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Querido Menino

Obra baseada em um caso real proporciona momentos emotivos e sinceros porém acaba cansando ao se perder na morosidade

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Diamond Films/Divulgação

Em Querido Menino (Beautiful Boy, EUA/Bélgica, 2018 – Diamond Films), Timothée Chalamet e Steve Carell encarnam pai e filho na batalha deste com seu próprio vício. O filme de Felix Van Groeningen (mais conhecido pelo trabalho em Alabama Monroe) é adaptado a partir dos livros de David Sheff, interpretado por Carell, e Nic Sheff, papel que rendeu a Chalamet diversas indicações em premiações.

Com sutileza, a direção de Van Groeningen costura a jornada de pai e filho por meio de uma câmera respeitosa, dando espaço a seus protagonistas. Infelizmente, diversos flashback se montagens musicais tomam o filme de assalto, utilizados ostensivamente e tornando a obra um tanto vagarosa. Quando não ouvimos uma das fortes músicas da trilha sonora, com nomes como Aphex Twin, o clássico David Bowie e o grupo escocês Mogwai, assistimos a diálogos expositivos intercalados por brigas entre Nic e David.

Ambos atores interpretam fortemente, mas cada um apresenta sua barreira. O Nic de Chalamet é monótono em grande parte da trama, enquanto Carell não convence em suas demonstrações de raiva e indignação. São deles, porém, os melhores momentos do filme, quando a sutileza da direção dá as margens para longos e crus planos sentimentais de pai e filho, separadamente. As atuações de Maura Tierney (Karen, madrasta de Nic) e Andre Royo (Spencer, seu padrinho de reabilitação) não têm espaço para grandes demonstrações de talento, mas ambos cumprem o papel narrativo.

A atualidade do tema, visto que a overdose é a principal causa de mortes de estadunidenses abaixo dos 50 anos, é aproveitada pela dupla de roteiristas, Van Groeningen e Luke Davies, que constroem a história do rapaz com verossimilhança, bem como a luta de David para ajudar o filho. Porém, a exposição barata rompe as tentativas de imersividade do filme, que é incapaz de conectar-se por completo com o espectador.

As idas e vindas de Nic são sempre previsíveis, mas Chalamet acerta ao interpretar o garoto com a instabilidade causada pelas drogas (quando não está monótono, como citado acima). Ainda assim, por mais arrastado que o filme seja, vale dar uma chance aos seus melhores momentos e, de quebra, ouvir a uma ótima declamação de “Let It Enfold You”, de Charles Bukowski, na voz de Timothée.

Movies

Vice

Atuação de Christian Bale é o ponto alto desta cinebiografia do vice-presidente de George W. Bush com muito humor e crítica política

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Um dos filmes mais comentados nesta temporada de premiações, acumulando indicações e desenvolvendo um hype de Oscar, é Vice (EUA, 2018 – Imagem Filmes). O filme de Adam McKay (que em 2015 já mexera em outra grande ferida recente de seu país em A Grande Aposta) conta a trajetória de Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos durante o governo de Bush Filho (2001- 2009), desde sua origem em Wyoming até os dias atuais. E será que toda a repercussão da obra vale o ingresso?

A trama retrata as nuances do poder adquirido por Cheney, brilhantemente interpretado por Christian Bale, que repete a parceria com McKay. Aqui, Bale também passa por transformações físicas para seu protagonista, sendo que o ponto alto de sua atuação é o detalhe. Cada trejeito do político americano é cuidadosamente arquitetado por seu ator. O elenco de apoio também não deixa a desejar mas poderia ser melhor aproveitado. Como Amy Adams, que interpreta sua esposa, Lynne Cheney, demonstrando seu inegável talento com seus momentos de brilhantismo; e Steve Carell, que orbita entre o drama sádico e a inconveniência humorística como o secretário de defesa Donald Rumsfeld.

McKay constrói o filme de maneira equivalente a seu laureado antecessor, repetindo seu estilo de narração com traços de documentário investigativo com o acréscimo da maturidade no tom. A seriedade da trama privilegia o humor fortemente visual da obra, que se aproveita da estética cinematográfica para preencher suas duas horas com momentos genuinamente engraçados. Grande mérito de Viceé  a utilização de metalinguagem, que presenteia o espectador com as melhores piadas do filme.

Numa outra camada de metalinguagem, o filme alterna suas razões de aspecto e cria uma formidável confusão, na qual não entendemos se as imagens mostradas são mesmo reais ou gravadas para esta produção. Essa estranha sensação amplifica as consequências das decisões de Cheney e sua equipe, o que torna o filme particularmente denso, sem abandonar a leveza com que McKay trata suas cenas.

A fotografia é simples, ressaltando a narrativa visual do roteiro e criando a tênue margem entre realidade e ficção que dança ao longo do filme. Os planos abertos e posicionamentos simples da obra são bem montados, numa alternância de ritmo entre os momentos mais tensos e calmos, sem que deixemos de enxergar o poder nas mãos de Cheney. Ainda assim, quando a trama embarca em seus episódios sérios, não poupa esforços. Cenas fortes preenchem a tela, além de críticas (sutis e óbvias) à política da direita estadunidense. Trump e seus eleitores têm uma especial participação porque Vice mescla humor à crueza da vida política de uma das nações mais poderosas do mundo.

McKay consegue demonstrar seu lado “humano” presente em relações pessoais. Com uma iconografia que traça paralelos entre o personagem de Bale e o icônico Winston Churchill, a obra quase faz o espectador sentir empatia pelo vice-presidente de George W. Bush. Ainda assim, o roteiro e a camada de realidade que permeia o filme o vilanizam sem a necessidade de iluminação nefasta e revelação de planos malignos do político. Escancarando seus erros e as consequências deles, Vice nunca te deixa esquecer que seu protagonista é Dick Cheney.

[Nota do editor: Na noite de 7 de janeiro, ao receber o Globo de Ouro da categoria de melhor ator em comédia ou musical, Christian Bale agradeceu a satanás pela inspiração ao papel de uma pessoa sem qualquer carisma.]