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Playmobil – O Filme

Clássicos bonequinhos infantis dos anos 1970 e 1980 não empolgam em seu primeiro longa-metragem

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Quem foi criança nas décadas de 1970 e 1980 certamente traz na memória brincadeiras com Playmobil, aquele bonequinho com mãos em forma de U, cabelo-cuia que virou sinônimo de gíria e um sorrisinho no rosto. O brinquedo, objeto de desejo da garotada, era inicialmente importado e caro pra chuchu, assim como ter uma Barbie (lembro até hoje do meu único exemplar azulzinho). Inventados por alemães há 44 anos, esses Playmobil aterrissaram no Brasil antes mesmo do inigualável Lego, que começou a ser produzido em terras tupiniquins em 1986, numa fábrica instalada na Zona Franca de Manaus.

Nos cinemas, porém, Playmobil – O Filme (Playmobil: The Movie, França/EUA, 2019 – Paris Filmes), que estreia agora no Brasil, chega com um delay de cinco anos em relação a Uma Aventura Lego. O longa que dá vida ao brinquedo escandinavo tornou-se sucesso de público e crítica, rendendo uma franquia. Já Playmobil – O Filme vem amargando prejuízo desde que entrou nos cinemas mundo afora.

A expectativa era de que esta produção – parte live action, parte animação – proporcionasse momentos nostálgicos, remetendo àquela infância na qual a criatividade ainda era a força-motriz das brincadeiras de criança, numa era pré-Atari e demais jogos de console. Lino DiSalvo, que aqui estreia na direção e roteiro, até que conseguiu transparecer na mensagem a importância do lúdico, inclusive com o fim de superar obstáculos e recuperar autoestima nessa aventura da vida. A animação traz um colorido exuberante e é repleta de personagens secundários cativantes. Contudo, parece que DiSalvo e os corroteiristas Greg Erb, Blaise Hemingway e Jason Oremland abusaram da imaginação, deixando a trama com eventos em excesso (talvez por conta da história ter sido composta a quatro mãos), diálogos exaustivos, e uma introdução apressada e pra lá de clichê. A aventura, de cem minutos, equipara-se àquela viagem cansativa, em que as crianças sempre perguntam: “Já chegou, Mamãe? Já chegou, Papai?”.

E viagem boa era aquela com o som do carro ou o walkman recheado de canções originais. No caso da trilha sonora de Playmobil, assinada pelo guitarrista brasileiro Heitor Pereira, é preciso ter paciência para acompanhar as canções. O compositor, que tocou com Ivan Lins e Simply Red, foi o mentor de soundtracks de animações como Angry BirdsMeu Malvado FavoritoMinions e George, O Curioso.  Talvez a culpa seja das versões em português e da voz dos dubladores (principalmente a da protagonista!), que tornaram a experiência maçante.

Também é de surpreender que o resultado não tenha sido satisfatório, já que DiSalvo tem um currículo extenso como colaborador da Disney Animation, contabilizando participações em projetos excepcionais, atuando como chefe da equipe de animadores, supervisor de animação e animador em produções como Frozen: Uma Aventura CongelanteEnroladosBolt: SupercãoO Galinho Chicken Little (que tem na trilha sonora nomes como Elton John, Queen e Diana Ross). Na semana passada, ele veio ao Brasil para a pré-estreia do seu primeiro “filho”, escolhido para abrir a edição de 2019 da Comic Con Experience, e contou em entrevista à imprensa que a diferença entre Lego e Playmobil está no conceito. Para ele, o primeiro brinquedo é sobre montar e deixar na estante enquanto o outro é sobre “contar histórias”.

