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História de um Casamento

Scarlett Johansson comanda um time de grandes atuações em filme que mostra como um divórcio pode fazer mal sobretudo aos filhos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Netflix/Divulgação

Existe um ditado que diz mais ou menos assim: você só conhece uma pessoa de fato quando se separa dela. Ou seja, uma gatinha pode se tornar uma leoa da noite para o dia quando se trata de proteger a cria.

Enfrentar um divórcio é como entrar numa guerra. Raros são aqueles que chegam a um acordo de paz sem antes lutar contra justamente a pessoa que, um dia, entrou na sua vida para compartilhar o tempo, o espaço e a genética. Aquele que ontem era seu amigo e emprestava os ombros pra você chorar hoje dá de ombros e te faz chorar, transformando-se num rival. Durante o doloroso processo, muitas vezes é preciso cavar até o fundo do poço para, enfim, desmembrar aquele território edificado a dois com enorme dispêndio de energia, afeto, carinho, amor e, claro, dinheiro.

Casamento, enfim, é como qualquer sociedade. Pode ou não dar certo. Tentativa e erro. Para serem bem-sucedidos, os sócios devem estar muito bem alinhados. Caso contrário, o relacionamento chega ao fim, não se sustenta, desmorona, como tudo na vida que é efêmero. A única diferença é que, sem filhos, o adeus pode ser definitivo. Como é impossível dividir um filho, o desfecho pode tomar outro rumo. Nesse caso, o desgaste é maior e o poder de negociação atinge limites impensáveis, com trocas de acusações na frente do juiz, que revelam segredos e deixam feridas expostas. E todo o amor que um dia talvez tenha existido dá lugar à raiva, à amargura, como nos mostra o tocante longa História de um Casamento (Marriage Story, EUA/Reino Unido, 2019 – Netflix), do diretor e roteirista Noah Baumbach, hoje casado com a atriz, diretora e roteirista Greta Gerwig.

Separação, aliás, é um tema recorrente da filmografia de Baumbach. Em sua primeira obra, a autobiográfica A Lula e a Baleia, o diretor se inspirou na separação dos pais e conduziu a história sob o ponto de vista dele e do irmão. Já em seu mais recente e cultuado História de um Casamento, um dos nove indicados ao Oscar de melhor longa em 2020, ele se debruça em seu divórcio com a atriz Jennifer Jason Leigh, com quem tem um filho de 9 anos, praticamente a mesma idade do filho dos protagonistas vividos por Scarlett Johansson, exuberante no papel da atriz Nicole, e Adam Driver, que interpreta Charlie, um respeitado diretor de teatro.

A história do título (que lembra Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman) começa pelo fim do relacionamento entre Nicole e Charlie. Para quem não vivenciou a traumática experiência de uma separação, é bem possível que História de um Casamento seja percebido como uma obra mediana, com uma direção correta e um roteiro bem-feito. Talvez se fosse distribuído para o cinema e não exibido diretamente via streaming, a recepção fosse outra. Eu, no entanto, tive de pausá-lo algumas vezes por causa de tamanha identificação com a personagem de Scarlett, que também se inspirou na experiência pessoal para transmitir com um realismo pungente toda a angústia, frustração e tristeza do fim de um longo relacionamento.

O drama começa numa sessão de terapia de casal, uma tentativa vã de recuperar algo daquela faísca do amor primordial. Charlie escreve sobre as qualidades de Nicole e as lê em voz alta. Ela, por sua vez, não consegue fazer o mesmo. Para Nicole, não há mais salvação. A relação terminou e por motivos comuns a vários casais, como traição e desencanto pelo parceiro. Quando se casou, Nicole abriu mão de uma carreira promissora de atriz de cinema em Los Angeles para morar em Nova York, onde Charlie dirige uma companhia de teatro. Ao longo dos anos, ela passou a se sentir ofuscada pelo marido.

Com a união em colapso, Nicole aceita a proposta para estrelar o piloto de uma série de televisão e se muda para a casa da mãe em Los Angeles, levando com ela o filho Henry (Azhy Robertson). Charlie continua do outro lado do país. Perdido com toda a situação, parece não se dar conta de que Nicole não voltará mais. Os dois, então, permanecem separados física e emocionalmente e ele se desdobra para viajar até a Costa Oeste para visitar Henry.

