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KT Tunstall – ao vivo

One girl band britânica esquentou a noite dominical de garoa em Curitiba com simpatia, bom repertório e talento

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Texto por Leandro Delmonico

Foto: Janaina Monteiro

Em sua primeira passagem por Curitiba, a cantora e talentosa instrumentista KT Tunstall cumpriu a tarefa de esquentar uma noite de garoa em pleno domingo à noite. Para isso, só precisou contar com o cenário da Ópera de Arame e seu imenso carisma.  A escocesa, dona de um dos grandes hits dos meados dos anos 2000, “Suddenly I See”, subiu ao palco pouco depois das 20h do último dia 10 de novembro, com um grato sorriso no rosto e energia de sobra pra comandar sozinha uma apresentação pra cerca de duas mil pessoas.  Com sua “banda”, formada pelo próprio violão e vários pedais de looping (diretamente de Taiwan, como costuma brincar), KT chutou a porta com duas faixas do seu primeiro álbum Eye To The Telescope (“Miniature Disasters” e “Other Side Of The World”).

De imediato, demonstrou contato com a plateia. Leu diversas frases em português e contou sobre os pedidos diários dos brasileiros para que ela retornasse ao país – o que só acabou acontecendo onze anos após sua estreia por aqui. A cantora voltou para divulgar seu último álbum Wax (lançado em 2018 e o segundo de uma trilogia sobre corpo, mente e alma), que deu as caras em “Little Red Thread”, logo a terceira canção do set. Tunstall continua trabalhando firme em novas canções, embora seja árdua a tarefa de repetir o sucesso comercial dos primeiros anos da carreira. Isso, aliás, é algo com o que ela realmente parece não se preocupar.

A qualidade da cantora pôde ser comprovada com a distribuição dos seus álbuns pelo repertório. As baladas “Made Of Glass” e “Fell I All” relembram o disco Invisible Empire//Crescent Moon (2013), que ainda teve boa presença nas paradas britânicas. Do penúltimo trabalho, Kin (2016), apenas uma música “It Took Me So Long To Get Here But Here I Am”.

O show também serviu para reafirmar o ótimo domínio de palco da artista. Na metade final da apresentação ela que o início da carreira ocorreu no improviso das ruas,  tanto que até hoje se surpreende pelo alcance mundial das suas canções. KT brincou com o riff de “Seven Nation Army” (White Stripes) e demonstrou sua paixão pela música dos anos 1980, lembrando o sucesso “Walk Like An Egyptian” (Bangles).  No discurso ainda sobrou espaço para comentar o momento caótico do planeta e pedir atenção com a Amazônia. A cantora disse acreditar no amor e no poder das futuras gerações, além de ter prometido voltar em breve ao país.

Para bater o martelo, concentrou várias faixas do dois primeiros álbuns no final, como “Saving My Face” e “Hold On” (foi um pecado não tocar “If Only”!). Claro que o grande hit “Suddenly I See” foi reservado para a saideira. Afinal, a canção inspirada em Patti Smith ajudou a levar mais uma mulher forte ao topo da música.

Set list: “Miniature Disasters”,  “Other Side Of The World”, “Little Red Thread”, “It Took Me So Long To Get Here But Here I Am”, “Black Horse And The Cherry Tree”, “Invisible Empire”, “Made Of Glass”, “Heal Over”, “Feel It All”, “Another Place To Fall”, “The River”, “Hold On”, “Stopping The Love”, Bis: “Funnyman”, “Saving My Face”, “Universe & You” e “Suddenly I See”.

