Movies

Coringa

Joaquin Phoenix encarna com maestria o clássico vilão de Gotham em contundente história que metaforiza a psicopatia da sociedade atual

joker2019MB02

Texto por Janaina Monteiro

Fotos: Warner/Divulgação

Sorria, mesmo que seu coração esteja dolorido. Sorria, mesmo que ele esteja partido. Charles Chaplin, que deu vida ao palhaço Carlitos, escreveu esses versos em “Smile”, música composta nos anos 1930 para o filme Tempos Modernos.

Mas como sorrir quando se é miserável de alma e conta bancária? Quando se é vítima de toda a sujeira mais imunda que o ser humano pode produzir? Quando o bullying e o abandono se arrastam pela vida adulta? Quando você perde emprego, vive sozinho, deprimido, e, pra piorar, sofre de transtorno psicótico? Esse é o dilema de Coringa (Joker, EUA, 2019 – Warner). No filme que leva o nome em português do personagem, o vilão se transforma em herói retratado de forma humanizada pelo diretor Todd Phillips (mais conhecido pela trilogia Se Beber Não Case). O aguardado e aclamado longa sobre um dos antagonistas de Batman, vencedor do último Leão de Ouro em Veneza, estreia nesta quinta-feira no Brasil cercado de polêmicas e protagonizado por Joaquin Phoenix, um ator com estrutura física e psicológica para viver o papel que já foi interpretado por Heath Ledger (morto por overdose acidental de medicamentos logo após terminar as filmagens de Batman: O Cavaleiro das Trevas), Jared Leto e Jack Nicholson.

O Coringa de Phoenix sorri por conta de sua psicose acompanhada de um distúrbio neurológico (ele ri incontrolavelmente a ponto de quase sufocar) e do seu trabalho como palhaço de rua. Arthur, na verdade, chora através de suas risadas histéricas. Ele é o freak, o weirdo, em busca de sentido de pertencimento no mundo cada vez mais apático e egocêntrico. Faz parte da escória da humanidade, que de tanto sofrer assume a personalidade de Joker e se transforma num monstro guiado pela violência nua e crua, similar à praticada por jovens armados em escolas e cujos massacres são exibidos e reexibidos pelos telejornais. Por isso a preocupação com a censura: no Brasil, o filme não é recomendado para menores de 16 anos.

A introdução mostra o drama de Arthur em seu ambiente hostil. Gotham City está infestada por ratos reais, numa analogia à Nova York do início dos anos 1980 quando o número de habitantes roedores quase ultrapassou a população. Arthur mora com a mãe num prédio decadente do Bronx e sonha em ser comediante de stand-up. O tempo todo ele é esculhambado, ridicularizado por colegas, agredido por gangue de adolescentes, refém de sua doença, dos remédios e da pilhéria da sociedade em que vive.

Phillips, que coescreveu o roteiro, conseguiu de forma soberba traduzir essa personagem dos quadrinhos capaz de causar tanto fascínio e terror. E humanizar o vilão, digno de pena. Todo o sofrimento serve como base de seu comportamento no decorrer da trama. Arthur não chega a ser um psicopata, pois consegue sentir compaixão: cuida da mãe tão perturbada quanto ele. E como todo psicótico, encontra fuga numa realidade paralela. Quando assiste, por exemplo, ao seu talk show preferido, chamado Live With Murray Franklin, imagina-se dentro do programa. Delira e encontra no apresentador  (interpretado por Robert De Niro) o pai que nunca teve. O mundo de Arthur está em vias de explodir quando perde o emprego, momento em que seu alterego passa a dominar.

O turning point acontece quando ele descobre a verdade sobre sua mãe, sobre o seu passado, sua doença, sobre o pai que nunca conheceu e que poderia ser o mesmo pai de Bruce Wayne, o Batman, super-herói nascido em berço de ouro. Thomas Wayne, bem ao estilo Donald Trump, é candidato a prefeito de Gotham e se refere aos pobres como sendo palhaços. O filme, aliás, faz um paralelo surpreendente com a história de Batman e confronta as duas personagens, dando uma suposta prévia do novo filme sobre o Homem-Morcego.

Na mente do Joker (o nome original do Coringa, em inglês), Arthur passa do homem ridicularizado, vítima de chacota e agressão, ao palhaço vingativo, terrorista. Sua satisfação vem através da violência. Em vez de estourar seus miolos, Arthur decide eliminar quem o ridicularizou. E poupa aqueles que o trataram bem, na maioria das vezes também minorias.

