Movies

Black Is King

Escrito, produzido e dirigido por Beyoncé, filme refaz a jornada do rei leão Simba com personagens interpretados por mulheres e homens negros

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Disney+/Divulgação

Quando Beyoncé lançou o clipe da música “Formation” em 2016, o programa humorístico SNL fez uma esquete chamada “O dia em que a América descobriu que Beyoncé é negra”. Obviamente a cantora texana nunca escondeu a cor de sua pele, mas para muitos foi um choque o lançamento de uma faixa tão política. Após “Formation”, ela nunca voltou atrás. 

Temas sobre feminismo e negritude tornaram-se uma constante nos trabalhos da popstar. Em 2019, a estrela foi chamada para produzir a trilha sonora do filme live action O Rei Leão. Desse convite nasceu o álbum The Lion King: The Gift, que serviu de inspiração para o longa musical Black is King (EUA, 2020 – Disney), lançado em streaming em julho de 2020 e que no Brasil chegará junto com o canal Disney+ em novembro. A história é uma reimaginação da jornada de Simba, mas, ao invés de animais, os personagens sâo interpretados por mulheres e homens negros.

Black is King mistura música, poesia e falas do filme com Beyoncé como figura etérea. A todo momento junta elementos do catolicismo e de religiões de matriz afro. Os Orixás e o cesto de Moisés conseguem simbolizar a religiosidade antes e depois da diáspora do povo negro. Inclusive, uma das mensagens do longa é a redescoberta dos hábitos, crenças e culturas ancestrais dos povos africanos. 

Beyoncé procurou ao redor do mundo por produtores, instrumentistas, cantores, estilistas, dançarinos, compositores negros para dar vida ao musical. O filme é uma visão negra feita por negros. O único branco que aparece no decorrer de uma hora e meia é o mordomo da música “Mood 4 Eva”, uma reescrita poderosa do mantra Hakuna Matata.

O visual do longa é um prato cheio. Cenários, figurinos e as coreografias são deslumbrantes. A conclamação pela união juntamente de paisagens paradisíacas em “Bigger” ou o minimalismo do funeral em Nile são resultados do que a cantora considera um “trabalho por amor”. O perfeccionismo é visto nos detalhes que saltam aos olhos. 

Black is King atualiza a trajetória de Simba do exílio ao retorno à tribo. As hienas de Scar se transformaram em uma gangue de motociclistas; a floresta em que o jovem leão encontra Timão e Pumba, uma estrada. Essa humanização de Simba, por sinal, ganhou ares políticos sendo trazida às telas em 2020. Lançada em meio aos protestos #BlackLivesMatter, o longa relembra que negros existiam em comunidades com culturas e costumes ricos muito antes da escravidão.

Beyoncé dedica Black is King a seu único filho menino, Sir Carter, e a todos os outros filhos negros do mundo. A obra é uma carta de amor à negritude diaspórica e um lembrete de que homens negros também são vulneráveis e tridimensionais. Assim como Simba. 

Movies, Music

Adoniran: Meu Nome é João Rubinato

Artista conhecido por imortalizar personagens reais de São Paulo em suas  “crônicas sociais do submundo” ganha documentário

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Pandora/Divulgação

Adoniran Barbosa está para São Paulo assim como Noel Rosa está para o Rio de Janeiro. O filho de imigrantes italianos nascido em Valinhos, cidade perto de Campinas, no interior do estado, imortalizou a capital mais cosmopolita do país e tornou-se um de seus mais populares cronistas. Retratava em versos a imagem sem filtros do cotidiano de um povo trabalhador, do imigrante, do caipira e do crioulo, todos com pouco acesso à educação. Ele mesmo abandonou os estudos para entregar marmita e ajudar a família no sustento. Por isso suas letras cheias de erros de português (“nóis fumo”, “nóis vortemo”, “adifício”, “frechada”, “taubua”), foram barreira para que as composições emplacassem no rádio.

Não há como cantar São Paulo sem lembrar dos sambas genuinamente paulistas, interpretados pelo Dêmonios da Garoa, como “Samba do Arnesto”, “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca” e “Tiro ao Álvaro”, esta imortalizada na voz da também saudosa Elis Regina. Não há como passar por locais como Brás, Bixiga, Mooca, Lapa, e, claro, por Jaçanã sem se lembrar de Adoniran, que nasceu João Rubinato em 1910, mesmo ano de Noel. Foi com “Filosofia”, samba do Poeta da Vila, que o artista emplacou a carreira depois de ter sido desclassificado de concursos por causa da voz fanha que foi se tornando cada vez mais rouca, machucada pelo álcool e cigarro, seus parceiros fieis até a morte em 1982. Morreu pobre, deixando de herança apenas uma casa, e quase esquecido. Boêmio por natureza, Adoniran foi se entristecendo cada vez mais com o progresso da sua musa São Paulo.

