Movies

O Dilema das Redes

Docudrama perturba ao revelar que grandes empresas de tecnologia da internet sempre manipularam o comportamento dos usuários

Texto de Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Netflix/Divulgação

Em uma época marcada pela liberdade de opinião e em que todos acreditam ser donos de seus próprios pensamentos e ações, O Dilema das Redes (The Social Dilemma, EUA, 2020 – Netflix) vem para escancarar o quão erradas as pessoas estavam sobre isso. Dirigido por Jeff Orlowski, o documentário não é uma obra extraordinária, porém torna-se indispensável em uma era que todos passaram a acreditar apenas naquilo que lhes convém.

Não é nenhuma novidade que as redes sociais e a tecnologia impactam o modo de vida de pessoas do mundo inteiro e põem valores universais – como a democracia – em xeque. Este tema já foi tão exaustivamente debatido em reportagens e filmes que não consegue mais chocar os espectadores da forma que se esperava. Mas não é isso o que acontece em O Dilema das Redes. O que difere o longa de Orlowski de tantas outras produções é justamente o tapa na cara do espectador quando ele se depara com o fato de que todos os usuários das redes sociais – isto é, boa parte da população mundial – são apenas cobaias de um grande experimento de marketing. São apenas ratos de laboratório fazendo a grande roda do capitalismo girar.

A ideia romantizada de que as redes sociais só trouxeram benefícios e conectaram famílias distantes é, para se dizer o mínimo, um tanto ingênua. No docudrama de pouco mais de uma hora e meia, o público é apresentado aos depoimentos de grandes ex-executivos e ex-designers das maiores empresas de tecnologia do planeta como Google, YouTube, Facebook, Instagram e Pinterest e descobre que o trabalho desses homens era basicamente criar os melhores mecanismos para prever as futuras ações de cada usuário e, assim, ter assertividade quando as plataformas lançassem um anúncio publicitário. Ou seja, todas as pessoas que acreditam estarem apenas se conectando com amigos e familiares e compartilhando vídeos bacanas são, na verdade, o produto vendido em um mercado que negocia essencialmente o comportamento humano. Não parecemos tão donos de nossos próprios hábitos agora, não é mesmo? 

Se você acha que os proprietários de big tech são bonzinhos e por isso as redes sociais são espaços grátis, está redondamente enganado. Essas redes são pagas por anunciantes e por um único motivo: conhecer precisamente o comportamento de cada um. As plataformas oferecem basicamente a mudança gradual dos hábitos dos usuários, de suas crenças e até de quem são. Visivelmente, essas empresas deixaram de apenas prever as vontades dos usuários, mas passaram a ter a capacidade de criá-los. Depois dessa visão íntima e crua dos bastidores das redes, parece que não somos tão responsáveis por nossas próprias ações quanto acreditávamos. 

Alternando com os testemunhos dos ex-funcionários, o longa apresenta uma família norte-americana ficcional – bastante clichê, diga-se de passagem – que é afetada pelo uso das redes sociais. Embora a dramatização sirva para explicar para os leigos como funciona a manipulação por meio dos algoritmos, algo geralmente muito abstrato, ela é tão embaraçosa e cafona que em alguns momentos chega a ser cômica.

Além dos magnatas do Vale do Silício (a maioria de homens brancos até cerca de 35 anos), também são apresentadas as opiniões de especialistas como Soshana Zuboff, professora emérita de Harvard – que é, inclusive, uma das únicas mulheres entrevistadas. O problema é que a grande ênfase está nos milionários arrependidos que retornam do lado sombrio da força (leia-se big techs) para trazer a grande solução e salvar o mundo de um problema que eles mesmos criaram. Me poupe! No entanto, o recado do documentário é tão relevante e assustador que felizmente os defeitos e as fatídicas encenações são quase esquecíveis. 

Trazendo para os dias atuais a clássica alegoria do terror do cientista que foi longe demais com sua criatura, O Dilema das Redes consegue uma façanha difícil de ser alcançada ultimamente: assustar. Ouvir da boca dos homens que estavam por trás de toda essa tecnologia que os efeitos nefastos das redes sociais – como as notificações e o movimento de deslizar o dedo para cima – nunca foram acidentais é algo poderoso. O vício, a insegurança e a ansiedade que as redes geram não foram meros imprevistos na programação. Pelo contrário, foram metas predefinidas, arquitetadas e pensadas para conseguir o que toda e qualquer rede deseja: manipular quem somos. 

