Movies

Obsessão

Oito motivos para ir ao cinema ver a obra que marca a volta do diretor Neil Jordan ao formato de longa-metragem

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Galeria Distribuidora/Divulgação

O mês de junho, normalmente, é dominado pelos blockbuster snos cinemas. Pudera. Os grandes estúdios de Hollywood, de olho no início do período de férias escolares do Hemisfério Norte (quando a primavera passa o bastão para o verão no ciclo das quatro estações), bombardeiam o espectador com opções de histórias fáceis ou com apelo popular, que podem preencher o tempo vago de crianças, adolescentes, jovens e adultos e significar bom alcance nas bilheterias. Somente nas últimas semanas já estrearam o live action de Aladdin, Rocketman, X-Men: Fênix Negra e o novo Homens de Preto. Para o início de julho está sendo aguardado o retorno do Homem-Aranha às salas de projeção. Portanto, é justamente nesse período que ficam mais reduzidas as opções para quem gosta de um cinema mais alternativo, que ofereça algo além da possibilidade de entreter o espectador.

Meio sem chamar muita atenção, Obsessão (Greta, Irlanda/EUA, 2018 – Galeria Distribuidora) acaba de estrear no circuito comercial brasileiro. Não deve durar muito tempo em cartaz por questões de bilheteria. Então, a gente dá uma ajudinha e lista oito motivos para você ir correndo assistir ao filme se ele estiver programado em algum cinema de sua cidade.

Neil Jordan

Diretor, roteirista e produtor irlandês de prestígio nos anos 1980 e 1990, assinou clássicos como A Companhia dos Lobos, Traídos Pelo Desejo e Entrevista com o Vampiro. Sabe envolver o espectador num suspense como ninguém, criando reviravoltas que trabalham como uma montanha-russa nas emoções de quem assiste suas obras. Andava afastado dos longas-metragens nesta última década, reservando suas atividades quase somente a séries.

Nova York

A história de Obsessão se passa em Nova York. Para quem gosta da megalópole como cenário, é um prato cheio ver as cenas todas rodadas fora de estúdios, em ruas, locações e apartamentos da cidade. Aliás, isso faz relembrar a época áurea do cinema alternativo, quando uma turma de diretores criativos – como Scorsese e Coppola – souberam como ninguém se utilizar do cotidiano nova-iorquino para fazer grandes filmes nos anos 1970 e salvar a indústria cinematográfica americana.

St Vincent

Um dos turning points mais significativos do filme é regido ao som de uma grande faixa lançada pela cantora e compositora dez anos atrás. Incluída no álbum Actor, de 2009, a música “The Strangers” soa um tanto psicodélica se comparada com o repertório mais recente e, talvez, por isso mesmo, soa tão impactante junto com a cena escolhida para ilustrar no filme de Jordan. Enquanto Annie Clark entoa uma frase que fica martelando na cabeça do espectador (“pinte o buraco negro ainda mais preto”), a sequência de imagens surge distorcida na tela, fazendo todo mundo pensar se seria verdade o que está acontecendo ali ou então simples alucinação ou projeção de expectativa ou um mero sonho.

Stalker tecnológica

Filmes de stalker sempre rendem ótimos subterfúgios para que se faça a perseguição. Nos dias atuais, há um elemento bem poderoso que pode ser incluído no rol das possibilidades: o celular. E a solitária sexagenária Greta sabe usá-lo muito bem para levar terror e pânico à jovem Frances. Tira proveito da instantaneidade de mensagens e fotografias, sem falar no cruzamento de informações após ter acesso a rastros e particularidades do passado no telefone de sua vítima. Em tempos de big brotherhackers e espionagem militar internacional, isso cai como uma luva para apimentar a aflição da trama.

Isabelle Huppert

Bastante famosa na Europa, a francesa só passou a ser badalada nos EUA após concorrer ao Oscar de melhor atriz pela atuação em Elle há dois anos. Obsessão é seu primeiro filme com coprodução norte-americana após o feito. Lógico que Huppert volta a dar show de interpretação. Na pele da imigrante europeia e enfermeira aposentada Greta, ela é uma das responsáveis pela constante alteração de adrenalina de quem está vendo o longa na poltrona do cinema. A princípio, mostra ser uma amável e solitária professora de piano, que parece encontrar na sempre disposta e moralmente correta Frances a substituta ideal para sua jovem filha. Aos poucos vai se transformando na tela, fazendo a doçura virar maldade mas ainda colocando dúvidas a respeito de tudo isso na cabeça do espectador.