O ressentimento, aliado ao fator filho, leva Nicole a procurar a advogada Nora, interpretada pela sensacional Laura Dern (que levou os principais prêmios de coadjuvante da temporada por este papel). Quando os advogados entram em cena, o drama toma o rumo bem ao estilo de Kramer vs Kramer, vencedor do Oscar de melhor filme em 1979, com Dustin Hoffman e Meryl Streep. O dilema que poderia se encerrar num acordo – e que seria mais benéfico para Henry – transforma-se em disputa judicial pela guarda da criança. As economias, até então reservadas para pagar a futura faculdade do filho, agora vão direto para o bolso dos advogados, que cobram honorários astronômicos, dignos de estrelas de Hollywood. Durante o litígio, a vida do casal é totalmente esmiuçada; cada detalhe, cada deslize, por mínimo que seja, pode ser usado perante o juiz, desde tomar uma mísera taça de vinho na frente do filho ou esquecer de acomodar o assento no carro.

Conforme a narrativa se desenvolve, Scarlett cresce no papel e nos envolve com sua personagem, como na cena de sua primeira reunião com Nora, quando subitamente começa a chorar ao contar a história. A advogada desce do salto e consola a atriz, num discurso que expõe toda a pressão sobre a figura materna rodeado pelo mito da irgem Maria: a sociedade tolera que o homem seja um pai ausente, mas à mãe jamais é permitido sair da linha.

Sem dúvida, a sequência mais visceral e desconcertante é a cena em que Charlie e Nicole discutem sozinhos e lavam toda a roupa suja. Não sobra nada, nem um par de meias. Nesse ponto, a direção de Baumbach insere o espectador lá dentro do apartamento, como se testemunhássemos a discussão.

Histórias de um Casamento pode não ter levado o Oscar, mas é um filme sensível e honesto, com foco no roteiro e atuação do elenco (tirando a mãe de Nicole, cujo papel é exagerado). E o belíssimo desfecho nos mostra que, para proteger a saúde mental do filho, a mágoa, a raiva e a culpa devem dar espaço à dignidade, à civilidade e ao respeito mútuo.

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Um Dia de Chuva em Nova York

Woody Allen mistura passado e presente em ambientação de trama que fica aquém de seus momentos mais inspirados

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Não há necessidade de introduzir a carreira brilhante de Woody Allen. O cineasta também trabalha com profissionais que, hoje em dia, chegam a dispensar introduções – por motivos diferentes. O aclamado diretor junta-se a Timothée Chalamet, Elle Fanning, Jude Law e até Selena Gomez em seu novo longa.

Tal como a extensa filmografia de Allen, Um Dia de Chuva em Nova York (A Rainy Day In New York, EUA, 2019 – Imagem Filmes) é, do início ao fim, repleto de narrações. O roteiro, também do autor americano, segue Gatsby Welles (Chalamet) e Ashleigh Enright (Fanning) durante o dia em que o casal de estudantes universitários passa em Nova York. Enquanto ela segue um cultuado diretor de cinema (Liev Schreiber, em curta aparição) e seus colegas de trabalho por Manhattan, Welles passeia pela cidade em que cresceu, reencontrando conhecidos e familiares no meio do processo. A trama parece operar como um fluxo de consciência, com personagens indo de ponto A ao ponto B a bel prazer do roteirista, sem motivações claras e suficientes.

O nervo central do filme é a dinâmica interna de seus dois protagonistas e, também, destes com o ambiente. Enquanto o Gatsby de Allen é culto, esperto e confortável com a cidade, Ashleigh é ingênua e jovial, respirando ares do Arizona – onde nasceu – em uma megalópole que a carrega de um lado a outro, como uma correnteza inescapável. Assim, a oposição entre os dois personagens é clara desde o primeiro ato do filme, que trabalha bem sua incompatibilidade mesmo que estejam separados por grande parte de sua duração.