Ao se aproximar do final da narrativa, a sensação asfixiante torna-se cada vez maior. Foi criada uma realidade da qual é quase impossível sair. Porém, para além desta visão apocalíptica, o longa tenta dar alguma pontinha de esperança aos espectadores, dizendo que talvez (e só talvez) ainda seja possível mudar a realidade. Se não podemos simplesmente fingir que as redes sociais nunca existiram, então é preciso reformá-las. O Dilema das Redes é um grito em alto e bom som que emerge da cacofonia de produções sobre a nocividade tecnológica. Talvez este longa perturbador seja um despertar da consciência de que essa realidade está em toda parte e é preciso questioná-la. Caso contrário, vamos continuar vivendo dentro de uma grande ilusão na qual não somos o mágico, mas o público fascinado e cego. 

Music

Caetano Veloso – ao vivo

Ao lado dos três filhos, cantor comemora 78 anos fazendo da tão esperada live um doce acontecimento musical em meio à pandemia

caetanolove2020mb

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Globoplay/Reprodução

live de Caetano Veloso não foi qualquer coisa: foi um acontecimento. Depois de meses tentando convencer o baiano a se apresentar em tempo real, Paula Lavigne, empresária e companheira do artista, fez valer seu poder de persuasão – que já dura anos – e conseguiu que Caetano fizesse um show quase todo acústico ao lado dos filhos para comemorar seus 78 anos de vida, no último dia 7 de agosto e às vésperas do dia dos pais.

Às 21h30, a família Teles Veloso abriu a porta de casa para os convidados conectados no serviço de streaming Globoplay (com sinal inclusive para não-assinantes, vale ressaltar), indo na contramão de outros artistas, como Milton Nascimento e Gilberto Gil, que fizeram lives pelo YouTube. O cenário não deixou de seguir a grandiosidade de seus shows em teatros: Caetano e os filhos Zeca (à direita), Moreno e Tom (à esquerda), posicionaram-se como na turnê Ofertório, só que à frente de uma estante colossal. Atrás dos quatro, retratos, DVDs de filmes prediletos, coleções de CDs (como Chico Buarque), a Bíblia Sagrada (o baiano é ateu; Paulinha, evangélica), toca-discos e livros, muitos livros. Um pouco do acervo que preenche uma das mentes mais profusas da intelligentsia brasileira, apesar do cantor sempre se esquivar do título de intelectual.

Caetano é um pensador popular, que, desde o início da pandemia, virou hit nas redes sociais. Filmado pela insistente Paulinha, tornou-se o rei da dupla paçoca & kombucha. Deixou a vaidade de lado, aparecendo humildemente de pijamas ao estilo João Gilberto, ora deitado na cama assistindo à apresentação dos Rolling Stones no evento on-line One World Together at Home, ora na sala tocando violão no sofá amarelo. Surgiu como um vovô babão, ninando docemente o netinho recém-nascido, filho do caçula Tom.

À medida que divulgava os vídeos caseiros informais, a eterna Paulinha lançou a campanha #LiveALenda. Seria um exagero chamar Caetano de lenda, afinal?

Não, não é. Concorde-se ou não com seu posicionamento político-ideológico, fato é que a genialidade e contribuição artística de Caê transcendem qualquer opinião. Basta lembrar que a música popular brasileira é dividida entre antes e depois da Tropicália, quiçá o movimento artístico-musical mais original da cultura brasileira. Suas canções são objeto de análises semântico-discursivas em salas de aula Brasil afora e apreciadas por gênios da música pop internacional como David Byrne e Beck.

Caetano sempre foi um crítico de cultura, contraditório por natureza, apaixonado por artes (sobretudo o cinema) e nunca deixou de mostrar sua indignação pelas injustiças sociais desde a época dos festivais – quando ele cobrava a reação dos jovens que “queriam tomar o poder”. Como sobrevivente da ditadura e do exílio, Caetano tem respaldo e direito de se manifestar e discursar como bem entende. A diferença é que ele já não precisa gritar. Aos 78 anos, sussurra e canta sua revolta em modo acústico. Assim como fez em “Podres Poderes”, canção-manifesto que não poderia deixar de ser lembrada na live, cujo set list contou com vários de seus sucessos, a maioria espalhada entre as décadas de 1970 e 1990. Muitos deles inseridos em novelas e minisséries da Globo, como a primeira do repertório do show, “Milagres do Povo”. Aliás, só mesmo um milagre para nos salvar deste ano pandêmico.

