Movies

Judy: Muito Além do Arco-Íris

Renée Zellweger entrega uma fantástica performance em cinebiografia que retrata o conturbado último ano de vida da estrela de O Mágico de Oz

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Judy Garland continua brilhando no inconsciente coletivo mesmo após meio século de seu falecimento. É o que revela Judy: Muito Além do Arco-Íris (Judy, Reino Unido, 2019 – Paris Filmes), longa-metragem que aborda o último ano da vida da estrela enquanto ela fazia estadia em uma casa de shows em Londres tumultuada pela bebida e pelo vício em remédios. Além de um pedaço da história dela, o filme mostra uma estrela se apagando aos poucos.

A cinebiografia apresenta diversas faces de Judy. Tem a mãe, a artista, a ex-esposa, a garota-prodígio, a estrela decadente, a amante frágil, a mártir e, a mais marcante, a mulher que acredita que sua própria identidade era mais um de seus inúmeros personagens. Em um momento do filme, a atriz aparece dando uma entrevista na Inglaterra em que afirma que era Judy Garland por apenas uma noite, depois era uma pessoa comum com uma família e que queria ser feliz. A declaração permeia o filme como um norte. Judy Garland não queria ser estrela o tempo todo, só que precisava disso. E não apenas por dinheiro, mas porque a fama era quase como um comprimido.

Renée Zellweger encarna a protagonista em uma interpretação por vezes doce e simpática e outras conturbada e explosiva. A atriz emagreceu e dedicou-se a aprender maneirismos específicos de Garland. Por isso, entrega a melhor atuação de sua carreira e torna-se o ponto alto e absoluto do filme.

Judy não inova e segue um formato bastante quadrado. O roteiro não ajuda. Um texto mais ambicioso poderia ter tirado o filme da zona de conforto da biografias. As inserções do passado da atriz são um pouco confusas e por vezes quebram o ritmo do filme, mas a história sai da mesmice em sua linda cena final.

Uma grata surpresa é a delicada menção da importância do público LGBT na carreira de Judy Garland. Considerada o “Elvis” dos gays, a atriz se tornou um símbolo da comunidade, principalmente por conta de seu papel em O Mágico de Oz, no qual pregava o amor e aceitação às diferenças. Em épocas mais repressoras, era comum que os gays nos Estados Unidos se identificassem entre si usando os códigos “amigo da Judy” ou “amigo da Dorothy”.

Judy: Muito Além do Arco-Íris encontrou uma forma tocante e digna de contar a triste história de uma das maiores estrelas de Hollywood. O maior legado do filme, juntamente dos prêmios merecidamente vencidos de Renée Zellweger, é mostrar a luta de uma estrela infantil em sua vida adulta e como as consequências do estrelato precoce podem afetar profundamente uma pessoa. Judy Garland teve toda sua vida controlada por homens, executivos, estúdios, empresários, remédios, bebida. Muito famosa desde muito jovem, nunca conseguiu conquistar independência completa, fosse ela profissional ou emocional.

Music

Daryl Hall & John Oates – ao vivo

Dupla americana tira o atraso de décadas e traz ao Brasil a nostalgia do tempo que a música pop importava para as rádios

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Texto e foto por Fábio Soares

Quem foi criança/adolescente no início dos 1980 e não se influenciou pela programação das rádios FM é um belo de um mentiroso! No dial, um quase infinito leque de opções radiofônicas transformava locutores em celebridades sem rosto. Em São Paulo, nomes como Tony Lamers, Bob Floriano, Beto Rivera e o legendário Sérgio Bocca possuíam públicos fiéis, arregimentando fãs sedentos por música pop, dance, de elevador, romântica e caramba a quatro. Nessa efêmera locomotiva do tempo que urgentemente dependia de melodias “chiclete” para não parar de rodar, as figuras de Daryl Hall e John Oates foram fundamentais. Maquinistas de um trem que não parou de circular um minuto sequer, estes senhores (já septuagenários) abasteceram como ninguém as hit parades mundo afora.