Playmobil narra, enfim, a história de Marla (Anya Taylor-Joy, em atuação exagerada) e seu irmão mais novo Charlie (Gabriel Bateman). Os dois usam a imaginação ao arquitetar suas aventuras com os bonequinhos. Mas a diversão deles é interrompida por um evento trágico e os dois precisam se adaptar a uma nova rotina. Até que um dia Charlie resolve fugir de casa e vai parar numa exposição de Playmobil. No local, um evento mágico transporta os irmãos para o universo em miniatura dos bonequinhos, onde diferentes cenários coexistem – como o velho oeste, a cidade futurista, a megalópole e o vale dos dinossauros, aos moldes do imaginário infantil, que subverte qualquer lógica e torna tudo possível. Charlie transforma-se em um boneco viking, é sequestrado por piratas e se separa de Marla. O objetivo dela vira reencontrar o irmão perdido. Para isso, contará com amigos corajosos como o divertido caminhoneiro Del, o agente secreto Rex Dasher (um misto de James Bond com o agente Ethan Hunt, de Missão: Impossível, dublado no original pelo eterno Harry Potter Daniel Radcliffe). Entre uma missão e outra na tentativa de resgatar o irmão vendido a um imperador romano, Marla também interpreta canções, que reproduzidas nos alto-falantes ensurdecedores das salas de cinema resumem-se numa experiência desconfortável (pelo menos para os adultos!).

Por isso, o insucesso de Playmobil deixa evidente que uma boa animação merece um bom roteiro. E os fãs dos bonequinhos, certamente, não se importariam em esperar por mais alguns meses ou até anos por uma história mais empolgante e menos decepcionante.

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MIB: Homens de Preto – Internacional

Retomada da franquia aposta em empoderamento feminino mas não passa de um amontoado de piadas sem graça e de cunho sexista

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Você já deve ter visto este filme: agentes de preto tentando proteger o planeta de ameaças alienígenas. O primeiro longa da franquia Men In Black, com a dupla carismática Will Smith (Agente J) e Tommy Lee Jones (Agente K) nos papéis de salvadores da pátria (ou melhor, do planeta) estreou em 1997 e foi um sucesso de bilheteria. Depois vieram mais duas sequências que fecharam então a trilogia baseada nos quadrinhos de Lowell Cunningham, lançados em 1990, sobre agentes do serviço secreto que usam o neutralizador para apagar a presença alienígena da memória dos humanos

E como no mundo cinematográfico parece que a criatividade anda em falta, eis que surge MIB: Homens de Preto – Internacional (Men In Black: Internacional, EUA/Reino Unido, 2019 – Sony Pictures), com estreia hoje em todo o Brasil. A culpa talvez seja de Steven Spielberg, que mantém sua fissura por ETs e aqui é responsável pela produção executiva. Já a direção dessa vez fica por conta do americano F. Gary Gray (que recentemente fez Velozes e Furiosos 8 e Straight Outta Compton – A História do N.W.A.).

A fórmula só tem uma diferença: no papel de um dos agentes tem uma mulher, a Agent M (Tessa Thompson). Em tempos de empoderamento feminino, esse talvez tenha sido o argumento principal para a continuação da franquia. Oops, perdão: “Men and Women in Black”, como frisa Agent H, interpretado por Chris Hemsworth, num personagem paspalhão e abobado. É bom frisar que o casal de agentes repete a parceria de Thor: Ragnarok.

O longa é marcado por clichês intermináveis, mas algumas boas referências a ícones do cinema, como Matrix, o diretor Quentin Tarantino (existem os ETs “tarantianos”!) e, obviamente, 007. Aliás, o filme parece uma homenagem à franquia 007. Há alusões a James Bond do início ao fim. Começa no carro usado pelos agentes de preto, que esconde toda a sorte de armas para aniquilar alienígenas em vez de russos. Outra referência óbvia é que a personagem de M é transferida da agência de Nova York para Londres, onde os agentes atuam numa espécie de MI-6.

A chefe dos agentes de preto também é uma mulher: Agent O, vivida por Emma Thompson. De cabelos brancos e curtos, ela lembra quem? M. Ou Judi Dench, que assumiu o posto de chefona do agente britânico em sete filmes (entre Goldeneye, de 1995, e Skyfall, de 2012) até a personagem morrer. Emma faz a dobradinha com Liam Neeson, que é o superior direto dos agentes M e H. E as indiretas a James Bond não param por aí. Como a cena em que o casal chega de lancha até uma ilha italiana para se encontrar com uma das vilãs, uma espécie de Cleópatra com três braços.

Ah… Matrix é lembrado aqui com a alusão às pílulas vermelha e azul. Neste MIB elas são as cores do botão de uma motocicleta voadora.