Tranquilo e sereno, Caetano continuou passeando pelo seu repertório com uma série de canções-homenagem. “Tigresa”, composta para uma personagem vivida em novela por Sônia Braga; “Sampa”, uma declaração de amor para a cidade de São Paulo; “Cajuína”, sobre a morte de Torquato Neto; “Leãozinho”, que feita para o baixista Dadi (Tribalistas, A Cor do Som, Novos Baianos). E por falar em Novos Baianos, ao cantar “Coisa Acesa”, ele lembrou merecidamente Moraes Moreira, morto após um infarto no último mês de abril.

Pela primeira vez, cantou “Pardo”, que compôs para a talentosa Céu. Seus filhos também contribuíram com obras autorais. “Talvez”, lançada pelo baiano nas plataformas digitais no dia da live, foi cantada em dueto com seu autor Tom. A pedido da mãe, Zeca comandou a tocante “Todo Homem”, feita pelos quatro para a turnê Ofertório. “Sertão” é outra que veio deste show. Seu coautor Moreno encerrou a live com a sua animada “How Beautiful Could A Being Be”. Também em inglês, Caetano mandou uma inesperada “Nine Out Of Ten”, do conceituado álbum Transa (lançado em 1972 e gravado no ano anterior, ainda durante o exílio em Londres), na qual ele dispara: “I’m aliiiiiive”.

Como todos esperavam, Caetano aproveitou o espaço na mídia para tecer críticas ao (des)governo federal. Lamentou o fato de, no meio de uma pandemia, o país ter há três meses um ministro da saúde interino e um ministro do meio ambiente “que é contra o meio ambiente”. Lembrando os indígenas mortos pela covid-19, entoou “Um Índio”.

Além disso, falou um pouco sobre o seu próximo projeto, em parceria com o Balé Folclórico da Bahia, que está pausado por conta da pandemia. Ao perguntar como poderiam ser feitas as doações para o grupo, por meio do link de seu Instagram, Caetano brincou: “preciso ler a minha bio”. Moreno teve que explicar a painho o que significava isso.

A live deixou evidente que Caetano foi capaz de construir um legado cultural com sua obra, filhas-canções e filhos de carne e osso. Um alento para o futuro da MPB. E quando o pai errava a letra de alguma canção, Moreno o ajudava, com sua tranquilidade de um monge.

Enquanto o futuro está nas mãos dos bioquímicos e aguarda pelo milagre da vacina, “Desde que o Samba é Samba” (gravada no álbum Tropicália 2, lançado em 1993 em dupla com Gilberto Gil) se torna um mantra capaz de deixar nossa cuca e mundo um pouco mais odara. Seus versos dizem: “Solidão apavora/ Tudo demorando em ser tão ruim/ Mas alguma coisa acontece/ No quando agora em mim/ Cantando eu mando a tristeza embora”.

Set list: “Milagres do Povo”, “Tigresa”, “Coisa Acesa”, “Pardo”, “Sampa”, “Pulsar”, “O Homem Velho”, “Luz do Sol”, “Um Índio”, “Cajuína”, “Talvez”, “Queixa”, “Sertão”, “Reconvexo”, “Nu com a Minha Música”, “Desde que o Samba é Samba”, “Trilhos Urbanos”, “Diamante Verdadeiro”, “Podres Poderes”, “Nine Out Of Ten”, “Qualquer Coisa”, “Tá Combinado”, “Todo Homem”, “Odara”, “Leãozinho”, “Sozinho” e “How Beautiful Could a Being Be”.

Music

Metronomy

Oito motivos para não perder o show do quinteto inglês que, para muitos, tem a cara e a alegria do verão em seu synthpop

metronomy2019MB

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Divulgação

Fundado há vinte anos, o Metronomy chega ao Brasil com seu synthpop alegre e irresistível e que, para alguns, é a cara do verão que está quase aí. Joseph Mount (voz, guitarra e teclados), Oscar Cash (teclados e saxofone), Gbenga Adelekan (baixo), Michael Lovett (teclados e violão) e Anna Prior (bateria) prometem agitar a noite de quatro capitais do nosso  país com seus sintetizadores, grooves, melodias grudentas e uma soma de estilo e irreverência na mise-en-scène. No Brasil, serão quatro apresentações dentro do projeto Popload Gig: São Paulo (dia 7 de dezembro, na Audio), Curitiba (dia 9, na Ópera de Arame), Rio de Janeiro (dia 11, no Sacadura 154) e Porto Alegre (dia 13, no Opinião). Mais informações sobre os estes concertos você encontra, respectivamente, aqui, aqui, aqui e aqui.

