teatro

Fuerza Bruta

Grupo argentino apresenta na Pedreira Paulo Leminski espetáculo onírico, desafiador e de estética inovadora

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Texto por Janaina Monteiro

Fotos por Abonico Smith, Iaskara Souza e Janaina Monteiro (de cima para baixo)

A sensação é de participar de um sonho, de mergulhar no inconsciente da personagem, um homem de branco que caminha a passos frenéticos na esteira da vida, uma simulação da nossa corrida diária contra o tempo. Assim começa o espetáculo da companhia Fuerza Bruta chamado Look Up, que ficou por mais de dez anos em cartaz na Broadway, em Nova York e agora chega a Curitiba, com uma curta temporada na Pedreira Paulo Leminski. Se levado ao pé da letra, a expressão significa “olhar para cima”. Ou seja, enxergue além do que sua capacidade sensorial permite.

O show lúdico, interativo, com performances que desafiam o corpo e os sentidos e estimulam as emoções é um misto de arte circense, dança e balada. A companhia de Buenos Aires nasceu em 2003, formada por gente vinda de dois grupos de teatro alternativo portenhos. Aliás, em BsAs a arte circense é uma tradição – desde pequenas, as crianças são encorajadas a fazer aulas de acrobacias e malabarismos. Tanto é que a estrutura montada na entrada resgata essa memória circense, com carrinhos de cachorro-quente, pipoca, sorvete e bebidas para os espectadores entrarem no clima e socializarem entre si.

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Por isso, a indicação é para que o público vista roupas confortáveis e chegue cedo para aproveitar o máximo possível do momento e se ambientar ao clima. Às 20h30, todos são convidados a seguir por um corredor que dá acesso à “caixa preta” de 500 metros quadrados e com capacidade para cerca de mil pessoas. O público fica de pé e aguarda ansioso pelo desconhecido. O sonho começa e as surpresas surgem de todos os cantos: do chão, das paredes, do alto. Por quase uma hora, ao que se assiste é um espetáculo 360 graus, de uma estética inovadora que desafia a nossa percepção de realidade, da força humana e proporciona uma experiência sui generis.

Da parede negra, surge o homem que aperta o passo na esteira e atravessa paredes e portas, cruza com bailarinas ninfas que dançam presas a cabos de aço. Ele dorme e mergulha numa festa com muitos efeitos especiais, com luzes estroboscópicas, gelo seco, papel picado, vento, água, danças com trilha sonora que mescla batida tribal e eletrônica com pitadas de música brasileira. Todos falam a mesma língua, pois não há diálogos, apenas gestos e gritos. Só a interpretação do enredo que é pessoal.

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À medida que o espetáculo avança, os espectadores precisam se mover para dar espaço aos atores que, de repente, surgem ali mesmo, no chão, interagindo com a plateia que a todo tempo é convidada a dançar, pular, libertar-se das amarras. A grande atração de Look Up é a piscina gigante onde quatro atrizes nadam, caminham e se jogam sobre as cabeças dos espectadores, como se todos fôssemos peixes fora d’água. Então ficamos de boca aberta e em êxtase diante delas e do nosso reflexo no plástico ultrarresistente.

É um espetáculo único, de uma engenharia e magia incríveis. Por isso, não há o que temer. O mundo ali é seguro. Não se reprima. Liberte-se até o final desse show onírico e fantástico.

Movies

Um Funeral em Família

Tyler Perry volta a encarnar o personagem Madea em comédia repleta de obviedades e estereótipos

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Há uma corrente argumentativa que nega a necessidade de obras enaltecendo a representação da população negra nos cinemas e sustentam que filmes como Pantera NegraMoonlight e Infiltrado na Klan não fazem serviço algum ao povo que representam. Pois bem: Um Funeral em Família (A Madea Family Funeral, EUA, 2018 – Paris Filmes) se coloca como prova cabal de que tais filmes se fazem necessários.