A história é totalmente previsível e os extraterrestres já não chocam nem divertem mais. A trama começa recapitulando uma batalha que será lembrada mais para o final. No meio de tudo isso, existe, claro, a certeza de que há um agente traidor (não é difícil de descobrir quem é a pessoa). Esse seria o grande argumento do filme. O roteiro é fraco, cheio de piadinhas ao estilo britânico e totalmente sem graça. Algumas falas são primárias. “O que ela está fazendo?”, pergunta H para M, sobre uma peça misteriosa entregue a ela por um extraterrestre assassinado por supostos aliens inimigos. “Está se movendo”, responde M.

Há ainda sequências que pretendem mostrar que as mulheres estão no comando. Contudo, em uma forma sexista. Como na cena em que uma ET que parece um anfíbio está prestes a matar H e ele diz “eu faço o que você quiser”. Adivinhe o que a ET pediu?

Uma pena que existam tantos astros no filme e nenhum deles seja capaz de segurar a trama. Este MIB Internacional não vale o preço do ingresso. Nem em dólar, libra, euro ou real. É um filme autoneuralizador.

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Millenium: A Garota na Teia de Aranha

Claire Fox assume o papel da mítica Lisbeth Salander em adaptação de nova história da franquia literária sueca

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Hollywood é uma indústria cinematográfica que, como não poderia deixar de ser, visa a lucros ao invés de arte. O mais importante aqui é se produzam, constantemente, filmes com grande apelo de público para que se obtenha o máximo retorno financeiro possível. Por isso, também, a regra é procurar não gastar muito. Se inovação, ousadia e boas ideias em roteiros não seduzem muito os grandes estúdios, salários altos também são item a ser evitado. Por isso, melhor contratar jovens nomes em ascensão no mercado mundial para que o lucro seja ainda maior.

Isto pode resumir a decisão de bancar mais um livro da série Millenium transformado em filme. Depois da trilogia sueca e de uma não tão bem sucedida adaptação norte-americana (2011), a clássica personagem Lisbeth Salander está de volta às telas em uma nova aventura. Millenium: A Garota na Teia de Aranha (The Girl In The Spider’s Web: A New Dragon Tattoo Story, Reino Unido/Alemanha/Suécia/Canadá/EUA, 2018 – Sony Pictures) é baseado no mais recente livro da série, escrito após a morte de seu autor original, Steig Larsson, em 2004.

Contratado para escrever mais dois volumes do universo de Salander, o jornalista e biógrafo – também sueco – David Lagercrantz fez do primeiro, publicado em 2015, um mergulho profundo de Lisbeth em relação ao seu passado ainda misterioso. Por isso, Hollywood viu uma ótima alternativa para zerar a franquia e iniciar uma nova tentativa de emplacar a carreira cinematográfica da agora transformada em uma versão feminina (e feminista) de James Bond.

A hacker Salander agora é conhecida popularmente como uma justiceira underground. Caça os homens que agridem e oprimem as mulheres de todas as formas para devolver a eles todo o mal feito às suas vítimas. O que não a impede de continuar ganhando dinheiro fazendo seus trabalhinhos informais invadindo computadores alheios e aprontando coisas ilegais por trás de uma tela. Para viver a protagonista foi convocada uma nova atriz, a britânica Claire Foy, alçada ao estrelado pela série televisiva The Crown.  O corpo franzino e o olhar tão frio quanto o sangue da personagem fazem Claire se distanciar das duas intérpretes anteriores (Noomi Rapace e Rooney Mara). Sua Lisbeth é mais quieta e muito mais enigmática. Na expressão facial, na sexualidade, nas atitudes. No passado de sua família, principalmente.

O diretor uruguaio Fede Alvarez – também um dos roteiristas – tenta dar saídas interessantes à mera proposta oficial de um filme de estética sombria com cenas de ação. Traça metáforas nervosas com a câmera para dar um pouco mais de sensorialidade ao espectador. Aposta ainda em algumas perspectivas que fogem da cartilha tradicional dos filmes de ação.