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Seu Jorge – ao vivo

Cantor deixa o groove de lado em Curitiba e faz uma bela apresentação contida e minimalista mas nem por isso menos animada

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Texto e foto por Janaina Monteiro

A música popular brasileira é recheada de Jorges. Tem o Ben Jor, com seu genial samba rock. O Mautner, do maracatu atômico. O Vercilo, das canções românticas. Outro Jorge não leva sobrenome artístico, mas é dono de uma voz tão potente e de uma história de vida tão incrível que alcançou os quatro cantos do mundo. Este Jorge usa apenas um pronome de tratamento na frente, abreviação de Senhor. Seu Jorge foi Nosso Jorge em Curitiba no primeiro dia de agosto de 2019, onde apresentou um “senhor” show de voz e violão, acompanhado pelo sambista e mestre do cavaquinho Pretinho da Serrinha.

Quem está acostumado com o groove de Seu Jorge, tendo inclusive um naipe de metais, conheceu um outro lado do multiartista. Ele, Pretinho e mais um DJ chegaram de mansinho e conduziram uma apresentação contida, mas nem por isso pouco animada. Em se tratando de Seu Jorge, mais pra quê? Sentado ou de pé, ele tem suingue e seu vozeirão é suficiente para animar a plateia. Mesmo minimalista, o cantor conseguiu dar sentido a um repertório eclético – capaz de reunir o que há de melhor no terreno da música popular – e marcado por contrastes. Vai de samba de raiz, cover de Racionais MCs, revival de canções do Farofa Carioca (banda da qual ele era integrante nos anos 1990), clássicos da bossa nova e até Tim Maia no derradeiro número. Houve, claro, alguns tropeços, tanto por conta do comportamento da plateia quanto da estrutura do set list. Mas nada que tolhesse o carisma e a competência do artista que enaltece o cotidiano das “minas” e dos “manos” para um público repleto de “burguesinhos” e “burguesinhas”.

Essa discrepância já tomava forma na chegada à Ópera de Arame, onde o público era recepcionado por música clássica (para combinar com o nome do local!) até o início do show, às 21h15. O erudito, então, deu a vez ao samba e suas vertentes. E a luz negra que iluminava o teatro se refletiu no palco. Seu Jorge entrou vestido com calças e agasalho amarelos, como um leão, e logo agarrou uma xícara de chá – com sachê à mostra – para espantar o frio (e olha que aquela não foi uma das noites mais geladas neste inverno curitibano).

Em instantes, engatou clássicos da MPB e quebrou a expectativa de todos, que cantaram “Samba da Minha Terra”, de Dorival Caymmi, e a sua “Carolina”. Mesmo sentado, Jorge dava vazão à famosa malemolência dos sambistas, charme que deixava um grupo de amigas, atrás de mim, derretidas. Em vez de cantar, elas não paravam de rasgar elogios à “pérola negra”. “Ah, eu pegava ele”, dizia uma delas…

A terceira canção foi “Negro Drama”, dos Racionais. Na plateia, um grupo de mulheres negras se levantou e empunhou as mãos para cima. Jorge aproveitou a ocasião para lembrar a presença feminina no samba, dando o exemplo de Leci Brandão. “As mulheres estão no front agora”, disse. Foi um dos únicos momentos contestadores em que o artista se levantou da cadeira e largou o violão. Depois seguiu homenageando a Mangueira com um samba de Cartola, “Preciso me Encontrar”, e “Você Abusou”, de Antônio Carlos e Jocafi. Reverenciou, também, João Gilberto num momento especial, ao convidar sua filha Flor de Maria para cantar “Retrato em Branco e Preto”. Foi uma doce homenagem a um dos pais da bossa, apesar de a composição ser de Chico Buarque e Tom Jobim. “Mas esta música estava no repertório de João”, justificou o cantor. Também foi chamado ao palco o trompetista Azeitona (Paulo Henrique) com um belo porém quase inaudível solo.

Logo que as músicas mais animadas começam a invadir o teatro, a plateia – jovem ou idoso, branco ou negro – deixava a timidez de lado e se levantava para sacolejar. Menos ele, Jorge, que continuava sentado, tocando seu violão, escorregando num acorde vez ou outra.  Então, a Ópera se enchia de boemia, alegria e simpatia do músico, que conversava sem parar, contanto causos sobre música. Só faltavam mesmo a mesa de bar e o churrasco. Porque a bebida não era problema para os presentes, apesar da restrição clara no ingresso.