Chloë Grace Moretz

Ela só tem 22 anos de idade mas vem se revelando uma das mais poderosas jovens atrizes reveladas por Hollywood, por conta da extrema versatilidade e da aposta em papeis não muito comuns para uma então adolescente. Chloë tem em seu currículo participações elogiadíssimas em filmes como Suspíria: A Dança do Medo (2018), O Mau Exemplo de Cameron Post (2018), Lugares Escuros (2015), Acima das Nuvens (2014), A Invenção de Hugo Cabret (2011) e Kick-Ass: Quebrando Tudo (2010). Obsessão entra nesta lista por causa de sua crédula Frances, que cai na armadilha de Greta e, quando se dá conta, percebe que é tarde demais para escapar. Contar mais do que isso sobre a garçonete vira spoiler.

Maika Monroe

Aos 26 anos, sua atividade principal não é a de atriz, mas sim de atleta – Maika é uma competidora profissional de kiteboard. Mas, nos últimos anos, vem conciliando seu tempo com papéis coadjuvantes em filmes, especialmente de horror. Por ser fã assumida do gênero e ter como filmes de cabeceira clássicos como Halloween: A Noite do Terror (1978), O Iluminado (1980) e A Hora do Pesadelo (1984), tem propriedade e feeling suficientes para entregar atuações convincentes a ponto de, depois de trabalhar em O Hóspede e Corrente do Mal (ambos de 2014), despertar a atenção como potencial nova scream queendo cinema adolescente. Em Obsessão, mostra química na tela com Moretz como a melhor amiga Erica, com quem divide um descolado apartamento. Ambas já trabalharam juntas antes, na distopia teen A 5ª Onda (2016).

Stephen Rea

Também irlandês, Stephen Rea é parceiro constante dos filmes de Neil Jordan. Volta e meia atua em seus filmes. Em Obsessão, ele só aparece em cena na parte final, mas nem por isso sua pequena participação deixa de ser notável. Aqui ele faz o investigador Brian Cody, contratado pelo pai de Frances quando este percebe que a filha pode estar em apuros. Só que o detetive, apesar de perspicaz, acaba se atrapalhando quando justamente vai checar a possibilidade de Greta ter a ver com o sumiço da garçonete.

Music

Morrissey

Oito motivos pra não perder os shows que o cantor inglês fará com sua banda no Brasil neste final de ano

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Reprodução

Depois de dar um tempo no meio do ano com sua atual turnê, Morrissey retomou-a com uma série de shows pelos Estados Unidos antes de partir rumo à perna latino-americana, iniciada nos próximos dias 22 e 23 de novembro no México. Depois disso serão mais outras datas no Peru (27), Brasil (30 e 2 de dezembro), Paraguai (5), Argentina (7) e Chile (14 e 15). Em solo brasileiro, as apresentações serão, respectivamente no Rio de Janeiro (mais informações aqui) e São Paulo (mais informações aqui).

Por isso, o Mondo Bacana preparou oito motivos pelos quais você não deve deixar de ver – sob qualquer hipótese – a nova passagem do cantor inglês por nosso país.

Cada turnê é uma turnê

Nada desse papo de “ah, mas eu já vi outros shows dele antes”. Cada turnê é bem diferente de todas as outras turnês já feitas. Além de privilegiar bastante o último lançamento, Morrissey nunca se acomoda em um repertório fixo. Troca basicamente todas as outras canções, resgatando coisas lá do passado (como “Sunny”, “Hairdresser On Fire”, “Hold On To Your Friends” e “Jack The Ripper”), recuperando b-sides (“Munich Air Disaster 1958” e “If You Don’t Like Me, Don’t Look At Me”) e excluindo hits e obviedades (ao contrário, aliás, do que a maioria dos ídolos de carreira longa fazem em suas gigs pelo mundo).

Banda afiadíssima

Cada ano que passa a disco que grava, Morrissey vem mantendo uma banda bastante afiada – e fiel, diga-se de passagem – para acompanha-lo. Por isso, muitas vezes faz questão de se fotografar junto a seus músicos e gravar seus videoclipes com eles. Na verdade, é uma trajetória disfarçada de “carreira solo”, já que agora o vocalista desenvolve parcerias com quatro dos membros: os guitarristas Boz Boorer (o membro mais antigo do grupo) e Jesse Tobias, o baixista Mando Lopez e o multi-instrumentista e preferencialmente tecladista Gustavo Manzur. Completa a formação o baterista Matt Walker.