Mas, curiosamente, a dupla Hall & Oates jamais havia pisado em terras brasileiras em mais de 40 anos de estrada. Segundo Hall, por conta do antigo empresário da dupla, que jamais enxergou na América Latina uma seara a ser explorada. Um frenesi tomou conta das imediações do Espaço das Américas na terça-feira 11 de junho. O público majoritariamente sub-50 (eu incluso) praticamente esgotou os ingressos para a única apresentação da dupla em solo brasileiro. Pontualmente às 21h30, um show de projeções no fundo do palco fez um breve apanhado dos hits através da exibição de discos de vinil com o título de cada um de seus inúmeros sucessos em seus respectivos selos. E foi com o, talvez, maior deles que os trabalhos foram iniciados: mesmo equivocadamente posicionada como abertura, “Maneater” deu o start a um baile da saudade que duraria 90 minutos.

Somente fábricas de hits como a dupla H&O pode dar-se ao luxo de emendar uma trinca com “Out of Touch”, “Method Of Modern Love” e “Say It Isn’t So”. Esta última porém, extremamente prejudicada com a má qualidade de som do espaço, que tornou inaudível a sobreposição de vocais de John Oates em seu refrão. Aliás, a debilidade sonora do Espaço das Américas é tema pra simpósio. Mal equalizada em alguns momentos e inexistente em outros, é inadmissível que uma casa deste porte carregue tamanho histórico com estes problemas. À parte disso a apresentação discorria. A dupla conta com um extraordinário sexteto capitaneado pelo eterno e fiel escudeiro Charles DeChant. O multi-instrumentista, amigo de longa data e parceiro da dupla desde os primórdios, era um showman à parte. No saxofone, teclados ou backing vocals, DeChant é o carregador de piano que toda big band sonha em ter.

O romantismo de “One On One” fez o mais gelado coração balançar. Destaque para a linda projeção no palco em tons verde-água. Já em “Sara Smile”, levou o timoneiro Hall ao piano. Às vésperas de completar 73 anos de idade, sua voz continua impecável embalando as memórias afetivas da audiência. Semblantes emotivos eram vistos aos montes embalados pelos versos “If you feel like leaving/ You know you can go/ But why don’t you stay until tomorrow?”. A emocionante “Rich Girl” (ainda com Hall ao piano) teve a responsabilidade encerrar a primeira parte da apresentação e foi emocionante ouvir a plateia cantar seu refrão em uníssono

Para o bis, três mastodontes do repertório da dupla. Condensadas em uma única faixa, “Kiss On My List” e “Private Eyes” transformaram o Espaço das Américas numa gigantesca pista de dança. Sabendo que, provavelmente, a dupla nunca mais volte ao Brasil, a plateia se jogou (eu incluso de novo) numa emocionante celebração à música pura e simples. “You Make My Dreams” fechou a noite setentista/oitentista com dignidade ímpar.

Ao final, um sentimento de gratidão me invadiu. Deu saudade de uma época em que o rádio era o veículo responsável por nossas fantasias mais bonitas. Deu saudade em que a música era colocada em primeiro plano. Uma santidade irretocável e acima de todas as coisas.

Set List: “Maneater”, “Family Man”, “Out Of Touch”, “Method Of Modern Love”, “Say It Isn’t So”, “One On One”, “You’ve Lost That Lovin’ Feelin’”, “She’s Gone”, “Sara Smile”, “Is It a Star” e “I Can’t Go For That (No Can Do)”. Bis: “Rich Girl”, “Kiss On My List/Private Eyes” e “You Make My Dreams”.

Series, TV

Game of Thrones

Por que o fim da série que se tornou objeto de culto pelo mundo todo decepcionou bastante os seus ardorosos fãs?

