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Pulsão

Documentário procura evidenciar a influência e o poder das redes sociais na política brasileira dos últimos anos

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Reprodução

Quando Guy Debord escreveu A Sociedade do Espetáculo, que serviu de base para os acontecimentos de maio de 1968, não poderia imaginar que a internet, seus algoritmos e o mar de fake news divulgados via WhatsApp potencializariam, algumas décadas depois, sua teoria sobre a submissão alienante proporcionada pela mídia. O livro é leitura fundamental para tentar compreender o mundo moderno do pós-guerra, quando a sociedade se viu dominada pela mercantilização das relações, sejam elas sociais, políticas e econômicas. 

Seguindo ideias marxistas que flertavam com o pensamento freudiano, Debord acreditava que o espetáculo é uma forma de dominação da burguesia sobre o proletariado. Alguns desses conceitos podem ser claramente percebidos no documentário Pulsão, dirigido, produzido e escrito por Diego “Di” Florentino em parceria com Sabrina Demozzi. A missão, aqui, é traçar uma retrospectiva que permite evidenciar a influência e o poder das redes sociais nos acontecimentos políticos dos últimos anos, desde as passeatas promovidas pelo Movimento Passe Livre em 2013 (e que eram organizadas via Facebook), passando pela operação Lava-Jato, o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o desfecho com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

O título do documentário, lançado diretamente no YouTube no último dia 4 de setembro, evoca a teoria freudiana das pulsões: a pulsão da morte, o thanatos, é o movimento em direção à morte, à destruição. Ou seja, entende-se pelo desenrolar da narrativa que, há sete anos, o Brasil vem sendo empurrado ladeira abaixo, depois dos casos de corrupção que provocaram o impeachment de um nome eleito pelo povo até culminar na eleição, também democrática, de um representante da extrema-direita, que desde o início de sua campanha eleitoral não escondeu sua paixão por armas de fogo e sua aversão às minorias. A eleição de Bolsonaro teria sido um tiro no pé disparado pelos brasileiros num comportamento do tipo “efeito manada”, estimulado pelas redes sociais e criação de perfis falsos e, claro, pela verdadeira elite formada por grandes grupos econômicos e midiáticos. Agora, os marqueteiros de plantão, experts em SEO, somam-se à Rede Globo no que coube até hoje, na história do país, tornar o povo massa de manobra. A mensagem é simples: não acredite em nada daquilo que você vê. Não acredite em Bonners nem em Kataguiris. 

Lançado na esteira do celebrado e premiado Democracia em Vertigem, de Petra Costa, Pulsão tem um quê de Cambridge Analytica, ao passo que mostra como o brasileiro se vê refém das redes sociais e suas fake news – além de reconstruir, passo a passo, como a sociedade abalada pelas denúncias de corrupção foi capaz de alçar ativistas políticos a políticos ativistas, elevar um juiz de primeira instância ao status de super-herói e eleger um presidente de extrema-direita. Neste ponto, a montagem de Rodrigo Baptista é extremamente eficiente ao confrontar imagens e discursos contraditórios resgatando material de arquivo de canais de tevê aberta (sobretudo Globo e TV Cultura) ou divulgado por outros canais de imprensa, além de conteúdo amador. Há uma sequência, por exemplo, em que uma jornalista elogia o fato de as passeatas serem pacíficas, enquanto a imagem mostra exatamente o oposto: um rapaz “de vermelho” sendo agredido ao atravessar a rua durante uma passeata. 

Também há o momento em que o então juiz Sergio Moro afirmava, durante uma palestra, que não tinha intenção de se envolver com a política. Outras cenas são patéticas, como a então jornalista Joice Hasselmann (ex-aliada de Bolsonaro e atualmente candidata a prefeita de São Paulo pelo PSL) bajulando Moro e, depois, tendo um ataque de histeria ao comemorar sua eleição como a deputada federal mais votada. É constrangedor!

A direção do longa-documental consegue empreender o ritmo ágil, inclusive pelo uso de recursos visuais que lembram o ambiente digital, e ainda linkar os acontecimentos de forma dinâmica durante pouco mais de uma hora. Um dos personagens principais desse doc é o celular, que se transforma em algo muito maior que um mero aparelho: uma arma de guerrilha, de disparos de informações falsas, de memes e discursos demagógicos.  

