Music

A Place To Bury Strangers – ao vivo

A sonoridade dos últimos momentos antes da morte devem ser assim como a banda de Oliver Ackermann e Dion Lunadon

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Texto e foto por Fábio Soares

Sempre tive curiosidade (que muitos, gratuitamente, rotulariam como “mórbida”) em saber o que se passa na mente de um indivíduo momentos antes de sua morte. Já li diversas teorias a respeito: flashback de instantes felizes ao lado da família, admiráveis feitos individuais (completar uma maratona ou ter escalado uma montanha, por exemplo), a primeira transa, a hora do “sim” numa cerimônia de casamento…

Mas por que será que ninguém se ateve a estender esta curiosidade para quais sons um morimbundo levaria para eternidade num momento final? Quando Joey Ramone morreu de câncer em 15 de Abril de 2001, noticiou-se que no exato instante de sua morte, a canção do U2 “In A Little While” (do álbum All That You Can’t Leave Behind, de 2000) foi a trilha sonora de sua passagem. Em vez da suavidade da canção de Bono e sua turma, ainda acho que os átomos de minutos pré-morte são caóticos, perturbadores e inquietantes, como toda grave mudança de plano sugere. Traçando o devido paralelo, portanto, o som da banda A Place To Bury Strangers, vem a calhar: noise rock elevado ao limite de sua extremidade, fruto dos cérebros nervosos de Oliver Ackermann e Dion Lunadon traziam a expectativa de hecatombe nuclear muito antes de sua chegada a São Paulo. Sabia-se que os shows do grupo beiravam a exaustão sonora, fato este que comprovou-se no último 8 de maio, quando após executarem uma única canção no show extra agendado para a data, a parte elétrica da Sala Adoniran Barbosa, no Centro Cultural São Paulo não aguentou o tranco e pediu água, forçando a banda a se apresentar em duas sessões no dia seguinte.

Quem assistiu a estas duas sessões na sequência deve estar, neste momento, seguindo instruções de otorrinolaringologistas após o caos sonoro presenciado. A parte visual do espetáculo restringia-se à fumaça artificial que propositalmente preenche o espaço, deixando a plateia às cegas. A partir daí, um caminhão de distorções, efeitos de guitarras, batidas marciais e inexplicáveis camadas sonoras bombardearam o público num volume altíssimo. A sensação era de se estar em meio a uma catástrofe sem nenhuma saída para escapatória. A banda também demonstrava não ter qualquer apreço a seus bens materiais. Por mais de uma vez, Ackermann e Lunadon arremessam seus instrumentos ao ar que, agonizantes, chocaram-se ao solo para novamente serem empunhados e acionados como instrumentos de uma tortura da qual ninguém reclamava. Muito pelo contrário, aliás.

Ao fim da apresentação, uma agoniante nuvem sonora de microfonias permanecia no ambiente a enlouquecer os presentes. É extremamente difícil e inexato definir o show do A Place The Burn Strangers numa única palavra. Uma ópera da agonia que retorce os sentidos e nos entrega a um mundo de possibilidades. A trilha sonora do fim. Se a morte é precedida de uma barulheira dessas, o que vem depois só pode ser a tranquilidade de uma eternidade perene.

Seguindo essa linha se raciocínio, o show do APTBS pode ser rotulado como purgatório? Sim, por que não? Topamos!

Set List primeiro show: “Alone”, “You Are The One”, “Mind Control”, “Worship”, “Fear”, “Dissolved”, “Why I Can’t Cry Anymore”, “Revenge”, “And I’m Up”, “Slide” e “Leaving Tomorrow”.

Set List segundo show: “Ego Death”, “We’ve Come So Far”, “So Far Away”, “Deadbeat”, “Drill It Up”, “There’s Only One Of Us”, “Exploding Head”, “Fill The Void”, “Machine Jam #1”, “Never Coming Back”, “Keep Slipping Away”, “I Lived My Life To Stand In The Shadow Of Your Heart” e “Ocean”.

