Movies, Music

Homecoming: A Film By Beyoncé

Concerto grandiloquente apresentado no ano passado no Coachella vira filme recheado por comentários e cenas de bastidores

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Netflix/Divulgação

Vinte e oito anos atrás Madonna abriu as portas do cinema para as divas da música pop. Seu documentário Na Cama Com Madonna arrastou uma legião de fãs às salas de projeção para assistir aos bastidores de sua então bem sucedida megaturnê mundial Blond Ambition. Isso consolidou em definitivo o nome dela no panteão das maiores artistas femininas do Século 20. Tanto que nas décadas seguintes o mercado fonográfico viu se enfileirarem uma série de discípulas que trilharam, cada qual com seu carisma, talento, competência e peculiaridade, o mesmo nicho de mercado. Vieram então Britney Spears, Christina Aguilera, Pink, Lady Gaga, Katy Perry, Amy Winehouse, Rihanna, Adele, Ariana Grande, Beyoncé. Sem falar na própria Madonna, que continuou na ativa, sempre gravando, lançando discos e fazendo shows.

Com o passar do tempo a lista tornou-se grande e a concorrência também. Com as evoluções e consequentes mudanças no mercado musical. Com a velocidade da comunicação e do cotidiano, está cada vez mais difícil fazer um trabalho não só que se sobressaia perante o resto mas também que fique gravado para sempre na memória dos fãs, tal qual o documentário lançado em 1991 por Madonna permanece até hoje. E é exatamente isso o que Beyoncé quis fazer com o projeto Homecoming, elaborado para ser o show de encerramento de um dos três dias do festival Coachella na edição do ano passado. Além de ter sido exibida ao vivo pelo YouTube foi apresentação foi registrada na íntegra, em áudio e vídeo, para virar um filme e um disco ao vivo. Na verdade, um misto de musical com documentário, já que todo o processo de elaboração do show, que levou quatro meses de intensos ensaios, também foi filmado.

Homecoming: A Film By Beyoncé (EUA, 2019 – Netflix) não foi parar nos cinemas, mas está disponível para o mundo inteiro através de streaming desde poucos dias atrás. O que significa que será visto por milhões de pessoas, tal qual Na Cama Com Madonna foi – mesmo que a Netflix tenha como conduta o fato de nunca divulgar o número de acessos a seu conteúdo, isso é óbvio que vai acontecer já nas primeiras semanas. Entretanto, o que separa a Blond Ambition Tour de Homecoming é exatamente a grandiloquência da concepção do espetáculo apresentado ao vivo para o público in loco. A plateia do Coachella era de 125 mil pessoas. Estavam no palco durante o show de Beyoncé mais de duzentas pessoas. Sim, mais de duzentas pessoas. Talvez o mais alto número de artistas já reunidos durante um concerto de música pop. Com certeza, a jogada mais arriscada de toda a carreira da cantora. Por isso, o tempo extenso de preparação do espetáculo para poder coordenar músicos, dançarinos, cantores e convidados especiais (o marido Jay-Z, a irmã Solange, as ex-companheiras de Destiny’s Child, Kelly Rowland e Michelle Williams).

Junto à sua equipe de criadores, Beyoncé concebeu um espetáculo conceitual para se apresentar no Coachella, sobretudo porque tivera de desmarcar a apresentação do ano anterior em virtude de uma gravidez inesperada. Então quis fazer uma homenagem à sua origem negra e à cultura da celebração de música e dança instituída nas universidades norte-americanas através das bandas de fanfarra e suas coreografia através das balizas e dos instrumentistas. Para caber tudo em um palco, verticalizou tudo e fez, a laPaulo barros no Sambódromo do Rio de Janeiro, os próprios músicos e bailarinos transformarem-se em um cenário vivo, vibrante e contagiante. Através de uma pirâmide com vários degraus, todos interagem milimetricamente ensaiados, provocando um efeito visual que dispensa cenografia artística e principalmente o já confortável telão de ledali no fundão de tudo.