O tom didático, sobretudo por conta da narração em off de Cesinha Mattos (autor da trilha sonora), é uma das falhas. Com sua voz suave, parece que estamos diante de uma propaganda de maionese. O descuido na edição também incomoda. Ninguém lembrou-se de legendar os nomes das personalidades que aparecem no decorrer do documentário. Todo mundo sabe quem é Lula, mas nem todos são obrigados a saber quem é Marco Antônio Villa discursando com seu sotaque paulistano no microfone da rádio Jovem Pan. Também não há referência quanto à frase citada no desfecho do filme. É preciso recorrer ao “oráculo” Google para descobrir tais informações.

Outra questão é o caráter panfletário da obra, mesmo porque a ideia inicial do projeto era registrar o “Circo da Democracia”, evento ligado a entidades sindicais que reuniu em Curitiba diversas figuras políticas e acadêmicas de esquerda para debater a conjuntura política da época. Além disso, uma repórter do Intercept Brasil, veículo que publicou a série de vazamentos envolvendo Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, foi a responsável pela pesquisa ao lado de Sabrina. Mas ao contrário do que se costuma – ou costumava – aprender nas faculdades de Jornalismo, é impossível ser isento. O simples fato de eleger a sequência das imagens já se trata de um posicionamento.

Talvez se não estivéssemos num ano pandêmico, Pulsão teria outro alcance e engajamento da população. Movimentos populares se traduzem, na circunstância atual, em aglomerações nas praias, numa clara atitude displicente da população, condizente com o perfil do governante-mor brasileiro. De fato, as retóricas se confundem. O mesmo consumidor-cidadão-eleitor que acredita em fake news também parece acreditar que não será vítima de uma simples “gripezinha”. Resta saber se nessa massa sem máscara que invadiu as areias num final de semana de calor invernal estão apenas eleitores da esquerda ou direita. Para usar uma linguagem bem popular, para não dizer “dilmesca”, todos – seja lá qual lado for – são farinha do mesmo saco. Todos pagam o mesmo pato. À milanesa.

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Star Wars: A Ascensão Skywalker

Com direção de JJ Abrams, nono filme encerra a saga criada há mais de quatro décadas por George Lucas

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Textos por Carlos Eduardo Lima (Célula Pop) e Flávio St Jayme (Pausa Dramática)

Fotos: Disney/Divulgação

O último longa de Star Wars, o derradeiro capítulo, o fecho, o encerramento, aquele filme que chega com todas as respostas, soluções e explicações é … mais ou menos. Triste dizer isso, mas qualquer admirador da história criada por George Lucas precisa fazer uma ginástica cognitiva para poder embarcar na proposta de “Ascensão”. Do contrário, ficará buscando explicações e entendimentos ao longo das mais de duas horas de projeção e então será pior. Vai constatar o raso de alguns personagens, o ritmo frenético da narrativa. Enfim, vai sair do cinema com gosto de cabo de guarda-chuva na boca.

Com JJ Abrams de volta à direção, o filme tem a árdua missão de explicar as pontas soltas dos seus dois antecessores (O Despertar da Força e Os Últimos Jedi) tendo em vista que, assim como eles, precisa ter alguma semelhança com os longas da primeira trilogia (A Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi). Até aí, no quesito “livre interpretação da dinâmica e detalhes” destes primeiros longas, Star Wars: A Ascensão Skywalker (Star Wars: Episode IX – The Rise Of Skywalker, EUA, 2019 – Disney) até cumpre seu propósito. O problema maior e definitivo do roteiro é a proposição feita nos primeiros minutos, que se vale de um detalhe no uso da Força, para ser viável. Se você aceitar “de boas” essa proposta, verá o filme com relativo conforto. Do contrário, viverá um crescente desconforto até o fim.

Outro problema é a quase anulação do que aconteceu no ótimo Os Últimos Jedi, quando a Resistência foi reduzida a um punhado de gente e apenas a Millenium Falcon. Aqui tudo começa com os rebeldes organizados, operantes e capazes de receber informações sobre uma nova armada que estaria se incorporando à Primeira Ordem. A partir daí, tem início um verdadeiro rocambole de eventos em velocidade altíssima, quase sem tempo para que possamos perceber o que está acontecendo. O filme se vale da mesma esquizofrenia de efeitos especiais da segunda trilogia, quase sem tempo para o espectador respirar. São cidades, planetas, personagens, subpersonagens, tramas e subtramas que vão correndo em paralelo, dentro de uma caçada a um artefato que pode revelar a origem da tal armada de naves. É tudo mal explicado e rápido demais.