Embora as presenças de Foy e Alvarez enriqueçam este novo Millennium (o nome brasileiro da franquia vem da revista editada pelo jornalista Mikael Blomkvist, cujas reportagens sobre Lisbeth servem de alicerce a uma subtrama de tensão sexual, o longa esbarra em uma história fraca e previsível. Nela, tudo se encaminha para algo que já pode ser antevisto com olhares mais perspicazes durante a sequência inicial. E também por humanizar demais uma protagonista em detrimento do fraco desenvolvimento dos personagens secundários. Inclusive do próprio Blomqvist, bem relegado desta vez. Basta notar que o papel, outrora do atual James Bond Daniel Craig, agora voltou a ser de um ator sueco, ainda bem desconhecido em Hollywood.

Como o principal objetivo era mesmo reiniciar a franquia cinematográfica com novos nomes, o resultado final do filme é o que menos importa. Com isso, Milleniumabre todas as portas em seu caminho para se consolidar ao posto de mais nova série de longa-metragens centrados em fortes personagens de grande respaldo literário. Em breve, a segunda trama bolada por Lagercrantz deverá estar nas telas. E com Claire Foy – agora com a carreira consolidada também nos cinemas – à frente do elenco.

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Oito Mulheres e um Segredo

Sandra Bullock, Cate Blanchett e Anne Hathaway lideram um grupo de golpistas para o qual homem não é a prioridade

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Texto por Flavio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Warner/Divulgação

Uma das maiores satisfações que se pode ter ao assistir a um filme é perceber que seu elenco está tão à vontade, que parece estar em casa. São poucos os atores que têm esse poder e essa competência. E poucos os filmes que nos passam esta sensação.

Felizmente, um dos filmes e uma das reuniões mais esperadas do ano é um deles. 8 Mulheres e um Segredo (Ocean’s 8,  EUA, 2018 – Warner) é simplesmente delicioso de se assistir.

Sandra Bullock, Cate Blanchett e Anne Hathaway parecem amigas de infância que se reuniram para um chá. Absolutamente confortáveis e à vontade, demonstram uma naturalidade poucas vezes vista, mesmo em suas carreiras. É indescritível a sensação de vê-las contracenar. E, embora os outros nomes do elenco mostrem mulheres mais “rígidas” em suas interpretações, elas não impedem as quase duas horas de passarem num piscar de olhos.

Joias, roupas, sapatos, batons e cabelos esvoaçantes empoderam um grupo de mulheres que pretende dar o golpe perfeito: roubar um colar clássico da Cartier durante o Met Gala. Sim, é bom você ser familiarizado com estes nomes e alguns rostos da moda e do cinema, como Anna Wintour, Heidi Klum ou Katie Holmes, porque elas aparecerão em pequenas pontas e poder reconhecê-las é parte da graça.

O roteiro esperto de Gary Ross não deixa nada a desejar aos “filmes de golpe” estrelados por homens e faz um bem maior à humanidade ao colocá-los, os homens, sempre em papel secundário, sendo usados pelas mulheres como elas foram durante décadas no cinema usadas por eles.

Claro que no meio de tudo haverá o assunto “relacionamento”, afinal até mesmo mulheres poderosas buscam o amor. Mas o filme deixa claro: o homem não é a prioridade. E isso só conta pontos positivos para a história.

Ao lado de Helena Bonham-Carter, Sarah Paulson, Mindy Kaling, Awkwafina e Rihanna (que faz a personagem menos interessante de todas), Bullock, Blanchett e Hathaway brilham tanto quanto as joias que pretendem roubar. E, por mais que a gente saiba que se trata de um grupo de ladras, é impossível não torcer por seu sucesso.

Também dirigido por Ross (que estreou no cinema com o incrível Pleasantville – A Vida em Preto e Branco), 8 Mulheres e um Segredo traz uma espécie de ritmo de matinê com muito humor e beleza, embalado em um filme de “vingança feminina”. Tudo em uma história que mostra que, não, elas não precisam de filmes que as deem personagens masculinos (como Indiana Jones ou James Bond), mas, sim, têm toda capacidade de carregar roteiros criados para elas e serem heroínas até mesmo quando são bandidas. Afinal, é impossível torcer contra Sandra Bullock, Cate Blanchett ou Anne Hathaway, né?