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A Vida Invisível

Com extrema sensibilidade, Karim Aïnouz emociona ao retratar a invisibilidade feminina na sociedade brasileira de algumas décadas atrás

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Textos por Janaina Monteiro e Leonardo Andreiko

Fotos: Sony/Divulgação

Quando A Vida Invisível (Brasil/Alemanha, 2019 – Sony) termina e surgem os letreiros, a sensação é de que acabamos de vivenciar uma profunda imersão na vida secreta de nossas avós, principalmente para os espectadores – como eu – cujo sangue português corre nas veias. É bem possível que você fique atônito, perplexo, abalado, devastado ou se renda a qualquer outro sentimento que talvez provoque lágrimas, como ocorreu à plateia de críticos do último festival de Cannes, onde o filme do diretor Karim Aïnouz ganhou o prêmio da mostra paralela Um Certo Olhar. Em agosto, o título também foi escolhido pelo país como o seu candidato a uma possível vaga ao Oscar de filme em língua não inglesa em 2020, superando o também premiado, badalado e cultuado Bacurau.

Martha Batalha, autora do livro que inspirou o filme e cuja história retrata a vida de duas irmãs separadas primeiro pela paixão, depois pelo pai e então pelo destino, já adverte na introdução: as personagens Eurídice e Guida foram, sim, baseadas “na vida das minhas e das suas avós”. Eurídice, Guida e todo o núcleo feminino são retratos da mulher que teve de abandonar – ou pelo menos adiar – os sonhos para se dedicar à família, aos próprios filhos ou aos filhos dos outros. Elas são o espelho da mãe solteira e da mulher que era chamada de biscate caso ferisse os bons costumes. É sinônimo da mulher invisível, que tinha como dever obedecer às regras sociais, ser refém do marido. Sua frustração era combatida com esperança, convertida em forma de netos em vez de diplomas pós-doc.

O melodrama tropical (como fora rotulado o filme) nos remete à tradicional família de imigrantes portugueses na época pré-pílula anticoncepcional, quando a mulher era feita para ser mãe e ainda precisava, sim, trabalhar fora. Para adaptar a história às telas, o diretor Aïnouz e os roteiristas Inês Bortagaray e Murilo Hauser (este, um curitibano da gema) trabalharam por três anos a fim de extrair a essência da obra de Martha e conseguiram retratar a sociedade patriarcal daquele tempo com uma verossimilhança impressionante.

O cenário é a cidade do Rio de Janeiro, a Floresta da Tijuca, o bairro de Santa Tereza. Eurídice (Carol Duarte) mora com os pais e a irmã mais velha Guida (Julia Stockler) numa casa em São Conrado. A jovem, de 18 anos, é um talento nato no piano, sonha em ser concertista e sempre dá cobertura à Guida, interpretada no final do filme pela magnífica Fernanda Montenegro. Dona de um temperamento extrovertido, Guida se apaixona e decide fugir com o namorado grego sem ao menos saber dizer uma palavra do idioma. De mala e cuia, ela deixa a casa, rumo ao porto, onde embarca de navio para sua aventura amorosa.

Com o sumiço da irmã, Eurídice fica à deriva e se apega ao brinco perdido por Guida. Carol exterioriza essa condição de desorientação de forma surpreendente, com seu olhar sempre perdido, tentando encontrar alguma resposta no horizonte. Quando Guida volta ao Brasil, pouco tempo depois de terminado o romance, ela é expulsa de casa e as duas se separam. O restante do filme é sobre a busca de Eurídice em rever a irmã, que para seu marido Antenor Campelo, funcionário dos Correios e amigo da família, já está morta. Gregorio Duvivier, ator dedicado à comédia e que até surpreende no teatro, tenta convencer ao interpretar o estereotipo do marido dos anos 1950, porém se perde no meio do caminho. Fica caricato, ora exagerando na veia cômica, ora se esforçando no drama.

Guida consegue sobreviver sozinha na capital do país. Toma um rumo que nunca sonhou e paga o preço por ter fugido de casa. Enquanto vive à procura de Guida, Eurídice também toca a vida: engravida e adia o sonho de ser musicista.