Latinidade à flor da pele

Já faz um bom tempo que Morrissey mora em Los Angeles e, volta e meia, é visto nos pelas regiões latinas nos arredores da cidade. Dois dos atuais membros de sua banda nasceram na América do Sul: Manzur é colombiano e Lopez, peruano. Nas últimas turnês por aqui, ele não tem se limitado aos países-chave, como Brasil, Argentina e Chile. Estende suas apresentações também a Peru, Colômbia, Paraguai e Uruguai. E o álbum World Peace Is None Of Your Business, lançado em 2014, é cheio de violões, percussões e sonoridades latinas, além de citar nominalmente o Brasil (no caso das manifestações de rua ocorridas no ano anterior).

Cinismo, acidez e ironia

A língua de Morrissey sempre foi altamente ferina e mordaz nas suas entrevistas. Uma pena que é, nas últimas décadas, boa parte da imprensa corporativa (isto inclui aqueles veículos online que outrora se consolidaram como independentes e há um tempo foram comprados e absorvidos pela máquina de grandes indústrias da comunicação euro-americanas) não entenda as provocações ou simplesmente aja de má fé distorcendo as ideias do vocalista. Como os recentes comentários sobre Brexit e nazifacismo, por exemplo. Basta lembrar que Moz ficou qunze anos sem falar à NME pelo fato da mesma ter considerado a música “The National Front Disco” (lançada no álbum Your Arsenal em 1992) uma ode ao partido britânico de extrema direita National Front. Como diria o Robin, “santa asneira, Batman!”.

“Back On The Chain Gang”

Desde o início desta turnê, um dos covers que frequentemente aparecem no set list de cada noite é o hit dos Pretenders lançado como single em setembro de 1982 e também incluído como uma das faixas do álbum Learning To Crawl, de 1984. Além de bons amigos, Morrissey e Chrissie Hynde têm duas coisas em comum: ambos são vegetarianos e ativistas pelos direitos dos animais. No clipe feito para a gravação de estúdio desta música (incluída na versão em vinil duplo de Low In The High School e que estará também no álbum California Son, previsto para março de 2019), ele chega a empunhar uma guitarra enquanto canta. Mais duas releituras costumavam aparecer até a parada ocorrida em março: “Judy Is A Punk”, dos Ramones” e “You’ll Be Gone”, de Elvis Presley.

Recriando os Smiths

A carreira solo de Morrissey não só é bem consolidade como altamente superior ao trabalho de cinco anos à frente dos Smiths, banda de Manchester que o revelou nos anos 1980. Só que tem muita gente, fã do grupo, que ainda não superou a dissolução da banda, mesmo já tendo passado mais de trinta anos. E vai aos shows do vocalista com aquele afã de ouvir um repertório inteiro daquela época. De uns tempos para cá ele rendeu-se à ideia de voltar a cantar músicas de sua antiga banda. Agora ele vem presenteando a plateia com três recriações: “William, It Was Really Nothing”, “Is It Really So Strange” e “How Soon Is Now”. Portanto, tire de sua cabeça qualquer esperança de ouvir outra faixa composta em parceria com Johnny Marr.

“Dial-a-Cliché”

Décima primeira das doze faixas do álbum de estreia solo, Viva Hate, lançado em 1988. Morrissey nunca havia cantado ao vivo esta música até a noite do último 31 de outubro, quando a incluiu no set list do show realizado na cidade californiana de Ventura. E a manteve e todos os outros posteriores. Segundo Simon Goddard, autor deMozipedia (espécie de enciclopédia sobre a vida e a obra de Moz), sua letra serve como uma “reflexão sobre a pressão social para se adequar a estereótipos emocionalmente impermeáveis”. Além da agradável performance vocal do artista, a bela progressão harmônica que se arrisca na troca imediata de um acorde maior por outro menos e o arranjo com trompas sintetizadas assinado pelo produtor Stephen Street, outro elemento destacado por Goddard na canção é o a riqueza poética com o uso de aliterações logo no primeiro verso (“Further into the fog I fall”).

Low In High School

O álbum mais recente de Morrissey, lançado em novembro de 2017 e que está ganhando edição luxuosa em vinil duplo (com direito a algumas faixas capturadas ao vivo na atual turnê e a inclusão de “Back In The Chain Gang”), foi gravado em estúdios na França e na Itália (este de propriedade do maestro e compositor de trilhas sonoras Ennio Morricone) e produzido pelo norte-americano Joe Chicarelli, repetindo a parceria do disco anterior. Quatro de suas melhores faixas costumam ser incluídas no atual set da turnê:
“Spent The Day In Bed”, “I Wish You Lonely”, “When You Open Your Legs” e “Jack’s Only Happy When She’s Up On The Stage”. Todas, por sinal, comprovam que o britânico ainda está longe de perder a mão para continuar compondo grandes canções.