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Vanguart

Quarteto faz sua homenagem ao ídolo Bob Dylan em álbum-tributo que reúne muitas faixas de sua fase áurea nos anos 1960 e 1970

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Juan Pablo Mapeto/Divulgação

Bob Dylan é um gênio com suas crônicas e poesias rimadas e musicadas no gênero folk. Por conta de sua complexidade e riqueza artística incomparável, ouvidos menos treinados sempre encontrarão certa dificuldade em absorver sua arte. A voz rouca e o timbre anasalado do cantor e compositor norte-americano podem soar um tanto enjoativo para alguns e as canções quase intermináveis são compridas demais para cativar a atenção das novas gerações acostumadas com a fluidez das coisas. Acompanhar “Hurricane” do começo ao fim, por exemplo, exige uma dose extra de paciência.

Por isso, o recém-lançado álbum do Vanguart é um alento para quem gosta de Bob Dylan. Com uma roupagem despretensiosa e leve, Vanguart Sings Dylan (DeckDisc) é perfeito para se ouvir numa manhã de domingo ou durante uma loooonga viagem ao lado de uma agradável companhia, o que renderá um bom papo cabeça durante o percurso.

A bem da verdade as versões não são tão vanguardistas e seguem à risca o jeito Dylan de ser. Há covers que de tão fiéis às originais ficam quase impossíveis de se distinguir até surgir o vocal. Como “Hurricane” (que conta a história da prisão indevida do boxeador Rubin “Hurricane” Carter) interpretada pelo guitarrista David Dafré (que recebeu esse fardo por saber a letra com 880 palavras de cor).

A banda do vocalista Helio Flanders pode até resistir em inovar nos covers até mesmo para não macular a obra do bardo, mas nos presenteia com surpresas como a bela interpretação da violinista Fernanda Kostchak em “The House Of The Rising Sun”. À medida que se vai escutando o álbum fica clara a intenção da banda em gravar um tributo reverenciando o compositor, instrumentista autodidata, que foi grande influência para dezenas de artistas mundo afora. Aliás, essa homenagem até demorou para ser gravada em disco, porque o Vanguart sempre flertou com Dylan, tocou-o ao vivo e até gravou um especial com covers dele para o Canal Bis.

O deus do folk era respeitado, venerado no meio artístico, sobretudo nos anos 1960 e 1970 e continua sendo um grande influencer para artistas contemporâneos. Entre seus principais discípulos estão Beatles (a quem Dylan teria introduzido a marijuana) e Rolling Stones (que regravaram o clássico de Dylan “Like a Rolling Stone”). Claro que é preciso uma certa dose de preparo para consumir suas composições com seis, oito minutos de duração e seus versos com rimas impecáveis. Goste ou não, Dylan é nome de mestre. Que aprendeu de ouvido a tocar piano e violão. E com seu olhar detalhista, a observar e traduzir o mundo e suas reviravoltas, o que lhe rendeu um prêmio Nobel de literatura em 2016.

No Brasil, ele continua sendo fonte de inspiração para muitos cantores – principalmente do Nordeste – que se aventuraram no árduo e complexo trabalho de traduzir o punhado de canções mais famosas e transpor os versos em inglês impecável para a língua portuguesa. O primeiro que me vem à cabeça e cuja aura mais se aproxima do norte-americano é Zé Ramalho. O paraibano lançou em 2008 um disco com versões de Dylan, como “Knockin’ On Heaven’s Door” Mas a tradução fidedigna do refrão, por exemplo, destoa da versão original: como encaixar “céu” no mesmo acorde de “door” (“Bate, bate, bate na porta do céu”)?.

Outra versão que deve ter dado trabalho foi a de “Romance em Durango” gravada pelo cearense Fagner, que nos primeiros versos dá uma velocidade que mais parece um desespero atropelado para casar letra e música. As rimas originais desaparecem na tradução também fiel à original. A primeira estrofe (“Hot chilli peppers in the blistering sun/ Dust on my face and my cape/ Me and Magdalena on the run/ I think this time we shall escape”) se transformou em “Pimenta quente no sol escaldante/ Poeira no meu rosto e minha capa/ Eu e Madalena na corrida/ Acho que desta vez vamos escapar”.