Mais uma história de Tyler Perry protagonizando o personagem Madea, Um Funeral Em Família parece revolver em torno da morte de Anthony (Derek Morgan), o patriarca da família da “icônica” idosa, mas sua estrutura é desenvolvida de forma a introduzir o funeral apenas na segunda metade do filme. Não vale muito construir esta resenha em torno da trama. Afinal, é claro, ela é ignorada completamente pelo roteirista, diretor, produtor e protagonista.

Perry interpreta assombrosos quatro personagens, sendo três desenvolvidos em cima das próteses de rosto. Seus alter-egos masculinos, Joe e Tio Heathrow, são monótonos e resumem-se a piadas de cunho extremamente machista ou racista. Madea também replica este humor lastimável, com maior ênfase em sua história criminal. Claro, todos têm sua própria ficha policial quilométrica, como bons negros (o diretor afirma isso durante o filme quase explicitamente). Para completar o núcleo de idosos, Bam (Cassi Davis) e Hattie (Patrice Lovely) são a ridicularização da mulher negra levada ao próximo nível. A título de comparação, a linguagem corporal de Hattie recorda Jim Crow, clássica figura do humor racista americano, revisitada recentemente por Childish Gambino no clipe da faixa “This Is America”.

Os demais personagens não escapam uma cena sequer do estereótipo que representam. Claro, todos os homens são musculosos enquanto as mulheres têm cabelos lisos, corpos definidos e são vítimas de assédio pelo menos uma vez no filme.

A direção de Perry é óbvia em toda chance possível e, com uma montagem peculiarmente diferente, causa estranheza desde sua primeira cena. Ângulos de câmera, posicionamento dos personagens na mise-en-scène e até a razão de aspecto do filme dão a impressão de que este nada mais é que uma sitcom que, por acidente, foi parar nos cinemas.

Gostaria, sinceramente, de ser capaz de apontar bons traços de Um Funeral em Família. Contudo, seu mérito é ser tão indigesto que causou a todos os presentes na sessão em que presenciei a inexplicável vontade de retirar-se do cinema. Por sorte, Tyler Perry já anunciou que largará Madea de vez. O que significa mais espaço para diretores como Barry Jenkins, Jordan Peele e Ryan Coogler no mercado.

Music

Ranking Roger (1963 – 2019)

Toaster do grupo Beat, expoente do movimento Two Tone, foi um símbolo dos descendentes caribenhos na música pop britânica

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Texto por Emmanuel do Valle (Célula Pop)

Foto: Reprodução

Figura de proa no movimento Two Tone, que aglutinou de vez o ska jamaicano ao som pop britânico da virada dos anos 70 para os 80, Ranking Roger morreu aos 56 anos no último dia 26 de março. Alçado à popularidade como um dos frontmen do Beat – banda fundamental do período, também conhecida como English Beat nos Estados Unidos – ao lado do vocalista e guitarrista Dave Wakeling, Roger se destacava pelo toasting, estilo de canto falado próprio dos ritmos da ilha do Caribe. Mais ainda: era um dos símbolos de uma geração de descendentes dos imigrantes afro-caribenhos que aportaram no Reino Unido entre o fim dos anos 1940 e começo dos anos 1970, impactando decisivamente no cenário cultural do país.

Nascido Roger Charlery, em Birmingham (segunda cidade mais populosa do Reino Unido), em 21 de fevereiro de 1963, era filho de um casal que imigrou da ilha caribenha de Santa Lúcia. Na adolescência, tornou-se fã do então nascente punk rock, passando a tocar bateria num grupo chamado Nam Nam Boys. Nos encontros da cena local, fez amizade com os integrantes de um grupo de ska, o Beat, dando uma canja nos shows com sua performance no toasting. Logo estava convidado a se juntar de vez à banda, que não demoraria muito a estourar.

No finzinho de 1979, a formação lançou seu primeiro compacto contendo uma regravação quicante para “Tears Of A Clown” (imortalizada pelo mestre do soul Smokey Robinson) e, do outro lado, “Ranking Full Stop”, na qual Roger comandava o microfone. Único lançamento do grupo pelo selo Two Tone – que batizou o movimento e divulgou novos e importantes nomes como os Specials, o Madness e o Selecter –, o disquinho chegou ao sexto posto da parada britânica em janeiro do ano seguinte e levou o Beat a tocar pela primeira vez no Top Of The Pops, o mais famoso programa musical de TV da BBC.