Cenas chocantes não faltam no filme, que alimentam a polêmica de fomentar atos de violência. Entretanto, o roteiro consegue a proeza de, em algumas delas, nos fazer rir com uma certa culpa por conta da atitude perturbada do protagonista. Phillips e Phoenix transformam em arte cenas de dança em que o Coringa comemora e parece emular Carlitos, incorporando gestos de tai chi. Aliás, o balé do Coringa foi feito de improviso. Joaquin e Todd não gostaram do primeiro resultado e o ator, gênio, começou a dançar, o que rendeu uma cena de beleza poética e transformou em marca registrada desse Joker.

A tensão é mantida do início ao fim, garantida pela riqueza da personagem e o brilhantismo do ator. Como é possível esperar qualquer coisa da mente de um psicótico, há tomadas tão carregadas de suspense que o espectador sente aquele frio na espinha. Somando a isso, a trilha sonora do filme é fundamental na manutenção dessa condição de ansiedade e expectativa. Muitas vezes, por si só, uma canção é capaz de dar sentido à determinada sequência. Como “Send In The Clows” (gravada originalmente por Frank Sinatra e interpelada por uma das vítimas do Coringa) e “Smile”, de Chaplin, sobre quem há faz várias referências durante esta história (o homem por trás de Carlitos era um gênio, filho de mãe doente mental e que acabou tendo fama de pedófilo).

Além de close-ups reveladores e movimentos de câmeras sempre em sintonia com o tom sombrio do filme, Phillips também faz uso de elementos não verbais para mostrar o conflito de personalidade e a angústia de Arthur. Exemplos disto são as cenas em ele aparece numa escadaria, sinônimo de verticalidade, representando os planos do espírito, da mente, a ligação entre o céu e a Terra. A trama, aliás, é tão bem costurada que o espectador não consegue definir quais são momentos de delírio e sanidade da personagem até que, quase na metade do filme, um flashback desnecessário surge como uma explicação para os improváveis desatentos.

Muito mais que a história de um conflito pessoal, Coringa é a metáfora de uma sociedade que caminha para uma psicopatia, na qual seus cidadãos usam da violência, desprezo, abandono para resolver diferenças e exigir seus direitos, num mundo em que a raiva toma conta e os fins justificam os meios. Essa sociedade exclui, ignora, marginaliza e trata essas pessoas como meros clowns.

Quando o protagonista se transforma em vigilante, há referências claras a Guy Fawkes e críticas evidentemente políticas a injustiças sociais, como o fato da extinção do serviço social que garante os remédios de Arthur.

Coringa é um soco na cara. Pisa na ferida e escancara a violência de modo brutal, pura, ácida, nua e crua. É um papel tão forte, poderoso, trágico que só um Phoenix (irmão do ator River, morto por overdose em 1993, aos 23 anos de idade) para encará-lo de forma esplêndida. O ator emagreceu 23 quilos para encarnar o vilão e lembra Christian Bale em O Operário (Bale, aliás, foi Batman nas telas). Nessa nossa sociedade delirante, nem todos são psicóticos, mas pobres mortais são, sim, todos palhaços.

joker2019MB01

Represálias

Por evocar a violência e transformar o vilão em herói, embora a Warner negue isso, o filme vem sofrendo represálias e chegou a ser proibido em Aurora, cidade norte-americana onde um rapaz supostamente inspirado no Coringa abriu fogo numa sala de cinema matando doze pessoas em 2012. O medo é que este novo filme inspire novas tragédias. O diretor Todd Phillips, porém, diz que não é justo fazer essa associação. “É um personagem de ficção num mundo fictício que existe há 80 anos”, justificou Phillips numa entrevista.

A Warner divulgou um comunicado respondendo a uma carta escrita por familiares do massacre de Aurora, enfatizando que violência por arma de fogo é um assunto crítico e que o estúdio tem uma longa história de doações a vítimas de violência, incluindo esta cidade do estado do Colorado. “Ao mesmo tempo, a Warner Bros acredita que uma das funções da arte de contar histórias é provocar diálogos difíceis sobre questões complexas. Não se engane: nem o personagem fictício Joker, nem o filme, é um endosso de qualquer tipo de violência no mundo real. Não é esta a intenção do filme, dos cineastas ou do estúdio manter esse personagem como um herói”, declarou a empresa.