É assim que o roteiro introduz seus principais coadjuvantes, não somente por peso na história, mas por capacidade de interpretação: Selena Gomez e Jude Law. Ele faz um roteirista que, a caminho de encontrar seu diretor – que enfrenta dificuldades criativas com seu novo filme –, descobre que sua mulher está o traindo com seu melhor amigo. O ator consegue tornar seu breve personagem bastante crível, fugindo da caricatura. No entanto, quem brilha é Selena Gomez, que entrega Shannon, velha conhecida do protagonista de Chalamet, com bastante naturalidade, transparecendo a enorme química entre eles.

Retorna-se, então, à discussão do roteiro, pois a efusão de personagens secundários e sequências vagas é um dos maiores problemas do filme, em conjunto com narrações que parecem escritas às pressas. Deixo evidente que a definição anterior de Gatsby carrega consigo um ponto de vista bastante bondoso, o “de Allen”, visto que o personagem, de fato, esbanja características desagradáveis ao espectador. Por vezes, é pretensioso e de movimentação muito caricata, tornando constante a suspeita de de que Timothée Chalamet fora instruído a imitar seu diretor ao invés de construir seu próprio personagem. O texto de Gatsby revela ainda diversas falas e ideais que facilmente seriam atribuídas a Woody Allen. Dá-se a impressão de que, no fim, Gatsby Welles é um Woody Allen que, como o personagem diz em dado momento, “não quer envelhecer nunca”.

No entanto, a confusão do roteiro é amenizada pelo brilhantismo de Vittorio Storaro, o mítico diretor de fotografia que assume a obra, criando uma Nova York onírica, existente somente nas memórias de Allen. O que é um ponto alto da fotografia torna-se um defeito do desenho de produção, já que os cenários e ambientações têm um tom enquanto certos personagens têm outro. Explico: Gatsby, Shannon e até mesmo Ashleigh parecem viver numa Nova York de meados do século 20, ainda que tenhamos iPhones, táxis e sets bastante contemporâneos. Assim, o filme se ambienta numa mistura de passado e presente, uma confusão que se demonstra até mesmo nas relações entre as personagens, em especial entre Gatsby e sua mãe.

Ainda que amparado por Storaro, Woody Allen parece ter perdido a mão em Um Dia de Chuva em Nova York. Seu roteiro é um dos mais fracos da aclamada carreira. Ele mostra-se preocupado em finalizar filme atrás de filme, distanciando-se da qualidade que um dia o consagrou. Da mesma forma, o longa soa repetitivo, pois acomoda-se até demais no estilo de seu diretor. No fim, é uma confusão em si mesmo, que não é resolvida nem pelo talento de seu elenco ou de seus diretores. É agradável, certamente, mas está bem aquém dos melhores filmes de Allen.

Series, TV

Game of Thrones

Por que o fim da série que se tornou objeto de culto pelo mundo todo decepcionou bastante os seus ardorosos fãs?

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Texto por Andrizy Bento

Foto: HBO/Divulgação

Após oito temporadas, 73 episódios e 47 Emmys (que a tornaram a série recordista de estatuetas na premiação), Game of Thrones teve seu último episódio exibido em 19 de maio pela HBO. No entanto, o que prometia ser épico, conseguiu ser apenas frustrante. Em meio à fúria despejada pelos fãs nas redes sociais – ainda mais cáustica que o fogo expelido pelos dragões de Daenerys Targaryen em seus inimigos – até havia um ou outro espectador argumentando que a finale teve, sim, suas qualidades e que o saldo final não foi tão ruim – de um ponto de vista analítico, houve até quem defendesse e justificasse as decisões tomadas pelo roteiro. Contudo, não há quem considere o último episódio da série realmente satisfatório.

Satisfatório é diferente de “atender às expectativas dos fãs e entregar exatamente o que eles querem ver na tela”. Em suma, está longe de significar fanservice. Assim como decepcionante não quer, necessariamente, dizer ruim. No caso de GoT, no entanto, a finale conseguiu ser os dois. Ao invés de proporcionar aos espectadores as devidas resoluções de conflitos e encerramentos de arcos narrativos, o desfecho deixou ainda mais pontas soltas e perguntas sem respostas – resultado sistêmico de toda uma temporada deficiente. Aliás, convém salientar que, desde a quinta, a qualidade da produção vinha caindo drasticamente.