O grupo era um sexteto racialmente miscigenado: três ingleses brancos oriundos da classe operária de Birmingham (o já citado Dave Wakeling, o guitarrista Andy Cox e o baixista David Steele) e três negros de origem caribenha: além de Ranking Roger (então com apenas 16 anos), havia o baterista Everett Morton e o veterano saxofonista Lionel Augustus Martin, o Saxa, já beirando os 50 anos, e que ao longo da carreira havia acompanhado nomes históricos do ska como Laurel Aitken, Desmond Dekker e Prince Buster. Era um símbolo de que não só a influência como também a presença negra na música pop britânica havia chegado para ficar.

O dado negro na música e na cultura pop britânicas é relativamente recente em comparação com suas correspondentes norte-americanas. A explicação é simples, mas vem de longe. Como matriz colonial, o Reino Unido utilizou mão de obra escrava de africanos majoritariamente em suas colônias (entre elas os Estados Unidos), e não em seu próprio território – a escravidão foi legalmente abolida dentro do país em 1772, embora tenha continuado na prática, de forma sub-reptícia, ainda por quase um século.

Desta forma, até a Segunda Guerra Mundial, a população afrodescendente no Reino Unido não passava de 1% do total, ou pouco mais de 10 mil. Com o país em ruínas ao fim do conflito após os bombardeios alemães, além das expressivas perdas humanas, havia a necessidade urgente de se reconstruir. O governo britânico então passou a incentivar a imigração de habitantes das colônias, inclusive concedendo cidadania do país por meio do British Nationality Act, de 1948.

Em 22 de junho do mesmo ano, o navio HMT Empire Windrush desembarcou no porto de Tilbury, perto de Londres, com cerca de 800 imigrantes oriundos das chamadas Índias Ocidentais (ou o conjunto de colônias do Caribe). O nome da embarcação virou símbolo do fluxo que se estendeu até o início dos anos 1970, já em meio ao processo de descolonização do antigo Império Britânico: os imigrantes afro-caribenhos do período – entre eles, o teórico cultural jamaicano Stuart Hall e os próprios pais de Ranking Roger – ficaram conhecidos como “geração Windrush”.

A chegada massiva de imigrantes começou aos poucos, a partir dos anos 1960, a se fazer notar na cultura britânica. Incorporado ao mainstream da música pop mundial só em meados dos anos 1970, o reggae já marcava presença nas paradas do Reino Unido mesmo em plena Swingin’ London. Antes disso, outros gêneros como o ska e o rocksteady já haviam sido incorporados ao repertório dos mods – tribo urbana juvenil oriunda da classe operária, que ganhou notoriedade no país naquela década – ao lado do soul e do rhythm & blues norte-americanos.

Em abril de 1969, o astro jamaicano do ska Desmond Dekker chegou ao topo da parada britânica de singles multucom seu clássico “Israelites”. No ano seguinte, ele arrastou multidões de jovens como a principal atração de um festival de música caribenha realizado no estádio de Wembley. Enquanto isso, em 1971, o Censo britânico apontava uma população de cerca de 304 mil habitantes de origem afrocaribenha no país, trinta vezes mais do que os números praticamente estáveis das quatro primeiras décadas do século.

Previsivelmente, houve forte reação das alas conservadoras da política e da sociedade britânicas. Ainda em abril de 1968, o parlamentar conservador Enoch Powell fez um inflamado discurso anti-imigração que ficou conhecido informalmente como “Rivers Of Blood” (“Rios de Sangue”) e entrou para a História do país. Citando uma conversa que havia tido com trabalhador de meia-idade pouco tempo antes, Powell afirmava que, caso os fluxos migratórios não fossem contidos, “neste país, dentro de 15 ou 20 anos, o negro terá o domínio sobre o branco”.