Music

Garotos Podres

Vocalista e fundador Mao fala, em entrevista, sobre a volta às atividades da banda que é um dos ícones do punk rock brasileiro

garotospodres2018

Entrevista por Guilherme Motta

Foto: Laura Ciampone/Divulgação

Prestes a desembarcar em Curitiba para se apresentar em um dos mais conceituados e antigos festivais de rock independente do país, o Psycho Carnival (clique aqui para mais informações sobre o evento), os Garotos Podres celebram o bom momento da banda, que acaba de retomar as atividades depois de uma cisão que provocou disputa judicial a respeito do uso do nome e a criação de uma “identidade secreta” para durar o tempo deste imbróglio todo. Em entrevista por e-mail para o Mondo Bacana, o vocalista e fundador Mao fala sobre toda essa confusão, os novos lançamentos e ainda a confusão política que nos últimos anos rachou o país entre esquerda e direita.

Junto com os fãs tenho acompanhado toda essa treta envolvendo o nome e os integrantes do Garotos Podres. Como está sendo agora pra você saber que a banda está novamente dentro do contexto que você sempre acreditou e lutou?

Sou músico há muitos anos. Só nos Garotos Podres são 37 anos. Creio que atualmente estou vivendo a minha melhor fase enquanto músico. Estou tendo a oportunidade não só de tocar ao lado e músicos de grande qualidade técnica, mas também companheiros que compartilham uma visão de mundo que une a banda através de um ativismo político-social. Essencialmente, somos favoráveis aos princípios fundamentais da dignidade humana. Lutamos pelos direitos dos trabalhadores, das minorias e de todos os oprimidos. Somos radicalmente contra o racismo e defendemos a emancipação da classe operária através da construção de uma sociedade justa, igualitária e fraterna. Em outras palavras, somos, acima de tudo, antifascistas!

Ultimamente com essa onda conservadora que vêm crescendo no país, muitas das pessoas até mesmo as que eram próximas a nós estão saindo do armário do fascismo. Muitas vezes me deparo com comentários do tipo “Não pode misturar música (seja rock, punk, hardcore ou mesmo a arte em geral) com política”.  Temos o exemplo da banda Dead Fish, que desde o seu início em 1991 tem o posicionamento político muito bem definido e também contam com uma parcela dos fãs que se dizem de direita mas “curtem” o som da banda, mesmo as letras sendo extremamente politizadas. Como você enxerga essa questão?

Durante muitas décadas a grande mídia operou no sentido de despolitizar e alienar grande parte da população brasileira. Esta “onda conservadora” nada mais é do que uma ação planejada por parte dos setores mais reacionários da classe dominante de nosso país. Foi através deste controle de “corações e mentes” que conseguiram dar um golpe de Estado em 2016, que, em nome do “combate à corrupção”, colocou os mais corruptos políticos no poder. Em 2018, eles foram ainda mais longe. Impediram a candidatura do principal candidato dos trabalhadores e, através de uma intensa campanha de fake newse mentiras nas redes sociais, colocaram no poder um governo que se empenha em destruir todos os direitos trabalhistas, previdênciários e sociais dos trabalhadores. Estas pessoas que se dizem de “direita” são donos dos bancos? Das indústrias? São patrões ou latifundiários? Não! São apenas “trabalhadores pobres”, que acreditam ser ricos (ou potencialmente ricos, no futuro) e de “direita”! Ou seja, são vítimas idiotizadas pela grande mídia e pelas redes sociais, instrumentalizados pela classe dominante como rebanho eleitoral. São pessoas que foram capazes de votar em seus próprios carrascos.

Aproveitando o assunto sobre conservadorismo… Como você reage ao fato de que existem pessoas conservadoras, com posicionamento político voltado totalmente à direita dentro do cenário punk? Como, por exemplo, o que aconteceu ao Garotos Podres, quando integrantes com posicionamento inverso à postura do grupo durante décadas estavam levando o projeto adiante com o mesmo nome?

Creio que o movimento punk, assim como a maior parte do rock em geral, tem um espírito mais progressista e de esquerda. Acho um contrassenso a postura conservadora de algumas pessoas, principalmente aquelas que tem ligação com o punk rock. No caso dos Garotos Podres houve um racha na banda em 2012. Eu e o Cacá Saffiotti fomos para um lado enquanto o ex-baterista e ex-baixista foram para outro. Esta divisão se deu por inúmeros problemas que foram se acumulando ao longo dos anos. Mas o que foi determinante foi a aproximação de dois ex-integrantes à extrema-direita. Como exemplo disso tivemos a candidatura do ex-baixista, Michel Stamatopoulos, a vereador em São Caetano do Sul em 2016, pelo PEN. Nesta época este partido era ligado a Jair Bolsonaro. Posteriormente a agremiação assumiu o nome de Patriotas e lançou a candidatura presidencial do Cabo Daciolo em 2018. Em 2013,  apoiando-se em nosso antigo empresário, estes ex-baterista e ex-baixista criaram um grupo que passou a usar indevidamente o nome Garotos Podres. Felizmente o projeto deles não foi para frente, encerrando as atividades ainda em 2014. Entretanto, ainda hoje tentam se apoderar do nome Garotos Podres pela via judicial.