Esses exemplos levam a concluir que a arte de Bob Dylan deve se perpetuar na língua inglesa. É preciso ouvi-lo no original, caso contrário, pode se perder todo o sentido. Por isso, o álbum de Vanguart é tão significativo por respeitar a voz e a língua do compositor.

Quinze das dezesseis faixas contemplam a primeira fase da sua obra entre suas décadas mais expressivas. Começa com baladas mais suaves como “Tangled Up In Blue” e “Don’t Think Twice it’s All Right”, “Just Like a Woman” (com a clássica gaita na introdução), “Hurricane” e “Like a Rolling Stone” aparecem em sequência, mais para o final do álbum que encerra com a obra-prima “Blowin’ In The Wind”, hino entoado em coro pela banda. Claro que faltam singles bastante conhecidos, como “Knockin’ On Heavens door” (escrita em 1972 por Dylan para o filme Pat Garrett & Billy The Kid) e “Mr. Tambourine Man”. Entrada e prato principal para um segundo Vanguart Sings Dylan, quem sabe.

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Azealia Banks – ao vivo

Conhecida por suas brigas e polêmicas, americana domina a plateia curitibana com sua versatilidade e até se arrisca a cantar em português

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Texto por Kevin Grenzel

Foto de Jocastha Conceição

Azealia Banks retornou ao Brasil para turnê antes do lançamento de seu novo álbum, Fantasea II: The Second Wave, continuação direta de seu EP de estréia Fantasea, de 2012. Estavam programados para esta vinda, a terceira ao país, cinco shows. Em Curitiba, o evento realizado no dia 11 de novembro, na Selfie Brasil com produção da Polarize Eventos e da Brave.

Conhecida por suas polêmicas, Azealia possui um dom de atrair atenção da mídia por culpa de suas falas. A cantora compra briga com fãs, critica rivais nas redes sociais e até fala mal da própria equipe. Ela também já lançou uma linha de sabonetes voltados à higiene íntima para o público LGBTQ+. Mesmo com as diversas controvérsias, é notável o talento de Azealia com as palavras. Já em seu primeiro álbum, Banks mostrava domínio quanto a construção de rimas sobre batidas, que sempre dialogam de forma criativa com as influências hip hop e house de suas músicas.

A abertura ficou por conta da performer curitibana Siamese. A rapper draga que grita diversidade em suas letras animou o público com todas as músicas de seu primeiro EP, Som do Grave, lançado em 2017. As composições fazem parte de uma nova mistura entre o hip hop e o pop eletrônico, que buscam transmitir o empoderamento das comunidades LGBTQ+ e AfroLGBT. A noite também contou com uma seleção de diversos DJs da cidade, que animaram a noite e aqueceram o público para a apresentação a seguir.

Apesar das polêmicas envolvendo shows em outras cidades – incluindo o cancelamento da sessão em Fortaleza – a apresentação na capital paranaense ocorreu de forma tranquila, apesar do atraso de quase duas horas para entrada dela. Azealia subiu ao palco com “Chi Chi”, música do novo álbum e nos mostrou que a fama de língua afiada vai bem além das confusões em que se envolve. Com versos rápidos e uma batida que flerta com o trap e o house rap, a cantora elevou o clima e fez o público dançar na pista. Porém, foi em “Treasure Island” que os curitibanos se excitaram mais. Composição mais pop de seu novo álbum, a música acabou sendo cantada com energia pelo público, nos mostrando que a base de fãs de Banks no sul do país é bem forte.

No total, Azealia cantou 16 faixas, entre coisas de seus discos antigos e singlesdo novo álbum. Destaque para o cover de “Chega de Saudade”, composição de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Apesar do sotaque carregado, Banks surpreendeu ao cantá-la totalmente em português.

Set list: “Chi Chi”, “Pyrex Princess”, “Treasure Island”, “Gimme a Chance”, “Luxury”, “Heavy Metal And Reflective”, “Fuck Up The Fun”, “Can’t Do It Like Me”, “Anna Wintour”, “Used To Being Alone”, “Chega de Saudade”, “Fierce”, “1991”, “Liquorice”, “The Big Big Beat” e “212”.