Fica difícil acreditar em algumas soluções que vão surgindo ao longo do caminho, como, por exemplo, a chegada de Lando Calrissian à trama, um personagem importante e clássico, reduzido aqui a quase nada. Também é irritante a ginástica que é feita nos escalões da Primeira Ordem para que possamos entender um dos fios condutores da narrativa. E o grupo de heróis se mostra duro de engolir. Afinal de contas, algo está errado quando as melhores falas até quase a metade do filme são de C-3PO, transformado numa criatura com humor peculiar e aproveitado como um bom alívio cômico diante da pouca capacidade de Poe Dameron (Oscar Isaac) e Finn (John Boyega) de renderem cenas mais dramáticas. Os dois heróis são rasos, uma pena.

Mas, e Rey? E Kylo Ren? Bem, eles estão lá. Ela, fortíssima; ele, atormentadíssimo. Vão se comunicar pela Força ao longo da narrativa, vão se enfrentar em bons duelos de sabre de luz em todos os cantos e farão o que muitos esperam que eles façam, lá pro fim das contas, com um triste e desnecessário bônus melodramático. Neste espaço de tempo, aparições banais de Han Solo e Luke Skywalker irão turbinar alguns momentos, sem falar no malabarismo de montagem e inserção das cenas com Leia, uma vez que Carrie Fisher não estava mais presente nas filmagens.

Como filme de ação, A Ascensão Skywalker é ok, no mesmo sentido que um filme de ação em 2019 precisa ser esquizofrênico em sua montagem e roteiro. Como fecho de todas as trilogias, ele é feito para um público específico, criado e gestado nos últimos anos, que frequenta o parque de Star Wars na Disney e que não tem a ideia real da magia grandiosa da primeira trilogia. Aliás, se a série imaginada por George Lucas tem, de fato, algum feito para o cinema, ele está em algum ponto entre o meio de O Império Contra-Ataca e o fim de O Retorno de Jedi. Ali, sim, George Lucas, sem Disney por perto, marcou seu nome na história do Cinema. O resto está abaixo e precisamos conviver com isso. (CEL)

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Faz quatro anos que JJ Abrams trouxe o universo de Star Wars de volta ao mundo dos vivos. Trinta e oito anos depois da estreia do primeiro filme, o diretor provou que, sim, a saga ainda é uma força a ser reconhecida (com o perdão do trocadilho). Agora, em 2019, o mesmo diretor encerra a nova trilogia e uma saga que durou mais de quatro décadas e teve nove filmes e mais dois spin-offs. Abrams consegue, ao mesmo tempo, manter tudo que o público ama em Star Wars e modernizar as histórias e seus personagens. E A Ascensão Skywalker (Star Wars: Episode IX – The Rise Of Skywalker, EUA, 2019 – Disney) comprova isso de forma magistral.

Os novos personagens, apresentados em 2015 no Episódio VII (O Despertar da Força), são as peças principais da nova história. Rey, Poe, Finn, BB-8 e Kylo Ren são o centro das atenções e personagens-chave em longas sobre tradição, família e amizade. Aos poucos, vemos relações sendo construídas e destruídas, vamos nos despedindo de personagens conhecidos e amados e conhecendo este novo grupo de amigos.

E chegou a hora de nos despedirmos de todos eles. E QUE DESPEDIDA! JJ Abrams constrói um dos melhores filmes de todos os nove, entregando emoção, comédia e ação na medida certa. Vemos cada um dos personagens tomar o seu lugar naquela saga que amamos há tanto tempo. Vemos a importância dos novos e dos antigos protagonistas. Aprendemos com eles e nos emocionamos a cada adeus.

Abraçando a representatividade, o diretor coloca como maior protagonista desta história uma mulher: Rey, que entrará em conflito e terá seu passado enfim revelado. Mas vai além. Seus protagonistas são negros, latinos. Numa história que mistura diferentes espécies de seres vivos, por que não mostrar toda a diferença dos seres humanos em seus personagens?

A Ascensão Skywalker encerra a saga de Luke, Leia, Rey, Finn, Poe, Ben e Han Solo de forma épica e bem construída, com uma história relativamente simples e repleta de emoções. Um filme incrível para nenhum fã de Star Wars botar defeito. Uma despedida agridoce, que mostra como vamos sentir saudades destes personagens que fazem parte da nossa vida e da nossa cultura. J.J. Abrams se provou mais uma vez um dos melhores contadores de histórias da atualidade e conseguiu reavivar e manter um dos maiores fenômenos da cultura pop, mesmo mais de 40 anos depois de sua criação pela mente de George Lucas.