Baseada na saga de livros best-seller As Crônicas de Gelo e Fogo, de autoria do escritor norte-americano George R. R. Martin, a série estreou em 17 de abril de 2011 na HBO. Ambiciosa, a produção idealizada por David Benioff e D. B. Weiss investia em cenas gráficas de nudez, sexo e violência e, por apresentar uma narrativa envolvendo a disputa por um trono e permeada por alguma magia, foi até mesmo apelidada de “O Senhor dos Anéis para adultos”. Claro que esses se tratavam apenas de alguns dos aspectos que tornavam o produto mais atraente. Porém, o estrondoso sucesso da qual a série desfrutou nos anos em que se manteve no ar, vai muito além das comparações com o livro de J. R. R. Tolkien ou do teor sexual e violento de suas cenas.

Sua consagração por especialistas e a assombrosa audiência que conquistou se devem a vários outros fatores: a força da narrativa, a entrega do elenco, o carisma de uma galeria numerosa de personagens, o acuro na composição dos planos, os enquadramentos soberbos, o requinte de cenários e figurinos, as batalhas magistralmente executadas e que em nada ficavam devendo a blockbusters cinematográficos, toda uma atraente rede de intrigas e um jogo de poder que nos instigava a acompanhar semanalmente os episódios. Não surpreende que a HBO, em estratégia para evitar a pirataria, tenha optado pela transmissão simultânea em mais de 170 países – o interesse do público era tamanho que GoT se tornou a série com o maior número de downloads ilegais no mundo. Afinal, quem não via Game of Thrones e não debatia acerca das teorias que constituíam um dos grandes atrativos da produção era imediatamente excluído das rodas de conversa nas segundas-feiras.

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A história é situada no continente fictício de Westeros, lar dos Sete Reinos e das terras inexploradas além da grande Muralha. Em linhas gerais, a série se propõe a narrar a luta de famílias nobres pelo Trono de Ferro ou por sua independência, recorrendo a violentos confrontos e alianças forjadas a partir de interesses políticos, em sua maioria, sórdidos. Esse é o fio condutor da trama.

A primeira temporada da produção tem início com a visita de Robert Baratheon – Rei e Senhor dos Sete Reinos – ao castelo de Winterfell, onde reside Ned Stark, o Protetor do Norte, junto de sua família. O objetivo da visita é fazer um convite formal a Ned para que ele seja a Mão do Rei – uma espécie de primeiro conselheiro. Este, no entanto, acaba tomando conhecimento acerca de uma conspiração que levou ao assassinato da Mão do Rei anterior e as suspeitas recaem sobre os Lannister, incluindo a Rainha Cersei e seu irmão Jaime, com quem ela vive um caso secreto e incestuoso.

Distante dali, no Mar Estreito, Viserys Targaryen, conhecido como o Príncipe Exilado, planeja o casamento de sua irmã, Daenerys, a Princesa de Pedra do Dragão, com Khal Drogo, líder do povo Dothraki – uma tribo de guerreiros que percorre o continente de Essos. Com o casamento, o príncipe exilado visa a conseguir um exército a fim de retomar o Trono de Ferro que é seu por direito. No passado, Baratheon conquistou a coroa assassinando Aerys II Targaryen (o Rei Louco) e Rhaegar – respectivamente, o pai e o irmão de Viserys. Após esse acontecimento, ele e a irmã foram exilados nas Cidades Livres do Continente de Essos. Desde então, o príncipe é movido pelo intenso desejo de vingar sua família e retomar o poder e a coroa a qualquer custo.

