teatro

Fuerza Bruta

Grupo argentino apresenta na Pedreira Paulo Leminski espetáculo onírico, desafiador e de estética inovadora

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Texto por Janaina Monteiro

Fotos por Abonico Smith, Iaskara Souza e Janaina Monteiro (de cima para baixo)

A sensação é de participar de um sonho, de mergulhar no inconsciente da personagem, um homem de branco que caminha a passos frenéticos na esteira da vida, uma simulação da nossa corrida diária contra o tempo. Assim começa o espetáculo da companhia Fuerza Bruta chamado Look Up, que ficou por mais de dez anos em cartaz na Broadway, em Nova York e agora chega a Curitiba, com uma curta temporada na Pedreira Paulo Leminski. Se levado ao pé da letra, a expressão significa “olhar para cima”. Ou seja, enxergue além do que sua capacidade sensorial permite.

O show lúdico, interativo, com performances que desafiam o corpo e os sentidos e estimulam as emoções é um misto de arte circense, dança e balada. A companhia de Buenos Aires nasceu em 2003, formada por gente vinda de dois grupos de teatro alternativo portenhos. Aliás, em BsAs a arte circense é uma tradição – desde pequenas, as crianças são encorajadas a fazer aulas de acrobacias e malabarismos. Tanto é que a estrutura montada na entrada resgata essa memória circense, com carrinhos de cachorro-quente, pipoca, sorvete e bebidas para os espectadores entrarem no clima e socializarem entre si.

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Por isso, a indicação é para que o público vista roupas confortáveis e chegue cedo para aproveitar o máximo possível do momento e se ambientar ao clima. Às 20h30, todos são convidados a seguir por um corredor que dá acesso à “caixa preta” de 500 metros quadrados e com capacidade para cerca de mil pessoas. O público fica de pé e aguarda ansioso pelo desconhecido. O sonho começa e as surpresas surgem de todos os cantos: do chão, das paredes, do alto. Por quase uma hora, ao que se assiste é um espetáculo 360 graus, de uma estética inovadora que desafia a nossa percepção de realidade, da força humana e proporciona uma experiência sui generis.

Da parede negra, surge o homem que aperta o passo na esteira e atravessa paredes e portas, cruza com bailarinas ninfas que dançam presas a cabos de aço. Ele dorme e mergulha numa festa com muitos efeitos especiais, com luzes estroboscópicas, gelo seco, papel picado, vento, água, danças com trilha sonora que mescla batida tribal e eletrônica com pitadas de música brasileira. Todos falam a mesma língua, pois não há diálogos, apenas gestos e gritos. Só a interpretação do enredo que é pessoal.

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À medida que o espetáculo avança, os espectadores precisam se mover para dar espaço aos atores que, de repente, surgem ali mesmo, no chão, interagindo com a plateia que a todo tempo é convidada a dançar, pular, libertar-se das amarras. A grande atração de Look Up é a piscina gigante onde quatro atrizes nadam, caminham e se jogam sobre as cabeças dos espectadores, como se todos fôssemos peixes fora d’água. Então ficamos de boca aberta e em êxtase diante delas e do nosso reflexo no plástico ultrarresistente.

É um espetáculo único, de uma engenharia e magia incríveis. Por isso, não há o que temer. O mundo ali é seguro. Não se reprima. Liberte-se até o final desse show onírico e fantástico.

Music

Diário de bordo: Escambau – Paraguai e Argentina (2018)

Dez dias, sete apresentações, cinco mil quilômetros percorridos e um encontro surpresa com um dos grandes ídolos do rock brasileiro

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Texto por Giovanni Caruso (diário) e Abonico R. Smith (introdução)

Fotos: Acervo Escambau

Na segunda quinzena do mês de julho, o grupo curitibano Escambau partiu para uma nova turnê sul-americana, passando por Paraguai e Argentina. Foram sete apresentações espremidas em uma agenda de dez dias por três cidades diferentes.

Quem conhece bem a banda – e a trajetória de seu fundador, Giovanni Caruso – sabe bem que o primeiro país está intimamente ligado à sua história. Afinal, sua integrante Maria Paraguaya, com bem deixa explícito o codinome de Loló Quevedo, vocalista, multiinstrumentista e esposa de Caruso há dez anos, quando este decidiu sair do trio Faichecleres, sua então banda de sucesso no circuito independente sulista, largar temprariamente a música e repensar a vida atravessando a fronteira. Até hoje o casal vive indo com frequência para lá, não apenas para visitar a família mas também para buscar inspiração e gravar o rascunho inicial de novos discos – como fizeram com os dois mais recentes, Novo Tentamento (2014) e Sopa de Cabeça de Bagre (2017).