Dez anos antes, os distúrbios raciais ocorridos no bairro de Notting Hill marcaram o primeiro grande tumulto deste tipo no país. Ao longo da década de 1970, eles se tornariam mais frequentes, graças ao crescimento de grupos de extrema-direita com matizes neonazistas, como o National Front e o British Movement, que organizavam passeatas e ataques a áreas urbanas com grande concentração de imigrantes, como na chamada Batalha de Lewisham, que envolveu milhares de pessoas no bairro do sudoeste de Londres em agosto de 1977.

Dentro deste contexto, era previsível que o componente sociopolítico se tornasse marcante nos grupos do movimento Two Tone, que revigoraria o skae o reggae, fundindo-os à chamada new wave, que despontava na música britânica no fim dos anos 1970. Em maio de 1980, quando o Beat lançou seu álbum de estreia, I Just Can’t Stop It, as canções sobre relacionamentos e os tributos aos velhos mestres do som jamaicano dividiam espaço com afiadas crônicas sociais (“Mirror In The Bathroom”, “Big Shot”) e políticas (“Stand Down Margaret”, que exigia a saída da primeira-ministra conservadora britânica, eleita um ano antes).

O som enérgico do Beat conquistou a molecada e chegou a reverberar até mesmo deste lado do Atlântico: o grupo foi uma das grandes inspirações no som dos primeiros discos dos Paralamas do Sucesso, até mais do que o Police, com o qual se costuma associar o trio liderado por Herbert Vianna. Everett Morton, por exemplo, era influência declarada do baterista João Barone. E o hit paralâmico “Óculos”, de 1984, “pegava emprestado” o riff de marimba de “Hands Off, She’s Mine”, segundo compacto do Beat, que chegou ao nono lugar da parada britânica em março de 1980 – além de ter sido o primeiro lançamento do selo próprio da banda, o Go Feet.

Lançado no ano seguinte, o segundo disco do grupo, Wha’ppen, era mais lento e sombrio, refletindo o momento calamitoso vivido pelo país naqueles primeiros anos de Thatcherismo, com profunda recessão econômica e desemprego recorde, além da série de novos conflitos raciais deflagrados em várias das principais cidades do país entre abril e julho. Apesar disso – e embora tenha sido recebido com maior frieza pelo público –, o álbum ainda oferecia momentos sublimes, como a emocionante “Doors Of Your Heart”, que ganhou um clipe maravilhoso, gravado em plena euforia do carnaval de rua afrocaribenho de Portobello Road.

O terceiro ábum, Special Beat Service, lançado em outubro de 1982, ampliava ainda mais a paleta sonora do grupo: “Save It For Later” – considerada por Pete Townshend uma de suas canções favoritas da vida – puxava mais para um estilo guitar band, enquanto a funkeada “I Confess” remetia aos grupos new romantic. Ambas foram lançadas em single. Mas o grande momento de Ranking Roger era a canção na qual ele apresentava um certo toaster novato chamado Pato Banton, “Pato And Roger A Go Talk”.

Aquele seria o último disco de estúdio da banda, que se despediria no ano seguinte com a coletânea What Is Beat? e uma turnê que incluiu uma participação antológica no US Festival, na Califórnia, em maio de 1983. O grupo se desintegrou aos pares: enquanto Andy Cox e David Steele formaram o Fine Young Cannibals recrutando o vocalista Roland Gift, Everett Morton e Saxa, os mais experientes do grupo, passaram a acompanhar outros artistas, antes de formarem o International Beat, que seguiria na ativa até a década de 1990.

A dupla de frente, Ranking Roger e Dave Wakeling, por sua vez, seguiu junta no projeto seguinte, o General Public, que lançou dois álbuns e teve sucesso com a canção “Tenderness”, de 1984, que volta e meia aparece em coletâneas de flashback de sons oitentistas. Com o fim de mais esta empreitada, Roger lançou um disco solo, formou o Special Beat, com ex-integrantes dos Specials e gravou com Sting e com o Smash Mouth Até trazer o Beat de volta à ativa nos anos 2000 – ou melhor, um dos Beats, já que Wakeling, agora residindo nos Estados Unidos, também fez shows pelo país com o nome da banda. Nunca houve, porém, qualquer animosidade.