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Texto por Andrizy Bento

Foto: HBO/Divulgação

Após oito temporadas, 73 episódios e 47 Emmys (que a tornaram a série recordista de estatuetas na premiação), Game of Thrones teve seu último episódio exibido em 19 de maio pela HBO. No entanto, o que prometia ser épico, conseguiu ser apenas frustrante. Em meio à fúria despejada pelos fãs nas redes sociais – ainda mais cáustica que o fogo expelido pelos dragões de Daenerys Targaryen em seus inimigos – até havia um ou outro espectador argumentando que a finale teve, sim, suas qualidades e que o saldo final não foi tão ruim – de um ponto de vista analítico, houve até quem defendesse e justificasse as decisões tomadas pelo roteiro. Contudo, não há quem considere o último episódio da série realmente satisfatório.

Satisfatório é diferente de “atender às expectativas dos fãs e entregar exatamente o que eles querem ver na tela”. Em suma, está longe de significar fanservice. Assim como decepcionante não quer, necessariamente, dizer ruim. No caso de GoT, no entanto, a finale conseguiu ser os dois. Ao invés de proporcionar aos espectadores as devidas resoluções de conflitos e encerramentos de arcos narrativos, o desfecho deixou ainda mais pontas soltas e perguntas sem respostas – resultado sistêmico de toda uma temporada deficiente. Aliás, convém salientar que, desde a quinta, a qualidade da produção vinha caindo drasticamente.

Baseada na saga de livros best-seller As Crônicas de Gelo e Fogo, de autoria do escritor norte-americano George R. R. Martin, a série estreou em 17 de abril de 2011 na HBO. Ambiciosa, a produção idealizada por David Benioff e D. B. Weiss investia em cenas gráficas de nudez, sexo e violência e, por apresentar uma narrativa envolvendo a disputa por um trono e permeada por alguma magia, foi até mesmo apelidada de “O Senhor dos Anéis para adultos”. Claro que esses se tratavam apenas de alguns dos aspectos que tornavam o produto mais atraente. Porém, o estrondoso sucesso da qual a série desfrutou nos anos em que se manteve no ar, vai muito além das comparações com o livro de J. R. R. Tolkien ou do teor sexual e violento de suas cenas.

Sua consagração por especialistas e a assombrosa audiência que conquistou se devem a vários outros fatores: a força da narrativa, a entrega do elenco, o carisma de uma galeria numerosa de personagens, o acuro na composição dos planos, os enquadramentos soberbos, o requinte de cenários e figurinos, as batalhas magistralmente executadas e que em nada ficavam devendo a blockbusters cinematográficos, toda uma atraente rede de intrigas e um jogo de poder que nos instigava a acompanhar semanalmente os episódios. Não surpreende que a HBO, em estratégia para evitar a pirataria, tenha optado pela transmissão simultânea em mais de 170 países – o interesse do público era tamanho que GoT se tornou a série com o maior número de downloads ilegais no mundo. Afinal, quem não via Game of Thrones e não debatia acerca das teorias que constituíam um dos grandes atrativos da produção era imediatamente excluído das rodas de conversa nas segundas-feiras.

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A história é situada no continente fictício de Westeros, lar dos Sete Reinos e das terras inexploradas além da grande Muralha. Em linhas gerais, a série se propõe a narrar a luta de famílias nobres pelo Trono de Ferro ou por sua independência, recorrendo a violentos confrontos e alianças forjadas a partir de interesses políticos, em sua maioria, sórdidos. Esse é o fio condutor da trama.

A primeira temporada da produção tem início com a visita de Robert Baratheon – Rei e Senhor dos Sete Reinos – ao castelo de Winterfell, onde reside Ned Stark, o Protetor do Norte, junto de sua família. O objetivo da visita é fazer um convite formal a Ned para que ele seja a Mão do Rei – uma espécie de primeiro conselheiro. Este, no entanto, acaba tomando conhecimento acerca de uma conspiração que levou ao assassinato da Mão do Rei anterior e as suspeitas recaem sobre os Lannister, incluindo a Rainha Cersei e seu irmão Jaime, com quem ela vive um caso secreto e incestuoso.