O quinteto traz para cá o show baseado em seu novíssimo disco, Metronomy Forever, lançado em setembro ultimo e que vem sendo apresentado pela Europa. No set list, claro, não faltarão sucessos dos álbuns anteriores. Como “The Look”, “Love Letters” e “The Bay”.

Abaixo, o Mondo Bacana lista oito motivos para você passar até a semana que vem dançando com os ingleses. Especialmente se você morar ou estiver na capital paranaense na próxima segunda, onde o grupo toca pela primeira vez.

Ligação com o Coldplay

A banda britânica lançou seis álbuns de estúdio (o primeiro é de 2006) e já se apresentou quatro vezes no Brasil. O Metronomy se formou em 1999 em Devon, região onde também nasceu o vocalista do Coldplay. Aliás, em passagem pelos Estados Unidos, os conterrâneos chegaram a excursionar com a banda de Chris Martin.

Nome de batismo

Joe Mount batizou a banda de Metronomy porque achou o nome interessante e que seguia na mesma linha de bandas como Autechre e Funkstorung. A palavra significa metrônomo, equipamento que músicos utilizam para marcar as batidas do compasso e é importante para aguçar a precisão rítmica dos mesmos.

Balada na segunda-feira

Quantas vezes você já saiu de casa na noite de uma segundona? Então, o show do Metronomy é uma ótima oportunidade para se divertir em pleno iniciozinho de semana. Além disso, a performance será na Ópera de Arame, cartão-postal de Curitiba que costuma deixar artistas gringos que ali se apresentam de queixo caído. E mais: depois do concerto, o baixista da banda mais a vocalista do CSS, Lovefoxxx, atacarão de DJs e transformarão o espaço num grande dancefloor.

Dança sem culpa

O mundo está em ruínas. Você liga a televisão, ouve rádio ou se conecta à internet e só vê tragédia sendo noticiada. Esse, então, é outro bom motivo para você ir ao show do Metronomy e se acabar de dançar ao som dos britânicos, famosos no mundo inteiro pelo hit “The Look” – cujo clipe já passa de 40 milhões de visualizações no YouTube. Bora curtir a sonzeira e esquecer as dores do mundo por quase duas horas?

Respeito na cena indie

Nos últimos treze anos, o Metronomy se estabeleceu como uma das mais interessantes e respeitadas bandas da cena indie mundial, tendo sido destaque em críticas e matérias de publicações como a NME, o Guardian e a DIY.  O quinteto ainda se apresentou na BBC Radio 1, no lendário programa Later With Jools Holland da BBC 2 e fez concertos de ingressos esgotados nos palcos da Brixton Academy, Somerset House e Royal Albert Hall. Espera que ainda tem mais: a banda foi headliner do Park Stage no mais cultuado festival musical europeu, o Glastonbury.

Parceria famosa

A banda teve o charmoso e fofíssimo clipe de “Love Letters” dirigido pelo cultuado Michel Gondry. O farncês é um dos nomes mais famosos do cinema pop dos anos 2000 e assinou logas-metragens como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Rebobine, Por Favor.

Lançando moda

O quinteto gosta de lançar moda e já trabalhou com o estilista alemão Karl Lagerfeld, diretor da Chanel falecido neste ano. Também criou uma garrafa de cerveja (!!!), em parceria com a Heineken.

New wave revival

O show é para os fãs de synthpop, subgênero da new wave e que, como o próprio nome diz, é marcado pelos sintetizadores em substituição às guitarras no comando dos arranjos. Um dos embriões deste estilo foram os discos e concertos da banda alemã Kraftwerk lançados nos anos 1970. No Reino Unido, berço da Metronomy, o synthpop surgiu na era pós-punk do final da mesma década e se estendeu como febre até meados dos 1980, quando despontaram bandas como New Order, Soft Cell e Depeche Mode. Se você curte nomes mais recentes como Hot Chip, Ladytron e Cut Copy, então vale (e muito!) a pena conhecer o trabalho de Mount e sua turma.