Assim, fomos arremessados aos bastidores cruéis e sangrentos da guerra dos tronos. A primeira temporada representou não apenas o ponto de partida, como o esboço a partir do qual se desenhou toda a série. Traçou cenários que, mais adiante, viriam a impactar as vidas e jornadas de dezenas de personagens. Inseriu simbologias e easter eggs que, no decorrer dos anos de exibição, vieram a fazer a diferença no todo. No entanto, da maneira superficial como foi colocado até aqui, não é possível compreender exatamente a razão que levou Game of Thrones a ser esse fenômeno de audiência. É realmente necessário assistir à série e acompanhar as reviravoltas da trama intrincada para entender os motivos de tanto estardalhaço em torno de GoT. O fato é que testemunhar a evolução dos personagens, a construção dos elos entre eles, a ganância e a sede de poder que ditavam os rumos do jogo, bem como todos os meandros que culminaram em batalhas colossais, é que tornou a jornada tão divertida de se assistir durante oito temporadas. Daí toda a ansiedade com que os espectadores aguardavam pelos domingos em que os episódios eram veiculados pela HBO.

Aprendemos a exercitar o desapego (afinal, um protagonista morre já na finale da primeira temporada!), nos acostumamos a prender o fôlego devido à aflição causada pelos épicos confrontos e ao temor de perder um personagem fan favorite. A produção nos presenteou com momentos gloriosos em termos televisivos como, por exemplo, o nono episódio da sexta temporada, o já clássico e plasticamente impecável A Batalha dos Bastardos, que dificilmente encontrará rival à altura em outro produto do gênero. Game of Thrones nos ensinou que, na guerra dos tronos, ou você ganha ou você morre – literalmente. Alimentou teorias, não teve pudores em abusar do fator surpresa, apresentou audaciosos e chocantes plot twists, jamais entregou somente o que o público queria ver, não se limitou a agradar à audiência. Seu legado é incontestável. Uma pena o fim dessa história ter deixado um gosto tão amargo na boca de seus fiéis espectadores.

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Desde que a série começou a ser exibida, no já longínquo ano de 2011, o mundo passou por transformações significativas no tocante ao cenário político, econômico e social. Esse tipo de mudança, não raramente, acaba por impactar e se refletir também na cultura pop. Normal, afinal a produção cultural e artística de qualquer época é sempre um retrato de sua geração, para o bem ou para o mal, em maior ou menor escala, intencional ou inconscientemente. No caso do recorte de tempo que compreende a exibição de Game of Thrones, por exemplo, as pautas feministas ganharam ainda mais força dentro e fora das redes sociais e ativistas vocais se dedicaram a apontar o sexismo enraizado em diversos livros, histórias em quadrinhos, roteiros de cinema e televisão. Muitas das cenas de estupro protagonizadas por personagens femininas relevantes passaram a ser questionadas e duramente criticadas – uma vez que algumas delas tratavam-se de cenas de sexo consensual nos livros e outras sequer existiam em sua mídia de origem. Ao longo das temporadas, a nudez (majoritariamente feminina) e o sexo (por vezes gratuito) diminuíram exponencialmente, bem como a violência tornou-se mais contida e menos sangrenta. Contudo, a despeito do desenvolvimento das personagens femininas, que passaram a ter mais do que seus corpos expostos e a violência sexual tida como o rito de passagem que as fortaleceu, foram elas as mais injustiçadas no último ano da série.

É simplesmente lamentável ver como as mulheres de GoT foram diluídas no decorrer de toda essa temporada final. O roteiro se concentrou na rivalidade entre elas; em expor fraquezas, fragilidades e vaidades das mesmas; em mostrar como elas não sabiam lidar com o poder. Cersei Lannister, uma vilã inteligente e uma das maiores estrategistas da trama, ganhou desfecho abrupto e totalmente insípido. Apesar de ter sido Arya Stark a derrotar o grande vilão, Rei da Noite, sua tão almejada vingança contra Cersei não foi concretizada e a personagem limitou-se a ver Porto Real se transformar em destroços e cinzas, enquanto Daenerys Targaryen sobrevoava a cidade em seu Dragão que, impiedosamente, cuspia fogo em mulheres e crianças inocentes. Sansa Stark, que havia crescido tanto como personagem, foi reduzida ao papel de uma garota caprichosa que não queria ter seu reinado, no Norte, ameaçado. E Daenerys… A figura forte, imponente, majestosa, intrépida e destemida – um exemplo de heroína que apresentou uma das evoluções mais notáveis ao longo da série – simplesmente enlouqueceu. Tornou-se a Rainha Louca, facilmente corruptível pelo poder, herdando o temperamento de seu pai e, ao invés de quebrar a roda (como proclamava) corroborou o discurso simplista de que a descrição da Casa à qual o indivíduo pertence dita todo o rumo de seu destino. Pior: terminou a série morta pelo punhal do homem a quem amava e que também tinha seu sangue – seu sobrinho, Aegon Targaryen, mais conhecido como o bastardo Jon Snow.

