Movies

O Diabo de Cada Dia

Religião, fé, bondade, barbárie, corrupção e violência estão intimamente ligadas nas narrativas paralelas que unem diversos personagens

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Netflix/Divulgação

Os horrores se perpetuam de geração em geração na cidade de Knockemstiff, Ohio. É assim que o narrador apresenta a cidadezinha-cenário de O Diabo de Cada Dia (The Devil All The Time, EUA, 2020 – Netflix). Dirigido por Antonio Campos, filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes, o longa-metragem é montado com narrativas paralelas que se cruzam até o fim. Como o nome já sugere, a trama mostra por meio de religião, assassinatos e outros atos chocantes que o mal é unanimidade do cotidiano.

O ponto de partida do enredo é a volta de Williard (Bill Skarsgard) para casa após a Segunda Guerra Mundial. Traumatizado pelos eventos do combate, o soldado acaba encontrando sua futura esposa (Haley Bennett), uma garçonete, em uma lanchonete. Paralelamente, no mesmo local o fotógrafo Carl (Jason Clarke) conhece outra garçonete, Sandy (Riley Keough). Williard e a mulher têm um filho chamado Arvin (Tom Holland).

Campos constrói uma atmosfera gótica para seu filme na qual as tragédias e os horrores parecem se acumular. A chegada do pastor interpretado por Robertt Pattinson à cidade é uma adição de qualidade à história. Em uma interpretação incrível, apesar do sotaque peculiar, o ator é responsável pelo personagem mais instigante do longa, mesmo que ele seja totalmente desprezível. 

A religião está presente no filme desde os seus minutos iniciais. Inclusive, ela é usada como justificativa para atos bárbaros. É muito relevante a dicotomia colocada na figura da instituição religiosa. Em momentos apaziguadora e reconfortante, em outros castigadora e munição para atrocidades. Em tempos de radicalização em que a fé vira arma ideológica e política, ver os perigos do extremismo e da corrupção são necessários. 

A construção da narrativa por meio de histórias paralelas precisa ser muito bem organizada. A quantidade de conteúdo prejudicou, aqui, o andar da história. O enredo do policial corrupto (Sebatian Stan) poderia ter sido trabalhado de outra maneira para contribuir melhor para o desenvolvimento das outras tramas. Quando sua história se choca com a de sua irmã Sandy é seu melhor momento no filme.

É longa a discussão entre se o ser humano é bom por natureza e a sociedade o corrompe ou se já ele já nasce corrompido. Em O Diabo de Cada Dia é muito mais simples: não importa em que momento acontece o desvirtuamento, o homem fará alguma maldade, nem que seja para a sua salvação.

Movies

Wasp Network: Rede de Espiões

Elenco de consagrados atores latinos está em trama que aborda as redes de espionagem contra Fidel Castro depois da dissolução da União Soviética

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Netflix/Divulgação 

Após a queda da União Soviética, no final dos anos 1980, muito especulou-se sobre o que aconteceria com Cuba. As redes anticastristas se fortaleceram em Miami, chamando atenção de Havana com seus salvamentos de balsas e atentados terroristas. É justamente neste contexto que Wasp Network: Rede de Espiões (Wasp Network, França/Brasil/Espanha/Bélgica, 2020 – Netflix) acontece. Dirigido e escrito por Olivier Assayas, baseado em um livro do brasileiro Fernando Morais e com elenco talentoso, o filme abocanha mais do que consegue digerir em uma trama de espionagem fora do convencional.

A trama começa com René González (Édgar Ramírez) fugindo de Cuba e refugiando-se em Miami. No processo, ele deixa a esposa (Penélope Cruz) e a filha para trás. Em solo americano, junta-se a um grupo antirrevolucionário. Ainda no primeiro ato, o filme mostra Juan Pablo Roque (Wagner Moura) desertando do exército cubano e pedindo asilo nos EUA. Roque também tornaria-se envolvido com grupos contrários ao governo de Fidel Castro.

Assayas tenta cobrir muita coisa em duas horas de filme. São fatos, reviravoltas, burocracias – o que resulta em uma trama truncada e por vezes cansativa. A premissa é interessante, mas abrangente demais. O personagem de Gael García Bernal, por exemplo, é de extrema importância para entender o que de fato é a “Rede Vespa”, mas aparece apenas no segundo ato para conservar um tipo de plot twist, fórmula que, se não tivesse sido usada, teria favorecido a fluidez da história. 

Em mais um trabalho internacional, Wagner Moura entrega uma ótima performance. Seu personagem torna-se um dos mais interessantes e é uma pena quando ele simplesmente some de cena. Penélope Cruz também faz um belo trabalho como Olga, mulher cubana fiel à revolução e protetora de seus filhos.

O roteiro é o maior problema aqui. Ambicioso, tenta manter segredos por tempo demais, prejudicando o andar do enredo. A transição entre o primeiro e o segundo ato, feita com narração, é prova de que perdeu-se muito tempo com coisas menos importantes. Entretanto, o filme acerta ao optar pela espionagem da maneira menos óbvia ao contrário de outros longas hollywoodianos. Nesse caso, os espiões estão em cena, sem o espectador saber e (fazendo jus à verdade) não portam bugigangas hipertecnológicas como um 007.

Ao contrário do que sugere nos primeiros minutos, o longa não é uma crítica ao regime castrista, mas isso também não é um elogio. Em Wasp Network: Rede de Espiões é apresentada ao público a realidade difícil da vida em Cuba, mas também que uma das razões para isso é o embargo econômico americano. São mostradas pessoas fugindo do país em busca de uma vida melhor, mas também pessoas dispostas a dar a vida pelo ideal revolucionário. Esta nova empreitada do francês Assayas tenta ser grande, mas com tanto terreno para cobrir não consegue alcançar tal feito. Entre idas e vindas no tempo, pontas soltas e pequenas confusões, o filme se escora nas boas atuações e na história, que por si só já é interessante.