A formação que tinha Ranking Roger à frente, da qual também fazia parte seu filho Ranking Junior, chegou a gravar dois álbuns de inéditas: Bounce, de 2016, e Public Confidential, que saiu em janeiro deste ano, na mesma época em que o cantor anunciou pelas redes sociais que havia sido operado de dois tumores no cérebro, além de passar por tratamento contra um câncer no pulmão – antes, em agosto, já havia sofrido um infarto. “Ele lutou & lutou & lutou. Roger era um lutador”, disse o comunicado que anunciou sua morte no perfil oficial do Beat no Facebook, antes de revelar que o cantor falecera “em paz em sua casa, rodeado por sua família”.

Também pelas redes sociais, amigos de bandas contemporâneas como Neville Staple (Specials), Pauline Black (Selecter), Billy Bragg e o UB40 lamentaram a morte de Ranking Roger, que se torna a segunda perda na formação clássica do Beat, após o falecimento de Saxa em maio de 2017, aos 87 anos. O cantor havia recentemente acabado de escrever sua autobiografia, que leva o mesmo nome do primeiro álbum do grupo, I Just Can’t Stop It, e deve ser publicada em breve.

Movies

Nós

Oito motivos para você não deixar de assistir nos cinemas ao novo longa com a assinatura do celebrado diretor e roteirista Jordan Peele

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Nós (Us, EUA, 2019 – Universal Pictures) acaba de estrear nas salas de projeção de todo país. Este é o segundo filme escrito e dirigido por Jordan Peele, sensação do cinema norte-americano, e tão surpreendente e criativo quanto o anterior, Corra!. Eis oito motivos para você não deixar de sair de casa para assistir a esta novidade.

Jordan Peele

Já faz umas boas décadas que novos diretores – muitos deles acumulando também a função de roteiristas de suas obas – têm trazido a Hollywood um frescor não só de ideias como também de assinaturas bem peculiares. E Peele, antes apenas um comediante de sucesso na TV a cabo, tornou-se também um dos cineastas mais festejados pela imprensa desde que Corra! chegou às grandes telas dois anos atrás. Agora, em seu tão esperado segundo filme, Jordan mostra que não só soube manter o elevado nível da estreia como também mostra ter fôlego para muito mais. Com uma cara autoral que pouco se vê em produções com orçamento de indústria mainstream, Nós é atrevidamente delicioso, misturando cultura pop com filmes B sem subjugar o espectador em momento algum e, ainda pelo contrário, oferecer a ele saídas da obviedade de costume dos cinemas de shopping centers. Tudo isso mantendo uma linha autoral claramente destacada, tangenciando autorreferências a detalhes do longa anterior e ainda oferecendo um caminho de evolução. Não à tôa ele foi o nome escolhido para comandar a futura nova temporada da série Além da Imaginação, um dos maiores nomes do audiovisual de ficção científica do Século XX.

Críticas mordazes

Jordan Peele vem do território do humor, mais precisamente do stand up. No cinema, enveredou pela trilha prioritária do terror, mas até agora não abriu mão de soltar críticas contundentes no decorrer de suas histórias. Foi assim em Corra! e é assim novamente em Nós. Seus protagonistas são negros, com problemas referentes aos negros e tendo os brancos como coadjuvantes perversos ou abobalhados da trama. Neste segundo filme, chega ao requinte de colocar toda uma família negra (dois adultos, duas crianças) em uma casa de veraneio de uma abastada praia californiana. Também dá destaque de sobra ao gênero feminino, fazendo sempre a mãe e a primogênita parecerem mil vezes mais inteligentes, perspicazes e interessantes que o pai e o caçula. As alfinetadas não ficam por aí em Nós e, do começo ao fim (literalmente!), alguns detalhes que preenchem a narrativa promovem o deleite do espectador mais atento a este tipo de observação sociocultural, que, desta vez, não poupa nem a tradição hippie criada pela contracultura norte-americana lá nos já longínquos anos 1960. Tudo isso sem falar na sutileza do título original, já que Us quer dizer “nós” português mas serve também como uma ligeira metáfora para a sigla de uns Estados Unidos (isto é, United States) nem tão unidos assim em seus objetivos sobretudo humanitários. É o “nós” do “eu” em primeiro lugar.