Distante dali, no Mar Estreito, Viserys Targaryen, conhecido como o Príncipe Exilado, planeja o casamento de sua irmã, Daenerys, a Princesa de Pedra do Dragão, com Khal Drogo, líder do povo Dothraki – uma tribo de guerreiros que percorre o continente de Essos. Com o casamento, o príncipe exilado visa a conseguir um exército a fim de retomar o Trono de Ferro que é seu por direito. No passado, Baratheon conquistou a coroa assassinando Aerys II Targaryen (o Rei Louco) e Rhaegar – respectivamente, o pai e o irmão de Viserys. Após esse acontecimento, ele e a irmã foram exilados nas Cidades Livres do Continente de Essos. Desde então, o príncipe é movido pelo intenso desejo de vingar sua família e retomar o poder e a coroa a qualquer custo.

Assim, fomos arremessados aos bastidores cruéis e sangrentos da guerra dos tronos. A primeira temporada representou não apenas o ponto de partida, como o esboço a partir do qual se desenhou toda a série. Traçou cenários que, mais adiante, viriam a impactar as vidas e jornadas de dezenas de personagens. Inseriu simbologias e easter eggs que, no decorrer dos anos de exibição, vieram a fazer a diferença no todo. No entanto, da maneira superficial como foi colocado até aqui, não é possível compreender exatamente a razão que levou Game of Thrones a ser esse fenômeno de audiência. É realmente necessário assistir à série e acompanhar as reviravoltas da trama intrincada para entender os motivos de tanto estardalhaço em torno de GoT. O fato é que testemunhar a evolução dos personagens, a construção dos elos entre eles, a ganância e a sede de poder que ditavam os rumos do jogo, bem como todos os meandros que culminaram em batalhas colossais, é que tornou a jornada tão divertida de se assistir durante oito temporadas. Daí toda a ansiedade com que os espectadores aguardavam pelos domingos em que os episódios eram veiculados pela HBO.

Aprendemos a exercitar o desapego (afinal, um protagonista morre já na finale da primeira temporada!), nos acostumamos a prender o fôlego devido à aflição causada pelos épicos confrontos e ao temor de perder um personagem fan favorite. A produção nos presenteou com momentos gloriosos em termos televisivos como, por exemplo, o nono episódio da sexta temporada, o já clássico e plasticamente impecável A Batalha dos Bastardos, que dificilmente encontrará rival à altura em outro produto do gênero. Game of Thrones nos ensinou que, na guerra dos tronos, ou você ganha ou você morre – literalmente. Alimentou teorias, não teve pudores em abusar do fator surpresa, apresentou audaciosos e chocantes plot twists, jamais entregou somente o que o público queria ver, não se limitou a agradar à audiência. Seu legado é incontestável. Uma pena o fim dessa história ter deixado um gosto tão amargo na boca de seus fiéis espectadores.

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Desde que a série começou a ser exibida, no já longínquo ano de 2011, o mundo passou por transformações significativas no tocante ao cenário político, econômico e social. Esse tipo de mudança, não raramente, acaba por impactar e se refletir também na cultura pop. Normal, afinal a produção cultural e artística de qualquer época é sempre um retrato de sua geração, para o bem ou para o mal, em maior ou menor escala, intencional ou inconscientemente. No caso do recorte de tempo que compreende a exibição de Game of Thrones, por exemplo, as pautas feministas ganharam ainda mais força dentro e fora das redes sociais e ativistas vocais se dedicaram a apontar o sexismo enraizado em diversos livros, histórias em quadrinhos, roteiros de cinema e televisão. Muitas das cenas de estupro protagonizadas por personagens femininas relevantes passaram a ser questionadas e duramente criticadas – uma vez que algumas delas tratavam-se de cenas de sexo consensual nos livros e outras sequer existiam em sua mídia de origem. Ao longo das temporadas, a nudez (majoritariamente feminina) e o sexo (por vezes gratuito) diminuíram exponencialmente, bem como a violência tornou-se mais contida e menos sangrenta. Contudo, a despeito do desenvolvimento das personagens femininas, que passaram a ter mais do que seus corpos expostos e a violência sexual tida como o rito de passagem que as fortaleceu, foram elas as mais injustiçadas no último ano da série.