Music

Gang Of Four – ao vivo

Renovada gangue de Andy Gill divide opiniões com seu baile pós-punk nas cidades de Ribeirão Preto e São Paulo

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Textos por Regis Martins (Saturno Pop/Cia Fantasma/Motormama) e Fábio Soares

Foto de Regis Martins

Às vésperas do show da banda inglesa Gang Of Four no SESC Ribeirão Preto (SP) no último 24 de novembro, a piada era de que o grupo deveria mudar o nome para “Gangue de Um”. Tudo porque o guitarrista Andy Gill era único remanescente da formação original.

Maldades à parte, o fato é que a nova formação do quarteto não deixou nada a desejar, tanto nas duas apresentações no Sesc Pompeia, nas noites anteriores, quanto nesta no interior paulista. Pelo contrário: os jovens escalados por Andy chegam a ser musicalmente superiores aos originais tecnicamente falando.

O funk punk do G4 é matemático, cru e pulsante e ainda mais pesado ao vivo. O público que lotou o Galpão de Eventos do Sesc gostou do que viu e saiu com a certeza de que não estava sendo enganado por uma banda cover. Desde o momento em que Andy, o Jimi Hendrix do pós-punk, subiu ao palco esmurrando e jogando ao chão uma cópia genérica de sua Stratocaster, várias gerações de fãs na plateia perceberam que estavam diante de uma lenda do rock inglês.

O set list começou com algumas músicas mais recentes de discos como  o álbum What Happens Next (2015) e o EP Complicit (2018, com Ivanka Trump na capa) deixando o público um tanto confuso. A coisa realmente engrenou quando a banda soltou seus clássicos.

“Damaged Goods” foi uma das primeiras do álbum clássico Entertainment! – que completa 40 anos em 2019 – a alegrar a plateia. É incrível como essa canção é atualíssima na forma e no conteúdo.

Daí em diante, vieram “At Home He’s a Tourist”, “To Hell With The Poverty”, “I Love a Man In a Uniform”, “Not Great Men” e a longa e hipnótica “Ether” (que abre Entertainment!) no bis. O som muito bem equalizado colaborou para que todos os detalhes dos instrumentos não se perdessem numa maçaroca inaudível.

A música do G4 não é facilmente palatável. O grupo faz parte do núcleo duro do pós-punk inicial, que inclui bandas como PIL e Killing Joke, pioneiros na busca por um som árido, radical e sem concessões. Ver essa turma no interior paulista é algo realmente surpreendente.

E mais surpreendente foi ver Andy Gill e asseclas pós-show, encerrando a noite de sábado num botequim rocker do centro de Ribeirão Preto, o já cultuado Bar do Xapa. Simpáticos com todo mundo, os músicos dançaram e beberam a noite inteira, encerrando esta microturnê brasileira de forma única. That’s entertainment! (RM)

Set list: “Love Like Anthrax”, “Where The Nightingale Sings”, “Not Great Men”, “Isle Of Dogs”, “Toreador”, “Paralysed”, “I Parade Myself”, “What We All Want”, “Natural’s Not In It”, “Lucky”, “Damaged Goods”, “Do As I Say”, “Why Theory?”, “I Love a Man In a Unform”, “At Home He’s a Tourist” e “To Hell With Poverty”. Bis: “Ether”, “Return The Gift” e “I Found That Essence Rare”.

***

Muita expectativa cercava a apresentação do Gang Of Four, no palco do Sesc Pompeia, na noite de 22 de novembro. Os ingressos, disputados a tapa tanto virtual quanto fisicamente nas bilheterias, esgotaram-se em pouquíssimos minutos dez dias antes das apresentações. Em sua terceira passagem por aqui, Andy Gill e sua trupe (os jovens John Sterry, nos vocais; Thomas McNice, no baixo; e Tobias Humble, na bateria) prometiam um apanhado da carreira de quase 40 anos a ser comemorada com um novo disco, Happy Now, previsto para ser lançado em fevereiro. Atmosfera favorável, alguns famosos na plateia (Sandra Coutinho, das Mercenárias; BNegão, dos Seletores de Frequência e Planet Hemp; e Clemente, dos Inocentes e da Plebe Rude), noite agradável. Enfim, um pano de fundo quase perfeito para uma celebração que começou doze minutos atrasada com os primeiros acordes de “Love Like Anthrax”, faixa de Entertainment!, seminal estreia do grupo formado na cidade inglesa de Leeds.