Neste ano, o plano tornou-se ainda maior: quatro canções foram gravadas ao vivo em estúdio, todas com versos compostos no idoma hermano. Para celebrar a nova etapa, a banda marcou um giro por Assunção, Buenos Aires e Rosário, batizando-a com o nome da primeira das faixas do novo EP Eléctrico, chamada “Duro En Mi Coche”.

A pedido do MONDO BACANA, Giovanni escreveu, com o auxílio de sua intrépida trupe, um diário de bordo para contar tudo o que aconteceu nos bastidores das pioneiras aventuras extralimítrofes de todo o Escambau.

18.07 – quarta-feira

Rohayhu Paraguay! Aportamos na cidade de San Bernardino, pequena colônia alemã a cerca de 60 km da capital. Almoçamos um maravilhoso churrasco paraguaio guarnecido com cervejas de marcas nacionais bem geladas. Na sequência, nos dirigimos para Asunción num ônibus bem tradicional, transbordando de gente e com o Yuri se divertindo surfando pendurado para o lado de fora da porta do busão, como se nunca tivesse feito isso anteriormente em sua vida. Foi um trajeto bem demorado. Porém, nos divertimos muito com todo aquele enfrentamento cultural: a forte presença índia na sociedade, o idioma guarani mesclado com o espanhol (yopará), os costumes, as diferenças, similitudes, chipá, tereré, futebol, etc, etc, etc. Estávamos felizes por estar ali dispostos daquela maneira dentro de uma outra nação. Compartilhávamos entre nós muita alegria e curiosidade – além, é claro de uma doce ansiedade em relação aos shows que viriam pela frente. Chegando em Asunción, ficamos hospedados na casa da Macarena e do Juan, que são como irmãos que temos no Paraguay e nos recebem sempre com o maior carinho e alegria do mundo. Cerveja e empanadas Don Vito para celebrar.

19.07 – quinta-feira

Die Mannschatt é um típico bar alemão e está localizado bem no centro de Asunción. A quinta era gélida e, segundo a menina do caixa, isso espantou um pouco os clientes. Mas o bar estava repleto de amigos e o palco era sensacional. Além do mais, aquele seria o arranque da nossa turnê e nós estávamos empolgados com isso. Mandamos bala em alguns litros de Fernet com Coca e fizemos um show foda. O jogo havia começado, tínhamos seis músicas em castelhano no repertório (quatro próprias e duas versões – uma do Charly García e outra do Luis Alberto Spinetta) e esta seria nossa arma mais forte daqui pra frente. Deu certo. Começaríamos todos os shows da tour da mesma maneira: quatro ou cinco músicas fortes do nosso repertório habitual em português, em seguida soltaríamos as quatro inéditas do nosso EP e só então as duas versões que fizemos em espanhol. Sobrasse tempo, mais Escambau em português.

20.07 – sexta-feira

Estava um frio congelante e nosso show era ao ar livre, num palco montado no pátio do Barbarella, um bar lindo e bem underground, outra vez no centro de Asunción. Nesta noite teríamos a companhia da excelente banda Nine Bits, além de um público mais numeroso que o da noite anterior. Tivemos alguns problemas com um dos amplificadores, mas a parte disso foi um excelente show novamente, regado a caña paraguaya e vinho para driblar a baixa temperatura qual estávamos expostos no alto do palco. O Zo virou “Zouê” para os amigos paraguayos, que logo modularam seu apelido para “Sogüe” em tom de brincadeira. No idioma guarani, isso quer dizer “sem dinheiro”. Ele adorou.

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21.07 – sábado

O último show em “tierra Guarani” foi num superpalco armado dentro da produtora Oficina Uno. Tudo organizado meticulosamente com muito bom gosto e carinho pelos nossos amigos Loli e Franchesco. Um festão. Open bar. Comida liberada. Recheado de amigos e artistas da sociedade paraguaya. Foi um deleite. Fizemos um showzaço onde o público dançou, cantou e até subiu no palco pra curtir com a gente. Despedida em alto nível. O Yan e o Yuri ainda fizeram as vezes de DJ na festa, botando toda a galera pra dançar enlouquecida. No final, como estávamos meio passados no trago, nos obrigamos a contratar um serviço chamado Yo Te Manejo, no qual o cliente marca um horário com um “chofer profissional” para que este venha conduzir seu veículo até em casa, afim de escapar a salvo das já famosas blitze de controle policial. Barateza, ainda por cima. #ficaadica, Brazil!

