memórias, baseado nas anotações diárias que sempre teve o costume de fazer a respeito de seus medos, inseguranças e desejos, indo da infância até a fama conquistada através do rock. Vários trechos destes diários estão publicados entre considerações feitas pela autora, com muita ironia aliás, sobre o impacto pessoal e profissional de sua transição de gênero, a relação difícil com o pai militar e as agruras do contrato com uma gravadora de grande porte. Com a vinda do Against Me ao Brasil pela primeira vez, o livro acaba de ter sua edição brasileira lançada e será vendido nos três shows. Tranny – Confissões da Anarquista Mais Infame e Vendida do Punk Rock ainda será lançado oficialmente no próximo dia 22 no Rio de Janeiro e no dia 25 em São Paulo.

I Was a Teenage Antichrist

Talvez o mais famoso clipe já feito pelo Against Me!, esta obra é até hoje impactante. E nem é pela letra, que fala sobre as reflexões de uma pessoa já adulta a respeito dos sonhos e devaneios inconsequentes e de conquista desenfreada do mundo que qualquer um tem quando passa pela adolescência. As imagens formam um plano sequência todo rodado em uma única tomada, mostrando Tom Gabel correndo de policiais, sendo alcançado e espancado em praça pública enquanto pessoas assistem a tudo mostrando as mais diversas reações e os outros membros da banda tentam salvá-lo da selvageria. O tom dramático fica por conta da câmera lenta nas imagens do começo ao fim.

Crash

Um dos momentos altos do álbum mais recente da banda, Shape Shift With Me (2016). É daquelas músicas de fazer todo mundo cantar junto nos shows. O clipe também é demais: mostra uma câmera girando em 360 graus mostrando os músicos todos com um pezinho no glam (mesmo vestindo preto dos pés à cabeça) e os olhos imitando as maquiagens dos músicos do Kiss. Na performance, o improviso rola solto e o momento trashchega quando surge um visitante de outro planeta para incomodar a apresentação do Against Me!. Diversão pura, tosca e sensacional!

Devouring Mothers

No dia 9 de novembro, Laura Jane lança o primeiro álbum de seu projeto paralelo, chamado Devouring Mothers. Segundo ela, Bouhgt To Rot é um trabalho cuja sonoridade não caberia no Against Me!, com flertes com o folk e influências de bandas como Cure, Nirvana e Lemonheads. A formação é de trio e da banda fazem parte o produtor e engenheiro de áudio Marc Jacob Hudson e o atual baterista do Against Me!, Atom Willard. A gravação foi toda feita no estúdio caseiro de Hudson, que também assina, junto com Laura Jane, a produção de Shape Shift With Me. Já Willard é o grande destaque instrumental das duas bandas. Antes de assumir as baquetas do Against Me!, o cara já tocou com Rocket From The Crypt, Offspring, Social Distortion, Danko Jones e Angels & Airwaves.