Numa encenação particular, Gill arrancava microfonias de uma guitarra figurativa e a atirava ao chão repetidas vezes. Já na primeira faixa, ganhava destaque a performance de McNice. O baixista, sem parar um segundo sequer, mostrava que é, disparado, o melhor músico do quarteto. Em “Not Great Men”, pulava de um lado para o outro, preenchendo os espaços sem perder a concentração. Já Sterry, transpassava insegurança. Mais preocupado em fazer caras e bocas do que ter boa performance vocal, passaria muito bem como um cover de Ian Curtis cantando num karaokê da Rua Augusta numa madrugada paulistana qualquer. Nem o petardo “What We All Want” fez o vocalista ficar à vontade. Parecia que ele estava contando quantas faixas faltavam para a apresentação acabar. Aqui, nova boa performance de McNice. Ao menos parecia estar numa festa. Ao menos…

Já Andy Gill, sabia que todas as atenções estariam voltadas a ele. Bendito fruto dentre as lendas do pós-punk, ostentava seu ar blasé durante todo o tempo. Longe de ser virtuoso à guitarra, ele procurava ser econômico na medida certa para não comprometer. E aí é que estava o problema: faltava punch ao Gang Of Four 2018. O eterno “fantasma” da presença de seu fundador, Jon King, parece afetar a banda até hoje.

Justamente esse freio de mão puxado prejudicou a recepção das novas faixas apresentadas em São Paulo. “Toreador”, em nenhum momento, levantou a plateia e até “Lucky”, pré-fabricada para as pistas, sofreu com a irregularidade do grupo. Aliado ao cenário desfavorável, a má equalização do som se fez sentir até para quem estava muito próximo ao palco (eu, inclusive). Por muitas vezes, o baixo de McNice encobria a guitarra de Gill que, por sua vez, inibia a voz de Sterry. Só o batera Humble parecia alheio ao caos técnico dos equipamentos.

Quando os acordes de “Damaged Goods” se iniciaram na guitarra, um sentimento de “agora vai!” instalou-se na choperia do Sesc. Doce ilusão! Com timidez e descompasso atrozes, John Sterry mais parecia um funcionário de cartório ansioso pelo final do expediente. Aí joguei a toalha! Se não pegou no tranco com um trator como “Damaged Goods”, ele não se soltaria mais. Dito e feito. Os vinte minutos finais da apresentação do Gang Of Four, encerrada com a execução da dançante (bem, pelo menos deveria ser) “To Hell With Poverty”, foram burocráticos e protocolares.

Triste é constatar quando o final da apresentação de um artista que admiramos causa alívio ao invés de comoção. Saldo positivo: a performance de McNice, ver Andy Gill de perto, reencontrar amigos queridos e degustar um chope gelado. Se bem que estes dois últimos aspectos podemos fazer num boteco qualquer ou em casa mesmo, né, não? Afinal, este foi um show esquecível numa noite mediana. Mas ninguém vai morrer e, por isso, segue o baile. (FS)

Set list: “Love Like Anthrax”, “Where The Nightingale Sings”, “Not Great Men”, “Toreador”, “Paralysed”, “I Parade Myself”, “Isle Of Dogs”, “What We All Want”, “Natural’s Not In It”, “Lucky”, “Damaged Goods”, “Do As I Say”, “Why Theory?”, “I Love a Man In a Unform”, “At Home He’s a Tourist” e “To Hell With Poverty”. Bis: “Ether”, “Return The Gift” e “I Found That Essence Rare”.