22.07 – domingo

Entramos na Argentina pela cidade de Clorinda, por volta das 16h. Os responsáveis da aduana evacuaram tudo de dentro do nosso veículo e examinaram meticulosamente (com extrema educação e gentileza, não podemos deixar de frisar). Tudo ok. Agora seriam cerca de mil e quinhentos quilômetros até a sonhada Buenos Aires. Fomos de um tiro. Eu e o Yuri dividindo o volante. A polícia sempre nos parando e pedindo documentos e verificando nossa situação e condições do carro. Tudo certo, estávamos precavidos. Numa delas, vieram com cachorro. O bicho entrou no carro, pirou no Yan. Revista. Tudo ok. Seguia o baile pelas veias abertas da América Latina, rutas argentinas mais especificamente. Um sonho. Iriamos nos apresentar num dos países mais roqueiros do mundo. Quatro shows na terra do Almendra, Pescado Rabioso, Sui Generis, Manal, Viejas Locas, Aquelarre, Seru Giran, Intoxicados, Invisible, Aeroblus, Soda Stereo, Calamaro, Spinetta, Fito Paez, Charly, entre outros tantos gênios do gênero que amamos tanto. E dê-lhe empanada pelo caminho. Outro pen drive se acaba. Uns dormem. Outros acordam. Nos para a polícia. Troca o motora. Amanhece o dia. Estamos quase chegando…

23.07 – segunda-feira

Miiiiiiiiiiii Buenos Aires queriiiiiiidooo!!!!!!!!!! Entramos nessa maravilhosa cidade perto das onze da manhã. Destruídos, mas muito felizes. Que cidade linda! Nos recebeu em seu apartamento nosso amigo Manuel (produtor da banda Inmigrantes). Conversamos até onde podíamos e logo caímos em sono profundo até o fim deste mesmo dia. Despertamos e saímos a desbravar nosso bairro (Recoleta) a pé, tomando vinho barato e jantando empanadas, propositalmente perdidos, andando sem rumo. Qualquer lugar, qualquer coisa, tudo é divino, maravilhoso.

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24.07 – terça-feira

Macarronada no almoço e Museu de Belas Artes na sequência. força e inspiração para o concerto noturno. Antiguas Lunas. Um lindo e antigo bar no bairro Belgrano.  Ciclo Lunar é um evento com microfone aberto para quem quiser levar seu instrumento e se apresentar, restrito apenas a canções autorais e organizado por nosso querido amigo e excelente artista Santiago Lobaiza (conhecemos ele na nossa visita anterior, quando dividimos a noite com a Dedos Crudos, sua antiga banda). Voltando ao open mic, cada participante teria o direito de apresentar três canções. O Escambau seria a cereja do bolo desta edição. E foi. Fizemos um showzaço! Quarenta minutos. Depois do nosso show rolou uma peña (que é a maneira como eles chamam uma roda de violão onde qualquer um toca e qualquer um canta). Foi demais! Rolaram tangos espetaculares, chamamé, zamba argentina entre outros ritmos folclóricos. Ah, era aniversário da Paraguaya. No meio de uma cantoria alguém apareceu com um bolo e uma vela e todos nós cantamos juntos – paraguayos, argentinos e brasileiros – um “parabéns pra você” bem forte, “borrachos y abrazados y sigue la parranda, ¡Viva la Paraguaya!” Felicidades!!!

25.07 – quarta-feira

Nosso único dia livre em Buenos Aires. Fomos de metrô para San Telmo, famoso bairro boêmio da cidade. Garoava, ventava e o frio entrava pelas frestas da roupa. Não estava fácil ser turista naquele dia. Ainda assim, lutamos até nos congelar totalmente molhados. Então, juntamos uns trocados e entramos numa tradicional parrilla, onde comemos extraordinárias morcilhas assadas, acompanhadas por pão e vinho tinto, e também pudemos colocar nossas roupas para secar à beira do fogo. Na volta para casa, nos molhamos de novo.