Movies

Rambo: Até o Fim

Retorno de clássico personagem de Sylvester Stallone é um amontoado de convencionalidades regado a violência desenfreada

ramboateofim01

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Já não é novidade nas minhas resenhas citar o impulso mercadológico e preguiçoso de Hollywood em reviver franquias, tornando-as infindáveis por meio de continuações ou até reboots. Num ponto alto, Rambo não parece interessado somente no retorno financeiro que provém da franquia, soando como um verdadeiro interesse de Stallone em “desenvolver” seu icônico personagem. Dito isto, também não deve surpreender a impressão que desenvolverei aqui. Não sou fã dessa franquia, de maneira alguma, porém opto por encarar – ao menos num primeiro momento – o filme distante de seu contexto com demais obras. Ou seja, me atenho aqui apenas a Rambo: Até o Fim (Rambo: Last Blood, EUA, 2019 – Imagem Filmes).

Sem mais ressalvas, a trama escrita por Matthew Cirulnick e o próprio Stallone (com a história desenvolvida pelo ator e por Dan Gordon) compila um amontoado de referências para discorrer a busca de John Rambo por sua “filha adotiva” – neta da antiga empregada de seu pai, que permanece morando no rancho do protagonista, por quem ele desenvolveu um forte afeto e auxiliou a criação. Logo de cara, Gabriella é raptada por um cartel de tráfico sexual mexicano e o que se segue é a busca por vingança da violência cometida contra ela. O roteiro mistura elementos de Busca Implacável, Você Nunca Esteve Realmente Aqui, a série John Wick e até de 007: Skyfall para construir uma narrativa que não preza pelo desenvolvimento. O filme não esconde o interesse em acelerar a história para chegarmos à violência desenfreada.

Sendo assim, não há muito o que discutir a respeito da direção de Adrian Grunberg, cujo único outro crédito de relevância é Plano de Fuga (trama com Mel Gibson encabeçando o elenco), visto que ela é operante porém também não passa disso. A convencionalidade dos planos só é rompida quando, numa tentativa de extrair contexto emocional com um mau uso de linguagem, Grunberg opta por close-ups claustrofóbicos durante diálogos com carga dramática. A ação, que inicia muito confusa, torna-se melhor dirigida e montada ao longo do filme – a sorte do espectador é que ela só se intensifica no final do longa.

Montagem essa que oscila entre operante, tal qual sua direção, e ruim. Quase oitenta anos após a abertura de Cidadão Kane, uma aula de dissolução, Rambo: Até o Fim opta pela cafonice em sua finalização e uma confusão de cortes em sua abertura, uma cena na qual o protagonista tenta salvar um grupo de pessoas de uma noite tempestuosa na montanha, e nos diálogos.

É verdade que este novo longa de Rambo nunca almejou ser mais que entretenimento barato para quem gosta de uma bela porrada, mas – agora, sim, teço uma comparação – é muito aquém de outras tentativas deste porte, como Creed ou até mesmo o primeiro John Wick, segundo a aclamação do público, que toma uma opinião contrária à minha. Não empolga, mas não entedia (muito), como faz John Wick 3. Não desenvolve, mas sempre deixou claro que não queria fazê-lo.

Music

Garotos Podres + Sick Sick Sinners – ao vivo

Noite do Psycho Carnival também contou com as bandas João Cascaio, Wood Surfers, Red Lights Gang e a húngara Tom White and The Mad Circus

SickSickSinners2019cwb_prioliveira

Sick Sick Sinners

Texto por Guilherme Motta

Fotos: Priscilla Oliveira/CWB Live

Curitiba têm o carnaval mais rock’n’roll da América Latina. Graças ao Psycho Carnival, festival que reúne bandas de psychobilly, rockabilly, punk e outros estilos ligados à contracultura contemporânea do rock. O evento é realizado sempre no feriadão do carnaval. Geralmente são quatro ou cinco dias de muita música extrema. Confesso que não sou o maior dos fãs do gênero musical predominante do evento, o psychobilly, porém meu primeiro contato com o festival e o gênero musical foi há cerca de 16 anos, graças a minha mãe, que estava fazendo a cobertura do evento. Como eu era muito jovem, não pude acompanhá-la. No dia seguinte, ao acordar, ela imediatamente me deu o CD Rock’n’Roll is a Devil’s Music, autografado da banda alemã Chibuku, uma das principais atrações daquela edição do Psycho Carnival. Ali eu descobri o que era o psychobilly e às vezes escuto esse álbum. Até hoje. Inclusive agora, escrevendo esse texto.