É a partir da morte do artista que começa o documentário do diretor e roteirista Pedro Serrano, Adoniran: Meu Nome é João Rubinato (Brasil, 2019 – Pandora). O filme, que conta como João virou Adoniran e resgata a memória de um dos mais populares cancioneiros do Brasil, segue em cartaz no Cine Passeio em Curitiba, sendo uma ótima pedida para assistir neste carnaval. Afinal, “Trem das Onze”, um de seus maiores sucessos, foi a grande premiada no carnaval do Rio de Janeiro de 1965.

Fã de carteirinha do compositor paulista, Serrano já havia homenageado o sambista no curta-metragem Dá Licença de Contar, no qual Paulo Miklos dá vida ao compositorPara o documentário, o cineasta fez uma vasta pesquisa sobre a vida e obra de Adoniran, resgatando imagens raras de arquivo, reportagens publicadas em jornais da época e entrevistas a programas de televisão (como a Fernando Faro no Ensaio). Também há o depoimento de personagens fundamentais na carreira e vida do sambista: familiares, amigos, produtores, parceiros (como Carlinhos Vergueiro), o autor da biografia do compositor (Celso de Campos Jr) e, claro, do conjunto Demônios da Garoa, que impulsionou a obra de Adoniran.

O diretor opta por uma linguagem tradicional, simples, assim como era Adoniran, que quando jovem foi entregador de marmita, balconista, garçom até começar a frequentar programas de calouros da rádio Cruzeiro do Sul. Com sua veia para comédia, o artista, além de cantar, atuava em radionovelas e dava vida a personagens como um chamado Charutinho. Participou de filmes e novelas na Record e Tupi, sempre encarnando os personagens da vida real, fazendo a “crônica social do submundo” (expressão que estampou uma notícia de jornal).

O documentário recupera preciosidades – um poema que o cantor Antônio Marcos escreveu na ocasião da morte do compositor – e relembra encontros com Elis Regina e Clementina de Jesus, além da parceria de anos com Osvaldo Moles. Serrano vai em busca de causos pitorescos, como as várias versões que cercam os versos de “Samba do Arnesto”. Aliás, o tal Arnesto é um dos entrevistados.

Tal qual nos sambas de seu ídolo, o diretor mostra imagens de São Paulo através do tempo, dos anos 1930 aos 1980, sobrepondo-se às letras das canções, cujos erros atraíram críticas de gente importante como Vinícius de Moraes (alias, Adoniran mais tarde musicou um poema do Poetinha!). A reputação foi aliviada por conta do texto do intelectual Antônio Cândido na capa do LP em homenagem aos 70 anos do sambista, em que Elifas Andreato retratou o sambista como um palhaço triste.

Serrano faz um belo serviço ao resgate da memória musical brasileira, mas poderia ter acrescentado a essa homenagem mais uma personagem: a voz do próprio povo paulistano, matéria-prima da obra eterna de Adoniran Barbosa/João Rubinato.

Music, Videos

Clipe: Jards Macalé – Trevas

Artista: Jards Macalé

Música: Trevas

Álbum: Título a ser anunciado (2019)