E a coerência desapareceu à medida que o inverno chegou.

Eis um problema flagrante de toda produção seriada. Existe uma ânsia incompreensível dos showrunners por querer encerrar todos os arcos narrativos apenas no último capítulo, ao invés de responder às perguntas gradativamente, fechar os ciclos aos poucos, de modo orgânico. Creio que o mais adequado seria dedicar uma ou duas temporadas para resolução de todos os conflitos e, assim, oferecer desfechos satisfatórios para cada personagem. Game of Thrones foi um exemplo e, infelizmente, não o único de uma trama que acumulou muitas questões a serem resolvidas somente na finale e, óbvio, não conseguiu contemplar todas elas.

Outra possível explicação para o resultado ter ficado tão aquém do esperado está no fato de a história ainda não ter sido finalizada nos livros. Porém, esses argumentos não são suficientes para justificar uma finale tão ruim, uma vez que a série possuía força o bastante para se sustentar de maneira independente, como qualquer bom produto transmídia deve fazer. Existe um sem número de erros crassos de continuidade e cenas que, simplesmente, não fizeram sentido para o espectador atento que, assim como o Norte, se lembra disso depois. E, diferentemente dos Lannister, os roteiristas não pagaram todas as suas dívidas.

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A última temporada trai toda a mitologia da saga tão cuidadosamente arquitetada até ali, joga para escanteio a construção e o desenvolvimento de personagens, traz diálogos que contradizem o cânone e a essência da trama. Sim, Game of Thrones sempre trabalhou com reviravoltas, traições, choque, morte de personagens importantes. O problema não são estes mecanismos – que, aliás, movimentaram a trama desde seu primeiro episódio e com os quais estávamos plenamente habituados, convém dizer. O problema é como eles foram utilizados, escancarando a falta de planejamento de produtores e roteiristas. Esses artifícios foram despejados na tela de maneira simplesmente desleixada.

As falhas, no entanto, não são apenas de ordem narrativa, mas também estética. Um nítido exemplo é a batalha contra os White Walkers, que prometia ser o ápice da trama desde o primeiro episódio, e é extremamente inferior ao acuro visual da Batalha dos Bastardos. Entre copos da Starbucks esquecidos nas mesas de jantar de Winterfell e um confronto nonsense contra a Frota de Ferro, liderada por Euron Greyjoy – que resultou na morte anticlimática de um dragão – tudo foi absurdamente descuidado. Porém, nada foi mais incoerente, insatisfatório e insosso do que o conselho formado para deliberar sobre o novo rei após a morte da Rainha Daenerys Targaryen. Nas palavras de Tyrion Lannister:

“O que une as pessoas? O ouro? Os exércitos? As bandeiras? As histórias. Não há nada mais poderoso no mundo que uma boa história. Ninguém pode detê-la, nenhum inimigo pode vencê-la. E quem possui histórias melhores que Bran, o Quebrado? O menino que como não podia andar aprendeu a voar…”

O menino que passou a série inteira sem fazer absolutamente nada e se tornou, primeiramente, o Corvo de Três Olhos para então virar rei…