Duplo

Um motes de Nós é a existência do famigerado duplo. E mais do que isso: como ser humano é bem despreparado para agir quando se depara com ele. O que acontece na região da praia de Santa Cruz ilustra bem a situação. Primeiro é com a família Wilson, surpreendida por quatro modelos idênticos fisicamente, mas com atitudes, comportamentos e necessidades completamente diferentes. É a aparição deles que dá início a uma espécie de segundo ato, quando o terror sai da zona psicológica e parte para o deleite slasher. Só que a coisa fica melhor ainda quando mais duplos aparecem para começar a amarrar todas as pontas aparentemente soltas no filme. Contar mais sobre isso estragará o prazer da descoberta de quem não assistiu a Nós.

Prólogo

Mal o filme começa e o espectador já é bombardeado com dados aleatórios escritos na tela preta. Depois entra a primeira cena, também cheia de outras informações sendo exibidas por um canal de televisão lá no ano de 1986. Depois, a menina que assiste a tudo sai de casa e aparece com o pai no parque de diversões à beira da praia em Santa Cruz. Lá ela vai viver uma experiência da qual nunca mais vai se esquecer. Este é o prólogo de Nós, que tem conexão com todo o resto do filme, claro. O interessante é que, assim como fizera em Corra! ele vai marcando uma assinatura em seus filmes: a de antecipar dados importantes para o que virá em seguida sem, contudo, deixar claro o que é.

Lupita Nyong’o

Se existe um nome no elenco que, sozinha, já faz valer o ingresso do cinema esta é Lupita. Na pele de Adelaide, a esposa do fanfarrão Gabe (Winston Duke, astro de Pantera Negra), sempre zelosa com os filhos e aterrorizada pelos fantasmas do passado, ela já dá um show de interpretação. Quando aparece em cena na pele do duplo Red, então, arrebenta de vez mostrando toda a sua força tanto em expressões faciais quanto nos limites do uso de sua voz em timbres e ruídos indecifráveis.

Elizabeth Moss

OK que Lupita Nyong’o rouba o filme pra ela, mas há no elenco coadjuvante outra grande força da natureza dramática chamada Elizabeth Moss. Revelada ao estrelato pela série The Handmaid’s Tale, aqui ela é a esposa completamente sem noção da família nouveau riche branquela e amiga dos Wilson. Faz com maestria papel da típica lôraburra, que só enche seu tempo com coisas fúteis e se preocupando em mostrar o resultado de suas operações plásticas ou mostrar como já cresceram e estão belas as filhas adolescentes (interpretadas pelas mesmas gêmeas que, quando pequenas, dividiam o tempo em cena como a filhinha pequena dos personagens Rachel e Ross na série Friends).

Trilha sonora incidental

Produzida em conjunto por Jordan Peele e o compositor Micahel Abels, a trilha incidental de Nósfoi criada tendo como base o trabalho sonoro feito para o icônico filme de terror A Hora do Pesadelo. Algumas faixas são muito percussivas, para acentuar a dramaticidade de certas cenas e deixa-las ainda mais assustadoras. Vale lembrar que esta não é a primeira experiência conjunta deles. Abels fez também a trilha de Corra!, contribuindo da mesma forma para deixar a história ainda mais tensa. Por ter background erudito, Abels é capaz de fazer obras-primas como “Anthem”, a “música de abertura” do longa, com direito a vocais operísticos femininos em stacatto e melodia que gruda na hora na cabeça e nunca mais sai dela, mesmo quando você já se libertou de todos os duplos vistos na tela do cinema.