Por que assistir: Entre 1915 e 1962, o norte-americano Ezra Pound escreveu a maior parte de seus Cantos, um poema inacabado em 116 seções e com inspiração plena na poesia épica da antiguidade, aos moldes de Homero (a quem se atribui a autoria de Ilíada e Odisseia). Muitos teóricos consideram esta obra como o mias importante livro de poesia moderna não só dos Estados Unidos como também do mundo ocidental. Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos assinaram em 1960 a versão para o português dos poemas desta obra. Nove anos mais tarde, durante os anos de chumbo da ditadura militar brasileira, Jards Macalé compôs letra e música de “Trevas”, fazendo uma livre adaptação da tradução dos concretistas para o Canto 1 mas acabou não gravando a composição, que acabou se perdendo com o tempo. Uma pesquisa feita em 2016 pelo jornalista Marcelo Froes, que toca a editora literária Sonora e o selo fonográfico Discobertas (dedicado à reedição fonográfica de pérolas esquecidas da música brasileira), revelou a existência da canção, que logo acabou reaproveitada pelo seu autor, que agora, no mês fevereiro, está prestes a encerrar um intervalo de vinte anos sem lançar um álbum de inéditas. Sob a batuta dos músicos e produtores paulistas Kiko Dinucci e Thomas Harres – que também participam da banda de apoio do disco – o velho “Maldito”, aos 75 anos de idade e recuperado após passar um período de dez dias em estado de coma no início de 2018 – mostra estar plenamente conectado com a renovação da MPB, contando com novos parceiros (tanto na composição quanto na gravação) como Ava Rocha, Tim Bernardes, Romulo Froes, Rodrigo Campos, Clima, Harres e Dinucci. E pelo que mostra em “Trevas”, Macalé vai muito bem, obrigado. A música virou uma deliciosa mistura torta de samba e rock, com claras referências à bossa nova no refrão mais ruídos e dissonâncias que flertam com a no wave nova-iorquina. De quebra, há elementos como um solo de guitarra e uma bacia com água, que serviu para que o cantor mergulhasse a cabeça nela e entoasse os versos encaixados no final do arranjo. Já o clipe, dirigido pelo cineasta Gregório Gananian e o poeta e designer Gabriel Kenhart traz uma perturbadora coreografia de Jards entre lasers e a iconógrafa de vários artistas criativamente inquietos – entre eles Oswald de Andrade, James Joyce e Hélio Oiticica. Ah, sim: versos como “Chegamos ao limite da água mais funda/ Levanto o olhar pro céu” e “Trevas, trevas/ Treva a mais negra sobre homens tristes/ Me calo” caem como uma luva para o que pode vir a acontecer nos próximos anos neste país. Mas atente para o detalhe de que, apesar desta faixa ter sido lançada agora em janeiro, a gravação deste novo álbum foi toda realizada em agosto do ano passado. Portanto, antes mesmo do início da campanha eleitoral para os cargos de presidente, senador, governador e deputados federais e estaduais. Zeitgeist?

Texto por Abonico R. Smith

Movies, Music

Bohemian Rhapsody

Cinebio da carreira de Freddie Mercury à frente do Queen esbarra na postura conservadora e em problemas no roteiro e na direção

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Fox/Divulgação

Cinebiografias são uma coisa complicada. Muitas são feitas e poucas delas acabam apresentando algo memorável, aquele resultado convincente que acaba deixando o filme para a posteridade. Se não, mostram-se fogo de palha, uma obra que só se beneficia da memória afetiva de fãs ou pessoas ligadas de algum modo ao meio de quem é biografada(o). Bohemian Rhapsody (Reuno Unido/EUA, 018 – Fox) não foge desta grande galeria de exemplos. Sua proposta é contar boa parte do tempo em que Freddie Mercury ficou conhecido como o vocalista do Queen. Só que patina no meio do caminho e deixa a desejar ao final de suas duas horas e catorze minutos.

Primeiro vamos às qualidades do longa. Rami Malek – que entrou no projeto após a desistência de Sacha Baron Cohen – está irrepreensível na sua atuação como Farrokh Bulsara, o jovem de origem indo-persa nascido na Tanzânia e radicado em Londres desde o fim da adolescência. Incrivelmente parecido nas telas, ele também se traveste de Mercury ao tomar para si a personalidade flamboyant do músico, sempre aultoconfiante e autoindulgente não só palcos mas sobretudo nos bastidores. Da vida em família enquanto ainda trabalhava como carregador de malas nos aviões da pista do aeroporto de Heathrow às festas nababescas com dezenas de convidados que dava em sua mansão, passando pelo início da fama do Queen e a transformação da banda em ícone mundial do rock.

Quem também atua de forma soberba, porém em pouco tempo, é Mike Myers. Transformado em um alienado e pouco ousado executivo de gravadora, o comediante protagoniza uma das melhores cenas: a reunião em que ele conhece a banda que acabou de contratar e quase a perde por não aceitar ouvir a opinião dos músicos. Vale a pena ressaltar a private joke do convite feito a Myers. Ele foi o protagonista do filme Quanto Mais Idiota Melhor (Wayne’s World, no original), lançado em fevereiro de 199 e que o levou de vez da televisão para o cinema. A cena em que os jovens Wayne e Garth balançam freneticamente a cabeça dentro de um carro ao som de “Bohemian Rhapsody” levou a música novamente ao topo das paradas norte-americanas dezessete anos após o seu lançamento.

A trilha sonora, óbvio, também favorece. Ouvir trecho de alguns dos maiores hits do Queen sentado na poltrona do cinema é uma experiência prazerosa. Conhecer detalhes por trás da criação de alguns deles ainda pode adoçar mais a vida de quem curte o quarteto. Quando o foco da cena são os shows, então, é para se esbaldar, como na hora em que se mostra a participação de Merucry, Brian May, John Deacon e Roger Taylor no Live Aid, em julho de 1985.