O discurso de Tyrion é interessante e bem escrito, mas um desperdício de palavras bonitas expressas pelo personagem que, durante oito temporadas, destacou-se como o mais profícuo emissor de quotas contundentes e memoráveis.  As palavras do outrora sábio anão estão lá unicamente para disfarçar a negligência dos roteiristas. O grande conselho é uma das piadas mais mal contadas da finale, pois é formado por nada menos do que três membros da Casa Stark, um tio dos Stark, um primo dos Stark, amigos dos Stark, uma cavaleira juramentada a proteger a Casa Stark, um Dorne, uma Greyjoy, mais alguns figurantes e um prisioneiro! Não sei dizer exatamente o que dói mais, se é o fato de que está óbvio quem seria favorecido por um conselho formado por estes membros ou Tyrion, prisioneiro por ter traído Daenerys, ter indicado o nome de Bran e, praticamente decidido o novo governante de Westeros – e ainda com o bônus de ser a Mão do Rei.

E isso não é tudo: por que Tyrion, prisioneiro, pôde participar da votação e Jon, igualmente encarcerado e com sangue Targaryen, não? Onde estão os membros representantes de outras Casas? Aqueles presentes na reunião do conselho não compreendem nem metade das famílias nobres de Westeros. Aliás, toda essa sequência serviu, especialmente, para embasar um futuro cenário de instabilidade política; afinal, as outras Casas podem, e com razão, questionar o favorecimento aos Stark considerando os componentes desse conselho fajuto. Sem falar do fato de Bran ter concedido a independência ao Norte. Quanto tempo mais até os demais Reinos reivindicarem a independência utilizando o Norte como argumento e isso resultar em uma nova guerra? Ademais, a figura de Bran como rei simplesmente não convence, pois não foi bem construída. Bran, o Quebrado, nunca teve aspirações ao trono e não fez nada de realmente útil durante toda a série que justificasse sua coroação. Ele nem mesmo queria ser rei. E esse papo de que é exatamente não desejar a coroa que o torna merecedor, simplesmente não funciona dentro daquele universo proposto.

Oito anos após o primeiro suspiro de Westeros na telinha, finalmente chegamos ao final da saga – uma finale que nos ofertou apenas um trono queimado (metáfora política sobre a destruição da iconografia; dos símbolos de poder capazes de corromper e que precisam ser derrubados); Porto Real transformada em cinzas; Tyrion Lannister, um fan favorite outrora inteligente e brilhante orador, reduzido ao papel de um fraco, traidor, guiado pelas emoções, capaz de atos estúpidos e autor de algumas das frases mais problemáticas da temporada; Daenerys, uma personagem feminina forte convertida em uma tirana genocida e, posteriormente, morta pelo seu amado; Jon Snow, o bastardo que continuou bastardo e se uniu aos selvagens do Povo Livre nos derradeiros momentos do show; Bran, o Quebrado, como um rei inexpressivo e inexperiente em relação aos assuntos da coroa; e, enfim, um final feliz para os Stark como recompensa por ter sido a família que mais sofreu desde o primeiro ano de série e que, talvez, tenha sido um dos únicos pontos gratificantes para uma relativa quantidade de espectadores. Eis o saldo final de Game of Thrones. Um fim melancólico, insuficiente e decepcionante.

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Happy Hour – Verdades e Consequências

Coprodução entre Brasil e Argentina aborda a superficialidade da vida quando passamos a dar vazão aos nossos desejos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Imovision/Divulgação

Horácio é o nome do poeta romano autor da ode 1.11, com a célebre fase em latim carpe diem quam minimum crédula postero (aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã). E é esse conselho que Horácio, protagonista da comédia dramática Happy Hour – Verdades e Consequências (Happy Hour – Dale Espacio a Tu Desejo, Argentina/Brasil, 2017 – Imovision) decide adotar: desfrutar a vida, sem se preocupar com o destino e suas consequências. A coprodução estreou nesta quinta-feira (28) e foi o primeiro longa rodado na sala que homenageia o Cine Luz, do recém-inaugurado Cine Passeio, da Fundação Cultural de Curitiba.

O ator argentino Pablo Echarri interpreta um escritor frustrado que ganha a vida como professor universitário no Rio de Janeiro. Casado há 15 anos com Vera (Leticia Sabatella), uma mulher belíssima, deputada estadual e candidata à prefeita, Horácio se vê diante de uma crise existencial e procura dar sentido à sua vida. O casal, então, “despacha” o filho para a casa dos avós em Buenos Aires, numa clara tentativa de esquentar o relacionamento.