Ao final do filme, a grande pergunta que fica é se estamos preparados para dar adeus. (FSJ)

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Um Dia de Chuva em Nova York

Woody Allen mistura passado e presente em ambientação de trama que fica aquém de seus momentos mais inspirados

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Não há necessidade de introduzir a carreira brilhante de Woody Allen. O cineasta também trabalha com profissionais que, hoje em dia, chegam a dispensar introduções – por motivos diferentes. O aclamado diretor junta-se a Timothée Chalamet, Elle Fanning, Jude Law e até Selena Gomez em seu novo longa.

Tal como a extensa filmografia de Allen, Um Dia de Chuva em Nova York (A Rainy Day In New York, EUA, 2019 – Imagem Filmes) é, do início ao fim, repleto de narrações. O roteiro, também do autor americano, segue Gatsby Welles (Chalamet) e Ashleigh Enright (Fanning) durante o dia em que o casal de estudantes universitários passa em Nova York. Enquanto ela segue um cultuado diretor de cinema (Liev Schreiber, em curta aparição) e seus colegas de trabalho por Manhattan, Welles passeia pela cidade em que cresceu, reencontrando conhecidos e familiares no meio do processo. A trama parece operar como um fluxo de consciência, com personagens indo de ponto A ao ponto B a bel prazer do roteirista, sem motivações claras e suficientes.

O nervo central do filme é a dinâmica interna de seus dois protagonistas e, também, destes com o ambiente. Enquanto o Gatsby de Allen é culto, esperto e confortável com a cidade, Ashleigh é ingênua e jovial, respirando ares do Arizona – onde nasceu – em uma megalópole que a carrega de um lado a outro, como uma correnteza inescapável. Assim, a oposição entre os dois personagens é clara desde o primeiro ato do filme, que trabalha bem sua incompatibilidade mesmo que estejam separados por grande parte de sua duração.

É assim que o roteiro introduz seus principais coadjuvantes, não somente por peso na história, mas por capacidade de interpretação: Selena Gomez e Jude Law. Ele faz um roteirista que, a caminho de encontrar seu diretor – que enfrenta dificuldades criativas com seu novo filme –, descobre que sua mulher está o traindo com seu melhor amigo. O ator consegue tornar seu breve personagem bastante crível, fugindo da caricatura. No entanto, quem brilha é Selena Gomez, que entrega Shannon, velha conhecida do protagonista de Chalamet, com bastante naturalidade, transparecendo a enorme química entre eles.

Retorna-se, então, à discussão do roteiro, pois a efusão de personagens secundários e sequências vagas é um dos maiores problemas do filme, em conjunto com narrações que parecem escritas às pressas. Deixo evidente que a definição anterior de Gatsby carrega consigo um ponto de vista bastante bondoso, o “de Allen”, visto que o personagem, de fato, esbanja características desagradáveis ao espectador. Por vezes, é pretensioso e de movimentação muito caricata, tornando constante a suspeita de de que Timothée Chalamet fora instruído a imitar seu diretor ao invés de construir seu próprio personagem. O texto de Gatsby revela ainda diversas falas e ideais que facilmente seriam atribuídas a Woody Allen. Dá-se a impressão de que, no fim, Gatsby Welles é um Woody Allen que, como o personagem diz em dado momento, “não quer envelhecer nunca”.

No entanto, a confusão do roteiro é amenizada pelo brilhantismo de Vittorio Storaro, o mítico diretor de fotografia que assume a obra, criando uma Nova York onírica, existente somente nas memórias de Allen. O que é um ponto alto da fotografia torna-se um defeito do desenho de produção, já que os cenários e ambientações têm um tom enquanto certos personagens têm outro. Explico: Gatsby, Shannon e até mesmo Ashleigh parecem viver numa Nova York de meados do século 20, ainda que tenhamos iPhones, táxis e sets bastante contemporâneos. Assim, o filme se ambienta numa mistura de passado e presente, uma confusão que se demonstra até mesmo nas relações entre as personagens, em especial entre Gatsby e sua mãe.

Ainda que amparado por Storaro, Woody Allen parece ter perdido a mão em Um Dia de Chuva em Nova York. Seu roteiro é um dos mais fracos da aclamada carreira. Ele mostra-se preocupado em finalizar filme atrás de filme, distanciando-se da qualidade que um dia o consagrou. Da mesma forma, o longa soa repetitivo, pois acomoda-se até demais no estilo de seu diretor. No fim, é uma confusão em si mesmo, que não é resolvida nem pelo talento de seu elenco ou de seus diretores. É agradável, certamente, mas está bem aquém dos melhores filmes de Allen.