Enfim, A Vida Invisível é uma obra que retrata estereótipos e costumes da metade do século passado, revirando a memória afetiva do espectador. Mostra o pai português severo, a mãe que vive na cozinha trabalhando e cuidando da casa, a família que se reúne ao redor da bacalhoada e da rabanada na ceia de Natal. O realismo e a naturalidade como o diretor trabalha essas figuras são surpreendentes. Nada fica de fora, seja o suor de seus corpos, o sangue pós-parto, as relações sexuais não consentidas. Aliás, as cenas de sexo, sem cortes e explícitas, nos remetem a muitos títulos dos anos 1970 e 1980 que hoje são exibidos de madrugada no Canal Brasil. Assim como a textura e proporção de tela escolhidos por Aïnouz que costuma ser comparado a Pedro Almodóvar. Isso porque ele consegue imprimir uma visão feminina da história, ao dar corpo a personagens com atitude feminista, no limiar da segunda onda do feminismo. Os saltos temporais também são executados com maestria. Apenas os erros de continuidade prejudicam a perfeição do filme.

Depois de A Vida Invisível certamente vamos olhar para essas senhoras de cabelos brancos com mais curiosidade e atenção. Mulheres podem, agora, ter o canudo que quiser, escolher o parceiro ou parceira, decidir pela maternidade. Somos fruto de cada Eurídice e cada Guida, as irmãs que resistiram ao fardo de pertencer a uma sociedade conservadora. Sociedade que, ainda hoje, guarda o ranço do machismo. (JM)

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Karim Aïnouz é um autor. Seu forte estilo de direção, bastante focado em seus personagens, como ele próprio definiu, angariou fãs dentro e fora do Brasil, além de diversos prêmios. No entanto, ele confidenciou ao espectador curitibano durante a pré-estreia do filme, na noite de 24 de outubro no Cine Passeio, que A Vida Invisível (Brasil/Alemanha, 2019 – Sony) surgiu da vontade de alçar voos mais próximos do público, distanciando-se do estigma do cinema arte de salas vazias e lançamentos modestos, antes mesmo da crescente – e absurda – desvalorização da indústria audiovisual brasileira.

Seu melodrama ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1950, corroteirizado por Murilo Hauser e Inés Bortagaray, revolve em torno da relação de duas irmãs, Eurídice e Guida Gusmão, cada uma de espírito fortemente distinto da outra, separadas pelas circunstâncias da vida e desejando o reencontro. Tanto o roteiro quanto a direção de Aïnouz propõem um rumo diferente da tomada por Martha Batalha no romance que inspirou a obra – portanto, comparações se tornam ainda menos necessárias que de costume.

O título anterior da obra (quando venceu a mostra Um Certo Olhar do último Festival de Cannes, em maio, o filme se chamava A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, assim como o livro) trazia, a princípio, um foco maior nesta, interpretada por Carol Duarte. O longa, porém, trata Guida e sua irmã como protagonistas, ambas seguindo suas histórias, enormemente distantes e distintas. Este, talvez, seja um forte trunfo da obra. Pois tanto Duarte quanto Julia Stockler têm seu respectivo espaço para construir suas personagens, cujos contrastes dão tom à trama, ao mesmo tempo que são muito aproveitados metaforicamente. Enquanto Guida é altiva e senhora de si, Eurídice é contida e, embora tão forte e sonhadora quanto sua irmã, acaba envolvida na opressora máquina da família tradicional, cujo vigor era ainda maior na época. Assim, a audiência é capaz de torcer para que ambas se reencontrem, ainda que torça para que suas tramas individuais deem certo.

A cumplicidade de A Vida Invisível com suas personagens é outro amplificador à imersão da obra. A câmera de Aïnouz e da diretora de fotografia Hélène Louvart as acompanha e, numa instância mais poética, torna-se parte delas. Sentimos o que elas sentem, desde as emoções transpassadas pela maravilhosa atuação até as emoções mais abstratas, como o constante desfoque que sequestra os quadros de Eurídice. Ampliada pela belíssima direção de arte e ambientação, a fotografia é capaz de evocar naturalismo fotográfico e, num plano subsequente, flertar com o imaginário e figurar os fortes vermelhos característicos da filmografia de seu diretor.