É simplesmente lamentável ver como as mulheres de GoT foram diluídas no decorrer de toda essa temporada final. O roteiro se concentrou na rivalidade entre elas; em expor fraquezas, fragilidades e vaidades das mesmas; em mostrar como elas não sabiam lidar com o poder. Cersei Lannister, uma vilã inteligente e uma das maiores estrategistas da trama, ganhou desfecho abrupto e totalmente insípido. Apesar de ter sido Arya Stark a derrotar o grande vilão, Rei da Noite, sua tão almejada vingança contra Cersei não foi concretizada e a personagem limitou-se a ver Porto Real se transformar em destroços e cinzas, enquanto Daenerys Targaryen sobrevoava a cidade em seu Dragão que, impiedosamente, cuspia fogo em mulheres e crianças inocentes. Sansa Stark, que havia crescido tanto como personagem, foi reduzida ao papel de uma garota caprichosa que não queria ter seu reinado, no Norte, ameaçado. E Daenerys… A figura forte, imponente, majestosa, intrépida e destemida – um exemplo de heroína que apresentou uma das evoluções mais notáveis ao longo da série – simplesmente enlouqueceu. Tornou-se a Rainha Louca, facilmente corruptível pelo poder, herdando o temperamento de seu pai e, ao invés de quebrar a roda (como proclamava) corroborou o discurso simplista de que a descrição da Casa à qual o indivíduo pertence dita todo o rumo de seu destino. Pior: terminou a série morta pelo punhal do homem a quem amava e que também tinha seu sangue – seu sobrinho, Aegon Targaryen, mais conhecido como o bastardo Jon Snow.

E a coerência desapareceu à medida que o inverno chegou.

Eis um problema flagrante de toda produção seriada. Existe uma ânsia incompreensível dos showrunners por querer encerrar todos os arcos narrativos apenas no último capítulo, ao invés de responder às perguntas gradativamente, fechar os ciclos aos poucos, de modo orgânico. Creio que o mais adequado seria dedicar uma ou duas temporadas para resolução de todos os conflitos e, assim, oferecer desfechos satisfatórios para cada personagem. Game of Thrones foi um exemplo e, infelizmente, não o único de uma trama que acumulou muitas questões a serem resolvidas somente na finale e, óbvio, não conseguiu contemplar todas elas.

Outra possível explicação para o resultado ter ficado tão aquém do esperado está no fato de a história ainda não ter sido finalizada nos livros. Porém, esses argumentos não são suficientes para justificar uma finale tão ruim, uma vez que a série possuía força o bastante para se sustentar de maneira independente, como qualquer bom produto transmídia deve fazer. Existe um sem número de erros crassos de continuidade e cenas que, simplesmente, não fizeram sentido para o espectador atento que, assim como o Norte, se lembra disso depois. E, diferentemente dos Lannister, os roteiristas não pagaram todas as suas dívidas.

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A última temporada trai toda a mitologia da saga tão cuidadosamente arquitetada até ali, joga para escanteio a construção e o desenvolvimento de personagens, traz diálogos que contradizem o cânone e a essência da trama. Sim, Game of Thrones sempre trabalhou com reviravoltas, traições, choque, morte de personagens importantes. O problema não são estes mecanismos – que, aliás, movimentaram a trama desde seu primeiro episódio e com os quais estávamos plenamente habituados, convém dizer. O problema é como eles foram utilizados, escancarando a falta de planejamento de produtores e roteiristas. Esses artifícios foram despejados na tela de maneira simplesmente desleixada.

