Movies, Music

Adoniran: Meu Nome é João Rubinato

Artista conhecido por imortalizar personagens reais de São Paulo em suas  “crônicas sociais do submundo” ganha documentário

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Pandora/Divulgação

Adoniran Barbosa está para São Paulo assim como Noel Rosa está para o Rio de Janeiro. O filho de imigrantes italianos nascido em Valinhos, cidade perto de Campinas, no interior do estado, imortalizou a capital mais cosmopolita do país e tornou-se um de seus mais populares cronistas. Retratava em versos a imagem sem filtros do cotidiano de um povo trabalhador, do imigrante, do caipira e do crioulo, todos com pouco acesso à educação. Ele mesmo abandonou os estudos para entregar marmita e ajudar a família no sustento. Por isso suas letras cheias de erros de português (“nóis fumo”, “nóis vortemo”, “adifício”, “frechada”, “taubua”), foram barreira para que as composições emplacassem no rádio.

Não há como cantar São Paulo sem lembrar dos sambas genuinamente paulistas, interpretados pelo Dêmonios da Garoa, como “Samba do Arnesto”, “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca” e “Tiro ao Álvaro”, esta imortalizada na voz da também saudosa Elis Regina. Não há como passar por locais como Brás, Bixiga, Mooca, Lapa, e, claro, por Jaçanã sem se lembrar de Adoniran, que nasceu João Rubinato em 1910, mesmo ano de Noel. Foi com “Filosofia”, samba do Poeta da Vila, que o artista emplacou a carreira depois de ter sido desclassificado de concursos por causa da voz fanha que foi se tornando cada vez mais rouca, machucada pelo álcool e cigarro, seus parceiros fieis até a morte em 1982. Morreu pobre, deixando de herança apenas uma casa, e quase esquecido. Boêmio por natureza, Adoniran foi se entristecendo cada vez mais com o progresso da sua musa São Paulo.

É a partir da morte do artista que começa o documentário do diretor e roteirista Pedro Serrano, Adoniran: Meu Nome é João Rubinato (Brasil, 2019 – Pandora). O filme, que conta como João virou Adoniran e resgata a memória de um dos mais populares cancioneiros do Brasil, segue em cartaz no Cine Passeio em Curitiba, sendo uma ótima pedida para assistir neste carnaval. Afinal, “Trem das Onze”, um de seus maiores sucessos, foi a grande premiada no carnaval do Rio de Janeiro de 1965.

Fã de carteirinha do compositor paulista, Serrano já havia homenageado o sambista no curta-metragem Dá Licença de Contar, no qual Paulo Miklos dá vida ao compositorPara o documentário, o cineasta fez uma vasta pesquisa sobre a vida e obra de Adoniran, resgatando imagens raras de arquivo, reportagens publicadas em jornais da época e entrevistas a programas de televisão (como a Fernando Faro no Ensaio). Também há o depoimento de personagens fundamentais na carreira e vida do sambista: familiares, amigos, produtores, parceiros (como Carlinhos Vergueiro), o autor da biografia do compositor (Celso de Campos Jr) e, claro, do conjunto Demônios da Garoa, que impulsionou a obra de Adoniran.

O diretor opta por uma linguagem tradicional, simples, assim como era Adoniran, que quando jovem foi entregador de marmita, balconista, garçom até começar a frequentar programas de calouros da rádio Cruzeiro do Sul. Com sua veia para comédia, o artista, além de cantar, atuava em radionovelas e dava vida a personagens como um chamado Charutinho. Participou de filmes e novelas na Record e Tupi, sempre encarnando os personagens da vida real, fazendo a “crônica social do submundo” (expressão que estampou uma notícia de jornal).

O documentário recupera preciosidades – um poema que o cantor Antônio Marcos escreveu na ocasião da morte do compositor – e relembra encontros com Elis Regina e Clementina de Jesus, além da parceria de anos com Osvaldo Moles. Serrano vai em busca de causos pitorescos, como as várias versões que cercam os versos de “Samba do Arnesto”. Aliás, o tal Arnesto é um dos entrevistados.

Tal qual nos sambas de seu ídolo, o diretor mostra imagens de São Paulo através do tempo, dos anos 1930 aos 1980, sobrepondo-se às letras das canções, cujos erros atraíram críticas de gente importante como Vinícius de Moraes (alias, Adoniran mais tarde musicou um poema do Poetinha!). A reputação foi aliviada por conta do texto do intelectual Antônio Cândido na capa do LP em homenagem aos 70 anos do sambista, em que Elifas Andreato retratou o sambista como um palhaço triste.

Serrano faz um belo serviço ao resgate da memória musical brasileira, mas poderia ter acrescentado a essa homenagem mais uma personagem: a voz do próprio povo paulistano, matéria-prima da obra eterna de Adoniran Barbosa/João Rubinato.

Movies

A Esposa

Glenn Close comanda um time com brilhantes atuações em densa história com fragilidades no roteiro e na direção

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Pandora Filmes/Divulgação

Escrito por Jane Anderson, o novo filme do desconhecido (por aqui) diretor sueco Björn Runge retrata o casal de longa data Joe (Jonathan Pryce) e Joan Castleman (Glenn Close). Ele é um influente escritor, que acaba de ganhar o Nobel de Literatura. Ela, a subestimada esposa.

Desde o início de A Esposa (The Wife, Reino Unido/Suécia/Estados Unidos, 2018 – Pandora Filmes), quando Joe recebe a notícia de que ganhará o prêmio Nobel, é possível perceber a rica dinâmica do casal. Close representa uma forte mulher, oscilando entre seu amor pela família e seu reprimido desejo de reconhecimento, enquanto Pryce encarna um detestável escritor, evidenciando suas diferentes formas de tratamento das pessoas: o bom esposo, aos olhos externos, e o controlador e prepotente gênio da família. Num personagem difícil de conectar-se com a audiência, o aclamado ator se supera, numa clara demonstração de seu talento. O foco em Joan durante os eventos narrativos, sutil marca do diretor, possibilita que Glenn Close desenvolva as camadas de sua personagem sem a necessidade de longos e profundos diálogos. Os monólogos da também aclamada atriz se dão em seus olhos, não no discurso.

Outros personagens, porém, como o biógrafo Nathaniel Bone (interpretado pelo ótimo Christian Slater) e o filho do casal, Daniel (Max Irons), servem como facilitações narrativas. O ressentimento contido deste, porém, é trabalhada na trama de forma a adicionar elementos para a relação do casal protagonista.

A fotografia lavada produz belos planos no filme, sem escapar do realismo proposto na obra. A câmera fluida e inteligente, mesmo em zooms e dollies, sabe muito bem onde focar em que momento da trama, amplificando a imersão naturalmente entregue por Close. Infelizmente, a brilhante sutileza de Runge parece se perder completamente quando este embarca em flashbacks, com fotografia quente e diálogos óbvios e mal desenvolvidos. Toda a riqueza dos personagens idosos é reduzida em suas versões das décadas de 1950 e 1960, efeito de um roteiro simplista e expositivo e de atuações rasas.

Em uma demonstração do que Claire Foy brilhantemente citou em seu discurso no Critic’s Choice Awards deste ano, The Wife mostra ao seu público que o papel da esposa na cinematografia não é ser “a esposa”. Demonstrando muito bem a dinâmica de reconhecimento versus esforço da sociedade machista, a obra apresenta ricos personagens em oscilações de eventos bem e mal trabalhados. Sem escapar de certos clichês, o filme não explora todo seu potencial, ainda que suas atuações ricas salvem os cem minutos, entregando uma densa história ao espectador.