No entanto, o longa-metragem sofre de um problema, no mínimo impactante. Ao retratar algumas cenas com intensidade maior que a necessária, Aïnouz passa do ponto, o que pode causar fortes desconfortos a audiências com gatilhos envolvendo abusos sexuais. A sensibilidade que permeia os momentos introspectivos da obra se perde na noite de núpcias de Eurídice com Antenor, interpretado muito bem por Gregório Duvivier – que não perde seu jeito característico no humor e, mesmo assim, desenvolve um personagem distante de sua figura porta-dos-fundesca, por assim dizer. Fica aqui o alerta de gatilho, portanto.

Ainda assim, a obra é repleta de acertos, que se aglomeram e transformam A Vida Invisível numa história emocionante e envolvente. Quando imaginamos que tudo já poderia acabar, é claro que estamos enganados. Fernanda Montenegro tem a sensacional – ou terrível, caso precise escrever sobre sua atuação – mania de transcender, em seu ofício, quaisquer elogios, adjetivos ou análise que possa ser feita. Em poucas palavras e muitos olhares, a nonagenária atriz amplifica a já belíssima personagem de Carol Duarte. A Eurídice Gusmão de Fernanda, já calejada de uma vida inteira, emociona do primeiro ao último olhar. Aïnouz soube dirigi-la com maestria e, assim, amarrar com finesse a trama que constrói em seu filme.

Capaz de argumentar sobre a invisibilidade das mulheres na sociedade, o machismo estrutural e suas vítimas em ambos gêneros e a perda da esperança, o longa não se esforça em desenvolver quaisquer destes temas. Antes do tema, vêm as personagens. Essa é a história de Eurídice e Guida, mas poderia e deveria ser a história de muitas mulheres. Nossas bisavós, avós e mães. (LA)

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Rocketman

Musical surrealista aborda os intensos conflitos por trás da persona que tornou-se astro do rock sob o nome de Elton John

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

O nicho das cinebiografias sofreu um baque recentemente, pro bem ou pro mal, com Bohemian Rhapsody. Dexter Fletcher, o diretor chamado para apagar o incêndio de Bryan Singer no “filme do Queen”, também é responsável pela realização de Rocketman (Reino Unido/EUA, 2019 – Paramount), a ficção em torno da história do cantor e compositor Elton John. Talvez por isso os filmes compartilhem muitas similaridades.

A estrutura narrativa é, de certa forma, muito parecida. Elton conta sua história para um grupo de reabilitação, rememorando situações boas e ruins de sua trajetória. A infância difícil, o estrelato meteórico e o abuso de drogas e sexo são grandes temas da trama, todos tratados com maior densidade do que em Bohemian Rhapsody. Ainda assim, as comparações desta resenha não passam daqui – Rocketman é uma obra completamente independente de Bohemian Rhapsody e deve ser tratada como tal.

O surrealismo com o qual Fletcher trata a construção de camadas do filme é uma surpresa ótima. Artista e plateia flutuando; extensas e bem coreografadas cenas musicais; devaneios em tela, quase como alucinações. Estes são meros exemplos, dos quais o mais divertido é, por sua metalinguagem, Elton John transformando-se num foguete. Desta forma, o longa se propõe a adentrar a história do astro tornando clara sua capacidade ficcional – a inspiração na vida dele não faz deste um filme puramente factual. Assim, o roteiro de Lee Hall tem maior abertura para seu dinamismo. Hall trafega por diversos momentos da história de Elton, explorando principalmente a relação entre astro e mero humano (Reginald Dwight, seu eu anterior à fama), com fluidez. Ainda assim, o filme parece por vezes ter pressa em alcançar seu ponto de maior conflito, o fundo do poço do artista, ainda que funcione.