Quando chegou a hora do sucesso “É Isso Aí” (versão de “The Blower’s Daughter”, tema do filme Closer – Perto  Demais), Jorge mostrou que dá conta do recado sem Ana Carolina. Cantou com tanto vigor que, provavelmente, os versos foram ouvidos em toda a vizinhança. Apesar de quase engolir o microfone, sua voz não agredia, apenas abafava a do público que tentava acompanhá-lo.

Para a alegria dos fãs, cantou “Quem Não Quer Sou Eu”, “Tive Razão”, “Amiga da Minha Mulher” (dando um show de interpretação!), “Mina do Condomínio” e “Burguesinha”. De covers teve também “Mas Que Nada” (do então Jorge Ben e que ficou conhecida no exterior com Sérgio Mendes) e “Chega de Saudade”, marco inicial da bossa nova, feito por Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

E veio mais bossa no bis. Parte do público que já estava aquecido – como as “burguesinhas do condomínio” que estavam atrás de mim – não conseguiu entrar no clima de “S’Wonderful” e “Dindi”. Muitos conversavam em voz alta, de pé, ensejando pedidos de silêncio. Seu Jorge permanecia compenetrado, dedilhando seu instrumento. Outros foram embora antes mesmo do gran finale. Estes perderam a contagiante “Felicidade” (ou nossa versão tupiniquim de “Happy”), do álbum Música Para Churrasco II, e “Não Quero Dinheiro”, clássico de Tim Maia. Só no finalzinho é que o cantor ficou em pé e deu aquela sacudida no estilo James Brown, ao som do genuíno funk.

Seu Jorge, batizado assim pelo falecido Marcelo Yuka, tem sobrenome, sim senhor: ele é Jorge Mário da Silva. Goste dele ou não, o fato é que o músico representa um tremendo case de sucesso. Negro, pobre, nascido em Belford Roxo, região metropolitana do Rio de Janeiro, ele perdeu o irmão assassinado e, depois disso, passou três anos vivendo como mendigo. Lembro que fiquei impressionada quando assisti a uma entrevista dele no programa do Jô Soares (ainda nos tempos de SBT) na qual relatava como fora resgatado das ruas e entrara em contato com a música e o teatro, até se tornar um dos artistas brasileiros mais conhecidos mundo afora, inclusive com diversas atuações no cinema nacional (como em Cidade de Deus) e internacional (A Vida Marinha Com Steve Zissou, dirigido por Wes Anderson, para o qual escreveu catorze versões em português do repertório de David Bowie). Aliás, a vida de Jorge daria um belo filme. Radicado nos Estados Unidos, ele, há anos, viaja o mundo representando a música popular brasileira.

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Phil Anselmo & The Illegals

Vocalista resgata músicas do Pantera e fala com o Mondo Bacana sobre próximos projetos e sua luta contra as doenças mentais

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Texto por Abonico R. Smith e entrevista por Janaina Azevedo Lopes

Foto: Divulgação

Um Pantera está à solta no Brasil, vociferando como sempre. Phil Anselmo veio ao país para realizar três shows nestes últimos dias de janeiro. Neste último final de semana, ao lado dos Illegals, o vocalista apresentou-se em São Paulo e Brasília. Nesta terça, dia 30, ele encerra a miniturnê em Porto Alegre (clique aqui para ter mais informações sobre este show).

Marcada por um repertório especial, que consta com metade do set list reservado ao resgate de antigas músicas do Pantera, a tour também é uma homenagem aos irmãos Dimebag Darrell e Vinnie Paul, ambos já falecidos e os fundadores da clássica banda de heavy metal, que teve seu auge na primeira metade dos anos 1990.

Em entrevista para o Mondo Bacana, o músico, atualmente com 50 anos de idade, relembra um pouco do passado musical, adianta os novos projetos para um futuro próximo e ainda abre um pouco de sua intimidade com a saúde, falando sobre sua luta, tão particular quanto uma herança familiar desde os tempos de infância, contra as doenças mentais.

