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A Morte Te Dá Parabéns 2

Sequência parte do horror slasher para apostar no cômico e acaba se desgarrando da dependência do filme original

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Sucesso de bilheteria de 2017, A Morte Te Dá Parabéns teve boa aceitação do público, ao retratar a jornada de Tree Gilbman (Jessica Rothe) para descobrir seu assassino, que, ao matá-la, fazia com que a protagonista retornasse para o início do dia de seu aniversário. Os personagens de Scott Lobdell voltam ao cinema esse ano, sob direção e roteiro de Christopher Landon .

Desta vez, em A Morte Te Dá Parabéns 2 (Happy Death Day 2, EUA, 2019 – Universal Pictures) somos apresentados à causa do loop temporal: uma máquina construída por Ryan (Phil Vu), Samar (Suraj Sharmai) e Dre (Sarah Yarkin). Ao ser reintroduzida nessa estrutura, Tree é lançada num universo alternativo, onde sua mãe ainda está viva e Lori (Ruby Modine) não tenta assassiná-la. Ainda assim, alguém entra em conluio com o serial killer John Tombs (Rob Mello), causando a morte de diversos personagens – até que Tree solucione o caso, morrendo e recomeçando o tal loop no meio do caminho.

Para quem não assistiu o antecessor, A Morte Te Dá Parabéns 2 demora para engrenar. A trama se repete em relação ao longa de dois anos atrás, mas a forma com que é tratada pela direção dá respiro ao slasher. Seu primeiro ato é problemático, com seus personagens construídos de forma caricata e plastificada, mas o humor passa a funcionar no segundo ato, paralelamente ao arco emocional da protagonista. Sendo assim, o espectador chega ao terceiro ato envolvido com os personagens – ainda que unidimensionais.

Carter, interpretado por Israel Broussard (que não é namorado de Tree neste universo), representa uma subtrama bem aproveitada, além de contribuir para o arco principal da protagonista. Ambos entregam as melhores atuações do filme, marcado pela caricaturização de seus personagens secundários.

O desenho de som é satisfatório, situando bem o espectador e dando espaço para a trilha sonora de Bear McReary. Suas composições beiram o convencional, mas apresentam refino competente.

Desta forma, A Morte Te Dá Parabéns 2 é um filme que tem certa dependência de seu predecessor, mas a utilização da comédia é bem-vinda e, junto das explicações e óbvias referências ao filme original, traz independência ao longa. Parte de um horror slasher para não se levar a sério e ganha sérios pontos com isso.

Movies

Vice

Atuação de Christian Bale é o ponto alto desta cinebiografia do vice-presidente de George W. Bush com muito humor e crítica política

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Um dos filmes mais comentados nesta temporada de premiações, acumulando indicações e desenvolvendo um hype de Oscar, é Vice (EUA, 2018 – Imagem Filmes). O filme de Adam McKay (que em 2015 já mexera em outra grande ferida recente de seu país em A Grande Aposta) conta a trajetória de Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos durante o governo de Bush Filho (2001- 2009), desde sua origem em Wyoming até os dias atuais. E será que toda a repercussão da obra vale o ingresso?

A trama retrata as nuances do poder adquirido por Cheney, brilhantemente interpretado por Christian Bale, que repete a parceria com McKay. Aqui, Bale também passa por transformações físicas para seu protagonista, sendo que o ponto alto de sua atuação é o detalhe. Cada trejeito do político americano é cuidadosamente arquitetado por seu ator. O elenco de apoio também não deixa a desejar mas poderia ser melhor aproveitado. Como Amy Adams, que interpreta sua esposa, Lynne Cheney, demonstrando seu inegável talento com seus momentos de brilhantismo; e Steve Carell, que orbita entre o drama sádico e a inconveniência humorística como o secretário de defesa Donald Rumsfeld.

McKay constrói o filme de maneira equivalente a seu laureado antecessor, repetindo seu estilo de narração com traços de documentário investigativo com o acréscimo da maturidade no tom. A seriedade da trama privilegia o humor fortemente visual da obra, que se aproveita da estética cinematográfica para preencher suas duas horas com momentos genuinamente engraçados. Grande mérito de Viceé  a utilização de metalinguagem, que presenteia o espectador com as melhores piadas do filme.

Numa outra camada de metalinguagem, o filme alterna suas razões de aspecto e cria uma formidável confusão, na qual não entendemos se as imagens mostradas são mesmo reais ou gravadas para esta produção. Essa estranha sensação amplifica as consequências das decisões de Cheney e sua equipe, o que torna o filme particularmente denso, sem abandonar a leveza com que McKay trata suas cenas.

A fotografia é simples, ressaltando a narrativa visual do roteiro e criando a tênue margem entre realidade e ficção que dança ao longo do filme. Os planos abertos e posicionamentos simples da obra são bem montados, numa alternância de ritmo entre os momentos mais tensos e calmos, sem que deixemos de enxergar o poder nas mãos de Cheney. Ainda assim, quando a trama embarca em seus episódios sérios, não poupa esforços. Cenas fortes preenchem a tela, além de críticas (sutis e óbvias) à política da direita estadunidense. Trump e seus eleitores têm uma especial participação porque Vice mescla humor à crueza da vida política de uma das nações mais poderosas do mundo.

McKay consegue demonstrar seu lado “humano” presente em relações pessoais. Com uma iconografia que traça paralelos entre o personagem de Bale e o icônico Winston Churchill, a obra quase faz o espectador sentir empatia pelo vice-presidente de George W. Bush. Ainda assim, o roteiro e a camada de realidade que permeia o filme o vilanizam sem a necessidade de iluminação nefasta e revelação de planos malignos do político. Escancarando seus erros e as consequências deles, Vice nunca te deixa esquecer que seu protagonista é Dick Cheney.

[Nota do editor: Na noite de 7 de janeiro, ao receber o Globo de Ouro da categoria de melhor ator em comédia ou musical, Christian Bale agradeceu a satanás pela inspiração ao papel de uma pessoa sem qualquer carisma.]