O principal vetor, no entanto, que conecta os episódios temporais do longa com eficiência é seu elenco, com atuações de tirar o chapéu. Matthew Illesley e Kit Connor interpretam Reggie em sua infância e pré-adolescência, ambos satisfazendo o personagem, mesmo com pouco tempo em tela. Resta a Taron Egerton transmitir os traços mais desafiadores de Reginald/Elton. E ele o faz com maestria. Sua ótima atuação torna-se ainda melhor quando contracena com Jamie Bell (que interpreta brilhantemente o parceiro letrista Bernie Taupin injetando camadas de maneira muito verossímil) ou com Richard Madden (que performa o subaproveitado empresário/namorado John Reid, extraindo do personagem um vilão satisfatório). Bryce Dallas Howard e Gemma Jones, o núcleo familiar do filme (fazem a mãe e avó de Reggie, respectivamente), também entregam majestosamente suas personagens.

Porém, por conta da já mencionada inquietação do roteiro, o longa-metragem é musical demais e, evitando comparações, torna-se cansativo ao apresentar montagens “inventivas” somente para avançar a trama temporalmente. Ou seja, existem poucos momentos de diálogos entre uma peça musical e outra – todas as montagens citadas são mescladas nelas. Claro, a música é de Elton John, o que torna o ritmo repetitivo menos entediante.

Rocketman insiste em apresentar o lado humano de Elton John (ou o Reginald Dwight por trás da persona criada pelo astro), transparecendo todas as facetas do personagem em suas duas horas de duração. Seu protagonista borra a linha cinza entre o certo e o errado, fato que o filme entrega sem moralismo algum. Dessa forma, a excelente trilha sonora embala a apressada história, que por sua vez se sustenta pela majestosa atuação de todo seu elenco, acompanhada de uma boa dose de surrealismo, para desprender o filme de seu inspirador. Ficção é ficção. A “história como de fato aconteceu” não protagoniza nem documentários, quem dirá este Rocketman.

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Shazam!

DC se aproxima da Marvel ao apostar no humor no longa do mitológico super-herói com poderes dos heróis do Olimpo

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

A DC tem mostrado que, embora tenha sido tortuoso seu começo na construção de seu universo cinematográfico, ela vem aprendendo com seus erros. Aquaman é um bom exemplo da nova onda de frutíferos produtos nos cinemas. Com Shazam! (EUA, 2019 – Warner), a produtora atira-se na comicidade tanto atribuída à Marvel. Derrota para os ortodoxos fãs da seriedade do universo que se iniciou com Homem de Aço (2013).

Com a direção de David F. Sandberg, o mitológico Shazam, cujos poderes provêm das virtudes dos heróis do Olimpo, apresenta-se agora o mais jocoso dos super-heróis da produtora. Mas, antes de conhecê-lo, na forma de Billy Batson (Asher Angel), somos introduzidos a Thad, uma criança passando por um difícil momento com seus pais. Ao ser convocado pelo mago Shazam (Djimon Hounsou), que não é o herói em si, mas o responsável por seus poderes, o garoto é posto à prova: deve resistir às tentações dos Sete Pecados Capitais. Revoltado por sua falha, Thaddeus (agora interpretado por Mark Strong) passa a vida em busca dos Pecados, para obter o Olho (uma estrutura mágica que lhe concede poderes) que fora tentado. Ao consegui-lo, o vilão serve como “casa” para os Sete Pecados, que obedecem a seus comandos.

De volta a Billy Batson, o roteiro de Henry Gayden constrói um adolescente de catorze anos cuja vida se resume a fugas de lares de adoção desde que fora perdido por sua mãe, aos três anos, e sua busca interminável por ela. Assim, quando Billy é adotado por uma nova família, composta inteiramente de crianças adotadas, apresenta resistência ao novo universo. É nele que conhece Freddy (Jack Dylan Grazer), cujo conhecimento sobre o mundo dos heróis é parte importante do crescimento do protagonista. É importante ressaltar a existência de dois Billies: o interpretado por Angel, adolescente, e o de Zachary Levi, que assume o corpo de Batson quando este se transforma. Este é fortemente infantil, preenchendo os quadros com suas faces caricaturais, enquanto aquele representa toda a amargura da difícil vida de Billy.

