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O Pintassilgo

O amadurecimento de um menino que perdeu sua mãe em um atentado no museu e a sua paixão por uma pintura holandesa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

John Crowley propõe, baseado no livro homônimo por Donna Tartt, a derivar seu filme em torno de Theo, um rapaz cuja mãe faleceu num atentado terrorista a um museu e que, como forma de lidar com o luto, rouba a lendária pintura O Pintassilgo, do holandês Carel Fabritius. Acompanhando seu crescimento a partir do evento traumático, o roteiro almeja estabelecer a transição entre as personagens de Oakes Fegley e Ansel Elgort, respectivamente Theo criança e adulto.

Com uma narrativa alinear, o filme oscila seu foco entre a adaptação de seu protagonista quando criança a uma série de eventos, iniciando pelo acolhimento por uma abastada família e o impacto que esta parte de sua vida, que se desenrola com o passar do tempo, teve quando ele entra em sua maturidade. Neste sentido, tanto o roteiro de Peter Straughan quanto a direção de Crowley desenvolvem um paralelo interessante, iniciando o filme num bem-vindo suspense. No entanto, o enfoque de sua história muda drasticamente com a chegada do segundo ato, por assim dizer.

Assim, acompanhamos Theo, já adaptado à primeira grande dificuldade, vivendo sua vida, de forma que o filme abandona sua premissa inicial e, despindo-se de todo mistério, passa a abordar a relação do personagem, interpretado aqui por Fegley, com seus amigos e parentes. O infeliz resultado é uma narrativa empacada, um filme que parece esquecer-se da história que quer contar. As constantes cenas cotidianas de Theo esfriam gradualmente o ritmo de O Pintassilgo – problema que poderia facilmente ser resolvido com a supressão de algumas cenas que adicionam pouco (ou nada) à trama.

No fim, isso não é de todo mal, sobretudo para fãs da fotografia de Roger Deakins, que transforma cada plano do longa-metragem em uma obra de arte à parte. Peca-se um pouco, no entanto, na construção da identidade estética desta fotografia, afinal Crowley decide “reaproveitar” composições que imortalizaram o trabalho de seu diretor de fotografia – uma interessante e válida homenagem, porém, ao mesmo tempo, uma indicação de preguiça da produção, ou até de dedo podre da produtora.

É importante ressaltar a qualidade da atuação de grande parte do elenco, principalmente da dupla de protagonistas. Oakes Fegley tem uma sensibilidade muito bonita ao conduzir Theo por seu coming of age traumático, enquanto Ansel Elgort consegue, sem que o roteiro o obrigue a explicitar tudo, transmitir perfeitamente a ansiedade causada por seu passado. Nicole Kidman, Jeffrey Wright e Luke Wilson também interpretam extremamente bem as figuras paternais que seus personagens representam a Theo, para bem ou para mal. O elo fraco, no entanto, é a atuação de Finn Wolfhard como o melhor amigo de Fegley. Seu adolescente russo é caricato e (mais de uma vez) o ator esquece de seu sotaque e pronuncia uma ou outra palavra com sua fonética canadense. Sua contraparte adulta, Aneurin Barnard, também entrega uma atuação caricata – o que pode indicar que o problema jaz no roteiro ou na direção que Crowley decidiu levar os personagens.

Ainda que tenha pontos bons, principalmente técnicos, O Pintassilgo vence sua plateia por nocaute, cansando-a com seu desenvolvimento, despido do conflito que, a princípio, regeria a trama que constrói. Tecido por boas atuações e uma fotografia completamente dentro do que se espera de um diretor consagrado, o filme é um tropeço de John Crowley muito menor do que, levando em conta seu problema de ritmo, poderia ter sido.

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Vice

Atuação de Christian Bale é o ponto alto desta cinebiografia do vice-presidente de George W. Bush com muito humor e crítica política

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Um dos filmes mais comentados nesta temporada de premiações, acumulando indicações e desenvolvendo um hype de Oscar, é Vice (EUA, 2018 – Imagem Filmes). O filme de Adam McKay (que em 2015 já mexera em outra grande ferida recente de seu país em A Grande Aposta) conta a trajetória de Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos durante o governo de Bush Filho (2001- 2009), desde sua origem em Wyoming até os dias atuais. E será que toda a repercussão da obra vale o ingresso?

A trama retrata as nuances do poder adquirido por Cheney, brilhantemente interpretado por Christian Bale, que repete a parceria com McKay. Aqui, Bale também passa por transformações físicas para seu protagonista, sendo que o ponto alto de sua atuação é o detalhe. Cada trejeito do político americano é cuidadosamente arquitetado por seu ator. O elenco de apoio também não deixa a desejar mas poderia ser melhor aproveitado. Como Amy Adams, que interpreta sua esposa, Lynne Cheney, demonstrando seu inegável talento com seus momentos de brilhantismo; e Steve Carell, que orbita entre o drama sádico e a inconveniência humorística como o secretário de defesa Donald Rumsfeld.

McKay constrói o filme de maneira equivalente a seu laureado antecessor, repetindo seu estilo de narração com traços de documentário investigativo com o acréscimo da maturidade no tom. A seriedade da trama privilegia o humor fortemente visual da obra, que se aproveita da estética cinematográfica para preencher suas duas horas com momentos genuinamente engraçados. Grande mérito de Viceé  a utilização de metalinguagem, que presenteia o espectador com as melhores piadas do filme.

Numa outra camada de metalinguagem, o filme alterna suas razões de aspecto e cria uma formidável confusão, na qual não entendemos se as imagens mostradas são mesmo reais ou gravadas para esta produção. Essa estranha sensação amplifica as consequências das decisões de Cheney e sua equipe, o que torna o filme particularmente denso, sem abandonar a leveza com que McKay trata suas cenas.

A fotografia é simples, ressaltando a narrativa visual do roteiro e criando a tênue margem entre realidade e ficção que dança ao longo do filme. Os planos abertos e posicionamentos simples da obra são bem montados, numa alternância de ritmo entre os momentos mais tensos e calmos, sem que deixemos de enxergar o poder nas mãos de Cheney. Ainda assim, quando a trama embarca em seus episódios sérios, não poupa esforços. Cenas fortes preenchem a tela, além de críticas (sutis e óbvias) à política da direita estadunidense. Trump e seus eleitores têm uma especial participação porque Vice mescla humor à crueza da vida política de uma das nações mais poderosas do mundo.

McKay consegue demonstrar seu lado “humano” presente em relações pessoais. Com uma iconografia que traça paralelos entre o personagem de Bale e o icônico Winston Churchill, a obra quase faz o espectador sentir empatia pelo vice-presidente de George W. Bush. Ainda assim, o roteiro e a camada de realidade que permeia o filme o vilanizam sem a necessidade de iluminação nefasta e revelação de planos malignos do político. Escancarando seus erros e as consequências deles, Vice nunca te deixa esquecer que seu protagonista é Dick Cheney.

[Nota do editor: Na noite de 7 de janeiro, ao receber o Globo de Ouro da categoria de melhor ator em comédia ou musical, Christian Bale agradeceu a satanás pela inspiração ao papel de uma pessoa sem qualquer carisma.]