26.07 – quinta-feira

Mais uma vez assessorados por nossa querida amiga e super-heroína Lívia Sório (Lívia, te amamos!), montamos nosso equipamento numa galeria em frente à Disqueria Mercurio para realizar o que seria nosso segundo show em solo argentino. Esta seria uma apresentação sem amplificadores e sem a bateria completa, um pocketcomo se costuma dizer. Plugamos nossos instrumentos e pedais em uma mesa de som, tudo ligado em linha. Distorcemos as guitarras na medida do possível. Vozes fortes e equilibradas. A bateria representada por caixa, pratos e um cajón fazendo as vezes do bumbo. E pau na máquina. Fizemos aquele corredor pegar fogo. Os transeuntes paravam e curtiam aqueles “brazucas” esquisitos fazendo rock em castelhano. Nós curtimos muito. Não deixamos a bola cair, afinal estávamos ali pra defender nossa camisa. Foi outro show 100%. Tiramos leite de pedra, como se já não estivéssemos, depois de tanto tempo, acostumados a fazer isso. E não é que me aparece de surpresa o Frank Jorge com toda família para assistir ao nosso show? Daí virou baile o negócio. Tocar na rua, para o povo porteño e ainda na ilustre presença de um artista que tanto admiramos foi algo absolutamente prazeroso e surreal ao mesmo tempo. Depois disso, deixamos todo nosso equipamento em casa e saímos a pé pelo bairro Almagro. Lá entramos num boliche de quinta categoria onde havia uma peñade tango espetacular. Pouquíssima luz, as pessoas mudas ou conversando muito baixo, apenas bebendo e escutando tango na raiz, sendo tocado e cantado por pessoas simples, porém verdadeiros especialistas no gênero. Vinho bom e barato, amigos, alma à flor da pele. Enfim, dava gosto estar ali. Conhecemos nesta noite a Mila, que fez uma entrevista bem legal com a Paraguaya e que na sequência, para surpresa de todos, disse ser filha do Emilio del Guercio, um dos compositores e baixista dos grupos Almendra e Aquelarre. Muito massa!

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27.07 – sexta-feira

À tarde fomos pirar no Museu de Ciências Naturais, no bairro Caballito. Uma experiência existencialista. A essa altura já não nos perdíamos mais nas nossas voltas de metrô. De lá fomos para uma entrevista de trinta minutos na rádio “La Tribu FM 88.7”. Entre conversas, ali tocaram todas as quatro músicas do nosso EP Eléctrico em espanhol. O programador da rádio, que iria mais tarde assistir a nosso show, veio até a cabine e nos disse: “Impresionante, parecen um grupo de acá!”. Para nós, aquela frase soou como um elogio. Ficamos muito felizes de alguém ter mencionado isso, tendo em vista que compusemos um material num idioma que não é o nosso. O show de despedida de Buenos Aires foi na casa de arte Gran Jaime, no bairro Palermo. Cecilia y el Sr. Vinilo abriram a noite com um show pra lá de profissional, com ótimas músicas e letras. Soavam ao vivo perfeitamente como um disco. Excelente banda. Nosso show nesta noite foi um dos melhores da viagem. O som e a energia estavam bons, tudo deu certo no palco e o público era massa. Nos divertimos muito e dos 80 CDs que levamos na viagem, sobraram apenas nove para o último show em Rosário.

28.07 – sábado

Nos despedimos de Buenos Aires já com saudades e com muito desejo e certeza de voltar. A viagem até Rosário (considerada o berço do rock argentino) supostamente seria rápida, 350 Km em pista dupla. Mas não foi bem assim. Dormimos muito e acordamos tarde e relaxados com o horário de partida. Porém, no meio do percurso houve um tombamento de caminhão na estrada que nos roubou duas horas mais ou menos. Chegamos a Rosário (outra lindíssima cidade!) já na hora de tocar. Foi o tempo de montar as coisas compartilhando uma jarra de Fernet, comer umas fatias de pizza e tocar. O último show na Argentina (a data em Resistencia, no dia 31, acabou sendo cancelada) não poderia ser menos especial que os outros. Um puta show, com um público curioso e gentil. Nos abraçaram com carinho, compraram nossos discos e elogiaram bastante a qualidade do nosso trabalho. Ao todo, foram sete apresentações em dez dias e cerca de cinco mil quilômetros percorridos com muita amizade, carinho e profissionalismo. Tudo muito intenso. No caminho de volta, o Zó ressaltou que essa havia sido a melhor turnê que já fizemos e eu me sinto obrigado a concordar com ele. Foi foda demais! Vamos por mais. Obrigado, Paraguay! Obrigado, Argentina! Gracias Hermanos, les queremos mucho!Nos vemos pronto!

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