O problema de roteiro não está, no entanto, tão fortemente na construção divergente do mesmo personagem em dois momentos, mas em sua estrutura. Shazam! falha em oferecer sensação de perigo ao espectador, alongando-se em sequências puramente cômicas e diminuindo as consequências dos atos de seus personagens. É justamente na transição do cômico ao dramático que o filme se embola. Thaddeus é, até certo ponto, bem interpretado, porém falta-lhe uma motivação consistentemente explanada. O espírito palhaço de Billy interrompe insistentemente os momentos de ação – que na maior parte das vezes, consiste na fuga do “herói” do filme. A inteligente intenção de demonstrar a resolução do conflito interno de Billy como causa da resolução do conflito externo é apressada, tornando-se indigesta.

O design dos Sete Pecados Capitais, principais vilões do filme, é estranho, reduzindo-os a monstrões malignos, cuja extensão dos poderes não é abordada na trama. Assim, a sensação obtida no ato final é tão vazia de expectativa quanto as centenas de sequências de heróis combatendo exércitos de “caras maus”.

A atuação dos personagens principais é bastante competente – embora a infantilidade de Levi seja difícil de aceitar. Esta é amplificada, porém, pelo elenco infantil que compõe a família de Billy. Embora narrativamente simples e unidimensionais, Darla (Faithe Herman), Eugene (Ian Chen) e Mary (Grace Fulton) são bem trabalhados, enquanto Pedro (Jovan Armand) parece existir para completar o bando. Deste núcleo, é a atuação de Jack Dylan Grazer que mais se ressalta, ainda que presa demais no humor facial.

A direção de Sandberg é bastante competente, embora não passe disso. A impressão constante é de que o filme poderia ser feito por qualquer diretor de estúdio que trabalha atualmente em Hollywood. A feliz exceção, porém, é quando o diretor imerge sua influência do terror na mise-en-scène de Shazam. A música, no entanto, é plenamente esquecível, copiando melodias já ouvidas nos demais filmes de heróis. A montagem é astuta, mas também não foge do padrão do nicho de mercado.

Dessa forma, Shazam! almeja colocar-se como o filme mais marvelesco da DC, mas sofre de problemas de roteiro que o reduzem a uma tentativa de comédia mal formulada. É competente e arranca boas risadas em diversos pontos, mas contém uma estrutura fraca demais, tanto em construção narrativa como em desenvolvimento de personagens, para ser lembrada futuramente.

Movies

Um Funeral em Família

Tyler Perry volta a encarnar o personagem Madea em comédia repleta de obviedades e estereótipos

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Há uma corrente argumentativa que nega a necessidade de obras enaltecendo a representação da população negra nos cinemas e sustentam que filmes como Pantera NegraMoonlight e Infiltrado na Klan não fazem serviço algum ao povo que representam. Pois bem: Um Funeral em Família (A Madea Family Funeral, EUA, 2018 – Paris Filmes) se coloca como prova cabal de que tais filmes se fazem necessários.

Mais uma história de Tyler Perry protagonizando o personagem Madea, Um Funeral Em Família parece revolver em torno da morte de Anthony (Derek Morgan), o patriarca da família da “icônica” idosa, mas sua estrutura é desenvolvida de forma a introduzir o funeral apenas na segunda metade do filme. Não vale muito construir esta resenha em torno da trama. Afinal, é claro, ela é ignorada completamente pelo roteirista, diretor, produtor e protagonista.

Perry interpreta assombrosos quatro personagens, sendo três desenvolvidos em cima das próteses de rosto. Seus alter-egos masculinos, Joe e Tio Heathrow, são monótonos e resumem-se a piadas de cunho extremamente machista ou racista. Madea também replica este humor lastimável, com maior ênfase em sua história criminal. Claro, todos têm sua própria ficha policial quilométrica, como bons negros (o diretor afirma isso durante o filme quase explicitamente). Para completar o núcleo de idosos, Bam (Cassi Davis) e Hattie (Patrice Lovely) são a ridicularização da mulher negra levada ao próximo nível. A título de comparação, a linguagem corporal de Hattie recorda Jim Crow, clássica figura do humor racista americano, revisitada recentemente por Childish Gambino no clipe da faixa “This Is America”.

Os demais personagens não escapam uma cena sequer do estereótipo que representam. Claro, todos os homens são musculosos enquanto as mulheres têm cabelos lisos, corpos definidos e são vítimas de assédio pelo menos uma vez no filme.