Trilha sonora pop

Imagine você ver um belo massacre de uma família, feito por assassinos cruéis e com sangue espirrando para tudo quanto é lado, ao som de “Good Vibrations”, dos Beach Boys. Pois é, só Jordan Peele para ter criatividade e ousadia suficiente para bancar isso em um filme feito para a grande indústria do cinema. E agora imagine esta cena tendo o hit supremo dos Beach Boys emendado, com extremo bom humor e maestria, com a sempre contundente “Fuck The Police”, do grupo de rap NWA. Esta é apenas uma das cenas que nunca mais vão sair da sua memória depois de ver Nós. A parte pop apresenta ainda mais duas cantoras bastante representativas da black music do presente e do passado (Janelle Monáe e Minnie Riperton, respectivamente). E também refaz o rap “I Got 5 On It!”, música cuja discussão no carro a respeito de sua letra também é outro pico de bom humor no roteiro.

Movies

A Mula

Clint Eastwood cria mais uma peça de entretenimento machista e racista numa época em que estas não são mais prestigiadas

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

A eterna face do spamghetti western construiu uma sólida carreira como diretor ao longo das décadas. Premiado pelo Oscar, como em Menina de Ouro, Eastwood é inconstante, ora dirigindo ótimos trabalhos, ora dirigindo obras como A Mula (The Mule, EUA, 2018 – Warner).

O filme retrata a história (baseada na história de Leo Sharp) de Earl Stone, um floricultor cuja empresa faliu e que, para ajudar a pagar pelo casamento da neta, começa a transportar carregamentos de drogas para um cartel mexicano. Paralelamente, um promissor detetive, Bradley Cooper (o mesmo de Nasce Uma Estrela), investiga o cartel e caça Stone, batizado de Tata pelo cartel. O roteiro, de Sam Dolnick (estreante) e Nick Schenk (que fez Gran Torino, também dirigido por Eastwood), busca envolver o espectador em uma narrativa na qual o veterano de guerra é um homem bondoso, mas falha repetidas vezes.

A trama envolvendo sua família, interpretada pelas limitadas Taissa Farmiga, Alison Eastwood (filha de Clint) e Dianne West é rasa e extremamente mal escrita, repetindo-se de maneira desleixada. As incursões óbvias retratando Earl parar seu trajeto para ajudar uma família negra e um grupo de motociclistas lésbicas não adicionam nada além de camadas de racismo e uma pitada de LGBTfobia à trama. Paralelamente, existem cenas de Earl deliberadamente enganando policiais, sem o menor pesar.

Desta forma, a direção convencional de Eastwood, que não comanda o filme com fortes decisões estilísticas, apenas evidencia a fraqueza existente nos diálogos. É difícil avaliar a atuação de certos atores cujo tempo de tela é minúsculo, como Laurence Fishburne e Andy Garcia. Por outro lado, A Mula prova que Bradley Cooper, uma das estrelas em ascensão de Hollywood, ainda precisa maturar. O texto pobre e a direção desleixada transformam Cooper, nome com potencial, em um ator qualquer. O mesmo ocorre com Michael Peña, que interpreta seu assistente.

As piores atuações, sem sombra de dúvidas, vêm da fração do elenco de origem chicana. Alçados por um texto caricato, mesclando o inglês com o espanhol de forma irreal, nenhum dos atores (não existem atrizes mexicanas no filme) apresenta um personagem verossímil, não passando de “mexicanos maus”.

Já trilha sonora de Arturo Sandoval não adiciona camadas ao filme, mas a utilização de músicas consagradas de décadas atrás constrói alguns poucos momentos de humor.

Desta forma, argumento e direção ressaltam a crença política de Eastwood, ferrenho republicano que até já se elegeu prefeito pelo partido, desenvolvendo um filme racista, homofóbico e machista (vide uma assombrosa cena em que a câmera foca repetidas vezes nas bundas das mulheres de biquíni na festa do cartel, mais caricata impossível), cujo desenvolvimento de personagens e trama é raso demais para entreter o espectador.