Mas sua persona de sotaque castellano, cabelo grisalho e experiência de vida, suas aulas com citações a Borges e Shakespeare (como aparece no quadro negro em uma das cenas na sala da universidade), transformam-no num tipo sedutor que atrai as alunas. E a insistência de uma delas faz Horácio repensar seu sentido de liberdade. Depois de tanto martelar durante a aula que é preciso dar vazão ao desejo (dale espacio a tu deseo), o professor decide aproveitar o momento e propõe à mulher um relacionamento aberto, assim como viviam o pai do existencialismo, o filósofo Jean Paul Sartre e da mãe do feminismo, a escritora Simone de Beauvoir. E Happy Hour segue nessa linha existencialista: pretende discutir o fim do romantismo diante do desejo de experimentar amores contingentes, mas se perde com subtramas que acabam por deixar a história confusa.

Crises representam momentos de transformação, como a busca pelo autoconhecimento. E no longa, a reviravolta na vida de Horácio acontece quando o bandido conhecido como Homem-Aranha (que escala prédios e residências para assaltar) despenca de um dos andares e cai em cheio no capô de seu carro. E é como se o escritor se visse preso na teia do bandido. Horácio se torna o herói da Zona Sul e passa a ser perseguido pela mídia sensacionalista e assediado na rua, quase pondo em xeque a carreira política da esposa. Vera precisa manter as aparências – a imagem da família estruturada – durante sua campanha à prefeitura.

A vida do casal, então, mergulha na melancolia de um tango de Piazzolla (“Balada Para um Louco” está na trilha sonora) e num mundo absurdo tipo samba do crioulo doido. O que é ficção e o que é realidade? Horácio já não sabe mais se quer trair a mulher. Depois de ser surpreendida pela sinceridade do marido, Vera, por sua vez, tem dúvidas se quer continuar casada com ele.

O longa prende a atenção do espectador mas peca pelo excesso de elementos narrativos e os saltos radicais entre comédia e drama. Percebe-se também a tentativa dos roteiristas Eduardo Albergaria (que dirige a trama), Fernando Velasco e Carlos Artur Thiré em abordar temas filosóficos profundos (Horácio faz uma rasa referência ao eterno retorno de Nietzsche e a Albert Camus, quando fala em sentir-se estrangeiro) e que soam superficiais. Esse viés dramático muitas vezes não faz sentido e contrasta com cenas que satirizam programas policialescos (dos quais Horácio se torna personagem principal) e referências ao cenário político brasileiro, por exemplo. Em determinada cena, Vera diz “a luta continua”, como se fosse uma interferência da própria atriz petista no roteiro. Aliás, a beleza de Letícia Sabatella impressiona mais (aparece em close quase sem maquiagem) do que sua própria atuação.

Os roteiristas também se atropelam ao simplesmente esquecer o filho do casal no desenrolar da trama. Aparentemente passam-se semanas e o garoto continua na casa dos avós. Seria muito mais trabalhoso se o casal discutisse a relação com o filho presente no dia a dia. E só perto do final é que Horácio e Vera conversam com o menino via chamada de vídeo. Ou tentam conversar, porque o garoto mal abre a boca e a cena não emociona.

Personagens secundários poderiam ter sido melhor exploradas, como o de Chico Diaz e de Marcos Winter (ambos interpretam políticos). Mas quem rouba o filme é Ricardo, interpretado por Luciano Cáceres. Ele surpreende quando interpreta parte da canção “Fala”, do grupo Secos e Molhados (“Eu não sei dizer, nada por dizer, então eu escuto”) durante um “momento fossa” de Vera.

Se a personagem de Horácio busca encontrar um sentido para a vida, a dificuldade é a mesma para quem assiste a Happy Hour. É difícil costurar os significados com tantas subtramas, com tantas teias de aranha. Mas talvez a intenção seja justamente esta: a superficialidade da vida quando damos vazão aos nossos desejos, assim como num happy hour com duração de 105 minutos.