A direção de Perry é óbvia em toda chance possível e, com uma montagem peculiarmente diferente, causa estranheza desde sua primeira cena. Ângulos de câmera, posicionamento dos personagens na mise-en-scène e até a razão de aspecto do filme dão a impressão de que este nada mais é que uma sitcom que, por acidente, foi parar nos cinemas.

Gostaria, sinceramente, de ser capaz de apontar bons traços de Um Funeral em Família. Contudo, seu mérito é ser tão indigesto que causou a todos os presentes na sessão em que presenciei a inexplicável vontade de retirar-se do cinema. Por sorte, Tyler Perry já anunciou que largará Madea de vez. O que significa mais espaço para diretores como Barry Jenkins, Jordan Peele e Ryan Coogler no mercado.

Music

Hurtmold

Depois de show intimista em Curitiba, banda fala ao Mondo Bacana sobre os 20 anos de carreira e os planos para um novo disco

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Texto e entrevista por Guilherme Motta

Fotos: André Calvente/Divulgação (banda) e Guilherme Motta (show)

Na véspera do feriadão de carnaval, Curitiba recebeu uma das bandas referência da música contemporânea brasileira. O Hurtmold, que está completando 20 anos de sua existência, apresentou-se na noite quente de quinta-feira (28 de fevereiro) no jardim do Veg Veg – Empório Vegano, que há algum tempo vêm nos trazendo algumas bandas do cenário independente. Quem conhece os proprietários sabe que eles sempre foram envolvidos com o cenário do punk e desde então vêm trazendo bandas para se apresentar na cidade.

O showcontou com pouco mais de 150 pessoas. Os ingressos eram limitados e isso tornou ainda mais especial, intimista e animador. O cuidado com o preparo do palco, equipamentos, luz e ambiente fez com que essa apresentação fosse uma das coisas mais bonitas que eu já presenciei na cena independente local. E palavras do próprio Fernando Cappi, guitarrista da banda, “Tocar aqui desta forma, para essas pessoas, foi uma das experiências mais bonitas e intensas que já tive”.

A apresentação durou em torno de uma hora. Tinha de acabar cedo, pois o espaço é aberto e há residências vizinhas ao entorno. Os caras executaram seus mais diversos temas instrumentais. O set list foi bem diversificado, com músicas dos trabalhos mais antigos até os mais recentes.

O público estava visivelmente muito empolgado em ver o sexteto paulistano ali, tocando num espaço pequeno. Como não pode faltar em apresentações como estas, entoaram um coro que deu orgulho quando a banda começou a tocar a música que é uma das minhas preferidas, “Chuva Negra”, emendando logo depois “Desisto”. Realmente muito emocionante.

Logo após o show, depois da adrenalina baixar, fumar alguns cigarros, trocar ideias com os integrantes pela calçada em frente ao local do show, sentamos tranquilos em uma mesas perto do palco. Ali os caras me concederam uma entrevista, que foi mais como uma conversa normal entre uns amigos falando sobre as bandas que gostam, rolês, amigos, discos, livros, etc. O texto que segue é um resumo sobre tudo o que conversamos. Afinal, foram algumas horas de conversa gravada e transcrever tudo isso seria impossível. Detalhe: não apenas um só integrante falou, mas todas as respostas estão creditadas à banda como um todo.

Hurtmold

São 20 anos de banda já… Vocês são amigos há quanto tempo? Como começou todo esse rolê de querer tocar e formar o Hurtmold?

Cara, são alguns núcleos na banda, alguns de nós nos conhecemos em 1995, estudando juntos, no primeiro colegial, o Marcão (Marcos Gerez) entrou no mesmo colégio no ano seguinte. O Fernando e o Mário são irmãos e o Maurício Takara a gente conheceu por volta de dois anos depois, ali em 1996/1997 porque fomos ensaiar no estúdio da família dele. E também a gente já meio que sabia quem era porque íamos em shows das bandas dele, do rolê hardcore/punk, bandas como o Againe, e o Small Talks. A gente estava procurando um estúdio pra ensaiar e achamos esse aí. Tinha uma galera que curtia Descendents. Tinha uns argentinos bem loucos. E quando chegamos lá eram os caras. Nisso começou nossa amizade.