As falhas, no entanto, não são apenas de ordem narrativa, mas também estética. Um nítido exemplo é a batalha contra os White Walkers, que prometia ser o ápice da trama desde o primeiro episódio, e é extremamente inferior ao acuro visual da Batalha dos Bastardos. Entre copos da Starbucks esquecidos nas mesas de jantar de Winterfell e um confronto nonsense contra a Frota de Ferro, liderada por Euron Greyjoy – que resultou na morte anticlimática de um dragão – tudo foi absurdamente descuidado. Porém, nada foi mais incoerente, insatisfatório e insosso do que o conselho formado para deliberar sobre o novo rei após a morte da Rainha Daenerys Targaryen. Nas palavras de Tyrion Lannister:

“O que une as pessoas? O ouro? Os exércitos? As bandeiras? As histórias. Não há nada mais poderoso no mundo que uma boa história. Ninguém pode detê-la, nenhum inimigo pode vencê-la. E quem possui histórias melhores que Bran, o Quebrado? O menino que como não podia andar aprendeu a voar…”

O menino que passou a série inteira sem fazer absolutamente nada e se tornou, primeiramente, o Corvo de Três Olhos para então virar rei…

O discurso de Tyrion é interessante e bem escrito, mas um desperdício de palavras bonitas expressas pelo personagem que, durante oito temporadas, destacou-se como o mais profícuo emissor de quotas contundentes e memoráveis.  As palavras do outrora sábio anão estão lá unicamente para disfarçar a negligência dos roteiristas. O grande conselho é uma das piadas mais mal contadas da finale, pois é formado por nada menos do que três membros da Casa Stark, um tio dos Stark, um primo dos Stark, amigos dos Stark, uma cavaleira juramentada a proteger a Casa Stark, um Dorne, uma Greyjoy, mais alguns figurantes e um prisioneiro! Não sei dizer exatamente o que dói mais, se é o fato de que está óbvio quem seria favorecido por um conselho formado por estes membros ou Tyrion, prisioneiro por ter traído Daenerys, ter indicado o nome de Bran e, praticamente decidido o novo governante de Westeros – e ainda com o bônus de ser a Mão do Rei.

E isso não é tudo: por que Tyrion, prisioneiro, pôde participar da votação e Jon, igualmente encarcerado e com sangue Targaryen, não? Onde estão os membros representantes de outras Casas? Aqueles presentes na reunião do conselho não compreendem nem metade das famílias nobres de Westeros. Aliás, toda essa sequência serviu, especialmente, para embasar um futuro cenário de instabilidade política; afinal, as outras Casas podem, e com razão, questionar o favorecimento aos Stark considerando os componentes desse conselho fajuto. Sem falar do fato de Bran ter concedido a independência ao Norte. Quanto tempo mais até os demais Reinos reivindicarem a independência utilizando o Norte como argumento e isso resultar em uma nova guerra? Ademais, a figura de Bran como rei simplesmente não convence, pois não foi bem construída. Bran, o Quebrado, nunca teve aspirações ao trono e não fez nada de realmente útil durante toda a série que justificasse sua coroação. Ele nem mesmo queria ser rei. E esse papo de que é exatamente não desejar a coroa que o torna merecedor, simplesmente não funciona dentro daquele universo proposto.

Oito anos após o primeiro suspiro de Westeros na telinha, finalmente chegamos ao final da saga – uma finale que nos ofertou apenas um trono queimado (metáfora política sobre a destruição da iconografia; dos símbolos de poder capazes de corromper e que precisam ser derrubados); Porto Real transformada em cinzas; Tyrion Lannister, um fan favorite outrora inteligente e brilhante orador, reduzido ao papel de um fraco, traidor, guiado pelas emoções, capaz de atos estúpidos e autor de algumas das frases mais problemáticas da temporada; Daenerys, uma personagem feminina forte convertida em uma tirana genocida e, posteriormente, morta pelo seu amado; Jon Snow, o bastardo que continuou bastardo e se uniu aos selvagens do Povo Livre nos derradeiros momentos do show; Bran, o Quebrado, como um rei inexpressivo e inexperiente em relação aos assuntos da coroa; e, enfim, um final feliz para os Stark como recompensa por ter sido a família que mais sofreu desde o primeiro ano de série e que, talvez, tenha sido um dos únicos pontos gratificantes para uma relativa quantidade de espectadores. Eis o saldo final de Game of Thrones. Um fim melancólico, insuficiente e decepcionante.