Entretanto, há detalhes que pendem para o desequilíbrio e fazem Bohemian Rhapsody desperdiçar a oportunidade de ser uma obra fenomenal. Primeiro há a decisão de Roger e Brian, produtores executivos do filme e os músicos que excursionam sob o nome Queen hoje em dia (John ainda tem participação na banda mas preferiu se aposentar dos palcos), por fazer um filme “família”. Isto é, não mostrar todos os exageros de Mercury e cortar do recorte biográfico todo o tempo em que a banda se retirou dos palcos em virtude da doença de Mercury – o que durou de 1986 a 1991, até o vocalista falecer em decorrência do vírus HIV em novembro daquele ano. Muito provavelmente o motivo por esta opção tenha sido o financeiro: um acordo com um grande estúdio e a possibilidade de ganhar mais bilheteria ao redor do mundo, inclusive não limitando a faixa etária do longe. Algo que não traz riscos é bastante conservador e isso não passou despercebido pela crítica, muito menos por Baron Cohen, que, doido para construir mais um personagem histriônico em sua carreira cinematográfica, pulou fora da barca.

O roteiro também mostra muitos descompassos temporais ou conceituais com relação às músicas do Queen. Exemplos? Os dois primeiros discos são solenemente esquecidos e muita gente pode sair com a impressão de que o início do sucesso veio somente com o hit “Killer Queen”, do terceiro trabalho da banda, Sheer Heart Attack, lançado no finalzinho de 1974. “We Will Rock You” aparece sendo composta bem depois de 1977, quando a faixa chegou às lojas abrindo o álbum News Of The World. Durante a criação do arranjo de “Another One Bites The Dust” fala-se da necessidade da incorporação de sons de sintetizadores. OK, a faixa está no álbum The Game, lançado em 1980 e que trazia estampado em sua contracapa o aviso de que este era o primeiro trabalho do Queen que utilizava este instrumento. Mas cadê ele nesta música? Mais pro final, fala-se em um longo hiato do Queen, no qual o vocalista aproveitou para desenvolver uma carreira solo. Bobagem. Freddie tocou as duas coisas meio que em paralelo, sem dedicar longos espaços para um lado ou para o outro. Em janeiro de 1985, a banda foi um dos destaques da primeira edição do Rock In Rio, em dois shows destacados até hoje pelos próprios músicos. Mas o roteiro desse filme não só ignora isso como ainda força a barra dizendo que a banda estava havia muito tempo se tocar ao vivo antes do Live Aid, em julho do mesmo do mesmo ano.

Houve também sérios problemas no set. O diretor Bryan Singer acabou expulso do projeto por conta de comportamento inadequado e falta de profissionalismo, com direito a atrasos constantes e brigas com a equipe de produção e os atores – em uma delas chegou a arremessar um equipamento pesado na direção de Malek. Seu nome só continuou na ficha técnica porque ele já havia feito dois terços do trabalho e, mesmo assim, deixando boa parte das cenas para serem rodadas a cargo do diretor de fotografia por se ausentar das filmagens em períodos não autorizados. O britânico Dexter Fletcher (mais conhecido por ter feito Voando Alto em 2015 e também ator) foi contratado às pressas para juntar os pedaços que já haviam sido feitos e terminar os trabalhos (por causa de regras do sindicato dos diretores, não tem direito a ser incluído nos créditos). Toda essa instabilidade provocada por Singer ocasionou uma inevitável quebra na unidade estética do filme.

Por fim, Bohemian Rhapsody passa a sensação de estar mais para um misto de drama da televisão mexicana com novela menos inspirada de Gloria Perez. Insiste em bater na tecla da heterossexualidade de Mercury (que compôs “Love Of Life” para uma namoradinha da juventude que acabaria por se tornar uma grande amiga ao longo do tempo), esconde todo o período barra-pesada da doença, toca apenas na tangente dos excessos descontrolados de drogas e sexo.

Sabe aquele filme sem cortes e pronto para passar na TV e ser visto por toda a família “de bem” que consome a música, aprova a banda, vai vê-la tocar nas próximas edições do Rock In Rio e sempre canta “We Are The Champions” quando a música é executada em associação a alguma celebração da meritocracia? Bem isso daí. Tudo fica apenas no nível do entretenimento raso e descompromissado com algo além do momento. Por enquanto, só resta ficar com a expectativa de algum dia venha uma outra cinebiografia realmente compensadora de Freddie Mercury.