Devido ao rompimento do Garotos, você e o Cacá formaram O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos e em 2014 lançaram o álbum Contra os Coxinhas Renegados Inimigos do Povo. Pode-se dizer que esse é um lançamento do Garotos Podres disfarçado?

Quando houve o racha dos Garotos Podres em 2012, eu e o Cacá Saffiotti pretendíamos da continuidade aos Garotos Podres, com novos integrantes. Isto nos parecia perfeitamente legítimo, uma vez que eu sou o fundador da banda, além de autor de quase 90% das letras e compositor de quase 50% das músicas. Pretendíamos preparar novas músicas, lançar um novo álbum, e reiniciar as atividades. Entretanto os ex-baterista e ex-baixista, associados ao nosso antigo empresário, tentaram se apoderar do nome da banda e iniciaram as atividades no início de 2013. Eu e o Cacá ficamos diante de um dilema: corríamos o risco que ter duas bandas com o mesmo nome. A avaliação que fazíamos era que o projeto deles não iria durar muito, por ser, ao nosso ver, musicalmente muito ruim. Neste ponto estávamos corretos, uma vez que eles acabaram encerrando as suas atividades ainda em 2014. Assim, nós decidimos criar uma “identidade secreta” para darmos continuidade aos nossos trabalhos musicais: nasceu assim O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos. Sim, a “identidade secreta” dos Garotos Podres. Lançamos nosso álbum, Contra os Coxinhas Renegados Inimigos do Povo, em outubro de 2014. Começamos a fazer nossos primeiros shows utilizando este batismo e paulatinamente fomos fazendo a “transição” para começarmos a utilizar de volta o nome Garotos Podres. No final de 2017, Michel Stamatopoulos anunciou oficialmente o encerramento das atividades do projeto musical deles. A partir de então assumimos a nossa verdadeira identidade secreta. Todos os serviços de inteligência do decadente Ocidente capitalista ficaram estupefatos diante do fato de descobrirem que o “mui exelente e temível” Mao, dos Garotos Podres, e o “mui excelente e temível” Mao, de O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos, eram exatamente a mesma pessoa! Hahahahaha! Enganamos todos eles!

Vocês virão para Curitiba neste carnaval, para tocar em um festival voltado especificamente ao cenário psychobilly e rockabilly. É um público para o qual vocês já costumavam tocar anteriormente? Qual a expectativa para este show no Psycho Carnival 2019?

Conhecemos o pessoal das bandas de psychobilly e rockabilly de Curitiba e já tivemos o privilégio de tocarmos juntos algumas vezes. Estamos ansiosos de encontrar não apenas os pessoal destas bandas, mas principalmente a galera que sempre vai em nossos shows em Curitiba!

Em 2018, para comemorar o retorno dos verdadeiros Garotos Podres, vocês lançaram o compacto Canções de Resistência, que contém duas faixas: “Grândola (Vila Morena)” e “Aos Fuzilados da CSN”. Como estão os planos futuros da banda. Pretendem lançar logo um álbum inteiro inédito?

Em 25 de abril colocamos a música e o clipe de “Grandola, Vila Morena” nas redes sociais. No Primeiro de Maio, lançamos uma nova versão de “Aos Fuzilados da CSN” e também o respectivo clipe. Estas duas simbólicas músicas marcaram o retorno dos Garotos Podres, através deste compacto digital intitulado Canções de Resistência. Creio que atualmente ocorreram significativas mudanças no que diz respeito ao lançamento de novos produtos musicais. É o fim do CD enquanto mídia de divulgação musical! Entretanto, acreditamos que as plataformas digitais devam substituir em parte o CD. Neste sentido, pensamos ser mais proveitoso e agil disponibilizar gratuitamente novas músicas, a partir de novas gravações. Pretendemos começar a lançar vários singles ao invés de álbuns.

Qual a mensagem que você deixaria para o pessoal que, como você, continua lutando contra essa onda de conservadorismo fazendo arte de um modo geral?

Acho que a emergência do fascismo cinde a humanidade em duas alas irreconciliáveis. De um lado está a barbárie fascista e de outro, oposto, todos aqueles defendem a humanidade. Não é necessário que você seja um radical líder revolucionário para se opor ao fascismo. Se você é contra o racismo, contra a opressão, contra os mais desfavorecidos; se coloca-se ao lado dos trabalhadores humildes; se é contra as injustiças desse mundo e se põe a favor da humanidade… Você é meu camarada!