Mas agora voltemos aos tempos atuais. Em 2019, na vigésima edição, foram quatro noites de puro barulho dançante no Jokers, estabelecimento que recebe o evento desde suas primeiras edições. E vamos falar especificamente da noite do dia 3 de março, quando se apresentaram as bandas João Cascaio, Wood Surfers, Tom White and The Mad Circus, Red Lights Gang, Sick Sick Sinners e Garotos Podres.

WoodSurfers2019cwb_prioliveira

Wood Surfers

A abertura da noite ficou por conta dos caras da banda João Cascaio e seu country folk à moda tradicional. Para quem curte um country music “de raiz” vale muito a pena ir atrás do trampo dos caras. O destaque é a utilização de diversos instrumentos não muito convencionais nas bandas do festival, como o lap steel e o banjo, que inclusive são tocados simultaneamente pelo guitarrista. Logo na sequência o palco foi do trio londrinense de surf music instrumental Wood Surfers. Na minha humilde opinião, foi a surpresa da noite. Lembrou muito uma banda curitibana chamada Maremotos, que costumava ouvir quando mais jovem. A banda faz um trabalho excelente mantendo a linha tênue entre a surf music clássica e o psicodelismo.

Depois chegou a vez de uma das atrações mais esperadas do festival, Tom White and The Mad Circus. Banda de origem húngara, que conta com um brasileiro no contrabaixo. O som é o clássico rockabilly. Muito enérgico. Realmente não dá pra assistir parado. Logo no início da apresentação já se formou uma imensa roda de dança no centro do salão. As músicas são executadas com extrema maestria por parte dos integrantes, o que resulta em uma experiência satisfatória vê-los ao vivo. A The Red Lights Gang subiu ao palco com a mesma energia. Com som influenciado por country, western swing e rockabilly, não deixou ninguém parado. No set list rolaram versões de clássicos de Siouxsie & The Banshees e Sonics. A banda desempenha um papel importante na cena paulistana. Vale conferir o álbum 13 desses caras.

TomWhiteandTheMadCirus2019cwb_prioliveira

Tom White and The Mad Circus

A próxima atração era figurinha carimbada do festival, inclusive com a formação trazendo os organizadores do mesmo. O trio curitibano Sick Sick Sinners é sempre um dos nomes mais esperados de todos os anos. E com razão. Os caras chegam arregaçando tudo o que está pela frente. Já no primeiro instante em que Vlad Urban soa o primeiro acorde da guitarra começa um sinistro, violento e amoroso moshpit em todo o salão. No Jokers ninguém ficou de fora, nem mesmo nos camarotes. É realmente muito impressionante a energia que os caras passam ao vivo. Se você nunca viu os caras tocarem, vai por mim: tenta não perder a próxima oportunidade.

Fechando a terceira noite tivemos uma lenda viva do punk rock nacional. Depois de uma longa briga judicial, os Garotos Podres voltaram à ativa com o seu vocalista, único remanescente da formação original, Mao. Assim que as cortinas se abriram, um coro de absolutamente todas as pessoas que estão ali presentes ecoou pela casa. A música “Garoto Podre” Foi extasiante. O salão se dividia entre pogos, empurrões e muitos abraços. Difícil descrever o sentimento na hora. Entre hinos do punk e aulas de História, a madrugada foi seguindo com a extrema empolgação dos integrantes. A felicidade de voltar a fazer o que a banda sempre pregou era visível.  O set list da banda foi composto por todos os clássicos lançados nesses quase 40 anos fazendo punk. Ninguém deixou de cantar nada em nenhum momento, o que, à parte, foi um espetáculo e tanto.

GarotosPodres2019cwb_prioliveira

Garotos Podres

Obrigado, Garotos Podres, por proporcionarem uma das melhores noites de punk rock da minha vida. Obrigado, Vlad e toda a organização do Psycho Carnival, por nos dar a oportunidade de vermos algumas das bandas das quais gostamos tanto.