O filme vai intercalando pedaços do set list de 33 músicas (todas mostradas na íntegra) com imagens granuladas captadas no imenso galpão onde toda a equipe se reunia diariamente para ensaiar e compor o espetáculo. Enquanto os bastidores são mostrados, uma voz em off, um tanto abafada intencionalmente (talvez para combinar com a sujeira visual), mostra Beyoncé fazendo observações aleatórias sobre sentimentos, sensações e intenções diante de toda esta pirotecnia visual e musical. Ela fala sobre suas certezas, suas inseguranças, sua família (sobretudo os filhos gêmeos recém-nascidos e a filha mais velha), sua posição feminista e opiniões a respeito do valor às tradições da cultura universitária que formam o conceito da empreitada. Já no microfone em cima do palco, ela provoca a audiência falando sobre empoderamento feminino e o sentimento de pertencimento e identificação com o que está sendo mostrado ali no palco. De vez em quando, frases filosóficas ou motivacionais também são mostradas, dividindo a narrativa entre ensaios e concerto.

A única coisa sobre a qual Beyoncé não fala durante os 137 minutos de duração de Homecoming é sobre o que estaria, de fato, por trás de toda a grandiloquência do projeto, do qual também assina a direção, o roteiro e a produção executiva do filme. E também já se sabe que este é apenas o primeiro de três lançamentos que ela irá fazer pela Netflix nos próximos anos. De fato, para ser diva da música pop neste final de segunda década do Século 21 não é preciso só cantar e ficar divando nos palcos e bastidores. É necessário ser mega, giga, tera. Passar feito um rolo compressor por cima das emoções descontroladas da horda mundial de fãs e seguidores na internet. E, sobretudo, deixar a concorrência comendo poeira lá atrás.

Movies

Venom

Tom Hardy imprime tom de comédia ao seu personagem mas não salva do marasmo a estreia do “Aranha negro” nas telas

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Sony/Divulgação

Criado nos anos 1980, ainda pegando um último boomde aparição de novos personagens interessantes na Marvel, Venom era considerado uma espécie de alter-ego soturno e do mal do Homem-Aranha. Todd MacFarlane, ainda antes de partir para outra editora, a Image e criar seu principal personagem, o Spawn, foi o responsável pela característica visual monstruosa e cheia de músculos da criatura. Seu uniforme negro, que reforçava as características não humanas de Peter Parker e fazia pendê-las para longe do bem, surgiu na saga Guerras Secretas, em 1984. Já o personagem veio apenas quatro anos mais tarde, em 1988, quando o simbionte parasita e amorfo toma conta do corpo do jornalista fracassado Eddie Brock.

Trinta anos mais tarde, o “Aranha negro” chega às telas dos cinemas com Tom Hardy como o protagonista. Venom (EUA, 2018 – Sony) tem a direção do ainda desconhecido Ruben Fleischer (de Zumbilândia) e nomes como Michelle Williams e Woody Harrelson engrossando a lista de coadjuvantes. Só que, apesar de toda a expectativa, a história simplesmente não decola. O filme é até simpático em seu  início . Na sua primeira metade mostra todo o lado humano de Brock – nas telas um ser bem menos desprezível do que nos quadrinhos, quando foi mostrado como um profissional incompetente e rival invejoso de Peter Parker no mesmo jornal – e o entrelaçamento dos fatos que vão ligá-lo ao futuro antagonista, o empresário em qualquer escrúpulo e cientista renomado Carlton Drake (Riz Ahmed). Só que depois…

Por mais que Hardy se esforce em dar um pequeno tom de comédia a seu Brock tudo vai se tornando pouco crível. Como a história de Brock entrar na poderosa sede da Life Corporation, a empresa de Drake, e não ser notado por ninguém ou flagrado em qualquer câmera pelos corredores. Ou ainda o fato que o hospedeiro alienígena mata todos os seus hóspedes logo depois de sair de seus corpos e só Eddie consegue, milagrosamente, manter-se vivo até que o simbionte alcance seu objetivo. Venom – quando ocorre a aparição do personagem título e, logo depois, a de seu simbionte adversário Riot – cai de vez na arapuca de filmes de ação que, para dar credibilidade ao espectador, dependem mais dos efeitos de CGI do que de roteiro e interpretação.

Pior fica, porém, quando a cena pós-créditos irrompe no final aí que a casa cai de vez. Só resta perguntar, de modo incrédulo, após a pífia sequência apresentada: o que foi que fizeram com o aracnídeo mais popular do Universo Marvel?

