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Um Espião Animal

Paródia de clássicos filmes de espionagem, animação vai além do público infantil e cativa também os adultos

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Fox/Divulgação

Todos os anos chegam aos cinemas filmes sobre espiões, mas com tantas novas produções, nem sempre é fácil inovar nas tramas. A mais nova produção da Blue Sky consegue trazer frescor ao gênero e ainda por cima no formato de desenho animado.

Um Espião Animal (Spies In Disguise, EUA, 2019 – Fox) narra a história do melhor espião do mundo, Lance Sterling (dublado na versão original por Will Smith e na brasileira por Lázaro Ramos), que precisa unir-se ao ingênuo cientista Walter Beckett (Tom Holland, em inglês) ao ser acusado de um crime que não cometeu. Querendo desaparecer para iniciar sua própria investigação, Sterling acaba, acidentalmente, transformando-se em um pombo e assim a jornada dos dois opostos se desenrola.

A animação é uma ótima paródia de longas de espionagem. Com enredo interessante, traz mensagens importantes para o público infantil como o trabalho em equipe, autoconfiança e como a violência não precisa ser a resposta. Os dois personagens principais são carismáticos e bem construídos, fazendo com que a história flua de maneira natural e divertida.

Como qualquer filme de espião, as cenas de luta estão presentes, seja com apetrechos hipertecnológicos, pombos ajudantes ou até mesmo glitter, elas não deixam a desejar. Um Espião Animal torna-se atrativo não só para crianças, mas para toda a família. O humor não se baseia em piadas clichês de histórias infantis e é capaz de divertir outras faixas etárias.

O roteiro é criteriosamente pensado: nada é citado ou aparece na tela sem motivo. Todo esse cuidado só não foi dedicado à introdução do vilão. O antagonista é extremamente promissor, mas suas razões e explicações ganham pouco tempo na história. Uma pena, já que é um personagem que destoa muito do típico vilão de filmes de criança e seria interessante entender mais sobre sua trajetória anterior.

Mesmo assim Um Espião Animal surpreende e presenteia o público com um enredo divertido e cheio de ação. Consegue quebrar barreiras do subgênero de espionagem ao entrar na animação e sair do foco infantil e cativar também o público adulto.

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Green Book: O Guia

Comédia dramática baseada em história verídica expõe o preconceito racial no sul dos Estados Unidos no começo dos anos 1960

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Texto por Leandro Saueia

Foto: Diamond Films/Divulgação

Uma comédia dramática sobre tensão racial passada no início dos anos 1960 não é bem o tipo de filme que seria de se esperar de Peter Farrelly em sua primeira incursão cinematográfica longe de seu irmão Bobby – com quem realizou longas mais afeitos ao besteirol como Quem Quer Ficar Com Mary ou Debi e Lóide. Mas foi nesse terreno que o diretor resolveu apostar agora, e, de maneira no geral, a experiência se mostrou bem sucedida.

Green Book: O Guia (Green Book, EUA, 2018 – Diamond Films) é um road movie baseado em fatos reais – ênfase no baseado, já que as reclamações sobre as liberdades tomadas pelo roteiro não foram poucas. O filme conta a história de Tony Vallelonga, um italiano bronco e racista, mas, claro, de bom coração, vivido por Viggo Mortensen. Ao se ver temporariamente sem o seu emprego de segurança na boate Copacabana, em Nova York, ele acaba aceitando o trabalho de ser o motorista de um músico negro, o excêntrico pianista Don Shirley (Mahershala Ali), em uma excursão pelo sul dos EUA em uma época de segregacionismo institucionalizado. O roteiro é baseado nas memórias de Vallelonga, que nos anos seguintes faria pequenos papéis em filmes como O Poderoso Chefão, Um Dia de Cão, Os Bons Companheiros e também na série The Sopranos.

O longa não escapa dos clichês típicos desse tipo de história em que dois opostos são forçados a conviver juntos e assim descobrindo que têm mais em comum do que imaginavam. Ainda assim, garante duas horas divertidas que também podem gerar alguma reflexão, mesmo que em escala bem menor do que a observada em Infiltrado na Klan, de longe o melhor filme dessa safra do Oscar.

Green Book (assim chamado em alusão a um guia com endereços para motoristas negros em viagem pelo sul não se meterem em enrascada com os brancos racistas)  é daqueles trabalhos que crescem quando visto como parte de uma plateia. O mérito maior do sucesso cabe ao par central de atores, ambos excelentes. Viggo se revela um inspirado comediante – esta é a grande razão para recomendar que ele seja assistido na tela grande.

A alma da história, entretanto, pertence a Ali, que lida com um personagem bem mais complexo. O Don Shirley que ele precisa encarnar é um homem em perpétuo estado de inadequação: um negro educado na mais alta cultura e que, por isso não tem nada em comum com a visão típica que os brancos têm dos afro-americanos (ele sequer sabe quem é Little Richard!). Ao mesmo tempo, Don jamais será aceito nas altas rodas, que só querem fazer algum uso de seu talento mas sequer estão dispostos a deixá-lo usar o mesmo banheiro ou comer em seus restaurantes. O fato dele também revelar tendências homossexuais, obviamente não facilitam em nada a sua vida.

Green Book resvala um pouco na pieguice, tem algumas saídas fáceis e não deixa de manipular as emoções do espectador, mas tudo de forma aceitável. Sabe aquela sensação de se pegar gostando de uma canção que você sabe que é brega? É um pouco por aí. Não tem mal nenhum nisso.