Os shows que vocês trouxeram para o Brasil são formados por parte do repertório do Illegals, parte do Pantera. Como se deu isso?

Desde o ano passado, quando Vince morreu, nós vínhamos tocando algumas das músicas do Pantera, em tributo. Então, depende do público. Eles querem ouvir, nós tocamos.

O público é quem pede as músicas?

Eles podem pedir, mas não sei se vamos saber tocar… (risos)

Como tem sido revisitar essas composições?

É interessante. Às vezes, meio estranho. Eu olho lá de cima e vejo jovens que nunca tiveram a chance de ver o Pantera curtindo tanto as músicas…

E como é relembrar tanto o Vinnie quanto o Dimebag enquanto a banda toca essas músicas?

Como eu disse, pode ser bem estranho. Eu nunca tinha considerado fazer isso, tocar de novo essas músicas, reaprender as coisas velhas. É estranho! Estamos apresentando isso [o show] como eu cantando as músicas do Pantera. E são minhas músicas. Acho meio estranho ficar pensando nos caras originais. Mas ao mesmo tempo, [as músicas] são do público, que cresceu com elas. É a música deles também. É meio estranho, mas quando eu vejo o público curtindo eu curto também.

Quais os planos para o Illegals esse ano?

Tem sempre algo acontecendo com o Illegals. São caras ótimos, muito humildes e fáceis de trabalhar. Tá todo mundo na mesma fase. Então… Temos esta tour na América do Sul, em março vamos para a Austrália e no verão vamos para a Europa fazer os festivais. Depois disso, quero escrever um pouco, fazer o que eu chamaria de um verdadeiro disco de heavy metal. Não me pergunte o que isso quer dizer. Eu ainda tô formulando na minha cabeça. Quero experimentar com a minha voz.

O mais recente álbum do Illegals se chama Choose Mental Illness As a Virtue [Escolha a Doença Mental Como uma Virtude, em português]. O que isso significa?

Bem, não tenho problemas em admitir que eu sofro de doenças mentais desde que era criança. E se não fosse pelo heavy metal não sei onde eu teria canalizado toda a negatividade. Por exemplo, uma letra que escrevi, que é “Mouth For War”. Ela concentra toda escuridão e todos os pensamentos ruins em algo produtivo. Portanto, se você tem alguma doença mental e a reconhece, precisa entender que ela não vai simplesmente embora. Você tem de manter isso sob controle. Administrar isso e fazer algo produtivo, útil, como música, é muito importante. Eu sei que nem todo mundo tem o talento musical, entre os que sofrem de doenças mentais. Mas eu peço que todos achem algo produtivo.

Fazer este disco te ajudou?

Claro! Todo disco ajuda. Mas esse em particular foi um mergulho bem fundo no meu passado familiar e a luta com doenças mentais, em ambos os lados, tanto do meu pai quanto da minha mãe. Então, sim, foi um vazio a ser descoberto, por assim dizer.

E o que você tem feito além de se dedicar à banda?

Eu tô sempre me recuperando de um ou outro machucado.

Qual é o teu último machucado?

Ah, um negócio no ombro.

Mas tá bem agora?

Tô ok. Melhor do que há duas semanas.

Pros shows no Brasil, vai estar bem?

Espero que sim. Se não, vou lutar para isso, como sempre faço. Além disso, tenho tantos projetos [musicais] que nunca foram lançados…

Tipo o quê?

Bem… Existem algumas bandas. Uma é death metal, que eu formei em 2014, com alguns amigos de várias partes do mundo. Nunca tive tempo de lançá-la. Mas acho que posso fazer isso em breve. Daí tem o En Minor, que não é metal. Tem um cello, um piano, teclado, três guitarras. É bem diferente, obscuro, moroso, pessimista. Um negócio bem real. Estamos finalizando [a gravação]. É só questão de tempo.