Movies

O Rei do Show

Hugh Jackman se transforma no criador do conceito do circo moderno em musical que fica longe de pegar fogo

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Fox/Divulgação

Se o circo foi excelência no sinônimo de entretenimento popular durante quase todo o Século 20, isto se deve ao misto de teimosia e perseverança do norte-americano Phineas Taylor Barnum. De origem pobre e apaixonado pela garota Charity, filha do patrão de seu pai e com quem viria a se casar antes mesmo de completar cinte anos de idade, Barnum insistiu no seu sonho de provocar sorrisos de felicidade, espanto e admiração no rosto de grandes plateias, mesmo que por um efêmero período de tempo. Primeiro tentou a sorte com um museu de cera. Depois conheceu os primeiros passos da fama gerenciando um show que apresentava esquetes artísticos protagonizados por seres com as maiores bizarrices humanas já vistas. Na sequência, somou a este fio condutor números musicais, a presença de animais selvagens treinados e domesticados e mais um público grandioso disposto em semicírculo em um amplo espaço coberto por uma lona. Isso tudo, vale a pena ser ressaltado, ainda em meados dos anos 1800. E mais: atravessando crises financeiras provocadas por falências, incêndios criminosos, acusações de fraudes e ainda uma forte campanha pública contra sua iniciativa de “exposição pública” de anões, gêmeos siameses, obesos mórbidos, mulheres barbadas, fortes homens tatuados e todo gênero de outsider humano daquela época em virtude de questões físicas – que, por sua vez, passaram a formar uma grande família e começavam a se ver representados com justiça e dignidade perante uma sociedade com alto teor discriminatório

Lógico que a história de vida de PT Barnum cai como uma luva para a realização de uma obra cinematográfica que se baseie nela. É nisto que se ancora O Rei do Show (The Greatest Showman, EUA/Austrália, 2017 – Fox), estreia de peso nos cinemas brasileiros nesta última semana do ano. Protagonizado por dois atores versáteis e respeitados pela crítica – Hugh Jackman e Michelle Williams – e marcando a estreia em longas do australiano Michael Gracey, mais conhecido por trabalhos publicitários e com efeitos visuais, o filme é uma visão bastante romanceada da trajetória inicial deste polêmico entrepeneur. Vai de sua luta para provar ao então futuro sogro seu amor por Charity, passa pelos árduos primeiros anos de vida a dois e quase sem um tostão no bolso, enfrenta as chuvas e trovoadas ocorridas durante a formação de seu show de horrores e vai até a consolidação do conceito de circo que o mundo passou a conhecer durante boa parte do século passado.

Até aí, mesmo suavizando os tons biográficos deste misto de herói, vilão e anti-herói, a produção poderia ir bem. O figurino de época é apuradíssimo, além como a cenografia e a fotografia também são caprichadas. O problema está justamente… no fato do filme ser um musical. Não que as canções sejam ruins – aliás, “From Now On” gruda na cabeça e a balada “This Is Me”, cantada na história pela mulher-barbada (interpretada por Keala Settle, vinda do circuito de musicais da Broadway), está entre as possíveis indicadas ao Oscar em sua categoria. Não que Michelle Williams e Hugh Jackman não saibam cantar – aliás, a única indicação dada pela Academia ao australiano foi justamente como ator de outro musical, Os Miseráveis. Não que coadjuvantes de luxo como Rebecca Ferguson, Zac Efron e Zendaya (os dois últimos crias da Disney e ela responsável por dispensar o uso de dublês em suas cenas de trapézio) também não estejam eficientes. Só que o problema é justamente o de ser um filme musical. De uma hora para a outra os atores para suas falas e performances de cena… para continuar tudo com voz empostada, passos coreografados, mais o uso de palavras desenhadas em linhas melódicas sobre acordes harmônicos. Sem falar que os arranjos são repletos de grooves com timbres instrumentais pasteurizados e ritmos temporalmente bem distantes da época de Barnum. Ok, pode até se apelar para a eterna desculpa de “licença poética” mas o fato é que definitivamente a escolha pelo formato “não ornou”. Não convenceu. Não só não faz a produção decolar como ainda coloca um elemento desnecessário à narrativa – é justamente nos trechos sem as canções que O Rei do Show se revela melhor.

Na história contada nas telas, o sonho construído por Barnum desaparece em questão de instantes, com cinzas e escombros restando após o incêndio. Só que, para o espectador, o circo está longe de pegar fogo. O Rei do Show, ao contrário do que teima em afirmar o título do filme (especialmente no seu original em inglês), é um espetáculo bem morninho.