Vamos lá, deixa eu ver se estou certo: nestes 20 anos já são seis álbuns, um split e dois demos?

Vish, cara! Você sabe melhor do que nós. Se você diz… é isso aí!

Está aqui, anotado! Vocês são uma das bandas mais influentes do cenário experimental.  E como é vocês olharem pra trás e verem tudo isso que fizeram, toda essa bagagem nas costas?

É meio natural, na real, porque a gente começou, continuou e estamos aí!. A gente tem a banda porque é amigo e não ao contrário. E isso é bem determinante no fator banda. É o bagulho mais legal do mundo, saca? Toda vez que a gente sai tocar junto e viajar é muito foda! Estamoa lá tocando e sempre pensamos “pô, que massa, está funcionando e é do caralho!”. Inclusive quanto mais velho a gente vai ficando e tocando, mais emocionado a gente fica com o rolê.

O intuito é sempre esse, né? Continuar fazendo um som com os amigos. fator mais importante pra mim também. Agora, passando para o ano de 2016… O disco Curado, com o Paulo Santos, ex-Uakti. O cara é a referência da música contemporânea no Brasil. Como foi esse processo? Vocês já tinham algo pronto e só chamaram ele ou entraram em estúdio e fizeram tudo do zero?

A gente já tinha feito alguns shows com o Paulinho uns anos antes. O contato começou quando alguém sugeriu uma participação e a gente topou. Então, ficamos nos comunicando por e-mail. Rolavam umas idéias e decidimos fazer a parada. E, porra!, no primeiro show que a gente fez juntos a gente não conhecia o cara pessoalmente e quando ele chegou a gente pensou: “nossa, mano, esse cara é tipo um truta nosso, facilmente andaria com a nossa galera se fosse do mesmo rolê!” (risos)E depois dali a gente já sabia que ia longe a parada. Foram uns anos tocando juntos quando resolvemos registrar a parceria. Aí saiu esse álbum. Foi bem natural o processo.

Legal, e o cara é punk, tiozinho punk. Essa é a real, não tem como dar errado na minha opinião… E não deu. Já se passaram três anos desse lançamento, vocês tocaram aqui em Curitiba hoje, na sequência no Psicodália. Então aí vai a famosa pergunta: vem coisa nova aí, vão gravar, estão compondo? Como que estão os projetos futuros?

Pô, vai sim, uma hora tem que sair! A gente conversou sobre isso, mas também não vai ser muito em breve. A gente tem o nosso processo, é devagar. Não tem nenhuma cobrança em cima disso. Dentro do nosso ritmo está acontecendo. Sempre que rola uma reunião criamos algo juntos. Então, é natural uma hora nós tenhamos material pra lançar.”

Isso que é massa: não ter obrigação de fazer uma parada e, se rolar, rolou. Agora, para finalizar, essa última pergunta é uma piração minha que eu curto saber da galera por aí. Quero que vocês de dêem o nome de três discos que fez tudo isso acontecer, desde a amizade de vocês até trazer influências para a banda.

Calma aí. A gente tem que decidir entre todo mundo aqui. Três discos? Beleza! Cara, tem um que é crucial, porque eu lembro até de ter comentado com o Farofa, o vocalista do Garage Fuzz, que na escola a primeira coisa que a gente trocou idéia de som foi sobre o Garage Fuzz. Por que a gente sempre ouvia os caras, a gente vivia nos shows e tal. Outra coisa é que a gente teve a chance de ver o Fugazi, conversar com os caras depois do show. E isso foi um divisor de águas para a gente. O Fugazi é uma banda muito importante. Isso ajudou a formar o núcleo do começo do Hurtmold. Então, acho que Repeater, do Fugazi, entra nessa lista. E outro disco que pode entrar também é o clássico A Love Supreme, do John Coltrane. Não é o mais importante pra todo mundo, mas a energia e a idéia do disco é a mesma.

Então é isso mesmo? Esses três?

Isso mesmo: 1) Garage Fuzz, Relax In Your Favorite Chair; 2) Fugazi, Repeater (mas pode colocar todos os discos deles aí também); e 3) John Coltrane, A Love Supreme.